11.4.07

Alentejo: imagens do meu olhar - 4



Próximo de Terena há um conjunto de sepulcros medievais cavados na rocha. Como sentinela, este sobreiro...






Eça de Queirós, numa das suas "boutades", afirmou que o eucalipto era o mais feio bicho do reino vegetal. Bom, a maioria talvez seja. Mas um eucalipto só é belo quando tem algumas dezenas de anos. Como este, que vi no Convento de S. Paulo (transformado em Hotel ), na Serra de Ossa. Magnífico!







A licenciatura...





Há muita gente que começa a estar farta desta história. Por mim também estou.

Há que fazer perguntas. Quem está interessado nessa tal história?


Trancrevo um texto que encontrei na blogosfera, ( O JUMENTO ). Parece-me oportuno...


«Se há dois anos que alguns andavam a tentar suscitar dúvidas em torno da licenciatura de José Sócrates e nada de novo saiu durante esse tempo, porque motivo só agora o Público e o Expresso se interessaram sobre o tema? Se Sócrates não fez nenhuma cadeira durante este período o que mudou naqueles jornais para abordarem o tema?


Se a decisão e a escolha da localização do novo aeroporto foram decisões de um governo em que Marques Mendes era ministro e nunca se lhe conheceu qualquer opinião divergente em relação aos chefes que teve e entretanto não houve nenhum cataclismo que alterasse a morfologia dos terrenos da Ota o que levou o líder do PSD a tomar agora a iniciativa de lançar as dúvidas sobre a Ota, começando por envolver o Presidente da República nesta manobra?


É evidente que a licenciatura de Sócrates não lhe daria acesso a um doutoramento no MIT que ele tanto admira mas daí a pensar que o primeiro-ministro copiou no exame ou pediu a alguém que assinasse o livro de termos vai uma grande distância, mesmo nas universidades tidas por mais sérias o difícil é entrar, sair com o canudo é uma questão de tempo. Não sei porque motivo Sócrates optou pela Independente, imagino quais possam ser os motivos mas não me parecem relevantes, mas depois de ver tanto burro com canudo não me parece que Sócrates fosse idiota ao ponto de fazer uma falcatrua só por uma ou duas cadeiras.


Quanto ao novo aeroporto não tenho dúvidas de que é necessário, de que terá que ser construído em qualquer lado, que não vai ficar à borla, que não há nenhum terreno vocacionado para a construção de aeroportos, que onde quer que fique vai ficar longe da casa de alguém, eu quaisquer que seja o local onde seja construído vão haver beneficiados e que não faltarão engenheiros doutorados nas melhores escolas para chumbar qualquer localização.Então porque razão o país quase içou de pernas para o ar?


Coincidência ou não o jornal Público pertence a Belmiro de Azevedo, um empresário que ficou zangado com o Governo porque este não lhe estendeu o tapete na PT, coincidência ou não Belmiro de Azevedo, assim como Ricardo Salgado, teria muito a ganhar com uma localização do aeroporto a sul do TJ pois é nessa região que se localizam os seus investimentos políticos. Coincidência ou não o mesmo Marques Mendes que tentou relançar o debate da Ota foi o mesmo que poucos dias depois falou da privatização da RTP, coincidência ou não o número um do PSD é o dono do grupo empresarial que mais ganharia com a privatização da RTP, coincidência ou não pinto Balsemão é o dono do Expresso, o jornal que dias depois do Público lançou achas na fogueira da licenciatura de Sócrates com a SIC e a SIC Notícias da atribuir um destaque permanente ao assunto.


É evidente que são apenas coincidências, quem tem protagonizado os debates são jornalistas e engenheiros, só que muitos dos jornalistas que ouço por aí, para além de serem empregados exemplares de Pinto Balsemão ou de Belmiro de Azevedo, estão muito longe do meu conceito de jornalista sério e independente, da mesma forma que são raros os professores de engenharia que se limitam a dar aulas e não trabalham ou não desejem trabalhar para grandes grupos empresariais da construção.


