21.6.07

OLHAR



Em teu macio olhar repousa o meu.
E na face polida assim formada
se reflecte e recria o próprio céu.
Daniel Filipe in: A INVENÇÃO DO AMOR E OUTROS POEMAS

19.6.07

Uma visão "de fundo"

Este é o "Canhão da Nazaré", visto em profundidade através de meios técnicos de última geração.
Uma visão diferente do mundo em que vivemos, retirado de um blog que vale a pena continuar a visitar.
O mundo não pode ser visto apenas pela perspectiva literária...

Imagens e sons muito bonitos

Com a devida vénia que AQUI registo:

ENXADA





A VELHA ENXADA

Foi-te cair nas mãos a velha enxada,
De teus avós herança que ficou,
E que, por falta de uso, enferrujou,
Posta de canto, só e abandonada.

Na terra, agora inculta, onde cavou,
Muita flor viu abrir, numa alvorada,
E de pão viu sair muita fornada,
Das espigas que o Sol a rir dourou...

Mas tu, que por acaso a encontraste,
Sem teres contido o espanto que mostraste,
Nem bem saberes por onde lhe pegar,

Não vás pô-la de novo no seu canto!
Tira-a do chão, como se fosse um santo,
E põe-na, com respeito, num altar...

(Jaime Umbelino, Musa Antiga)

18.6.07

"O caos e a ordem"

Vou tentar arrumar os meus papéis...para ver se sai um LUGAR ONDE que se perceba!

17.6.07

Vitorino canta A.J. Forte





De facto, Vitorino tem uma bela canção com os versos de António José Forte, "POEMA", que faz parte do álbum "Leitaria Garret". Mais tarde foi incluída no seu álbum "As mais bonitas".
Obrigado à minha vizinha aqui

A VOZ em "Os Índios da meia Praia"

16.6.07

António José Forte




António José Forte:Póvoa de Santa Iria, 6 de Fevereiro de 1931 - Lisboa, 15 de Dezembro de 1988. Ligado ao movimento surrealista, integrou, desde o seu início, em meados da década de 50 do século passado, o chamado grupo do Café Gelo. Foi funcionário da Fundação Calouste Gulbenkian, onde, durante mais de vinte anos desempenhou as funções de encarregado das Bibliotecas Itinerantes.

POEMA

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar


(A. J. Forte)

14.6.07

Menina dos olhos tristes





Menina dos olhos tristes,

o que tanto a faz chorar?

-O soldadinho não volta

do outro lado do mar.


Senhora de olhos cansados,

porque a fatiga o tear?

-O soldadinho não volta

do outro lado do mar.


Vamos senhor pensativo.

olhe o cachimbo a apagar.

-O soldadinho não volta

do outro lado do mar



Anda bem triste um amigo,

uma carta o fez chorar.

-O soldadinho não volta

do outro lado do mar.


A lua que é viajante,

é que nos pode informar.

-O soldadinho já volta

do outro lado do mar.


O soldadinho já volta,

está quase mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.

Desta vez o soldadinho

nunca mais se faz ao mar.


Poema de Reinaldo Ferreira


Intérpretes: Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso

Música: Zeca Afonso

13.6.07

AL BERTO





Faz hoje 10 anos que faleceu o poeta AL BERTO. Confesso que o conheço mal. Razão para o procurar na herança que nos legou, uma obra poética que se tem vindo a impor.
Hoje encontrei este poema:


dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos


Al Berto


(Foto in:http://nescritas.nletras.com/index.html

Reinaldo Ferreira


Poeta natural de Barcelona, filho do famoso jornalista com o mesmo nome, que nos anos 20 se celebrizou por assinar as suas peças sob o pseudónimo «Repórter X». Teve uma vida breve e pouco bafejada pela sorte. Iniciou os estudos secundários em Espanha, tendo-os concluído já em Moçambique, onde se fixou. Colaborou em algumas publicações de Maputo (a então cidade de Lourenço Marques) e da Beira: Capricórnio, Itinerário, Paralelo 20, etc. A sua poesia só ficou conhecida aquando da publicação póstuma dos seus Poemas (1960). Uma segunda edição, de 1966, vinha acompanhada de um prefácio de José Régio, que, tal como Vitorino Nemésio, lhe teceu largos elogios. A sua poesia pode ser enquadrada na tendência presencista, encontrando-se também elementos que a ligam ao simbolismo e ao decadentismo. Se nos seus poemas imperam a ironia, o niilismo e o absurdo, existe por outro lado um forte pendor humanista, visível na crítica a certos mitos.

