14.2.08


NO QUARTO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO
PADRE ANTÓNIO VIEIRA: UMA VIDA PRODIGIOSA

Vida, obra e pensamento confundem-se numa dinâmica excepcional. Evocamos hoje este homem de palavra e de acção, que veio em Missão a Torres Vedras no ano de 1652, - onde pregou o “Sermão da Segunda-feira depois do Segundo Domingo da Quaresma” (Sermões, T. VI, 1690) e que foi contemporâneo do ilustre jesuíta torriense Padre Francisco Soares, o “Lusitano”.


António Vieira nasceu em Lisboa em 6/2/1608 e faleceu na Baía, Brasil, em18/7/1697. Foi missionário, pregador, diplomata e, sobretudo, cidadão interventor na vida social e política do seu tempo. Aos sete anos parte com a família para a Baía, no Brasil, onde o pai ia exercer a função de secretário da Governação. Estuda no colégio jesuíta da Baía e ingressa na Companhia de Jesus, recebendo ordens em 1635 e iniciando-se como pregador. Em 1641 integra a comitiva que vem a Lisboa para apresentar ao rei D. João IV a adesão da colónia brasileira à causa da Restauração. Impressionado pela sua inteligência, o monarca nomeia-o seu confessor e conselheiro, e encarrega-o de várias missões diplomáticas na Holanda e em Roma, com vista ao reconhecimento da independência restaurada. Afrontando interesses dominantes, aponta soluções para as dificuldades económicas do reino, como a criação de Companhias Comerciais, numa notável antecipação do que o Marquês de Pombal viria a fazer um século depois. Em 1652 regressou ao Brasil, dedicando-se à missionação, mas volta dois anos depois para obter protecção real para os índios. De novo em Lisboa, com a morte de D. João IV, seu protector, a Inquisição acusa-o de professar opiniões heréticas (1662-1667), é condenado ao silêncio e reclusão mas, com a subida ao trono de D. Pedro II, vê a sua pena levantada. Depois de novo e intenso período de trabalho como diplomata e pregador em Roma, volta a Portugal e, alguns anos depois, regressa definitivamente à Baía, onde morre com quase 90 anos de idade.
Uma vida plena! Havia atravessado sete vezes o Atlântico, em viagens perigosas e desconfortáveis. Percorrera milhares de quilómetros no interior do Brasil, em missionação, onde defrontou com enorme coragem a avidez dos colonos que escravizavam os índios. Visitara vários países da Europa no desempenho de melindrosas missões diplomáticas. Defrontara o mais temível poder da época, a Inquisição, conseguindo limitar a sua influência. Estudara e conhecera como poucos as Sagradas Escrituras, que utilizou em pregações que deslumbraram o mundo de então. E tivera tempo, ainda, de redigir uma obra vastíssima: cerca de duzentos sermões, mais de meio milhar de cartas, relatórios, representações, pareceres e outros documentos de carácter político e diplomático, além de várias obras de assuntos religiosos ou de visão profética fundada numa leitura muito pessoal da Bíblia. É o caso de “Esperanças de Portugal, quinto império do mundo…”, e da “História do Futuro”. Prodigiosa vida, esta!
MD


António Vieira, o «Imperador da Língua Portuguesa»

Recordo a resposta de José Saramago, num encontro em Torres Vedras, em Abril de 1983, a alguém que lhe perguntou qual o segredo da sua prosa: “Sigo o conselho de Camilo Castelo Branco: «caldinhos de Vieira»!”. O futuro Nobel da Literatura confessava, assim, a enorme admiração pelo grande prosador.
Fernando Pessoa, na “Mensagem”, chamou ao Padre António Vieira «Imperador da Língua Portuguesa». De facto, juntamente com Camões, Vieira é o grande alicerce da nossa Língua. Dois exemplos:


Textos do P. António Vieira:


Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura e informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição até a mais miúda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afia-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama, e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.
(Sermão de Domingo do Pentecostes)

Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros. Tão alheia coisa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer. Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.
(Sermão de Santo António aos Peixes)


Marcas de um Homem
«O dinamismo, como marca fundamental do seu perfil, torna-se também a marca inconfundível do seu estilo. O anticonvencionalismo faz dele o missionário que percorre quase descalço os sertões brasileiros com o mesmo à-vontade e o mesmo entusiasmo com que desempenha as suas funções de embaixador diplomático de Portugal em Paris, Haia, Londres e Roma. Esse anticonvencionalismo de acções e o desassombro de palavras é também o sinal de escândalo que o há-de levar, em efígie, às fogueiras da Inquisição. (…) A sua obra inscreve-se em três tópicos: a luta contra a escravatura; a consolidação da recém-recuperada independência política; utopia universal, corporizada no sonho do Quinto Império. (…) a obra de António Vieira é talvez um dos mais significativos testemunhos dessa transição, certamente dramática, do espírito do Renascimento para o espírito barroco, enredado numa nova angústia e numa nova maneira de estar no mundo. (…) Tem como referentes uma “certa utopia” e a missão social que ela assumirá.» (Maria Leonor Carvalho Buescu, in: Dicionário da Literatura Portuguesa, Ed. Presença, 1996)

22.1.08

VITORINO NEMÉSIO - Se bem nos lembramos...




Recordo o professor que fazia das aulas uma viagem assombrosa pelas avenidas da literatura. Referências caóticas, por vezes. Outras, de humor desconcertante. Expressivo como ninguém, emocionava-se com uma citação para logo se rir de uma piada cujo alcance só ele percebia.
No exame de Cultura Portuguesa não me fez perguntas. Esperou apenas que eu seguisse os seus raciocínios. Ele lá sabia quando um aluno estava por dentro da conversa. Ou não…Perguntas a sério fez-me depois o seu Assistente, prof. Machado Pires, enquanto Nemésio, enfastiado, pegava num livro. Mais do que nós, ele detestava exames.