Há qualquer coisa que não bate certo no meio disto tudo. Acho que as questões da localização da Ota ou a licenciatura de Sócrates devem ser discutida, mas seria uma grnade ingenuidade pensarmos que é apenas isso que está em causa. Esperemos para ver quem serão os "otários" no meio de todo este nevoeiro.»

Vantagens da Literatura...



Vasco Graça Moura, no Diário de Notícias de hoje:


(...)

Oxalá pois tudo fique esclarecido a favor de Sócrates. Há muito tempo, um primeiro-ministro, Sá Carneiro, violentamente acossado pela esquerda na célebre questão das suas hipotéticas dívidas à banca, saiu claramente vencedor, tanto na televisão como nos tribunais. Para já, Sócrates (que, ao contrário de Sá Carneiro, geriu mal a situação) não é acossado por acusações graves, mas por um conjunto de perguntas legítimas a que pode responder honestamente.Mas, se não o fizer com clareza, neste país um tanto ou quanto surrealista e dado a inexplicáveis singularidades, ocorre-me que o Alexandre O'Neill, se fosse vivo, murmuraria então com um brilho irónico a faiscar-lhe por detrás dos óculos de aro grosso, estes dois versos do seu poema "Se...", talvez substituindo nele a palavra "rapariga" pela palavra "democracia": "Se o engenheiro sempre não era engenheiro / E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços..." Ah, o poema concluía com esta pertinente interrogação: "... Acaso o nosso destino, tac!, vai mudar?"

IIIII RRRRR SSSSS


- Está na hora! Vamos lá entregar o IRS! Vá, não demora, olha o prazo!

E eu entreguei. Contas, papéis, horas no computador, dores de cabeça... No final, a simulação: quanto é que vou receber?
Daqui a dois ou três meses virão uns €s devolvidos e eu fico todo contentinho.

Quer dizer: eu e muitos tansos como eu faço, todos os anos, um empréstimo ao Estado, sem juros. E ainda fico agradecido!

9.4.07

Amar



Amar é dar à luz o amor, personagem transcendente.

(Teixeira de Pascoaes)

8.4.07

"O sorriso de Deus indiferente !"



Não conheço ninguém que mais fundo tenha ido na expressão poética da lucidez: Teixeira de Pascoaes.


(...)


Ó gente enamorada! Ó gente moça!

Que, de repente, ao túmulo baixais,

Qual o vosso pecado? A culpa vossa?


Ó procissão das lágrimas, dos ais,

Diante de mim, passando, eternamente,

A caminho dos antros sepulcrais!


Dor sem fim, sem princípio, dor presente,

Martirizando as almas; e, sobre elas,

O sorriso de Deus indiferente!


(...)


O Deus aceso em raivas e furores,

Que mata as criancinhas sem pecado

E parece viver das nossas dores,


E fez do nosso pranto o mar salgado,

E fez da nossa angústia um ermo outeiro

E sobre ele, Jesus crucificado;


O Deus que me tornou prisioneiro,

E que transforma tudo quanto eu amo,

Em desfeita visão de nevoeiro;


Ah, esse Deus que, quando por Deus chamo,

É silêncio que, em neve, se condensa,

A própria sombra inerte que eu derramo...


(...)

(Poema: Canto heróico, do livro Elegias)




São de Pascoaes estes versos, último terceto do poema Poeta



Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.

7.4.07

Imagens do meu olhar - 3







Ponte romana de Terena (concelho de Alandroal). Um Presidente da Junta pouco esclarecido entendeu que ficaria melhor se fosse rebocada a cimento e caiada... Mesmo assim continua linda na sua funcionalidade e equilíbrio arquitectónico.





Castelo de Terena. Há mais "Torres Velhas" na terra...





Terena: Rua Direita. Um recanto do Alentejo profundo e genuino.





