19.5.09

PEDRO TAMEN E A SUA OFICINA DE PALAVRAS



PEDRO TAMEN: 50 ANOS DE TRABALHO POÉTICO

Toda a vida tem trabalhado com as palavras. Formado em Direito, foi jornalista, professor, director da Editora Moraes, colaborador da revista “O Tempo e O Modo”, administrador da Gulbenkian. Sempre escreveu e publicou poesia, reunida sob o título “Retábulo das Matérias”. É um dos nossos melhores tradutores, numa actividade que ele considera um exercício mental necessário para apurar a escrita própria – quando se reformou, em 2002, lançou-se à tradução do esplendoroso romance em sete volumes, de Marcel Proust, “Em Busca do Tempo Perdido, um trabalho que veio a ser reconhecido como de altíssima qualidade.
Em cinquenta anos de criação poética Pedro Tamen conseguiu uma enorme variedade e diversidade de temas, de ritmos e de processos. Há quem o acuse de escrever uma “poesia difícil”, mas essa é uma acusação comum a todas as grandes realizações literárias, como o sabem os leitores mais atentos. A qualidade normalmente é exigente, pede disponibilidade e não se dá com o preconceito. A recompensa vem depois, quando as cortinas do nosso entendimento se entreabrem para espaços inesperadamente luminosos. Pegue o leitor nos escritos deste grande poeta contemporâneo e veja lá se não temos razão.


POESIA: PODE ISTO INTERESSAR A ALGUÉM?

Percebo a tua dúvida, meu amigo! Nos tempos que correm parece uma futilidade falar/escrever sobre poesia, ainda para mais numa página de jornal… Quando há desemprego, criminalidade, medicamentos caros e pensões baratas, a grande crise!
Mas é por isso mesmo! Calma, não se trata de “trazer a beleza das palavras à fealdade da vida”, porque poesia não é isso, não é fugir para as nuvens, escolher o sonho, pairar sobre a realidade.
A verdade é que a linguagem nunca foi tão importante como é hoje, porque nunca tantos tiveram tanto acesso a ela, como hoje. É esta evidência que torna a arte poética cada vez mais actual e necessária. Perguntas porquê? Repara: os políticos, os professores, os advogados, os profissionais da publicidade, os jornalistas, os escritores, os ministros da religião, todos fazem da linguagem o grande veículo que une ou desune os homens. Ora a poesia é a realização mais avançada da linguagem humana porque explora todas as suas potencialidades: sentidos, sons, ritmos, ambiguidade, rigor, experimentalismo, transgressão. As grandes realizações de uma língua são as dos poetas que usam a palavra em toda a sua dimensão humana e a elevam à condição de arte.
Já vês porque insisto em trazer a poesia para aqui. Ler os poetas, mergulhar na complexidade dos seus versos, deixar-se conduzir pelas múltiplas veredas dos sentidos que nos propõem, descobrir ressonâncias interiores que nos sugerem, eis a aventura que melhor nos prepara para o entendimento do mundo em que vivemos.



POESIA DE PEDRO TAMEN:


“Escrevo com a volúpia de esquadrinhar os múltiplos sentidos de cada palavra, do ponto de vista sonoro e semântico”

1.
Adiro à tua mão como ter nome,
como ter medo e osso de ser homem.
Nas noites, essas luzes que me comem
são os olhos fechados desta fome.

Alicio a cidade como em jura,
ou exorcismo, ou esbracejar quieto.
Respiras baixo e tomas-me desperto
dos anos de silêncio e de secura.

Quando não falas falas, e conheces
as palavras que digo e não digo.
No teu gesto de lar em que me aqueces

são as ilhas achadas; e prossigo
a viagem sozinho, em que te esqueces
de mim, amor, teu nado-vivo amigo.

2.
Formado em direito e solidão,
às escuras te busco enquanto a chuva brilha.
É verdade que olhas, é verdade que dizes.
Que todos temos medo e água pura.

A que deuses te devo, se te devo,
que espanto é este, se há razão para ele?
Como te busco então se estás aqui,
ou, se não estás, porque te quero tida?
Quais olhos e qual noite?
Aquela
em que estiveste por me dizeres o nome.

3.
Por me dizeres o nome nascem fontes
noutro lugar do dia e verdadeiro.

E as ilhas são irmos para elas,
são montes de silêncio e liberdade
que levamos na boca e em segredo
nos nossos dedos cegos e cientes.

No fundo, não procuro nem procuras;
é na viagem mesma que nos temos.


BOCAGE

Já não sou. Já não serei
se fui. Agora à cova
além dos ossos e caroços
muito mais descerá..
O verso, o riso, o vinho,
a mão ladina sobre a carne morna,
tantas coisas sentidas, ressentidas,
intenções, bolandas, entreactos,
entradas por saídas, choros finos:
muito mais descerá.

Não sou, é certo, e não serei,
mas no descer de tudo
já nem fui.



OS NAUTAS

Quando até sobre o tarde navegavam

a luz que dentro vinha sobrepunha

a lantejoula aguda de outro sol

ao passo opaco, idêntico, cercando

os braços intranquilos, a surpresa

que só de pressentida lhes doía.