Obra imensa - 19 títulos de poesia, 5 de ficção, 24 de biografias, crónicas, crítica literária, viagens, curiosidades… – expressão impressionante de pujança e variedade. Do talento multiforme de Nemésio dizia David Mourão-Ferreira que «daria, à vontade, para mais dez autores, e todos eles de primeira água”. Juntemos a isso o que ele fez na vida - professor universitário em França e na Bélgica antes de o ser na Faculdade de Letras de Lisboa durante 32 anos. E ainda: jornalista e comunicador assombroso: autor do “Se Bem Me Lembro”, inesquecíveis palestras na RTP entre os anos de 1969 e 75.
Na poesia afirmou um estilo singularíssimo: variedade de temas e formas; recriação dos ritmos populares numa visão do mundo que oscila entre a euforia da festa e a mais grave meditação espiritual; abordagem inesperada de motivos prosaicos transmutados em intuições filosóficas de grande alcance; lances imprevistos em versos estranhos. É um mundo!
Mas na prosa não se ficou por menos: a ele se deve uma das obras-primas do romance português moderno: Mau Tempo no Canal. Do universo insular da sua infância nos Açores, onde nasceu, Vitorino Nemésio ergueu um monumento literário sem paralelo na nossa literatura, e que se projectou em dimensão universal. Volto a citar D. Mourão-Ferreira: “ … nem há talvez obra romanesca mais complexa, mais variada, mais densa e mais subtil, em toda a nossa história literária.”
Eis, pois, um território que vale a pena desbravar: a belíssima obra escrita por Vitorino Nemésio.

VIDA E OBRA

Natural da Ilha Terceira, 19 de Dezembro de 1901. Primeiro livro – Canto Matinal – aos quinze anos. Colaborador nas revistas Presença e Seara Nova. Doutorou-se em Letras pela Universidade de Lisboa de pois de ter sido professor nas universidades de Montpellier e Bruxelas. Grande ligação ao Brasil, onde também deu aulas. A obra, marcada pela insularidade, aborda a condição humana numa inequívoca dimensão universal. Mau Tempo no Canal é a sua obra-prima, entre outras narrativas como Varanda de Pilatos, Paço do Milhafre e Quatro Prisões Debaixo de Armas. Na poesia, entre outros: O Bicho Harmonioso; Eu, Comovido a Oeste; Nem Toda a Noite a Vida; O Pão e a Culpa; Limite de Idade.
Morreu no dia 20 de Fevereiro de 1978. Faz agora trinta anos.




Indício Velado

Não toques, distância, no seu cabelo molhado;
Não lhe mexas. Rosto puro, às aguas posto e preso,
Uma imagem será o seu único peso,
Um pensamento o único beijo que me há dado.

Que o Índico persiga o indício velado;
Decore o Mar Vermelho o forte rosto aceso -
Mas não para morrer: para menos desprezo;
E eu próprio fique em meu amor atenuado.

Oh! platónico amor de ninguém e de alguma,
Espectro que criei e rodeei de lágrimas,
Vénus ainda ao longe no aro da minha espuma!

Imagem, força de vontade, imagem
Viva ou morta, não sei; imagem acre... mas
Verdadeira e suave, isso mais que nenhuma!


Praia da Vitória onde Nemésio nasceu
O CÃO ATÓMICO

1.
Este cão tem folhas nas orelhas,
com quatro talos
mas o que este cão deveria ter era calos,
e só tem olhos e ossos
e morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
quase o diria meu irmão
parece gente!

2.
Este cão é redondo. Está deitado,
rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,mas perdeu a alcateia
como os homens perderam a razão,
que hoje serve de osso ao cão
escapou ao cogumelo nuclear,
e por isso se foi deitar.



MORTE

Quando eu morrer, a terra aberta
Me beba de um trago
E esqueça.
Aos deuses minha oferta
É levar o que trago:
Eu, dos pés á cabeça.

Assim, com ervas altas,
Acabam os que começam.
Que Deus nos perdoe as faltas!
Dizem: «a terra que nos come»:
Eu digo: «a que nos bebe» – e basta.
Somos só água que se some:
Choveu – e fomos
Na vida gasta.


A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonhos e lixos.
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal e os santos esboroou nos nichos

E telhados de vidro e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa…Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra da memória.


NOMEIO O MUNDO

Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos,
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos.

Nomeei as coisas e fiquei contente:
Prendi a frase ao texto do universo.
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente,
Em cada pausa e pulsação, um verso.


Enchi de Oeste a minha vida,
Como se o Sol, que estira os peixes,
Me desse a terra percorrida,
O mar curvado e um não-me-deixes.

Sol fui no arco dos dias
E, pesado
Na minha luz, já mais do que o meu fogo,
Levei as ondas frias,
O vento e a vida logo.


Tudo levei, coroado de horizonte;
O amor queimei na tarde vaga,
Com uma ilha defronte.

Mas, queria, mais que o mar, bater
Ainda as praias carregadas
De passos, conchas e do haver
De aves livres lá pousadas
Que já não posso recolher.

E um ovo,
Nada mais que um ovo,
Num punhado de pó, entre juncais,
Que desse vida, penas, povo
Para as aragens e areais.


PRECE

Meu Deus, aqui me tens aflito e retirado,
Como quem deixa à porta o saco para o pão.
Enche-o do que quiseres. Estou firme e preparado.
O que for, assim seja, à tua mão.
Tua vontade se faça, a minha não.

Senhor, abre ainda mais meu lado ardente,
Do flanco de teu Filho, copiado.
Corre água, tempo e pus no sangue quente:
Outro bem não me é dado.
Tudo e sempre assim seja,
E não o que a alma tíbia só deseja.

Se te pedir piedade, dá-me lume a comer,
Que com pontas de fogo o podre se adormenta.
O teu perdão de pPai ainda não pode ser,
Mas lembre-te que é fraca a alma que aguenta:
Se é possível, desvia o fel do vaso:
Se não é, beberei. Não faças caso.

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VIAJAR OU ENVELHECER?

«Nesse ano quisera nas Vinhas todas as famílias amigas ― lanchas atrás de lanchas, o portão do pátio aberto para a charrette e com argolas para os burros. Tinham jantado na falsa por cima do barracão das canoas, por arrumar mais gente. A última vez que enfeitaram o bolo com rosas de que ela gostasse, as primeiras rosas de trepar do quintal do tio Mateus Dulmo. E camélias fechadas do Pico, como uns copinhos ... Vinte velas a arder diante do seu talher!
― Estás velha, hem?...
― Velha, não; mas enfim... o tempo não passa só para quem viajou muito como o tio. Quem me dera! ...
― Viajar ou envelhecer?
― Talvez as duas coisas...
Sentiu sede de se abrir toda ao tio, explicar aqueles dois pontos que ele isolara tão bem a rasto da recordação do seu dia de anos no Pico; mas não achou palavras sensatas, ou pelo menos capazes de serem ditas ali de selim a selim, nos campos tão bonitos. As culturas começavam a cobrir-se das primeiras flores singelas; os olhinhos das árvores abotoavam secretamente. O verde-negro dos pastos verde dos Açores, quente e húmido, emborralhava-se até longe. Os cavalos seguiam de cabeça comprida, fazendo vibrar de vez em quando as ventas. ... Envelhecer não seria; mas era deixar passar um grande espaço de tempo, como um troço de filme em branco, fechar os olhos ao peso daquela doçura da volta, tapar os ouvidos como quem teve um mau dia e chora ao meter-se na cama, moída, gasta... Na manhã seguinte acordar, mas passados uns anos, longe do Faial, ou noutro Faial só com o caminho à roda, o Pico em frente... gaivotas ... sem ninguém. O tio tinha dito: «viajar ou envelhecer?» Margarida gastara a resposta naquele silêncio e os olhos nas orelhas do cavalo. ».
(Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, Lisboa, IN-CM,1999 - excerto do cap. IX )