Terena: esta janela existe! A moradora tinha acabado de a cerrar...





...e acabou por sair pela porta ao lado, sorrindo para o meu ancantamento...

6.4.07

Imagens do meu olhar - 2





Passeando no concelho do Alandroal, chegamos à vila de Terena e encontramos a impressionante igreja / fortaleza da Senhora da Boa Nova.


Eça e a emigração


Eça de Queirós exerceu as funções de cônsul nas Antilhas, entre 1872 e 1874, tendo sido colocado em Havana. Aí teve ocasião de conhecer o fenómeno da emigração chinesa para aquelas paragens, feita muitas vezes em condições infra-humanas. Deste conhecimento Eça fez a base para a redacção de um importante "relatório / ensaio diplomático" pouco conhecido e que esteve inédito até 1979, ano em que Raul Rego o publicou pela primeira vez. Em 2000, no centenário da morte de Eça de Queirós, a Dom Quixote fez uma nova edição cujo título ( A Emigração Como Força Civilizadora )foi fixado por R. Rego que o tirou do último parágrafo do texto:


Neste ensaio o escritor diplomata faz a apologia da emigração, estudando as suas causas, características e efeitos sociais. Transcrevo exactamente a frase da conclusão:


« Estudadas as feições da emigração livre, a história dos seus movimentos, as suas causas, as suas consequências económicas, as suas relações com o Estado e a possibilidade da sua organização universal, discutida a emigração assalariada nas suas correntes e nos seus resultados sociais, eu julgo terminado este trabalho, que é a afirmação, e direi mesmo a apologia, da emigração como força civilizadora.»

Emigrantes ... imigrantes...




A melhor maneira de estar de acordo com um escrito é divulgá-lo.

Aqui fica, com a devida vénia, o "Editorial" de hoje do Diário de Notícias:






Cartaz e cartaz

O cartaz diz: "Basta de imigração." Se houvesse um erro de português - por "imigração" querer dizer-se "emigração" - seria uma boa frase. Emigrar quase nunca é desejado pelo próprio, é doloroso partir de casa e dos seus. Que portugueses protestassem por isso compreendia-se num país com milhões de emigrantes espalhados por França e Venezuela, para falar só de emigrações recentes. Infelizmente, aquele cartaz não faz erro de gramática. Ele quer dizer, mesmo, "imigração". Basta, diz, desses homens e mulheres estrangeiros que estão em Portugal. Expulsem-nos, diz o cartaz, que mostra um avião e esta frase terrível: "Façam boa viagem." O Diário Económico de ontem, num notável trabalho estatístico, explica do que os autores do cartaz estão a falar: basta de 7% da riqueza nacional (que é quanto valem os trabalhadores estrangeiros em Portugal). Esses 5% da po- pulação em Portugal e que são de 9 a 10% dos trabalhadores em Portugal (quer dizer, trabalhando o dobro dos cidadãos nacionais) geram uma riqueza de 11 mil milhões de euros por ano, tanto quanto a Portugal Telecom, a maior empresa nacional. Portanto, diz o cartaz: "Boa viagem PT, vai-te embora!"Houve vozes que exigiram a retirada do cartaz, único mas rapidamente famoso (destino fugaz de quem diz enormidades). Mas a forma mais inteligente de combater as ideias tolas é responder-lhes com factos, como fez aquele jornal económico. Nem sempre, porém, se pode ser só calmo e contabilístico para reagir a alguém que falando de gente maioritariamente pobre e honrada diz com ironia sem compaixão: "Boa viagem..." É preciso não saber o que é Portugal, não conhecer a Murtosa que foi para Nova Jérsia, a ilha de São Jorge que se transferiu para a Califórnia, os arredores do Funchal que se estabeleceram em Caracas, é preciso não ter um vizinho que foi para as obras no Luxem- burgo ou uma mãe que foi concierge em Paris para ousar ser tão mesquinho com imigrantes, a outra face de emigrantes.Há um senhor emproado que ousou dar a cara por essa ignorância e maldade. Há dias, ao DN, ele até disse que um imigrante só poderia ser português ao fim de cinco gerações. Isto é, ele expulsaria el-rei D. Duarte, D. Pedro, o infante D. Henrique, D. João e o Infante Santo, filhos da imigrante D. Filipa de Lancas- ter... Boa viagem, Ínclita Geração!Contra um emproado assim, em- proaram-se os Gato Fedorento, rindo- -se-lhe na cara. Dá gosto ser compatriota destes jovens inteligentes.