Texto de www.astormentas.com/din/multimedia.asp?autor=...
Pouca gente sabe quem foi o autor das letras de canções célebres como Kanibambo e Uma Casa Portuguesa. E de poemas míticos como "Receita para fazer um herói" ( que Mário Viegas celebrizou ) e "Menina dos olhos tristes", cantada por Zeca Afonso. O seu autor chamou-se Reinaldo Ferreira, nascido em 20 de Março de 1922 e falecido de cancro do pulmão em 30 de Junho de 1959. José Régio ficou impressionado com a qualidade dos poemas que deixou. Os amigos publicaram-nos, tentando organizar um espólio disperso. A Ed. VEGA publicou em 1998 na col. O Chão da Palavra/Poesia, o livro de Reinaldo Ferreira «POEMAS», com estudo analítico de José Régio e Prefácio de Guilherme de Melo.
RECEITA PARA FAZER UM HERÓI
Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.
Serve-se morto.

12.6.07

QUASE

Mário de Sá-Carneiro Parque dos Poetas, Oeiras

Um pouco mais de sol - eu era brasa.

Um pouco mais de azul - eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...


10.6.07

...se eu beijasse teu gesto...



Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse plos desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse

Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra - reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...

Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...

Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...


(Fernando Pessoa)

9.6.07

Janelas para o mundo

(Magritte)




Janela: fronteira de todos os prisioneiros...

7.6.07

Passeando por aí (II)







Convento de Santa Maria de Almoster ( entre Santarém e o Cartaxo)
Edifício do séc. XIII, o convento sofreu alterações posteriores. Antiga pertença de monjas cistercienses, possui um claustro ogival do século XIV. A igreja tem um pórtico gótico, um notável interior forrado a azulejos policromados do séc. XVII, um magnífico trabalho de talha na capela-mor, bem como pinturas, frescos, altares laterais e soberbas esculturas.

Pertenceu ao convento cisterciense fundado em 1287, tendo sido a rainha Santa quem mandou construir a enfermaria e o claustro, com colunas geminadas e capitéis decorados. É de três naves com cinco tramos e arcos ogivais, abrindo lateralmente por um portal gótico. Destacam-se as imagens, pinturas, altares barrocos, painéis e azulejos do séc. XVIII

(Monumento Nacional, Decreto Nº 6644 de 27-5-1920
in Património Arquitectónico e Arqueológico ClassificadoEdição promovida pelo IPPAR, 1993 )


6.6.07

Passeando por aí (I)






Deambulando por aí ( A15, saída para S. João da Ribeira), fui dar à aldeia de Azambujeira, concelho de Rio Maior. As fotos são do largo principal:Pelourinho, casa dos Marqueses de Borba, Igreja.




A Azambujeira teve foral de D. Filipe III em 1633. Em 1834 o concelho foi extinguido e as suas freguesias integradas no concelho de Santarém. Em 1836 foi criado o concelho de Rio Maior para o qual Azambujeira transitou.É talvez a povoação mais antiga do concelho de Rio Maior, com os seus primórdios a remontarem ao tempo de D.Sancho II. Era grande senhorio destas terras o fidalgo Bartolomeu Domingues de Carvalho e, no seu período áureo andou ligado ás casas de Sabugosa, Mursa e Soure e ao Marquês de Borba.
Segundo o livro do séc. XVIII,(costa, A.Carvalho, Corografia Portuguesa e descrição topográfica do famoso reino de Portugal. Tomo III, Lisboa 1706-1712) o seu nome deve-se ao facto de ai terem existido muitas arvores de azambujos. O azambujo é uma árvore bravia parecida com a oliveira. O seu fruto parece uma azeitona pequena. (Wikipédia)

5.6.07

Ruy Belo, era uma vez

Vista do Cemitério de S. João da Ribeira (concelho de Rio Maior), com a Torre Mourisca (Mon. Nacional).