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Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados
. As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar


18.12.07

OS NATAIS DE MIGUEL TORGA




Casa de Miguel Torga em S. Martinho de Anta (Vila Real). Aqui passava o Natal, na casa – entretanto restaurada – onde vivera a infância



O ano de 2007 foi o do centenário do nascimento do grande prosador e poeta Miguel Torga. (1907 - 1995) ao qual já dedicámos esta página em Janeiro de 2006.
Assinalamos o fecho das comemorações dessa efeméride com uma pequena antologia dos versos escritos pelo poeta, entre 1937 e 1990, sobre o tema do Natal.
São vinte e cinco, ao longo dos seus Diários. Pena temos de não caberem aqui todos.
Escolhendo-os, homenageamos o homem de letras e desejamos Boas Festas aos nossos leitores.



HISTÓRIA ANTIGA (1937)

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher o mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.



NATAL (1948)

Devia ser neve humana
A que caía no mundo
Nessa noite de amargura
Que se foi fazendo doce…
Um frio que nos pedia
Calor irmão, nem que fosse
De bichos de estrebaria.



NATAL (1953)

Um Deus à nossa medida…
A fé sempre apetecida
De ver nascer um menino
Divino e habitual.
A transcendência à lareira
A receber da fogueira
Calor sobrenatural.


RETÁBULO (1954)

Estranho Menino Deus é o dum poeta!
O que nasce e renasce há muitos anos
Na minha noite de Natal, fingida,
Mal corresponde à imagem conhecida
Das sucursais do berço de Belém.
É uma criança tímida que vem
Visitar os meus sonhos, e, ao de leve,
Com mãos discretas, tece
Um poema de neve
Onde depois se deita e adormece.


NATAL (1962)

Um anjo imaginado,
Um anjo dialéctico, actual,
Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e oiro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breves como o vento
Que entra por uma fresta, quezilento,
Redemoinha e sai:

À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternamente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?


LOA (1969)

È nesta mesma lareira,
E aquecido ao mesmo lume,
Que confesso a minha inveja
De mortal
Sem remissão
Por esse dom natural,
Ou divina condição,
De renascer cada ano,
Nu, inocente e humano
Como a fé te imaginou,
Menino Jesus igual
Ao do Natal
Que passou.


.
NATAL (1974)

Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.


NATAL (1982)

Solstício de inverno.
Aqui estou novamente a festejá-lo
À fogueira dos meus antepassados
Das cavernas.
Neva-me na lembrança,
E sonho a primavera
Florida nos sentidos.
Consciente da fera
Que nesses tempos idos
Também era,
Imagino um segundo nascimento
Sobrenatural
Da minha humanidade.
Na humildade
Dum presépio ideal,
Emblematizo essa virtualidade.
E chamo-lhe Natal.


NATAL (1987)

Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.

Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.


NATAL (1988)

Menino Jesus feliz
Que não cresceste
Nestes oitenta anos!
Que não tiveste
Os desenganos
Que eu tive
De ser homem,
E continuas criança
Nos meus versos
De saudade
Do presépio
Em que também nasci,
E onde me vejo sempre igual a ti


ÚLTIMO NATAL (1990)

Menino Jesus, que nasces
Quando eu morro,
E trazes a paz
Que não levo,
O poema que te devo
Desde que te aninhei
No entendimento,
E nunca te paguei
A contento
Da devoção,
Mal entoado,
Aqui te fica mais uma vez
Aos pés,
Como um tição
Apagado,
Sem calor que os aqueça.
Com ele me desobrigo e desengano:
És divino, e eu sou humano,
Não há poesia em mim que te mereça.



20.11.07

MEMÓRIA


NOVEMBRO DE 1807: PRIMEIRA INVASÃO FRANCESA

O tempo corre, permanece a memória. Quem por aqui vivia, há 200 anos, enfrentou tempestades e sofrimentos de que ainda nos chegam os gritos.
Um exército estrangeiro invade e arruína, os mandantes caem de joelhos e fogem, o povo aturdido ensaia a resistência.

Estava-se em 1807. Napoleão varria a Europa central com a política do ferro e do fogo. Nada parecia resistir. Mas faltava-lhe aniquilar a Inglaterra. Esta, acantonada na ilha e dominadora dos mares, não se dobrava e tinha em Portugal um ancoradouro fiel.
Dominada a Espanha, o reduto português parecia alvo fácil. Escrevinha-se em Fontainebleau o vergonhoso tratado que retalha a nesga lusitana a distribuir pelos grifos da rapina. E um exército de 25 000 homens põe-se em marcha, atravessa a Espanha, irrompe pela Beira. Era já Novembro. Andoche Junot, General de Napoleão, sonha uma entrada de triunfo com remate memorável: prisão da família real portuguesa, domínio do território e suas gentes. Faltava chegar a Lisboa. Uma barreira formidável se lhe opõe: não de exércitos mas de tempestades torrenciais que inundam os poucos caminhos que por aqui havia e transformam a marcha do seu exército numa espantosa calamidade humana. Soldados – homens! – arrastam-se, devoram o que encontram, matam, saqueiam, sobrevivem na lama, , no frio, no dilúvio. Raul Brandão descreve com pinceladas impressionantes este drama que envolve invasores e invadidos.
Que fazem os chefes portugueses? Organizam a defesa? Uma testemunha da época diz que teriam bastado mil espingardas para deter Junot. Mas nem uma se lhe opôs. Ouro e pedras preciosas – os restos da rapina do Brasil – foram enviados em desespero para comprar a benevolência de Napoleão. De nada serviram. Diplomatas desdobraram-se em simulações grotescas: fingiam aos franceses que estavam contra os ingleses, imploravam aos ingleses que os defendessem dos franceses. Farsa de país desgovernado, sem exército, sem lei, sem rei. D. João VI, bom e ignorante homem, bronco, veado da rainha Carlota Joaquina que todos conheciam pela devassidão, matava moscas à palmada em pleno Conselho de Estado, sem perceber o alcance da solução que os ingleses impunham: fugir para o Brasil!
E quando percebeu, lá foi ele, de escantilhão, com mais 15 000 nobres, clérigos, juízes, militares, comerciantes, políticos, e mais as respectivas mulheres, e os servos, os criados, as bagagens. Indiferentes ao desespero do povo, safavam a pele. Tudo o que navegava foi tomado de assalto por esta horda amedrontada que uma nesga de temporal amainado permitiu sair do Tejo, direcção do Brasil. Junot e os 1 500 homens que sobraram da marcha forçada falharam a captura real por uma tira de horas. Foi nos dias finais de Novembro de 1807. Há 200 anos.
JMD