5.4.07

"Imagens do meu olhar..." 1


Monsaraz: sempre bonita!



Um portão de jardim, na vila do Redondo

1.4.07

D. Afonso V e a fonte





Para quem chegue ao Convento de Santo António do Varatojo há duas imagens que se impõem no lado exterior, junto ao acesso da Portaria.

Uma é a janela gótica no cunhal do edifício. A outra é a fonte rústica que fica no larguinho fronteiriço.

O fundador deste Convento foi o nosso rei D. Afonso V, que o mandou construir para nele albergar frades franciscanos, reservando para si um pequeno aposento a que pertenceria a tal janela.

Diz a tradição popular que o rei vinha à janela e saudava o povo que ali vinha encher as bilhas de água.


Ainda o velho Convento

Se quiser ser rigoroso terei de dizer que, afinal, já há uma flor no Claustro:







Na mata do Convento, as encostas, embora suaves, são vencidas por escadas singelas, cheias de encanto:








...E o tempo veio!








Mais depressa do que pensava, veio o tempo de subir ao velhinho Convento do Varatojo.

Que vi? Que vimos?


Este Inverno vai longo e a glicínia do claustro ainda não floriu.

O Panteão dos Soares, antigos alcaides de Torres Vedras, com seu túmulo manuelino e lages sepulcrais com inscrições ainda bem visíveis, está transformado numa arrecadação atravancada de trastes.

A mata, no seu abandono de braços que já não há para a limpar, é como as velhas damas que conservam toda a beleza por trás das rugas que lhes sulcam o rosto. Seculares escadas de pedra levam a lugares místicos onde as folhas e os troncos se misturam em magestosa arquitectura vegetal.

Painéis de azulejo na capelinha da Senhora do Sobreiro contam histórias improváveis. Um espaço circular confina pequenos ermitérios onde outrora os monges rezavam.

Acompanhando-nos os passos, os recitais de melros e rouxinóis.

Os nossos olhos ficaram lá... As imagens fotografadas que trouxemos, dizem tão pouco ...

É tempo de...

Sim, vai sendo tempo de visitar a velha glicínia do Convento do Varatojo.

Deixar cair a tarde num recanto do claustro, no meio do alarido das andorinhas que recolhem aos ninhos e do aroma intenso da glicínia trajada de roxo.


Deixa ficar a flor...


Esta flor olhou-me, assim, num canteiro à beira do passeio. Lembrou-me um poema de David Mourão-Ferreira:
AS ÚLTIMAS VONTADES
Deixa ficar a flor
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.
(...)
Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...
Não digas nada. Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.
Deixa ficar a flor.

31.3.07

Peregrinações...

















"Nazaré: a raiz, a face e a alma. A raiz está na Pederneira, a face na Praia, a alma é o Sítio. Os três núcleos que formam a vila da Nazaré. É um dos conjuntos de mais intensa beleza e de mais penetrante lição cultural que conheço. Nem sei, em todo o litoral português, de outro que lhe possa ser comparado."

José Hermano Saraiva, "O Tempo e a Alma", Gradiva, 1987

"Patamar dos olhos...reconciliação com o mundo..."



Um espaço, LUGAR ONDE ler... ouvir música...sonhar... esperar...
Há lugares quase perfeitos. Não é preciso muito.