Campa rasa do poeta Ruy Belo, natural de S. João da Ribeira. Na pedra está gravado o seu poema COLOFON OU EPITÁFIO:

Trinta dias tem o mês

e muitas horas o dia

todo o tempo se lhe ia

em polir o seu poema

a melhor coisa que fez

ele próprio coisa feita

ruy belo portugalês

Não seria mau rapaz

quem tão ao comprido jaz

ruy belo, era uma vez


3.6.07

"Riu, pegou na corda e fez girar a roldana"



O pricipezinho estava cansado. Sentou-se. Eu sentei-me ao seu lado. Primeiro , ficou uma data de tempo calado, mas depois disse:

- As estrelas são bonitas por causa de uma flor que não se vê...

Eu respondi "Claro" e pus-me a observar, calado, as pregas da areia ao luar.

- O deserto é bonito - disse o principezinho.

E era verdade. Sempre gostei do deserto. Uma pessoa senta-se numa duna. Não vê nada. Não ouve nada. E, no entanto, há qualquer coisa a brilhar no silêncio.

- O que torna o deserto bonito - disse o principezinho - é haver um poço escondido em qualquer parte...

O Pricipezinho, Antoine de Saint-Exupéry

2.6.07

Além do Tejo


"Ó Alentejo esquecido
ainda um dias hás-de cantar."
(Zeca Afonso)
Deixo aqui este poema que me foi ontem enviado pelo meu amigo Cid Simões
Eu sei que o tema não é exaltante. Mas o Alentejo continua a desertificar-se. Alqueva não vai servir para uma agricultura modernizada mas para regar campos de golf. E já é um lugar de cruzeiros turísticos. Só o "Alentejo esquecido" vai deixando de cantar.


O ENFORCADO

No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado.

(Alexandre O’Neill)

31.5.07

ETERNIDADE DO VENTO

Pintura de Sarah Anderson

Há poemas que trazem em si todas as paisagens do mundo e todos os abismos da alma humana.
Ruy Belo escreveu-os até morrer. Como este, de pormenorizado título, que se alonga por dez páginas:

«AO REGRESSAR EPISODICAMENTE A ESPANHA EM AGOSTO DE 1534 GARCILASO DE LA VEGA TEM CONHECIMENTO DA MORTE DE DONA ISABEL FREIRE»


(...)

procuro o teu mstério nos teus olhos

o teu rosto é tão vasto como um mundo

e quanto mais te olho mais pressinto

que é em vão que te procuro o fundo;

(...)

A minha eternidade é a do vento

que pelo movimento arrisca quanto é

e todo se resume no momento

(...)

30.5.07

A vós, que amais o amor...


Há muitos anos ouvi ler a história de Amadis. Agora ela chega-me de novo, pela mão de uma jovem que a está a ler para as aulas, na versão de Afonso Lopes Vieira, Romance de Amadis.
« Senhores, ouvide o Romance de Amadis, o Namorado. Escreveu-o um velho trovador português, mas depois um castelhano, trocando-lhe a língua e o jeito, da nossa terra o levou. Porém as mais nobres mentes de Espanha já por nosso o dão.
Em Portugal tem a segunda pátria o espírito heróico e amoroso da Távola Redonda.
E o conto é o do amor mais fino e fiel, de português amor, rendido como ele é só.
Ao começar o Romance, invoco a memória do cavaleiro-poeta que o compôs, para que me alumie. Invoco a alma do Portugal que aprendeu com Amadis a ser gentil e forte e a prezar a flor da Honra.
E vós que amais com amor heróico e fiel, que amais o amor, ouvide a história como eu a senti.»

29.5.07

Boa Vista - a Iha Fantástica

Dunas da ilha da Boa Vista / Cabo Verde: Morro de Areia. O deserto à beira-mar, num cenário de cortar a respiração, onde o epíteto de Ilha das Dunas ganha sentido. Do promontório avista-se um autêntico mar de areia, de vagas moldadas pelo vento, com o azul profundo
do Atlântico a acenar um convite difícil de resistir.