Primeira invasão francesa. Gravura da época


A marcha do exército francês

«A 18 de Novembro (1807), daí a poucas horas, calcam os franceses terra de Portugal. Lá em baixo agitam-se em vão, numa atmosfera de ridículo, a corte, os frades, os pregadores, os poetas, os ministros. Vem aí uma horda desordenada: a animalidade estreme, generais, histriões, o Caraffa com um barrete de algodão na cabeça, uma garrafa de caldo e uma seringa de clisteres suspensa dos coldres do cavalo, Loison agitando o coto furioso, Delaborde, este, aquele, e a turbamulta que desfila e irrompe como um esguicho humano de cóleras e paixões.
Chove sempre. Anos depois Thiébault (general de Napoleão) evoca com terror esses dias de espanto e classifica a marcha sobre Lisboa – de fome, esgotamento, dilúvio e causa inicial dos desastres do Império.
(…) Depois do exército vêm ainda os restos, a escumalha, a jolda: mulheres, judeus, bandos de traficantes, figuras sinistras, essência de pesadelo que forma, no último plano do quadro, a massa esboçada, e que por isso mesmo impressiona, como cotos de asa dum sonho disforme que a realidade tivesse partido… É parte deste inferno que avança sobre o país.»

( Raul Brandão, El-Rei Junot, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982. 1ª ed.:1912)



Um testemunho daquela época

« O horizonte político cada vez mais se enevoava. O ministério português e o Regente ( futuro D. João VI, pela mãe, D. Maria I, que havia enlouquecido), colocados entre duas forças, igualmente opressoras, que eram as de França e Inglaterra, não sabiam decidir-se, e pensavam que trapaceando, e ganhando tempo, impediam o golpe que se estava a descarregar sobre eles.. Junot à frente do exército francês entrava pelas nossas fronteiras, e já estava quase às portas de Lisboa, sem que os estúpidos governantes dessem fé da sua marcha. D. João, Príncipe Regente, toda a sua corte, e muito mais gente, que quis seguir-lhe a sorte, corriam espavoridos a meter-se nos navios como homens que, vendo a casa incendiada, saltam pelas janelas.(…) O Regente, fugindo, só teve boca para nomear uma Regência, e pedir aos portugueses, que cobardemente desamparava, recebessem como amigos os seus conquistadores; recomendação que ao depois serviu de título para perseguir os que a tinham cumprido!»
(Memórias da Vida de José Liberato Freire de Carvalho, Ed. Assírio & Alvim, 1982. 1ª ed.: 1855. O autor das memórias tinha 33 anos aquando da primeira invasão)



D. João VI e D. Carlota Joaquina

FUGA OU JOGADA ESTRATÉGICA?


A decisão de transferir a família real portuguesa para o Brasil, em 1807, ainda hoje é motivo de polémica. Para uns tratou-se de uma fuga cobarde. O rei deveria ter organizado a defesa e a resistência do país, arriscando a vida mas dando exemplo de coragem e patriotismo. Em vez disso abandonou-o à sua sorte com a agravante de ter incitado os portugueses a receberem o invasor como amigo e protector. Os defensores desta tese sublinham que o seu acto arrastou consigo toda a elite governante, deixando para trás um país entregue à lei da selva. Outra corrente de opinião entende que esta foi a decisão acertada, pois permitiu que se mantivesse a soberania portuguesa. Citam as memórias de Napoleão, escritas no exílio da Ilha de Santa Helena, nas quais ele refere que o rei português “foi o único que me enganou”. E acrescentou:” A Inglaterra pode assim continuar a guerra; os mercados da América meridional foram-lhe abertos; constituiu um exército na Península e daí passou a ser um agente de vitória, o elo poderoso de todas as intrigas que se formaram no Continente…Foi o que me perdeu.”
JMD


Monumento comemorativo da batalha do Vimeiro

A RESISTÊNCIA E O FIM DA 1ª INVASÃO

Na Primavera de 1808, revoltado pelas atrocidades cometidas pelo exército ocupante, de norte a sul do país o povo levanta-se contra os franceses. Entretanto os ingleses desembarcam um exército que inicia o confronto, em aliança com as forças portuguesas. Em Agosto desse ano os franceses são derrotados na Roliça e no Vimeiro. Em vez de explorarem a vitória, os vencedores deixam que Junot organize a defesa, acantonado nos pontos elevados do Oeste, perto de Torres Vedras. Entra-se num impasse militar que leva os oponentes a assinarem uma Convenção de paz. Vergonhosamente os ingleses permitem a retirada incondicional do exército francês, reconhecendo-lhe a propriedade das imensas riquezas saqueadas durante a permanência em Portugal. Caía o pano sobre a tragédia que assolou Portugal nos anos de 1807/1808.
JMD


Soldado português da época

25.10.07

O POETA DA NOITE INQUIETA






Carlos de Oliveira é um dos grandes escritores portugueses do século XX. “Noite Inquieta” – esse longo poema nocturno do encontro do homem com a sua frágil grandeza – resume um percurso de poeta e romancista únicos. Trabalhador incansável dos seus textos – que reescreveu obsessivamente, em busca da perfeição – deixou uma obra incomparável construída com rigor e exigência.





A NOITE INQUIETA

Só, em meu quarto, escrevo à luz do olvido;
deixai que escreva pela noite dentro:
sou um pouco de dia anoitecido
mas sou convosco a treva florescendo.

Por abismos de mitos e descrenças
venho de longe, nem eu sei de aonde;
sou a alegria humana que se esconde
num bicho de fábulas e crenças.