Pegar num livro de Fernando Assis Pacheco: "CUIDAR DOS VIVOS" - (título fabuloso!)

Ler:

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, que me façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis da tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs,
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?

30.3.07

OS PASSARINHOS A CANTAR NAS ÁRVORES...A PRIMAVERA ...O POVO TÃO FELIZ...

Destaque no Diário de Notícias de hoje:
«Miguel Horta e Costa, Carlos Vasconcellos Cruz, Iriarte Esteves e Paulo Fernandes, ex-administradores executivos da Portugal Telecom, receberam 9,7 milhões de euros pela não renovação do mandato no ano passado. A informação, avançada no relatório e contas da PT, não discrimina o valor que coube a cada gestor, mas presume-se que o presidente executivo, Horta e Costa, tenha recebido mais. Dividindo o montante total pelos quatro gestores o resultado dá 2,4 milhões de euros a cada. O valor total das indemnizações pagas pela PT ascendeu a 10,672 milhões de euros, para além do ordenado correspondente aos meses em que desempenharam cargos em 2006. Este total inclui 967 mil euros atribuídos ao presidente não executivo, Ernâni Lopes. O seu mandato não foi renovado e, na actual administração, nomeada para o triénio 2006 a 2008, Henrique Granadeiro acumula a presidência executiva e não executiva.»
No final diz ainda o relatório que, por lei, a PT não era obrigada a divulgar estes números. Fá-lo apenas por uma questão de tranparência...
Só nos resta agradecer, muito penhorados pelo favor.
Que nome se dá a isto?.......
Sim, os passarinhos gorgeiam em seus ninhos, a Primavera chegou, o povo é feliz com as reformas que o nosso Primeiro houve por bem fazer.
Portugal, és lindo!
Portugal, estás lindo!!!
Socialismo à portuguesa...

28.3.07

ALVORADA





«Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder...pra me encontrar...»
( Florbela Espanca )






PASSEIOS...


O regresso às origens. De vez em quando ir até lá, pass(e)ar pelas ruas, alongar os olhos pelas margens do Tejo...

Amanhã, sempre...Alpiarça. Dita "a vermelha". Porque ali os homens não se curvavam perante os senhores das terras, lutaram sempre. Mesmo quando grande parte do resto do país vivia narcotizada pela segurançazinha salazarenta.

Alpiarça, ao fundo, sobre a esquerda, por trás da última curva do rio.

27.3.07

Próximo passeio...


E pensar que passei tantas vezes lá perto e nunca parei...

Esta jóia arquitectónica está em Beringel, aldeia perto de Beja.


200 ANOS DEPOIS


Iniciativa conjunta da Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras e do Clube Militar de Oficiais de Mafra. Trata-se de promover uma reflexão sobre "Pensar Portugal e a Europa" no dealbar da Guerra Peninsular".

Do programa fazem parte:

28 Abril 2007 (14.00h - 19:00h ): Colóquio no Auditório Municipal com
a presença de vários especialistas
29 Abril 2007 ( 21:30h ) : Concerto pela Banda Sinfónica da GNR

5 Maio 2007 : Passeio Cultural - Visita temática a Elvas e Olivença

26.3.07

ESPAÇO PÚBLICO

Foi lançado no Sábado passado o nº 2 da ESPAÇO PÚBLICO, revista de comunicação e cultura.




O editorial, escrito pelo editor deste número, Luís Filipe Rodrigues, dá o mote:

«Desencadear uma reflexão prospectiva sobre temas que atravessam a nossa contemporaneidade...»

Cada número tem um tema base. "Ruralidades" é o que se propõe para as 116 páginas que ora se publicam, tema que se organiza em três modos de abordagem: textos de carácter teórico, ensaístico; espaço de criatividade, com poesia e fotografia; e um terceiro, designado como "exercício de construção da memória, e visitação do local", com reportagem, crónica e estudo de caso.


Publicada semestralmente, esta revista é propriedade da Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras e tem como coordenador Rui Matoso.



