1.4.07

...E o tempo veio!








Mais depressa do que pensava, veio o tempo de subir ao velhinho Convento do Varatojo.

Que vi? Que vimos?


Este Inverno vai longo e a glicínia do claustro ainda não floriu.

O Panteão dos Soares, antigos alcaides de Torres Vedras, com seu túmulo manuelino e lages sepulcrais com inscrições ainda bem visíveis, está transformado numa arrecadação atravancada de trastes.

A mata, no seu abandono de braços que já não há para a limpar, é como as velhas damas que conservam toda a beleza por trás das rugas que lhes sulcam o rosto. Seculares escadas de pedra levam a lugares místicos onde as folhas e os troncos se misturam em magestosa arquitectura vegetal.

Painéis de azulejo na capelinha da Senhora do Sobreiro contam histórias improváveis. Um espaço circular confina pequenos ermitérios onde outrora os monges rezavam.

Acompanhando-nos os passos, os recitais de melros e rouxinóis.

Os nossos olhos ficaram lá... As imagens fotografadas que trouxemos, dizem tão pouco ...

É tempo de...

Sim, vai sendo tempo de visitar a velha glicínia do Convento do Varatojo.

Deixar cair a tarde num recanto do claustro, no meio do alarido das andorinhas que recolhem aos ninhos e do aroma intenso da glicínia trajada de roxo.


Deixa ficar a flor...


Esta flor olhou-me, assim, num canteiro à beira do passeio. Lembrou-me um poema de David Mourão-Ferreira:
AS ÚLTIMAS VONTADES
Deixa ficar a flor
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.
(...)
Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...
Não digas nada. Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.
Deixa ficar a flor.

31.3.07

Peregrinações...

















"Nazaré: a raiz, a face e a alma. A raiz está na Pederneira, a face na Praia, a alma é o Sítio. Os três núcleos que formam a vila da Nazaré. É um dos conjuntos de mais intensa beleza e de mais penetrante lição cultural que conheço. Nem sei, em todo o litoral português, de outro que lhe possa ser comparado."

José Hermano Saraiva, "O Tempo e a Alma", Gradiva, 1987

"Patamar dos olhos...reconciliação com o mundo..."



Um espaço, LUGAR ONDE ler... ouvir música...sonhar... esperar...
Há lugares quase perfeitos. Não é preciso muito.

Pegar num livro de Fernando Assis Pacheco: "CUIDAR DOS VIVOS" - (título fabuloso!)

Ler:

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, que me façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis da tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs,
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?

30.3.07

OS PASSARINHOS A CANTAR NAS ÁRVORES...A PRIMAVERA ...O POVO TÃO FELIZ...

Destaque no Diário de Notícias de hoje:
«Miguel Horta e Costa, Carlos Vasconcellos Cruz, Iriarte Esteves e Paulo Fernandes, ex-administradores executivos da Portugal Telecom, receberam 9,7 milhões de euros pela não renovação do mandato no ano passado. A informação, avançada no relatório e contas da PT, não discrimina o valor que coube a cada gestor, mas presume-se que o presidente executivo, Horta e Costa, tenha recebido mais. Dividindo o montante total pelos quatro gestores o resultado dá 2,4 milhões de euros a cada. O valor total das indemnizações pagas pela PT ascendeu a 10,672 milhões de euros, para além do ordenado correspondente aos meses em que desempenharam cargos em 2006. Este total inclui 967 mil euros atribuídos ao presidente não executivo, Ernâni Lopes. O seu mandato não foi renovado e, na actual administração, nomeada para o triénio 2006 a 2008, Henrique Granadeiro acumula a presidência executiva e não executiva.»
No final diz ainda o relatório que, por lei, a PT não era obrigada a divulgar estes números. Fá-lo apenas por uma questão de tranparência...
Só nos resta agradecer, muito penhorados pelo favor.
Que nome se dá a isto?.......
Sim, os passarinhos gorgeiam em seus ninhos, a Primavera chegou, o povo é feliz com as reformas que o nosso Primeiro houve por bem fazer.
Portugal, és lindo!
Portugal, estás lindo!!!
Socialismo à portuguesa...

28.3.07

ALVORADA





«Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder...pra me encontrar...»
( Florbela Espanca )






PASSEIOS...


O regresso às origens. De vez em quando ir até lá, pass(e)ar pelas ruas, alongar os olhos pelas margens do Tejo...

Amanhã, sempre...Alpiarça. Dita "a vermelha". Porque ali os homens não se curvavam perante os senhores das terras, lutaram sempre. Mesmo quando grande parte do resto do país vivia narcotizada pela segurançazinha salazarenta.

Alpiarça, ao fundo, sobre a esquerda, por trás da última curva do rio.

27.3.07

Próximo passeio...


E pensar que passei tantas vezes lá perto e nunca parei...

Esta jóia arquitectónica está em Beringel, aldeia perto de Beja.


200 ANOS DEPOIS


Iniciativa conjunta da Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras e do Clube Militar de Oficiais de Mafra. Trata-se de promover uma reflexão sobre "Pensar Portugal e a Europa" no dealbar da Guerra Peninsular".