Deixai que conte pela noite fora
como a vigília é longa e desumana:
doira-me os versos já a luz da aurora,
terra da nova pátria que nos chama.
(...)
Sinto um rumor de tempo sobre as casas
e detenho-me um instante: que rumor?
são aves de tormenta? Ou são as asas
dum povo que passou o mar e a dor?
(...)

* * *

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.







NEVOEIRO

A cidade caía

casa a casa

do céu sobre as colinas,

construída de cima para baixo

por chuvas e neblinas,

encontrava

a outra cidade que subia

do chão com o luar

das janelas acesas

e no ar

o choque as destruía

silenciosamente,

de modo que se via

apenas a cidade inexistente.


* * *

Aço na forja dos dicionários
as palavras são feitas de aspereza:
o primeiro vestígio da beleza
é a cólera dos versos necessários.


* * *
SONETO

Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras.;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.



* * *


SONETO DA CHUVA

Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?
Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.
Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.


* * *

ELEGIA EM CHAMAS

Arde no lar o fogo antigo
do amor irreparável
e de súbito surge-me o teu rosto
entre chamas e pranto, vulnerável:

Como se os sonhos outra vez morressem
no lume da lembrança
e fosse dos teus olhos sem esperança
que as minhas lágrimas corressem.

* * *

SALMO

A vida
É o bago de uva
Macerado
Nos lagares do mundo
E aqui se diz
Para proveito dos que vivem
Que a dor
É vã
E o vinho
Breve.





Carlos de Oliveira: Vida e Obra

Reunida em 1200 páginas de papel bíblia pela Editorial Caminho em 1992, a obra de Carlos de Oliveira comporta os seguintes títulos:
Trabalho Poético, O Aprendiz de Feiticeiro, Casa na Duna, Pequenos Burgueses, Uma Abelha na Chuva e Finisterra: Paisagem e Povoamento.

A Editora Angelus Novus publicou em 1996 uma boa Antologia do Trabalho Poético, complementada com um excelente ensaio e notas diversas sobre Carlos de Oliveira.


Nota do Centro de Documentação de Autores Portugueses:

A reduzida extensão da obra de Carlos de Oliveira – «um palmo de estante», como escreveu Mário Dionísio – é inversamente proporcional à sua importância no panorama literário português do século XX. Poeta e romancista, mas também cronista, crítico e tradutor, despertou para a escrita no seio da geração dos neo-realistas, em Coimbra. Através de um sólido trabalho de depuração e perfeccionismo, desenvolveu um estilo e uma consciência poética ímpares, que lhe valeram unânime reconhecimento pelos seus contemporâneos.
Filho de emigrantes portugueses, Carlos Alberto Serra de Oliveira nasceu no Brasil, em Belém do Pará, a 10 de Agosto de 1921. No Brasil só viveu os dois primeiros anos de vida: em 1923, os seus pais regressam a Portugal, acabando por se fixar na região da Gândara, concelho de Cantanhede, mais precisamente na aldeia de Febres, onde seu pai exerceu medicina. Em 1933, Carlos de Oliveira parte para Coimbra, onde completa os estudos liceais e universitários, concluindo em 1947 a sua licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, com uma tese que denominou de Contribuição para uma estética neo-realista. No ano seguinte, o escritor ruma a Lisboa, onde passará a viver. Mantém colaborações esporádicas em vários jornais e revistas, e chega a tentar o ensino. A partir de 1972 dedica-se definitiva e exclusivamente à literatura. Morreu em 1981.


A arte e a personalidade deste autor foram profundamente marcadas por três vectores fundamentais: a sua infância num meio pobre, rural e isolado (a Gândara); uma perspectiva que, embora marxista na forma de ver a Economia como motor da História, não seria redutora, porque se manteve aberta a todos os aspectos da relação do homem com o mundo; e a ditadura e censura salazaristas. O primeiro ditou-lhe os alicerces geológicos da sua escrita, num cenário omnipresente, e referências pontuais ao imaginário infantil; o segundo permitiu-lhe não se circunscrever, apenas, à perspectiva neo-realista; o terceiro valeu-lhe ser caracterizado como «pessimista», mas uma análise mais profunda revela, antes, uma consciência da fatalidade por parte de um grande humanista. “




“Uma Abelha na Chuva”

É a leitura cinematográfica de Fernando Lopes do romance homónimo de Carlos de Oliveira, num filme que encena de forma admirável um Portugal rural, desencantado, sombrio e enclausurado, no final da década de 60, e que um crime brutal vem abalar. As paisagens desoladas, a impressionante fotografia e as inesquecíveis interpretações de Laura Soveral e João Guedes juntam-se numa obra de excelência do cinema português. Filme de 1971, é um marco histórico da cinematografia portuguesa.



1.10.07

INFORMAÇÃO AOS AMIGOS


Aos amigos que aqui vêm e estranham a falta de actualização do LUGAR ONDE, recordo: 
O meu blogue pessoal com entradas regulares é o AO RODAR DO TEMPO. Lá espero os meus amigos e aguardo as suas entradas/comentários/desabafos/etc.

Obrigado.

26.9.07

Página LUGAR ONDE - Setembro 2007


Falemos então de Camões

Neste começo de ano lectivo proponho uma visita a Luís de Camões.
Considerado o expoente máximo da nossa literatura, ele é posto sobre um pedestal e tão alto fica que mal lhe chegamos. Injustamente, muitos estudantes acham-no “uma seca”, porque são “obrigados” a ler o que lhes parece completamente fora de moda.
Mas e verdade é que Camões, que viveu no séc. XVI, mantém uma actualidade impressionante, quer nos temas quer nas formas de escrita.
Quantos de nós já leram a sua obra lírica, isto é, os versos que escreveu para além dos Lusíadas? E, no entanto, muitos autores consideram-na com valor igual, ou até superior, à epopeia. Pela primeira vez na nossa literatura alguém escreveu sobre os sentimentos e as emoções com as palavras e a verdade psicológica que caracterizam o homem novo do mundo moderno. Sem descurar as formas tradicionais, importou novos modos de escrita que abriram portas a toda a literatura actual. Mesmo a epopeia – OS LUSÍADAS – foi inovadora, tendo atingido um nível nunca mais igualado em nenhuma outra literatura universal.
Peguemos em Camões, sem complexos. Há edições escolares de muita qualidade, que nos ajudam a entender melhor. Vale a pena re-descobrir o grande poeta que ele é.