Contra-capa de "Espaço Público"












25.3.07

A Oeste tudo de novo




Basta sair e olhar.


Na Foz do Arelho, por exemplo: ainda não tinha visto o gato de pedra.



Mais adiante: aquele mar!!!




E ao longe... S. Martinho do Porto, Nazaré...







22.3.07

DIA MUNDIAL DA POESIA

Com a devida vénia trancrevo este "post" de uma blogue que vale a pena seguir com atenção:DE RERUM NATURA ( Sobre a natureza das coisas).
Neste dia, 21 de Março, dá-se por terminado o Inverno e inaugura-se a Primavera. É um dia de simbologias várias que remetem para promessas de renascimento. É também o dia mundial da poesia. Esta justaposição pode sugerir que a poesia está em renascimento ou, melhor, em constante renascimento. Contudo, esta sugestão não convive bem com uma pergunta que se insinua por aí: para que serve a poesia?Estranha pergunta esta! Mas mais estranho é ter passado a ser corrente e haver sempre alguém disposto a ensaiar uma resposta. Mais estranho, ainda, é emergir dentro da Escola e, com toda a naturalidade, aí se ter instalado. E, muitíssimo mais estranho é ter deixado de soar estranha.Sem sobressaltos intelectuais, aceita-se a lógica do “saber em acção ou em uso”, da “mobilização de competências no quotidiano”, que se tem fixado nos sistemas educativos ocidentais na transição do século XX para o XXI. Sob o pretexto de democratização, de igualitarismo social, pretende-se preparar os alunos para resolverem problemas concretos do dia-a-dia com significado na sua vivência e para a sua vivência. Nesta lógica utilitarista e imediatista, temos de admiti-lo, a poesia não serve para nada! Coerentemente, seria de esperar que se esfumasse dos currículos. Mas, não é bem assim: é quase pior!Se deitarmos um olhar atento para o currículo nacional, programas e manuais do primeiro ciclo do ensino básico, ciclo absolutamente fundamental em termos de aquisição e consolidação de aprendizagens essenciais, percebemos várias coisas muito interessantes e… preocupantes.Percebemos que a poesia ocupa, nesses documentos, um lugar obscuro, porque disperso entre várias outras intenções educativas, e residual, porque é preciso algum esforço de observação para se perceber que está lá.Percebemos que a poesia caiu nas estranhas malhas do relativismo cultural. Nos manuais, em particular, os textos de escritores com estatura universal, rareiam porque remetem, alega-se, para uma educação elitista, e quando estão presentes são postos ao mesmo nível de escritores de dotes literários mais do que duvidosos. Manuais de Língua Portuguesa há, que só têm ou têm essencialmente “poesia” do próprio autor do manual, que (felizmente) ninguém sabe quem é.Percebemos que a poesia é usada como estratégia pretensamente pedagógica, à maneira de receita, destinada a resolver os males do mundo: para sensibilizar as crianças para o multiculturalismo, explora-se um certo poema; para as sensibilizar para questões de género, aquele outro; para se tornarem defensores do ambiente ou da paz, não podem deixar de ler e dramatizar os que são recomendados; para adquirem hábitos de alimentação saudável, há um que, certamente, resulta; e assim por diante…Percebemos que a poesia tem dias marcados e há poesia marcada para vários dia: uma para comemorar o dia do pai e, claro, outra para comemorar o dia da mãe e outra, ainda, para comemorar o dia dos avós, essa invenção mais recente; duas ou três para celebrar o Natal, como convém, por ser época festiva alargada; uma para assinalar o dia da árvore; outra para afirmar o dia da mulher e mais outra para sublinhar o dia da criança; várias para festejar o dos namorados, porque para esse dia há muitas.Percebemos que a poesia deve “respeitar o vocabulário que as crianças trazem de casa”. Assim, se não for simplista, adapta-se: extraem-se cirurgicamente as palavras que se supõe que os alunos nunca escutaram antes, que não se usam no seu contexto de origem, pois o confronto com uma palavra menos comum, além de ser uma afronta à sua condição, desinteressa-os. Nessa adaptação também é comum reduzir-se a poesia em tamanho, porque, como se vai dizendo, o tempo de atenção e de esforço que os alunos conseguem dirigir para um texto é cada vez mais reduzido e facilmente se desmotivam quando confrontados com mais do que meia dúzia de linhas.Percebemos que a poesia é decorativa e ilustrativa, ganhando muitas vezes o carácter de recompensa: nos manuais aparece com frequência no fim de cada lição, de cada tema, uma quadra, uma lengalenga, um trava-línguas para rematar o assunto. Não, parece ali caber qualquer orientação, deixando-se o texto desamparado, entregue apenas e só à criança. Mas, também acontece exactamente o contrário: ser a poesia acompanhada de explicações do sentido, de questionários interpretativos, roubando-se-lhe o prazer da leitura e sufocando ou condicionando a sua imaginação.Ora bem, ainda que ninguém saiba como se leva alguém a amar a poesia, sabe-se que há caminhos que não se devem percorrer e, estranhamente, é nalguns desses caminhos que andamos a insistir. Nada melhor do que um poeta para nos fazer ver isso:

Ver claro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade in "Os Sulcos da Sede"

21.3.07

CAMINHO


«Como se comporta o teu guia interior?
Tudo reside aí. O resto, dependa ou não do teu livre arbítrio, não passa de cadáver e fumo.»
Marco Aurélio, Pensamentos para mim próprio.


19.3.07

UM CAIXADÒCLOS NO REINO DA DINAMARCA




Alexandre O’Neill nasceu em Lisboa a 19 de Dezembro de 1924. A mãe era de ascendência aristocrata e nortenha e o pai provinha de antigos senhores irlandeses, caídos em desgraça e chegados a Portugal nos séc. XVIII. Na parede da sala da casa paterna havia um retrato de Salazar, figura venerada da classe média lisboeta, temerosa dos tumultos sociais. O filho perdeu a paciência para estas coisas e talvez aqui tenham origem a radical ironia e o sarcasmo mordaz com que fustigou as fraquezas do país em que nasceu e que ele, simbolicamente apelidou de «Reino da Dinamarca» para despistar a PIDE. Isso não o livrou de ser preso como opositor ao regime, apesar do seu feitio independente e boémio que nunca lhe permitiu uma militância política organizada.
Alexandre O’Neill foi um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, em 1947, juntamente com Mário Cesariny, José-Augusto França e outros. Avesso a regimentos e princípios de escola, absorveu deste movimento artístico o gosto para a inventiva verbal, as associações de ideias e de palavras em jogos inesperados, surpreendentes.
A sua poesia é marcada pela visão irónica e gozada das pessoas e das coisas, por vezes satírica, servida por um poderoso sentido da observação mas humanizada por intenso e, por vezes, terno lirismo.
As suas “Poesias Completas” foram reunidas em 2005 num grosso volume de 540 páginas pela editora Assírio & Alvim, obra essencial para quem goste de ter uma visão ampla da moderna literatura portuguesa. Ali se juntaram os livros anteriormente publicados: Tempo de Fantasmas (1951); No Reino da Dinamarca ( 1958); Abandono Vigiado ( 1960); Poemas Com Endereço ( 1962); Feira Cabisbaixa ( 1965 ); De Ombro na Ombreira ( 1969 ); Entre a Cortina e a Vidraça ( 1972 ); A Saca de Orelhas ( 1979 ); As Horas Já de Números Vestidas ( 1981 ); Dezanove Poemas ( 1983 ), além de alguns dispersos. Morreu em 21 de Agosto de 1986, em Lisboa.

Nota: uma obra a ler para quem quiser conhecer melhor este escritor: “ Alexandre O’Neill – Uma biografia literária”, Maria Antónia Oliveira, Lisboa, Dom Quixote, 2007.