Praia de Chaves (Boa Vista, Cabo Verde)

A Ilha da Boa Vista

De Germano Almeida , escritor cabo-verdeano, é de ler: A Ilha Fantástica, retrato do lugar onde nasceu; Estórias contadas, compilação de crónicas escritas para O Público; e Viagem pela História das Ilhas, uma rota pelo arquipélago através daqueles que escreveram sobre ele. Todos editados pela Caminho.
(...)
De súbito, vem-me à memória uma cena do dia anterior. Uma jovem cabo-verdiana na praia, linda, de longos cabelos negros aos caracóis, a quem o namorado moldou uma cauda de sereia, numa cuidadosa escultura de areia. Quando cedi ao pedido para lhes tirar uma foto, vi que ela tinha tatuado todo o arquipélago na omoplata. A conversa posterior revelou que, tal como a maioria dos cabo-verdianos, também eles eram emigrantes. De que ela própria era a metáfora perfeita: dividida entre o conforto de uma vida melhor e o calor da terra natal, com o país gravado na pele. Ou no coração, tanto faz.

( Textos in : ROTAS & DESTINOS)

28.5.07

«Pôr em ordem»

Olhei-o nos olhos e desatei a rir. Ele não pode estar a falar a sério! - pensei. Transcorrido um certo tempo, nada se pode «pôr em ordem» entre duas pessoas; compreendi essa verdade sem esperança naquele instante, quando nos sentámos, ali, no banco de pedra. O homem vive, e corrige, ajusta, edifica, e destrói, algumas vezes, a sua vida; mas, passado tempo, dá-se conta de que o todo, tal como está, por força dos erros e do acaso, é imodificável. (...) Quando alguém emerge do passado para anunciar, em voz comovida, que quer pôr «tudo» em ordem, só podemos lamentar e sorrir das suas intenções; o tempo já «pôs tudo em ordem», à sua estranha maneira, da única maneira possível. ( Sándor Márai, A Herança de Eszter)

Entrada ou...saída?


Varatojo, Torres Vedras - Porta de entrada do átrio da Igreja


Há portas que não abrem nem fecham. São fronteiras de lugares diferentes.
Estão lá para serem vistas dos dois lados, a lembrar que nada é definitivo.

27.5.07

Não é despedida

«Céu visto de um navio. Campo visto dos montes:
a lembrança é de luz, de fumo, de lago em calma!

Para lá dos teus olhos ardiam os crepúsculos.

Folhas secas de outono giravam na tua alma.»

(Pablo Neruda, Vinte poemas...)





Na obscuridade

abre-se uma porta,

dela

caem em escamas as manchas do disfarce

repassadas de verdade.

(Paul Celan)

26.5.07

ESTRANGEIRICES TORRIENSES





É preciso dizer frontalmente: só os parolos falam "estrangeiro" na sua própria terra. Gente de bom gosto respeita a língua-mãe !
Estamos em Torres Vedras e não em Old Towers City !...

23.5.07



A austera beleza de uma casa oitocentista, algures entre Dois Portos e S. Domingos de Carmões - concelho de Torres Vedras.

22.5.07

As primeira leituras

Axel Munthe


Capri

Sim, "O LIVRO DE SAN MICHEL", nº 1 da célebre colecção "Dois Mundos" da editora "Livros do Brasil".
Inesquecível. Pela descoberta de outros mundos: geográficos e mágicos (Capri!); o sofrimento humano nas páginas terríveis sobre a peste em Nápoles...
Às vezes é bom voltar a essas viagens antigas...

20.5.07

VENEZA E O SONHO



De que serve Veneza sem sonho? Eu sei, Veneza é umas tuas "cidades invisíveis". Talvez esses sejam os lugares mais reais da nossa vida, como sugere Calvino, sonhos reais porque intensamente imaginados até serem mais vida do que todas as "realidades" vividas.

" Mesmo em Raissa, cidade triste, corre um fio invisível que liga um ser vivo a outro por um instante e a seguir se desfaz, e depois torna a estender-se entre pontos em movimento desenhando novas rápidas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz que nem sequer sabe que existe."