Camões: que vida?

Por escassez de documentos, pouco se sabe, com rigor, da sua vida – de que sobra espaço para muitas lendas. Nasceu em 1524 ou 25. Morreu em 1580. Da baixa nobreza, conheceu dificuldades económicas, que o seu feitio perdulário agravava. Homem culto e homem de acção, viajou pelo Império Português do Oriente, sempre entalado entre a miséria e a consciência altiva da sua grandeza poética. Sepultado numa pequena igreja que o terramoto de 1755 destruiu, o provável pó de seus ossos foi guardado nos Jerónimos já no séc. XIX. O grande poeta Eugénio de Andrade interpretou assim a vida de Camões:

Nalgumas linhas da sua poesia, e sobretudo nas poucas cartas que indubitavelmente são dele, pode ler-se que, como português, encarnou até à medula toda a nossa condição: pobreza, vagabundagem, cadeia, desterro. «Erros», «má fortuna» e «amor ardente» se conjugaram para fazer daquele alto espírito do Maneirismo europeu uma das figuras mais desgraçadas da via-sacra nacional. Por «erros» talvez se possa entender um cristianíssimo arrependimento daquele marialvismo da sua juventude; a «má fortuna» não pode ter sido senão a de ter vivido num tempo em que «Portugal era uma casa sem luz em matéria de instrução», e se preparava fatidicamente para abandonar todas as suas guitarras nos campos de Alcácer Quibir; quanto ao «amor ardente» – não foi o próprio Camões que se mostrou dividido entre o límpido apelo dos sentidos e toda uma platonizante teoria de amor bebida em Petrarca e Santo Agostinho?




Assim começam OS LUSÍADAS:

As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valorosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


SONETOS DE CAMÕES
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
*
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
*

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
*
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
*
Ao desconcerto do Mundo
Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

9.9.07

20.8.07

TANTO MAR


ACÇÃO E CONTEMPLAÇÃO

Nesga de território entalada entre a Galiza, Castela e o Atlântico, a terra portuguesa cresceu para sul, empurrando as gentes mouras. Mas ao sul também havia mar. Após três séculos de guerras ofensivas e defensivas com os povos a leste, aos portugueses do século XV impôs-se a aventura oceânica. Dramáticas e dolorosas conquistas no norte de África. Mas também viagens mar adentro em exploração planeada e científica.
Sobre o Portugal dos Descobrimentos escreveu Manuel Alegre: «Antes de ti o mar era mistério. / Tu mostraste que o mar era só mar./ Maior do que qualquer império / foi a aventura de partir e de chegar. ». Porém, a extensão do Império superou a capacidade de o realizar. Por isso Fernando Pessoa sublinhou: «Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. / Senhor, falta cumprir-se Portugal.»
O mar continua a fascinar os nossos olhos, contemplação e desejo de partir. Mas há quem porfie na acção de tirar dele sustento próprio e alheio, pesca de dores sem esperança.
Os poetas olham-no e escrevem. Olham e escrevem. São eles que dão voz à nossa contemplação.
Tanto mar!


Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso , ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor,
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa, Mensagem
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Mar sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen
In Cem Poemas de Sophia

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Epigrama

Há só mar no meu País
Não há terra que dê pão:
Mata-me de fome
A doce ilusão
De frutos como o sol.

Uma onda, outra onda
O ritmo das ondas me embalou.
Há só mar no meu País:
E é ele quem diz,
É ele quem sou.

Afonso Duarte ( 1884-1958)

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Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
-depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
Do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quando for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles, Viagem


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O céu, a terra, o vento sossegado…
As ondas que se estendem pela areia…
Os peixes que no mar o sono enfreia…
O nocturno silêncio repousado…

O pescador Aónio que, deitado
onde co o vento a água se meneia,
chorando, o nome amado em vão nomeia,
que não pode ser mais que nomeado.

“Ondas – dizia – antes que Amor me mate,
tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
me fizeste à morte estar sujeita”.

Ninguém responde; o mar de longe bate;
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.

Luís de Camões, Sonetos
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O MAR

Antes que o sonho (ou o terror) tecera
Mitologias e cosmogonias,
antes que o tempo se cunhasse em dias,
o mar, sempre o mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é o violento
e antigo ser que destrói os pilares
da terra, e é só um e muitos mares,
e abismo e resplendor e azar e vento?
Quem o olha vê-o pela vez primeira,
sempre. Com o assombro tal que as coisas
elementares deixam, as formosas
tardes, a lua, o fogo da fogueira.
Quem é o mar, quem sou? Sei-o no dia
que virá logo após minha agonia.


Jorge Luís Borges, in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro,
2ª ed., Assírio e Alvim, (trad. José Bento)


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PORES DO SOL

Se eu fosse pintor passava a minha vida a pintar o pôr do sol à beira-mar. Fazia cem telas, todas variadas, com tintas novas e imprevistas. É um espectáculo extraordinário.
Há-os em farfalhos, com largas pinceladas verdes. Há-os trágicos, quando as nuvens tomam todo o horizonte com um ar de ameaça, e outros doirados e verdes, com o crescente fino da lua no alto e do lado oposto a montanha enegrecida e compacta.
Tardes violetas, neste ar tão carregado de salitre que torna a boca pegajosa e amarga, e o mar violeta e doirado a molhar a areia e os alicerces dos velhos fortes abandonados…
Um poente desgrenhado, com nuvens negras lá no fundo, e uma luz sinistra. Ventania. Estratos monstruosos correm do norte. Sobre o mar fica um laivo esquecido que bóia nas águas – e não quer morrer…

Raul Brandão,in Os Pescadores,


ORLA MARÍTIMA

O tempo das suaves raparigas
É junto ao mar ao longo da avenida
Ao sol dos solitários dias de Dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de Agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
(...)



Ruy Belo, Todos os Poemas

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O MAR

Nascer…morrer…nada perguntes.
São simplesmente acontecimentos.
No meio, um mar tempestuoso.
E isto é o que sabemos.

No meio, um mar, sobre suas ondas
confiadamente naveguemos
deixando-nos levar, deixando-nos
levar…Nossas paixões são seus ventos.

Bem que de súbito se soltem
poderes que não conhecemos,
e se povoe nossa solidão
de promontórios de mistério,

siga a nave o seu caminho
real contra o incerto,
siga a vida, siga sempre, avance
tenaz seu rumo contra o pensamento.