Do programa fazem parte:

28 Abril 2007 (14.00h - 19:00h ): Colóquio no Auditório Municipal com
a presença de vários especialistas
29 Abril 2007 ( 21:30h ) : Concerto pela Banda Sinfónica da GNR

5 Maio 2007 : Passeio Cultural - Visita temática a Elvas e Olivença

26.3.07

ESPAÇO PÚBLICO

Foi lançado no Sábado passado o nº 2 da ESPAÇO PÚBLICO, revista de comunicação e cultura.




O editorial, escrito pelo editor deste número, Luís Filipe Rodrigues, dá o mote:

«Desencadear uma reflexão prospectiva sobre temas que atravessam a nossa contemporaneidade...»

Cada número tem um tema base. "Ruralidades" é o que se propõe para as 116 páginas que ora se publicam, tema que se organiza em três modos de abordagem: textos de carácter teórico, ensaístico; espaço de criatividade, com poesia e fotografia; e um terceiro, designado como "exercício de construção da memória, e visitação do local", com reportagem, crónica e estudo de caso.


Publicada semestralmente, esta revista é propriedade da Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras e tem como coordenador Rui Matoso.



Contra-capa de "Espaço Público"












25.3.07

A Oeste tudo de novo




Basta sair e olhar.


Na Foz do Arelho, por exemplo: ainda não tinha visto o gato de pedra.



Mais adiante: aquele mar!!!




E ao longe... S. Martinho do Porto, Nazaré...







22.3.07

DIA MUNDIAL DA POESIA

Com a devida vénia trancrevo este "post" de uma blogue que vale a pena seguir com atenção:DE RERUM NATURA ( Sobre a natureza das coisas).
Neste dia, 21 de Março, dá-se por terminado o Inverno e inaugura-se a Primavera. É um dia de simbologias várias que remetem para promessas de renascimento. É também o dia mundial da poesia. Esta justaposição pode sugerir que a poesia está em renascimento ou, melhor, em constante renascimento. Contudo, esta sugestão não convive bem com uma pergunta que se insinua por aí: para que serve a poesia?Estranha pergunta esta! Mas mais estranho é ter passado a ser corrente e haver sempre alguém disposto a ensaiar uma resposta. Mais estranho, ainda, é emergir dentro da Escola e, com toda a naturalidade, aí se ter instalado. E, muitíssimo mais estranho é ter deixado de soar estranha.Sem sobressaltos intelectuais, aceita-se a lógica do “saber em acção ou em uso”, da “mobilização de competências no quotidiano”, que se tem fixado nos sistemas educativos ocidentais na transição do século XX para o XXI. Sob o pretexto de democratização, de igualitarismo social, pretende-se preparar os alunos para resolverem problemas concretos do dia-a-dia com significado na sua vivência e para a sua vivência. Nesta lógica utilitarista e imediatista, temos de admiti-lo, a poesia não serve para nada! Coerentemente, seria de esperar que se esfumasse dos currículos. Mas, não é bem assim: é quase pior!Se deitarmos um olhar atento para o currículo nacional, programas e manuais do primeiro ciclo do ensino básico, ciclo absolutamente fundamental em termos de aquisição e consolidação de aprendizagens essenciais, percebemos várias coisas muito interessantes e… preocupantes.Percebemos que a poesia ocupa, nesses documentos, um lugar obscuro, porque disperso entre várias outras intenções educativas, e residual, porque é preciso algum esforço de observação para se perceber que está lá.Percebemos que a poesia caiu nas estranhas malhas do relativismo cultural. Nos manuais, em particular, os textos de escritores com estatura universal, rareiam porque remetem, alega-se, para uma educação elitista, e quando estão presentes são postos ao mesmo nível de escritores de dotes literários mais do que duvidosos. Manuais de Língua Portuguesa há, que só têm ou têm essencialmente “poesia” do próprio autor do manual, que (felizmente) ninguém sabe quem é.Percebemos que a poesia é usada como estratégia pretensamente pedagógica, à maneira de receita, destinada a resolver os males do mundo: para sensibilizar as crianças para o multiculturalismo, explora-se um certo poema; para as sensibilizar para questões de género, aquele outro; para se tornarem defensores do ambiente ou da paz, não podem deixar de ler e dramatizar os que são recomendados; para adquirem hábitos de alimentação saudável, há um que, certamente, resulta; e assim por diante…Percebemos que a poesia tem dias marcados e há poesia marcada para vários dia: uma para comemorar o dia do pai e, claro, outra para comemorar o dia da mãe e outra, ainda, para comemorar o dia dos avós, essa invenção mais recente; duas ou três para celebrar o Natal, como convém, por ser época festiva alargada; uma para assinalar o dia da árvore; outra para afirmar o dia da mulher e mais outra para sublinhar o dia da criança; várias para festejar o dos namorados, porque para esse dia há muitas.Percebemos que a poesia deve “respeitar o vocabulário que as crianças trazem de casa”. Assim, se não for simplista, adapta-se: extraem-se cirurgicamente as palavras que se supõe que os alunos nunca escutaram antes, que não se usam no seu contexto de origem, pois o confronto com uma palavra menos comum, além de ser uma afronta à sua condição, desinteressa-os. Nessa adaptação também é comum reduzir-se a poesia em tamanho, porque, como se vai dizendo, o tempo de atenção e de esforço que os alunos conseguem dirigir para um texto é cada vez mais reduzido e facilmente se desmotivam quando confrontados com mais do que meia dúzia de linhas.Percebemos que a poesia é decorativa e ilustrativa, ganhando muitas vezes o carácter de recompensa: nos manuais aparece com frequência no fim de cada lição, de cada tema, uma quadra, uma lengalenga, um trava-línguas para rematar o assunto. Não, parece ali caber qualquer orientação, deixando-se o texto desamparado, entregue apenas e só à criança. Mas, também acontece exactamente o contrário: ser a poesia acompanhada de explicações do sentido, de questionários interpretativos, roubando-se-lhe o prazer da leitura e sufocando ou condicionando a sua imaginação.Ora bem, ainda que ninguém saiba como se leva alguém a amar a poesia, sabe-se que há caminhos que não se devem percorrer e, estranhamente, é nalguns desses caminhos que andamos a insistir. Nada melhor do que um poeta para nos fazer ver isso:

Ver claro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade in "Os Sulcos da Sede"

21.3.07

CAMINHO


«Como se comporta o teu guia interior?
Tudo reside aí. O resto, dependa ou não do teu livre arbítrio, não passa de cadáver e fumo.»
Marco Aurélio, Pensamentos para mim próprio.


19.3.07

UM CAIXADÒCLOS NO REINO DA DINAMARCA




Alexandre O’Neill nasceu em Lisboa a 19 de Dezembro de 1924. A mãe era de ascendência aristocrata e nortenha e o pai provinha de antigos senhores irlandeses, caídos em desgraça e chegados a Portugal nos séc. XVIII. Na parede da sala da casa paterna havia um retrato de Salazar, figura venerada da classe média lisboeta, temerosa dos tumultos sociais. O filho perdeu a paciência para estas coisas e talvez aqui tenham origem a radical ironia e o sarcasmo mordaz com que fustigou as fraquezas do país em que nasceu e que ele, simbolicamente apelidou de «Reino da Dinamarca» para despistar a PIDE. Isso não o livrou de ser preso como opositor ao regime, apesar do seu feitio independente e boémio que nunca lhe permitiu uma militância política organizada.
Alexandre O’Neill foi um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, em 1947, juntamente com Mário Cesariny, José-Augusto França e outros. Avesso a regimentos e princípios de escola, absorveu deste movimento artístico o gosto para a inventiva verbal, as associações de ideias e de palavras em jogos inesperados, surpreendentes.
A sua poesia é marcada pela visão irónica e gozada das pessoas e das coisas, por vezes satírica, servida por um poderoso sentido da observação mas humanizada por intenso e, por vezes, terno lirismo.
As suas “Poesias Completas” foram reunidas em 2005 num grosso volume de 540 páginas pela editora Assírio & Alvim, obra essencial para quem goste de ter uma visão ampla da moderna literatura portuguesa. Ali se juntaram os livros anteriormente publicados: Tempo de Fantasmas (1951); No Reino da Dinamarca ( 1958); Abandono Vigiado ( 1960); Poemas Com Endereço ( 1962); Feira Cabisbaixa ( 1965 ); De Ombro na Ombreira ( 1969 ); Entre a Cortina e a Vidraça ( 1972 ); A Saca de Orelhas ( 1979 ); As Horas Já de Números Vestidas ( 1981 ); Dezanove Poemas ( 1983 ), além de alguns dispersos. Morreu em 21 de Agosto de 1986, em Lisboa.

Nota: uma obra a ler para quem quiser conhecer melhor este escritor: “ Alexandre O’Neill – Uma biografia literária”, Maria Antónia Oliveira, Lisboa, Dom Quixote, 2007.





PAÍS SEMPRE ADIADO

Portugal foi, para o poeta Alexandre O’Neill, o lugar da sua dor: país adiado, videirinho, do “chacun que s’arranje!” – enquanto a Europa enfunava velas e já ia no mar alto. Satirizou: «País engravatado todo o ano / e a assoar-se na gravata por engano». Foi à procura desse país, para lhe tirar o retrato em palavras certeiras.



PELO ALTO ALENTEJO
In: Entre a Cortina e a Vidraça

Os homens desertaram destas terras.
Só um bacoco, a rufiar com a sombra,
só um bacoco, bolsado das tabernas,
em sete palmos, só, se reencontra.


Turistas fotografam cal e pedras:
o cubismo de casas e ruelas.
Nas soleiras sobraram umas velhas.
Escorre-lhes o preto pelas canelas.

Num caixote com rodas, meigo tolo,
- um que não veio, aos esses, lá das Franças,
passar com os velhotes as vacanças –
preso a um fio de cuspo, vende jogo.

Eu e a Teresa procuramos queijo.
O melhor que se traz do Alentejo.




PAÍS DISTRAÍDO

Vicente Jorge Silva, in: “PÚBLICA”, 18 /8/1996: « É talvez o poeta português moderno mais cruelmente injustiçado, mais esquecido e menos lido nos dias que correm – ele que foi um dos maiores inventores de palavras, paradoxos, trocadilhos e construções poéticas originais que este país deu à luz. (...)”
Alexandre O’Neill olhou-se e viu os outros; e nos outros viu-se a si próprio.