Veneza, dizem os amantes impossíveis, é a cidade mais triste do mundo...

18.5.07

A HERANÇA DE ESZTER

Enquanto acabo a leitura de "AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM" - que prolongo...prolongo... para fazer render o enorme prazer da leitura - alguém me avisa: há outro livro excelente deste escritor húngaro: "A Herança de Eszter". E no outro dia trouxe-mo.
Na contra-capa: «Como " As Velas Ardem áté ao Fim", este romance é uma verdadeira obra-prima que está à altura das obras de autores como Thomas Mann ou Stefan ZweigSándor Márai pertence à melhor estirpe de escritores centro-europeus.

A Herança de Eszter é um dos acontecimentos literários do ano.»

TRADIÇÕES ? !



Ontem - 17 de Maio - foi o "Dia da Espiga. "



Procurei o significado:
No calendário cristão, comemora-se a Ascensão de Jesus Cristo e, tradicionalmente, colhe-se a espiga de trigo para simbolizar a bênção dos primeiros frutos.Nalgumas regiões, as plantas colhidas não se resumem ao trigo, compondo-se ramos que incluem o malmequer, a papoila ou o ramo de oliveira e que devem ser guardados ao longo de um ano.A simbologia de cada planta é a seguinte: Espiga – pão, Malmequer – ouro e prata, Papoila – amor e vida, Oliveira – azeite e paz, Videira – vinho e alegria e Alecrim – saúde e força.




Eu sei que a tradição já não é o que era. Em lado nenhum. Mas o que me entristece é ver o desaparecimento de tradições nossas, genuínas e a sua substituição por macaquices de outras culturas que nada têm a ver connosco: o "Dias das Bruxas" e o "Dia de S. Valentim", por exemplo, introduzidos à pressão nas nossas escolas - enquanto a tradição da festa da natureza que era o Dia da Espiga, caíu por completo.

Isto não é nacionalismo parolo, acho eu. É que sinto o mesmo desconforto quando vejo - outro exemplo, bem longe daqui - jovens chineses a tocar rock e a vestirem da mesma forma que os jovens de Londres ou de New York.




16.5.07

LUGAR ONDE - BADALADAS Semanário Regional de Torres Vedras




FLORBELA ESPANCA



A CORAGEM DE DIZER, CANTANDO, A TODA A GENTE

Mais do que os aspectos nevróticos da sua personalidade, importa realçar a extraordinária artífice de poesia que foi Florbela Espanca.

A poesia precisa de emoção e sentimento mas isso não chega. Muitos autores pensam que os seus poemas têm valor só porque os fizeram com lágrimas nos olhos, a sentirem muito o que escreviam. Mas não basta isso: é necessária, de igual modo, uma realização linguística significativa, uma construção artística e rigorosa de palavras. Caso contrário não se passa de banalidade vazia.
Florbela Espanca soube aliar à sensibilidade – por vezes exacerbada - uma enorme capacidade para exprimir verbalmente quem era e o que sentia. Usou como forma artística o soneto decassilábico ( poema de 14 versos de dez sílabas, em duas quadras e dois tercetos) em que foi exímia, muitas vezes ao nível dos nossos maiores nessa arte - Camões, Bocage e Antero de Quental. A sua originalidade está no facto de, usando essa forma clássica, abordar temas extremamente ousados para a sua época, como são o erotismo e a mulher activa na relação amorosa. Não fazendo parte de nenhuma escola ou grupo literários, conjugou as suas vivências pessoais com o tom mais inovador da expressão poética do seu tempo, de que Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa foram exemplos maiores. Florbela Espanca foi dos primeiros escritores a libertarem-se do convencionalismo moralista, assumindo o Desejo e o Corpo como realidades a não esconder, o que lhe acarretou incompreensões de toda a ordem. De igual modo antecipou o sentir da Humanidade moderna, insatisfeita e revoltada, procurando desesperadamente um sentido para a vida e as formas mais intensas de o exprimir. Foi esta coragem de viver em antecipação ao seu tempo que garantiu a Florbela Espanca a projecção que ainda hoje tem.