PAÍS SEMPRE ADIADO

Portugal foi, para o poeta Alexandre O’Neill, o lugar da sua dor: país adiado, videirinho, do “chacun que s’arranje!” – enquanto a Europa enfunava velas e já ia no mar alto. Satirizou: «País engravatado todo o ano / e a assoar-se na gravata por engano». Foi à procura desse país, para lhe tirar o retrato em palavras certeiras.



PELO ALTO ALENTEJO
In: Entre a Cortina e a Vidraça

Os homens desertaram destas terras.
Só um bacoco, a rufiar com a sombra,
só um bacoco, bolsado das tabernas,
em sete palmos, só, se reencontra.


Turistas fotografam cal e pedras:
o cubismo de casas e ruelas.
Nas soleiras sobraram umas velhas.
Escorre-lhes o preto pelas canelas.

Num caixote com rodas, meigo tolo,
- um que não veio, aos esses, lá das Franças,
passar com os velhotes as vacanças –
preso a um fio de cuspo, vende jogo.

Eu e a Teresa procuramos queijo.
O melhor que se traz do Alentejo.




PAÍS DISTRAÍDO

Vicente Jorge Silva, in: “PÚBLICA”, 18 /8/1996: « É talvez o poeta português moderno mais cruelmente injustiçado, mais esquecido e menos lido nos dias que correm – ele que foi um dos maiores inventores de palavras, paradoxos, trocadilhos e construções poéticas originais que este país deu à luz. (...)”
Alexandre O’Neill olhou-se e viu os outros; e nos outros viu-se a si próprio.

CAIXADÒCLOS
In: Feira Cabisbaixa
- Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim?
- Que és o esticalarica que se vê.
- Público em geral, acaso o meu nome...
- Vai mas é vender banha de cobra!...
- Lisboa, meu berço, tu que me conheces...
- Este é dos que fala sozinho na rua...
- Campdòrique, então, não dizes nada?
- Ai tão silvatávares que ele vem hoje!
- Rua do Jasmim, anda, diz que sim!
- É o do terceiro, nunca tem dinheiro...
- Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você...
- Dos dois ou três nomes que o surrealismo...
- Ah. agora sim, fazem-me justiça!
- Olha o caixadòclos todo satisfeito
a ler as notícias...


PAÍS DO MODO FUNCIONÁRIO DE VIVER

O’Neill tinha 25 anos quando conheceu Nora Mitrani, francesa que veio a Lisboa fazer uma conferência sobre o Surrealismo. Apaixonam-se e o poeta decide ir ter com ela a Paris. Alarmado, um familiar faz uma denúncia para a PIDE, tentando impedir a partida. É chamado ao inspector Seixas. Fica proibido de sair de Portugal e só depois do 25 de Abril conseguiria obter passaporte. Enojado com a PIDE e com o país que a consentia, escreveu um dos poemas mais pungentes da poesia portuguesa, dedicado à mulher amada. Por ser longo extraímos alguns excertos:

UM ADEUS PORTUGUÊS
In: No Reino da Dinamarca

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

(...)
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

(...)
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

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Morreu João da Cruz Ramos, o poeta pastor


Perdi muito do que tinha,
Já fui tudo e serei nada;
A minha alma adivinha
Que a vida a que chamo minha
Foi-me apenas emprestada.

Em Março de 2003 esta página LUGAR ONDE foi dedicada. àquele a quem chamei “o guardador de poemas” e que os conterrâneos conheciam por “Palhinhas”. « Homem de poucas letras mas de rara sensibilidade literária» - escrevi então. Faleceu no início deste Março, no lugar onde sempre viveu, Casal da Junqueira, entre Bonabal e Coutada, «sítio de serena e belíssima paisagem». Aqui o recordamos com saudade. Adeus “Palhinhas”. E obrigado por tantos versos que nos cantaste.