Alfonso Costafreda, in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro,
2ª ed., Assírio e Alvim, (trad. José Bento)

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MAR INCERTO

Que triste o som acorda à minha voz !
Como é pálida a luz do meu espelho
e a desse rio azul que não tem foz :
o tempo, em que me vou fazendo velho.

Dias loucos da infância, onde estais vós?
E a alegria – esse cântico vermelho
do sangue virgem que não tem avós?
Como se chama a sombra em que ajoelho?

Arfa, cansado, no meu peito, um mar:
o mar remoto da remota Ilha
onde as sereias cantam ao luar.

A esteira dos navios, as gaivotas
gritam no céu, e o céu, lânguido, brilha
sem ecos de vitórias ou derrotas.


António de Sousa, in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro,
2ª ed., Assírio e Alvim



21.7.07

PÁGINA DE JULHO / A sair em 27



JOSÉ GOMES FERREIRA: HUMANO, DEMASIADO HUMANO!

Contra a passividade face ao desconcerto do mundo, pela fraternidade de todos os homens embarcados na viagem da vida – esta poesia é um grito constante. O seu autor via-se como “um caracol lírico a deixar rasto pelo século fora”.

Disse António Ramos Rosa:

«A voz poética de José Gomes Ferreira é dilacerante, profundamente angustiada, mas não sombria, não fúnebre, porque o poema é sempre um grito que de algum modo liberta e clarifica e limpa. No ímpeto deste grito, na sua fúria explosiva, a dor extrema volve-se na palavra libertadora que, sem transfigurar o negativo (pois que o expõe na sua nudez insuportável), transforma o trauma num princípio de vida e num poder inaugural. É este ímpeto que confere à poesia de José GF uma salubridade expressiva que transmuda toda a sua negatividade numa forma de afirmação vital e de insubordinação solar contra o mundo.»

“Grandezas e misérias, lágrimas e risos, gritos e sonhos, a luz do luar, a cintilação das estrelas, o sol flamejante, uma flor que desabrocha, aves que cortam livres o espaço, todos os elementos da sua linguagem poética conduzem-nos sempre à fantasia de construir uma verdade - a sua verdade – que projecta uma nova luz sobre os homens e o mundo do seu tempo. O poeta lúcido, por vezes duma lucidez insólita, adoptou esse vagabundear poético para dar testemunho, ou simplesmente para erguer na solidão o protesto do seu canto.” (Texto do editor em: Poesia V, Portugália Editora, 1973)



Breve biografia do autor

José Gomes Ferreira nasceu no Porto, no ano de 1900, mas viveu em Lisboa desde os quatro anos de idade. Licenciou-se em Direito em 1924, e passou por uma breve carreira diplomática, tendo trabalhado como Cônsul na Noruega. Regressado a Portugal, em 1930, dedicou-se ao jornalismo colaborando em publicações como a Presença, Seara Nova, Descobrimento, Imagem, e Gazeta Musical e de Todas as Artes. Afirmou-se como poeta com a publicação, em 1931, do poema "Viver sempre também cansa", cujo tema e tom de escrita marcaram desde logo o seu estilo inconfundível. Aproximou-se do ideário neo-realista sem, contudo, se circunscrever completamente a esta escola ideológico-estética.
Deixou uma obra vasta que as Publicações Dom Quixote coligiram na edição da Obra Completa, em 19 volumes, de crónicas, romance, textos autobiográficos e, sobretudo, poesia.
Foi presidente da ''Associação Portuguesa de Escritores'', eleito em 1979, associação que, em 1964, lhe tinha atribuído o Grande Prémio da Poesia com a sua obra "Poesia III.
Foi distinguido com as condecorações de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada e de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.
Em 1983 foi homenageado pela Sociedade Portuguesa de Autores. Viria a falecer dois anos depois.


POEMAS DE JOSÉ GOMES FERREIRA


A poesia não é um dialecto
para bocas irreais.
Nem o suor concreto
das palavras banais.

É talvez o sussurro daquele insecto
de que ninguém sabe os sinais.

Silêncio insurrecto.


*

Oh! esta comoção
de me sentir sozinho
no meio da multidão
- a ouvir o meu coração
no peito do vizinho.
Oh! esta solidão
quente como a camaradagem do vinho!


*

Poeta o que é?
Um homem que leva
o facho da treva
no fundo da mina
- mas apenas vê
o que não ilumina.


*

E se eu de súbito gritasse
nesta voz de lágrimas sem face!:

Eh! companheiros de plataforma
presos ao apagar do mesmo pavio!
Porque não nos amamos uns aos outros
e damos as mãos
- sim, as nossas mãos
onde apodrecem aranhas de bafio?

Eh! companheiros de plataforma!
(Não empurrem, Irmãos)


*

Chove...

Mas isso que importa!,
Se estou aqui abrigado nesta porta
A ouvir na chuva que cai do céu
Uma melodia de silêncio
Que ninguém mais ouve
Senão eu?

Chove...

Mas é do destino
De quem ama
Ouvir um violino
Até na lama.

***************************************

ARTISTAS TORRIENSES



“ARTE NO FEMININO – Quem é Quem na Pintura Portuguesa no Século XXI”
Afonso Almeida Brandão, ed. Produções Anifa Tajú, 2007

Chegou até nós este livro que faz uma panorâmica muito completa sobre o tema referido no título. Nele encontrámos a artista torriense, Maria Sofia Pereira. É uma inclusão muito justa pois destaca uma artista que se impôs como das mais importantes na pintura sobre porcelana, reconhecida em numerosas exposições individuais e colectivas. É muito conhecido o seu atelier em Torres Vedras que, desde 1983, produz peças de grande qualidade e onde convivem muitas pessoas que apreciam e cultivam esta arte.



*************************************


Leonor Brilha – que inaugurou recentemente a sua galeria “Espaço Ponto e Vírgula”, na R. Henriques Nogueira em Torres Vedras – expõe pintura na Galeria Periférica do Centro Cultural de Belém.
Sublinhamos este acontecimento porque ele significa o reconhecimento de uma artista que se tem vindo a impor no campo das artes. A exposição (After The Gold Master Pieces) reúne uma série impressionante de quadros onde rostos humanos são tratados de forma impiedosa, como que sublinhando o sentido trágico da vida. A não perder.

4.7.07

Contigo


Contigo aprendi
que algumas palavras
fazem mover os rios.
( Fernando J. Fabião )

30.6.07

FERNANDO ECHEVARRÍA premiado


Prémio D. Dinis, atribuído por um júri constituído por Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Fernando Pinto do Amaral, ao seu livro EPIFANIAS, editado em 2006.