VIDA E OBRA

Florbela Espanca ( 1894 – 1930 ). Natural de Vila Viçosa, Alentejo. Estudos liceais em Évora e universitários em Lisboa. Dois casamentos e dois divórcios, motivos de escândalo na época. Terceiro casamento, com um médico. Devastada pela morte de seu único irmão, em 1927, e enredada nas contradições entre a afectividade real e a ânsia de Absoluto, suicida-se a 8 de Dezembro, no dia do seu 36º aniversário, na casa onde vivia, em Matosinhos. Desde 17 de Maio de 1964 – data da trasladação - os seus restos mortais repousam à entrada do cemitério da sua terra natal.
Obra principal: “SONETOS”, em que se reúne a poesia publicada antes e depois da sua morte: «Livro de Mágoas»(1919); «Livro de Soror Saudade»(1923); «Charneca em Flor»(1930); e «Reliquiae», versos póstumos publicados pela primeira vez na 2ª edição de Charneca em Flor, em1931. Também postumamente foram publicados textos seus em prosa: «Cartas de Florbela Espanca», «Contos» e «Diário». Os «Contos» (colectâneas “O Dominó Preto”, “As Máscaras do Destino” e “Contos Esparsos”) e o «Diário» tiveram uma 1ª edição de bolso nas Publicações Dom Quixote, em 2000.




EXCERTOS DO “DIÁRIO” (escrito no ano da sua morte)

23 de Janeiro: «Para que quer esta criatura a inteligência, se não há meio de ser feliz?», dizia, dantes, meu pai, indignado. Ó ingénuo pai de 60 anos, quando é que tu viste servir a inteligência para tornar feliz alguém? Quando, ó ingénuo pai de 60 anos?... Só se pode ser feliz simplificando, simplificando sempre, arrancando, diminuindo, esmagando, reduzindo; e a inteligência cria em volta de nós um mar imenso de ondas, de espumas, de destroços, no meio do qual somos depois o náufrago que se revolta, que se debate em vão, que não quer desaparecer sem estreitar de encontro ao peito qualquer coisa que anda longe: raio de sol em reflexo de estrelas. E todos os astros moram lá no alto, ó ingénuo pai de 60 anos!

23 de Fevereiro: A vida tem a incoerência dum sonho. E quem sabe se realmente estaremos a dormir e a sonhar e acabaremos por despertar um dia? Será a esse despertar que os católicos chamam Deus?

28 de Fevereiro: Estou tão magrita! A lâmina vai corroendo a bainha, a pouco e pouco, mas implacavelmente, com segurança. Devo ter por alma um diamante ou uma labareda e sinto nela a beleza inquietante e misteriosas das obras incompletas ou mutiladas.

2 Dezembro: (última anotação) E não haver gestos novos nem palavras novas!


SONETOS DE FLORBELA


QUEM SABE?...

Queria tanto saber porque sou Eu!
Quem me enjeitou neste caminho escuro?
Queria tanto saber porque seguro
Nas minhas mãos o bem que não é meu!

Quem me dirá se, lá no alto, o Céu
Também é para o mau, para o perjuro?
Para onde vai a alma, que morreu?
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!

A estrada de Damasco, o meu caminho,
O meu bordão de estrelas de ceguinho,
Água da fonte de que estou sedenta!

Quem sabe se este anseio de Eternidade,
A tropeçar na sombra, é a Verdade,
É já a mão de Deus que me acalenta?


SER POETA


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!



AMBICIOSA

Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O voo dum gesto para os alcançar...

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar...
- Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar !

Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus !

O amor dum homem? – Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? Quando eu sonho o amor de um Deus!...




TRAÇOS DE IDENTIDADE I I















Ainda está a tempo – até 26 de Março - de ver a belíssima exposição de fotografia na Galeria Municipal Paços do Concelho, realização conjunta do Espeleo-Clube de Torres Vedras e da Associação para a Defesa do Património de Torres Vedras, com o apoio da Câmara Municipal. As 115 fotos mostram monumentos, lugares, casas, materiais, atmosferas... que, no seu conjunto, ajudam a definir os traços de identidade do nosso concelho.