
Falemos então de Camões
Neste começo de ano lectivo proponho uma visita a Luís de Camões.
Considerado o expoente máximo da nossa literatura, ele é posto sobre um pedestal e tão alto fica que mal lhe chegamos. Injustamente, muitos estudantes acham-no “uma seca”, porque são “obrigados” a ler o que lhes parece completamente fora de moda.
Mas e verdade é que Camões, que viveu no séc. XVI, mantém uma actualidade impressionante, quer nos temas quer nas formas de escrita.
Quantos de nós já leram a sua obra lírica, isto é, os versos que escreveu para além dos Lusíadas? E, no entanto, muitos autores consideram-na com valor igual, ou até superior, à epopeia. Pela primeira vez na nossa literatura alguém escreveu sobre os sentimentos e as emoções com as palavras e a verdade psicológica que caracterizam o homem novo do mundo moderno. Sem descurar as formas tradicionais, importou novos modos de escrita que abriram portas a toda a literatura actual. Mesmo a epopeia – OS LUSÍADAS – foi inovadora, tendo atingido um nível nunca mais igualado em nenhuma outra literatura universal.
Peguemos em Camões, sem complexos. Há edições escolares de muita qualidade, que nos ajudam a entender melhor. Vale a pena re-descobrir o grande poeta que ele é.
Camões: que vida?
Por escassez de documentos, pouco se sabe, com rigor, da sua vida – de que sobra espaço para muitas lendas. Nasceu em 1524 ou 25. Morreu em 1580. Da baixa nobreza, conheceu dificuldades económicas, que o seu feitio perdulário agravava. Homem culto e homem de acção, viajou pelo Império Português do Oriente, sempre entalado entre a miséria e a consciência altiva da sua grandeza poética. Sepultado numa pequena igreja que o terramoto de 1755 destruiu, o provável pó de seus ossos foi guardado nos Jerónimos já no séc. XIX. O grande poeta Eugénio de Andrade interpretou assim a vida de Camões:
Nalgumas linhas da sua poesia, e sobretudo nas poucas cartas que indubitavelmente são dele, pode ler-se que, como português, encarnou até à medula toda a nossa condição: pobreza, vagabundagem, cadeia, desterro. «Erros», «má fortuna» e «amor ardente» se conjugaram para fazer daquele alto espírito do Maneirismo europeu uma das figuras mais desgraçadas da via-sacra nacional. Por «erros» talvez se possa entender um cristianíssimo arrependimento daquele marialvismo da sua juventude; a «má fortuna» não pode ter sido senão a de ter vivido num tempo em que «Portugal era uma casa sem luz em matéria de instrução», e se preparava fatidicamente para abandonar todas as suas guitarras nos campos de Alcácer Quibir; quanto ao «amor ardente» – não foi o próprio Camões que se mostrou dividido entre o límpido apelo dos sentidos e toda uma platonizante teoria de amor bebida em Petrarca e Santo Agostinho?
Assim começam OS LUSÍADAS:
As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valorosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
SONETOS DE CAMÕES
Transforma-se o amador na cousa amada,
Que não se muda já como soía.















