O prémio será entregue em sessão solene, no dia 14 de Setembro de 2007, em sessão presidida pelo Presidente da República.

FERNANDO ECHEVARRÍA


Poeta, nascido em Cabezon de la Sal (Santander, Espanha), em 1929.Veio para Portugal aos dois anos, regressando mais tarde a Espanha, onde estudou Filosofia e Teologia. Regressa a Portugal em 1953, e vive a partir de 1961 exilado em Paris e Argel. Regressa a Paris em 1966, aí passando a residir com permanência, dedicando-se à actividade do ensino; actualmente faz demoradas estadas no nosso país.

A sua poesia começa a afirmar-se nos finais dos anos 50 e é marcada inicialmente por uma certa propensão barroca, a que uma grande concentração de imagens e metáforas dará uma especial consistência. Depois - sem que esta primeira característica desapareça totalmente - a sua poesia tende para o que será a rarefacção elíptica, o isolamento vocabular, a compressão e a suspensão. Quanto a este aspecto antecipa, pelo modo como uma maior discursividade é recusada, uma certa tendência da nossa poesia da década de 60. Mas é noutra direcção que a obra poética de Fernando Echevarría se orienta: o sentido muito especial de abstracção que há nos seus poemas não colide com uma intensificação simbólica, muitas vezes derivada de uma retícula de ordem ambiguamente filosófica que lhes é sobreposta e que os títulos de alguns dos seus livros apontam ou sugerem.

A atenção prestada aos diversos aspectos da realidade - frutos, árvores, utensílios, etc. - pressupõe que a poesia é também um original exercício de conhecimento que se traduz numa mais funda "independência de se estar a ser". Outra característica marcante desta poesia está na circunstância de tender a constituir-se em torno de uma unidade, cujo limite seria a própria presença do livro entendido como uma realidade abstractamente integrativa, o que, inclusivamente, se pode revelar na própria forma como reorganizou e ordenou as suas primeiras obras em Poesias: 1956-1979 (1989). Nos anos cinquenta colaborou em revistas como Graal.

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998


BIBLIOGRAFIA ACTIVA


Entre Dois Anjos (Poesia), 1956

Tréguas para o Amor (Poesia), 1958

Sobre as Horas (Poesia), 1963

Ritmo Real (Poesia), 1971

A Base e o Timbre (Poesia), 1974

Media Vita (Poesia), 1979

Introdução à Filosofia (Poesia), 1981

Fenomenologia (Poesia), 1984

Figuras (Poesia), 1984 ; 1987

Poesia: 1956-1979 (Poesia), 1989

Livro, poema com texto impresso em serigrafia no Atelier 87 em Paris e com 8 litografias de Jorge de Sousa executadas pelo mesmo à mão. edição de 40 ex. em vélin de rives bfk (Poesia), 1991

Sobre os Mortos (Poesia), 1991

Poesia: 1980-1984 (Poesia), 1993

Uso de Penumbra (Poesia), 1995

Geórgicas (Poesia), 1998

Poesia: 1959-1980 (Poesia), 2000

Poesia: 1987-1991 (Poesia), 2001

Epifanias (Poesia), 2006

Obra inacabada
(Poesia), 2006

28.6.07

SEI


Os rios não decidem as suas pontes
Nem os moinhos decidem o vento
Os ramos não decidem os seus ninhos.
____________________________________________
Sei que o mar fecha as ondas sobre os búzios e que, estes postos nos ouvidos, as ondas voltam devagar. Sei que no interior do corpo se desdobram e que só olhos os podem libertar.
Daniel Faria ( 1971 - 1999 )

26.6.07

Georges Moustaki - Humblement il est venu

Canções eternas.
...e resistência à ditadura musical anglo-saxónica!

O LABIRINTO DO FAUNO


Uma metáfora poderosa sobre a medonha Guerra Civil? Toda a Espanha?
Uma mistura de fábula, conto de fadas, História.
Um filme que me agarrou pouco a pouco e, no final, me deixou comovido.
Procurei informação sobre o filme e ENCONTREI AQUI

24.6.07

TEU NOME

Daniel Filipe
Autor do inesquecível poema A INVENÇÃO DO AMOR, grito inconformista e libertário.
Recordo hoje o soneto que Mário Viegas dizia com tanta seriedade e ressonâncias de sentido na sua voz calma. Daniel Filipe deixou outros poemas muito belos. Os livros são fáceis de encontrar, na colecçãoForma da Ed. Presença.





Teu nome, teu disfarce, tua ausência
do círculo familiar, a tua viagem,
tua febre, tua recusa e anuência
teu estar connosco e, entanto, à nossa margem.

Teu corpo, teu sentido, tua luta,
teus olhos fundos, teu perfil estranho,
teu quarto, teu refúgio, cela, gruta,
teu gado fugidio, teu amanho.

Teu riso inesperado, teu mistério,
teu sereno dormir, tua lembrança,
teu não acreditar no Quinto Império,

teu vivo exemplo, tua confiança,
teu sílex interior, teu rosto sério,
teu modo de ensinar-nos a esperança.

Daniel Filipe


Em 1925 nasceu Daniel Damásio Ascensão Filipe na ilha da Boavista, em Cabo Verde. Ainda criança, veio para Portugal onde fez os estudos liceais. Poeta, foi colaborador nas revistas Seara Nova e Távola Redonda, entre outras publicações literárias. Combateu a ditadura salazarista, sendo perseguido e torturado pela PIDE. Num curto espaço de tempo, a sua poesia evoluiu desde a temática africana aos valores neo-realistas e a um intimismo original que versa o indivíduo e a cidade, o amor e a solidão. Faleceu em 1964 em Cabo Verde.

Jornalista e poeta. Co-director dos cadernos “Notícias do Bloqueio”, colaborou também assiduamente na revista “Távola Redonda” e realizou, na Emissora Nacional, o programa literário “Voz do Império”. Daniel Filipe iniciou a sua actividade literária em 1946 com Missiva, seguindo-se Marinheiro em Terra (1949), O Viageiro Solitário (1951), Recado para a Amiga Distante (1956), A Ilha e a Solidão (1957) – Prémio Camilo Pessanha; o romance O Manuscrito na Garrafa (1960), A Invenção do Amor (1961) e Pátria, Lugar de Exílio (1963). O amor e a solidão, o indivíduo e a cidade recortam-se nos seus versos com acentos originais, fluentes e por vezes inesquecíveis.