CAIXADÒCLOS
In: Feira Cabisbaixa
- Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim?
- Que és o esticalarica que se vê.
- Público em geral, acaso o meu nome...
- Vai mas é vender banha de cobra!...
- Lisboa, meu berço, tu que me conheces...
- Este é dos que fala sozinho na rua...
- Campdòrique, então, não dizes nada?
- Ai tão silvatávares que ele vem hoje!
- Rua do Jasmim, anda, diz que sim!
- É o do terceiro, nunca tem dinheiro...
- Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você...
- Dos dois ou três nomes que o surrealismo...
- Ah. agora sim, fazem-me justiça!
- Olha o caixadòclos todo satisfeito
a ler as notícias...


PAÍS DO MODO FUNCIONÁRIO DE VIVER

O’Neill tinha 25 anos quando conheceu Nora Mitrani, francesa que veio a Lisboa fazer uma conferência sobre o Surrealismo. Apaixonam-se e o poeta decide ir ter com ela a Paris. Alarmado, um familiar faz uma denúncia para a PIDE, tentando impedir a partida. É chamado ao inspector Seixas. Fica proibido de sair de Portugal e só depois do 25 de Abril conseguiria obter passaporte. Enojado com a PIDE e com o país que a consentia, escreveu um dos poemas mais pungentes da poesia portuguesa, dedicado à mulher amada. Por ser longo extraímos alguns excertos:

UM ADEUS PORTUGUÊS
In: No Reino da Dinamarca

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

(...)
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

(...)
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

__________________________________________________________________




Morreu João da Cruz Ramos, o poeta pastor


Perdi muito do que tinha,
Já fui tudo e serei nada;
A minha alma adivinha
Que a vida a que chamo minha
Foi-me apenas emprestada.

Em Março de 2003 esta página LUGAR ONDE foi dedicada. àquele a quem chamei “o guardador de poemas” e que os conterrâneos conheciam por “Palhinhas”. « Homem de poucas letras mas de rara sensibilidade literária» - escrevi então. Faleceu no início deste Março, no lugar onde sempre viveu, Casal da Junqueira, entre Bonabal e Coutada, «sítio de serena e belíssima paisagem». Aqui o recordamos com saudade. Adeus “Palhinhas”. E obrigado por tantos versos que nos cantaste.

18.3.07

PROGRAMA DE VIDA



Posted by Picasa
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz
( Ruy Belo )

17.3.07

V I A G E N S . . .






Quantos barcos nos esperam?

Março já vai alto...





A PRIMAVERA
O pássaro chegou
e com ele a luz:
de cada trilo seu
nasce a água.
E entre água e luz que o ar desata
está a Primavera inaugurada já,
sabe a semente que já cresceu,
na corola desenha-se a raiz,
abrem-se por fim as pálpebras do pólen.
Tudo isto fez um simples pássaro
no alto dum verde ramo.
Pablo Neruda, Plenos Poderes, Public Dom Quixote, Lx , 1982

12.3.07

Praia de Santa Rita







Santa Rita, no litoral norte de Torres Vedras, estava assim ontem, ao fim da tarde.

E foi Camões que escreveu:

«Tomai-me, bravos mares;
Tomai-me vós, pois outrem me deixou»

Ele lá sabia...

10.3.07

Interior...Exterior

Do silêncio interior do Claustro românico da Sé Velha de Coimbra... ao sol que ilumina a Nazaré.

Andei por lá hoje.




























7.3.07

ALEXANDRE O' NEILL: "de ombro na ombreira"...






Ando de volta do Alexandre O'Neill. "POESIAS COMPLETAS", Ed. Assírio & Alvim. O pretexto é a belíssima "biografia literária" escrita por Maria Antónia Oliveira e publicada pela Dom Quixote já este ano (1ª ed.: Janeiro 2007)



CAIXADÒCLOS

- Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim?
- Que és o esticalarica que se vê.

- Público em geral, acaso o meu nome...
- Vai mas é vender banha de cobra!...

- Lisboa, meu berço, tu que me conheces...
- Este é dos que fala sozinho na rua...

- Campdòrique, então, não dizes nada?
- Ai tão silvatávares que ele vem hoje!

- Rua do Jasmim, anda, diz que sim!
- É o do terceiro, nunca tem dinheiro...

- Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você...
- Dos dois ou três nomes que o surrealismo...

- Ah. agora sim, fazem-me justiça!

- Olha o caixadòclos todo satisfeito
a ler as notícias...


HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

Há palavras que no beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

( O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado )

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

4.3.07

PERMITIR A INFÂNCIA... Sempre Ruy Belo!




Uma criança brincando com a água. Recordei o poema de Ruy Belo:





ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM CRIANÇAS


A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo, in: Homem de Palavra(s)
















AINDA A TASCA DO VENCESLAU






Encontrei a fotografia perdida! Andava misturada no meio de livros, CD's, revistas. O costume.


Aqui fica a tasca do Venceslau que hoje já só existe na nossa memória.

Para que não esqueça...

26.2.07

Um filme comovente







Entrei pela madrugada com «Diários de Che Guevara». Não tenho palavras. Pedi-as emprestadas a quem tão bem (d) escreveu este filme belísssimo:








DIÁRIOS DE CHE GUEVARA


Deixa o mundo mudar-te, e podes mudar o mundo!


