
Não conheço ninguém que mais fundo tenha ido na expressão poética da lucidez: Teixeira de Pascoaes.
(...)
Ó gente enamorada! Ó gente moça!
Que, de repente, ao túmulo baixais,
Qual o vosso pecado? A culpa vossa?
Ó procissão das lágrimas, dos ais,
Diante de mim, passando, eternamente,
A caminho dos antros sepulcrais!
Dor sem fim, sem princípio, dor presente,
Martirizando as almas; e, sobre elas,
O sorriso de Deus indiferente!
(...)
O Deus aceso em raivas e furores,
Que mata as criancinhas sem pecado
E parece viver das nossas dores,
E fez do nosso pranto o mar salgado,
E fez da nossa angústia um ermo outeiro
E sobre ele, Jesus crucificado;
O Deus que me tornou prisioneiro,
E que transforma tudo quanto eu amo,
Em desfeita visão de nevoeiro;
Ah, esse Deus que, quando por Deus chamo,
É silêncio que, em neve, se condensa,
A própria sombra inerte que eu derramo...
(...)
(Poema: Canto heróico, do livro Elegias)
São de Pascoaes estes versos, último terceto do poema Poeta
Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.