«Diários de Che Guevara», que teve a sua estreia mundial em 2004, no Festival de Sundance, onde foi recebido com uma ovação em pé por parte dos espectadores, segue duas pessoas quando estas descobrem a rica e complexa topografia social e humana do continente americano latino. Em 1952, dois jovens argentinos, Ernesto Guevara (Gael García Bernal) e Alberto Granado (Rodrigo de la Serna), partiram numa viagem de estrada para descobrir a verdadeira América Latina. Ernesto é jovem de 23 anos estudante de medicina especialista em leprologia, e Alberto, de 29 anos, é bio-químico. Com um romântico sentido de aventura, os dois amigos deixam os seus confortáveis ambientes familiares em Buenos Aires em cima da motocicleta de Alberto, uma 1939 Norton 500, que recebe a alcunha "La Poderosa". Embora a motocicleta se avarie durante a sua jornada, eles continuam com recurso à boleia. À medida que se afastam cada vez mais da familiar e confortável Buenos Aires, os dois amigos tornam-se próximos como irmãos, unidos pela crença no progresso e no que a ciência e a medicina podem fazer pela região. Começam a conhecer uma diferente América Latina, através das pessoas que encontram na estrada, ao mesmo tempo que a variada geografia que encontram, de montanhas a desertos, de complacentes ricos a pessoas de pobreza extrema, começa a reflectir as suas próprias perspectivas em mudança. De mineiros sem casa a prostitutas de barco, de vítimas de lepra a pessoas prósperas, Ernesto e Alberto descobrem uma afinidade para a humanidade neles, e uma determinação para mudar o mundo. Durante a viagem de 8 meses e 8 mil quilómetros, partindo da Argentina, seguindo através dos Andes para o Chile, passando pelo deserto de Atacama para o Peru, em direcção a uma colónia de leprosos, até chegar à Venezuela, eles sobem às alturas de Machu Picchu, onde as majestosas ruínas e o extraordinário significado da herança Inca, destruída pelos invasores espanhóis, lhes causa um profundo impacto. Quando chegam à colónia de lepra de San Pablo, localizada nas profundezas da Amazónia peruana, os dois jovens começam a questionar o valor do progresso que é definido por sistemas económicos que deixam tantas pessoas na pobreza extrema e as oprime. As suas experiências na colónia despertam neles os homens que eles irão tornar-se mais tarde, ao definir a jornada política e ética que vão seguir nas suas vidas.





«OS DIÁRIOS DE CHE GUEVARA»

Belíssimo exemplo da viagem iniciática que deixa uma marca indelével na alma dos viajantes. Contornando o comercialmente aproveitador e erróneo título português, chegamos a um filme que conta a odisseia de Alberto e Ernesto através da América do Sul, maioritariamente feita na motocicleta que de poderosa só a ironia tinha. Contada com enorme sensibilidade humana (o desenvolvimento da amizade entre os dois e a consciência social larvar) e cromática (excelente a fotografia de Eric Gautier - e que paisagens recorta), esta história revela o estado das coisas numa América Latina artificialmente dividida pela política e pelos estratos sociais. São muito injustas algumas leituras do filme à luz de preconceitos políticos alicerçados na figura que se viria a tornar o Ernesto Guevara deste filme (o Che); leituras essas que, na minha opinião, turvam a visão daquilo que esta fita tem de essencial e que não é nada de panfletário. Mas ao contrário de muitas opiniões, considero este um filme altamente político. Não o serão todos os verdadeiros grandes filmes? Que outra forma igualmente potente existe de ser político do que ir ao âmago da consciência humana? Os actores têm um óptimo desempenho: se Garcia Bernal se cimenta como estrela latina maior da Meca do cinema, Rodrigo de la Serna é uma deliciosa revelação como o amigo Alberto Granado (de quem vislumbramos o rosto real na actualidade no final do filme - e os olhos que misturam desencanto com uma réstea de utopia). Referência final para o extraordinário epílogo a preto e branco condensando os retratos humanos daquela América sofredora, nitidamente influenciado pelo trabalho fotográfico de Sebastião Salgado.

Jorge Silva avidanaoeumsonho.blogspot.com




24.2.07

Vítor-Luís Grilo: novo livro






Intitula-se MEMÓRIA DE AGOSTO. Lançamento na Cooperativa de Comunicação e Cultura, hoje, às 17.30 H. Livrinho pequeno no formato mas com poemas intensos. Vítor dedica-o à memória de Ana Maria, sua mulher, que morreu repentinamente em Agosto de 2005.



TU FOSTE O INÍCIO

Ao sentir
penso em ti
e nas limpas madrugadas.
Tu foste o início.
Em ti se concentraram
palavras urgentes,
como trabalho ou vida.
A murta e o orégão
perfumam a casa.
Em sons de afecto escuto o vento.
À noite.


Acordar com um poema na cabeça...

Acontece! Abrir os olhos, de manhã e correr a procurar o poema que um dia se leu e ficou num desvão da memória. Com a Sophia este fenómeno é recorrente. Encontrei:

BRISA

Que branca mão na brisa se despede?
Que palavra de amor
A noite de Maio em si recebe e perde?

Desenha-te o luar como uma estátua
Que no tempo não fica

Quem poderá deter
O instante que não pára de morrer?








Vermeer conseguiu captar esse instante...

23.2.07

Zeca Afonso - Memórias de um artista cidadão

A minha pequena homenagem ao Zeca.

Zeca Afonso morreu há vinte anos.




Já passaram 20 anos! Recordo o funeral, em Setúbal, com uma enorme multidão e a nossa certeza de que o mundo iria ficar mais frio, mais pobre.

Com a devida vénia, transcrevo ( e subscrevo! ) as palavras de "O Jumento", sobre José Afonso:

Pelos seu sonhos e utopias porque vivemos tempos em que deixou de haver espaço para sonhar, as ideologias implodiram e a grandeza dos projectos políticos é medida pela reacção do PSI20. Talvez os tempos sejam outros, talvez a esquerda do Zeca tenha dado lugar a uma outra que é tanto melhor quanto mais eficaz for a aplicar o que a direita não conseguiria implementar, talvez o mundo já não seja o do Zeca Afonso, mas esse mesmo mundo está carente da generosidade, da ética, do desinteresse de muitos homens do tempo do Zeca, de muitos que estavam ao seu lado e de outros tantos que partilhando muitos dos seus valores estariam do outro lado.

Concorde-se ou não com as suas utopias, Zeca Afonso deixou-nos um legado de grandeza humana, de generosidade e de ética política que à medida que o país se dissolve na pequenez de muitos dos que se diz serem a classe política se agiganta cada vez mais. Para além de um grande poeta cantor, Zeca Afonso foi um dos grandes homens do seu tempo, um tempo em que havia homens grandes.

Tenho saudades do Zeca Afonso, da liberdade de sonhar, do prazer de se poder ter utopias, dum país onde os valores eram mais importantes que a percentagem do PIB que viaja no avião do primeiro-ministro e onde havia mais igualdade por maiores que fossem as desigualdades.

21.2.07

Vale mais tarde...

Pela primeira vez: Praia do Castelejo, no concelho de Vila do Bispo (Algarve), já na costa vicentina, litoral oeste. A foto não diz o quão belo é o lugar.

E o peixe fresco no restaurantezinho lá do sítio?
E os amigos que lá me levaram?


15.2.07

SOPAS DE PEDRA




É uma iniciativa do Arquivo Municipal e do Museu Municipal Leonel Trindade. A ideia é reunir à volta de um jantar nos Claustros do Convento da Graça pessoas interessadas nos assuntos que se anunciam:

Dia 9 de Março: «Águas limpas...Águas sujas»

Dia 16 de Março: «A simbologia monumental da água»

Dia 23 de Março: «O chafariz dos Canos»

Em cada dia estará presente um convidado que fará uma exposição inicial.

Inscrições no Arquivo Municipal. 10 € / refeição. Inscrição para os três jantares: 25 €.

Ninguém me encomendou a publicidade. Mas como acho que vale a pena...

OS MENINOS DA AVÓ

É o título de um blogue que tem a paixão da divulgação de boa literatura. Sediado em Sintra, organiza encontros sobre autores e textos literários.
Um dia destes faço-me convidado.

Transcrevo um belo texto de Vinícius de Morais, que dedico aos amigos que por aqui passam:


Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicious de Moraes

OS GUARDADORES DO TEMPO







António Augusto Sales escreveu uma magnífica crónica sobre a vida cultural de uma pequena cidade de província ao longo do séculos XIX e XX, Torres Vedras. Propunha-se abordar apenas a história do teatro amador mas a consulta exaustiva da imprensa local e documentação avulsa fê-lo alargar o horizonte. O resultado é este livro que é o oposto dos ( por vezes...) enfadonhos ensaios históricos para especialistas. A.A. Sales escreve como um repórter de rua que dá conta de uma fantástica viagem no tempo. Ele esteve lá e narra o que viu!

A edição, lançada em Janeiro de 2007, é da Câmara Municipal de Torres Vedras e faz parte da colectânea "H - Linhas de Torres", constituída por estudos sobre a História torriense. Este já é o número 8 da colecção, a não perder por quem gosta de História Local. E que belo título: OS GUARDADORES DO TEMPO.

14.2.07

AINDA O MARCELO ... salvo seja.

Houve quem não gostasse do que escrevi há tempos sobre o Conselheiro de Estado Marcelo Rebelo de Sousa.
Então leia este pedaço de prosa que saíu há dias no jornal «Público», da autoria da Helena Matos. Parece que há mais gente a ficar farta daquela "banha da cobra" que ele vende semanalmente na televisão pública...


«Depois de termos sobrevivido à desilusão de percebermos que a saudade não é um exclusivo nacional, que não existem linces na Malcata e que já nem somos os únicos a cozinhar bacalhau, consola-nos descobrir que temos um novo ícone da singularidade lusa: o professor Marcelo. Como bem se percebe, o professor Marcelo nada tem a ver com o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa. O professor Marcelo não é uma pessoa. É um posto. Os romanos, povo de sentido indiscutivelmente prático - quem senão eles poderia chamar Primeiro, Segundo ou Terceiro aos filhos? -, acharam por bem criar um cargo que, à falta de mais pacífica designação, adquiriu o nome de quem o ocupava. Falo obviamente dos césares. Portugal não é o Império Romano, logo não falamos de césares e pretorianos mas sim do que disse o professor Marcelo, essa espécie de holograma que ora nos narra tudo o que fez nos últimos sete dias - e esse tudo implica pelo menos um concerto na Baviera e uma palestra em terras de Basto, uma aula sobre Direito em Luanda, três pareceres, duas apresentações de livros e um jogo de futebol - ora nos enreda nas voltas e contravoltas do seu raciocínio tão narcísico quanto hiperactivo. Nas palavras do professor Marcelo os crimes não têm pena e o "não" passa a "sim". Mas nada disto importa porque o professor Marcelo usa as palavras como outros deitam cartas. Mais do que o explicador de Portugal ao povo e às crianças, ele é o grande ilusionista da nação.» [Público]

12.2.07

A TASCA DO VENCESLAU




A começar pelo nome: era uma tasca a sério.Cheirava a óleo de fritar, tinha balcão corrido, barris com o preço do vinho marcado a giz. Vinha sempre alguém lá de dentro a enxugar as mãos ao avental. Havia pratinhos sobre o balcão com petiscos caseiros.
Noutra fase mais adiantada chegou a vender fruta, que sabia a quintal regado com água de poço velho.
Tinha cartões para perfurar, o último furo dava direito a bola de futebol ou garrafa de brandy manhoso. Pelo caminho iam saindo espelhos de bolso, canivetes, lapiseiras...
O tinto era bom mas o branco era sempre "especial". Puro ou traçadinho de gasosa, empurrão ideal para sandes de coiratos ou jaquinzinho com molho à espanhola.

Estava fechada há anos. Mas a construção lembrava ainda como era aquela rua no início do século: casa térrea, telhado já abaulado pelas vigas empenadas, ervas entre as telhas, cantarias grossas.
Ainda tínhamos a vaga esperança de que alguém pegasse naquilo - nem nos importávamos que pusesse balcões novos de alumínio e fórmica.

Mas foi abaixo. Uma manhã destas corropiavam por lá uns camiões pesados que levavam o que uma feia máquina escavadora lhes despejava no dorso. A tasca do Venceslau desaparecia às carradas.

Há-de nascer ali mais um hino à construção civil, o "Venceslau Building", por exemplo, para irmanar com o "Serpa Pinto Plaza" e o "Edifício Twins", tudo made in Torres Vedras, perdão, Old Towers City...



- Ó Alzira, sai uma elegia com molho de escabeche!!!


ELEGIA POR UMA TASCA

Mágoas curtiste muitas
E desalentos tamanhos
afogados em penaltes de tinto
Ali à beira dos passantes
tão fácil entrar e pedir
- “um copo de três!”

Tanta vez consolaste
Tristezas insolúveis
Porém dissolvidas nos taninos
Oportunamente emborcados
Em desespero de causa.

Tasca taberna
santuário de dor
e de euforia

Muito mais eu diria
Se pudesse ainda
Entrar-te,
ó tasca do Venceslau !

11.2.07

O BARRETE

Está na rua.
Pode-se perguntar: que tem a ver a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras com estas brincadeiras?

Tem muito a ver. O Carnaval é uma tradição antiga - e saudável! - em Torres Vedras. E um dos aspectos mais significativos é a participação de TODOS nessa festa. A ideia é não haver espectáculos encomendados, textos oficiais, brasileirices para chamar gente. Há que defender os espaços alternativos e a criatividade vinda de todos os lados e tendências. A ideia de criar uma revista de humor como O BARRETE foi a de oferecer a tal alternativa à revista "oficial" da Comissão de Carnaval. Onde fosse possível criticar, brincar com...,sobretudo com os autarcas. Claro, respeitamos o seu trabalho numa perspectiva de cidadania, mas não o sacralizamos. E achamos saudável criticar.

(Queria colocar a imagem da capa mas os "donos" do servidor andam distraídos. Talvez amanhã...)

Já percebi porque não aparecia a imagem: parece que tem "megas" a mais.
Sai imagem a preto e branco!!


RECORDAR FERNANDO ASSIS PACHECO

Na Casa Fernando Pessoa, a Campo de Ourique. Francisco José Viegas, seu director, organizou um ciclo de encontros sobre F. Assis Pacheco. Justificou:

«Não poderíamos esquecê-lo porque era uma das nossas vozes. Sobretudo neste mês em que se festejaria o seu 70º aniversário. Por isso a Casa Fernando Pessoa reúne os seus amigos e leitores para assinalar a data - justamente Campo de Ourique, o bairro onde viveu e um dos lugares da sua poesia.Não se trata de uma comemoração, porque F. A.Pacheco havia de detestá-la. Coisa mais informal, mais a gosto de quem gosta de falar, de ouvir - e de ler a sua poesia ou de recordar a s suas histórias.»





A imagem, irreverente, vem publicada no livro póstumo editado pela Assírio & Alvim RESPIRAÇÃO ASSISTIDA,Lisboa,, 2003 - cinco anos depois da morte do poeta.

Mas lembrar o poeta é, sobretudo, ler a sua poesia.

SONETOS
2.

Os trabalhos de amor são os mais leves
de quantos algum dia pratiquei
na cama as alegrias fazem lei
e se me queixo é só de serem breves

eu vivo atado às tuas mãos suaves
num nó de que este corpo já não sai
ferve o arco do sol a tarde cai
ardem voando pelo céu as aves

mágoas outrora muitas fabriquei
e em países salobros jornadeei
ao dorso das tristezas almocreves

a vez em que te amei um outro fui
comigo fiz a paz nada mais dói
e os trabalhos de amor nunca são graves

Fernando Assis Pacheco


O ciclo prossegue no dia 15 de Fevereiro, 21h30, com a presença de Fernando J.B. Martinho, Abel Barros Baptista e Pedro Tamen. A 26 de Fevereiro estarão presentes José Carlos de Vasconcelos e Rogério Rodrigues. A leitura de poemas será regra em todos os encontros.
No fim - oh! simpatia - bebe-se um tinto especial. F. Assis Pacheco era um homem de copos demorados e solidários.

Estive lá, com alguns bons amigos.Nunca tinha entrado na Casa Fernando Pessoa. Agradabilíssima surpresa. Foi toda recosnstruída, mantendo-se apenas o espaço onde era o quarto de F. P. e onde se guarda ainda a sua máquina de escrever e a célebre cómoda onde escreveu "O Guardador de Rebanhos". O resto é um conjunto de espaços amplos com biblioteca, sala de conferências e salas de exposições. Na Rua Coelho da Rocha, nº 16.

6.2.07

ABBÉ PIERRE

O Dº Notícias publicou um artigo sobre o Abbé Pierre que vale a pena ler. Autor: O P. Anselmo Borges.

Numa época de radicalismos catolicistas acantonados no movimento NÃO (referendo sobre a despenalização do aborto ), ler este artigo é uma lufada de ar fresco e a garantia de que a inteligência está viva entre os crentes.
Não resisto a transcrever uma parte:


O abbé Pierre era há muito a figura mais popular entre os franceses. A França pôs luto pela sua morte. A missa do funeral foi transmitida pela televisão e à última homenagem compareceram o Presidente, o primeiro-ministro e praticamente todo o Governo.

Nasceu em 1912 em Lyon. Aos 19 anos, entrou nos Franciscanos Capuchinhos. Durante a ocupação nazi, viveu na clandestinidade, ajudando judeus e resistentes. Foi deputado de 1945 a 1950. Criou em 1949 a primeira comunidade Emaús, ao serviço dos sem-abrigo e dos mais desfavorecidos - o termo faz alusão ao passo do Evangelho que narra a aparição de Cristo ressuscitado aos dois peregrinos de Emaús, que o acolheram em casa. A partir de 1971, o movimento alcançou dimensão planetária - os Companheiros de Emaús actuam em 40 países.

Com a guerra, a França ficou devastada. Se a partir de 1952 o crescimento económico se acelerou extraordinariamente, as desigualdades eram profundas no plano social e notórias sobretudo ao nível do alojamento. O Inverno de 1954 foi particularmente duro, tendo sido nesse contexto que o abbé Pierre lançou o famoso apelo radiofónico de 1 de Fevereiro a favor dos sem-abrigo, que desencadearia o que chamou uma "insurreição da bondade". Nos centros de acolhimento, lia-se: "Tu que sofres, sejas quem fores, entra, dorme, come, retoma a esperança, aqui, és amado."

Era um padre de oração e de acção a favor dos pobres e da dignidade. Dele disse o Presidente francês: "Representará sempre o espírito de revolta contra a miséria, o sofrimento, a injustiça, e a força da solidariedade."

Era um homem de espírito livre e crítico, mesmo no domínio da fé. No seu último livro, Meu Deus, Porquê?, ousa perguntar a Deus até quando vai durar esta tragédia do incrível sofrimento humano. Declara que a concepção expiatória da morte de Cristo é "horrível", pois levou também ao dolorismo, "uma abominação e uma caricatura da vida cristã". Depois de confessar que teve relações sexuais com mulheres, embora "de forma passageira", coloca "a questão crucial para a Igreja do casamento dos padres e da ordenação de homens casados", esperando que Bento XVI permita a comunhão aos católicos divorciados recasados. Porque não utilizar a palavra "aliança" para os casais homossexuais, que "viveram frequentemente o seu amor na exclusão e na clandestinidade"? A ordenação das mulheres é "muito provável" e "desejável".

Considerava "absurdo" que Deus apenas se revelasse e salvasse a pequeníssima parte da humanidade constituída pelos baptizados. Nada permite afirmar que o inferno existe. Defensor da laicidade, opunha-se ao regime de "cristandade" e pensava que "o papado reflecte ainda o rosto do papa-imperador", sendo necessário "libertar a Igreja da tutela romana sobre todas as Igrejas locais". Lembrando as "cruzadas" e os seus efeitos, alertou para o perigo de "responder à terrível provocação dos terroristas da Al-Qaeda com uma nova cruzada".

Admirador de Teilhard de Chardin, que soube reconciliar a visão cristã com a teoria evolucionista, sonhava com a capacidade da Teologia para reler e reinterpretar, por exemplo, a doutrina do "pecado original" ou a "transubstanciação" - palavra "um pouco bárbara" -, a substituir por "Presença". Afinal, "as coisas últimas só em linguagem poética se podem dizer".

Tinha como lema: "Viver é aprender a amar", punha a compaixão "no cume das virtudes" e definia a morte como "o encontro com o Absoluto, o Eterno". Para ele, foi em 22 de Janeiro de 2007, aos 94 anos.