Ao frio sal que sob os pés sentiam

e à escuridão mais fundo, ao sonolento

e bruto som da corda e da madeira,

às dores de fome e ao gemido fraco

duma saudade parda, à solidão

sem espelho, à gula insaciada, ao medo


— a tudo combatia uma paixão

neles tão nova, nevoenta outrora,

qual a de ver, de ver de olhos abertos

até sentir no roçagar dos dedos,

a mínima paisagem, mais total

que os montes lerdos, pátrios e trocados:



a crispação da vela, o peixe lento

de súbito surgindo, ignotas flores,

cores purulentas, vasto e escasso espaço

para estrídulos pássaros abertos

e outra vida mor,e ainda bruma

que não sabem se é deste ou doutro sonho.

8.5.09

LUGAR ONDE - ABRIL 2009


VALEU A PENA?
Carta a um jovem da geração traída *

Pego no teu livro, meu caro Luís, e sinto a boca seca apesar da leitura silenciosa que faço dos teus versos: “Sou apenas mais um daqueles / de quem se poderá dizer /que pertencem / a uma geração traída.”Vi-te crescer por entre os nossos comícios e sessões de esclarecimento, as eleições primeiras para essa novidade absoluta que eram as autarquias nas mãos do povo ou as intermináveis reuniões das comissões de moradores. Tínhamos a ilusão de construir um mundo novo sobre as ruínas de um Estado Velho que nos empurrara para o beco do «orgulhosamente sós» da guerra colonial, esse absurdo histórico. Provavelmente não nos preocupámos muito contigo, ocupados que estávamos em te garantir a herança de um país bem diferente, radicalmente melhor, onde tu fosses, finalmente, feliz!Mas, trinta e cinco anos depois, leio o teu profundo desencanto:«E aqui onde me encontro, / onde nos encontramos, / eu e a minha geração, / sabemos agora que tudo isso valeu nada / porque sentimos / exactamente / as mesmas dores / as mesmas balas / mas em forma de / desemprego / salário mínimo nacional / emprego desqualificado / & etc e tal.»Procuro consolar-te com a LIBERDADE em que vives, que nós não tínhamos antes daquele ano de 1974. E recebo em pleno rosto o teu desabafo, irónico e tão doloroso:«Fizeram-nos infelizes / ou felizes sem razão / fizeram-nos fanáticos da bola / ignorantes da filosofia / sem partido / sem religião / sem entrada / e / sem saída profissional. / Agora casamo-nos / e divorciamo-nos/ rapidamente. // Tudo é uma questão / de margem de lucro.»Deixa-me que te diga, meu jovem Luís: nós não traímos a tua geração! Naqueles anos 74/75, acreditámos ingenuamente num futuro melhor para nós e para ti. Não sabíamos ainda que os exércitos marcham à velocidade dos mais lentos ou dos mais manhosos e calculistas. Os capitães que partiram as grades não quiseram parecer interesseiros e entregaram as chaves aos velhos carcereiros. E agora, que é de novo madrugada e o calendário diz que passam 35 anos depois daquele memorável 25, vemos passar na rua um jaime general enquanto todos os salgueiros maias vivem em presídios bolorentos. Os chefes desta república bebem, outra vez, o sangue fresco da manada e o povo, desiludido, deixou de gritar que “jamais será vencido”.Sim, Luís, ainda há quem acredite que o 25 de Abril valeu a pena. Mas muitos limitam-se a verificar que ganharam a liberdade mas perderam a segurança – trucidados pela eterna oposição entre esses dois pólos da vida humana!Agora, que se faz tarde para mim, quero acreditar em ti e na tua geração. Que vocês não vão ficar aí parados a gemer queixumes. Que têm uma palavra a dizer, uma carta a jogar, um país a refazer. Eu sei que não são fáceis as madrugadas redentoras. Mas ainda acredito, ainda acredito. Porque sem esperança a História é uma engrenagem sem sentido.
* A partir do livro A Cabeça de Fernando Pessoa, de Luís Filipe Cristóvão. O autor nasceu em 1979. Edição Ardósia, S/L, 2009.
Cartaz de Sebastião Rodrigues, 1977




O REI DE ÍTACA

A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão
Ulisses, rei de Ítaca, carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado.




REVOLUÇÃO - DESCOBRIMENTO

Revolução isto é: descobrimento
Mundo recomeçado a partir da praia pura
Como poema a partir da página em branco
- Catarsis emergir verdade exposta
Tempo terrestre a perguntar seu rosto.




25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
o dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substãncia do tempo.



OS ERROS
A confusão a fraude, os erros cometidos
A transparência perdida - o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos.

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado e abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso na esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?

POEMAS DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESSEN, 1974/75

29.3.09

MIA COUTO




[Página LUGAR ONDE, jornal Badaladas, 20 de Março de 2009)

ESCREVIVÊNCIAS NA FRONTEIRA DE DOIS MUNDOS


O que se nota numa primeira leitura de Mia Couto é a capacidade para inventar ou adaptar palavras. Efeito de surpresa que é depois suplantado pela descoberta da sua mestria em contar histórias. Contudo, estas impressões iniciais não explicam, só por si, a extraordinária projecção de Mia Couto como escritor.
O que o torna um grande escritor da Língua Portuguesa, para além das características apontadas, é o que poderemos chamar a sua “escrevivência”: Mia Couto exprime admiravelmente pela palavra a situação original de um branco, filho de portugueses, que nasceu em África e fez dela seu berço, sua pátria e seu destino. Para o bem e para o mal. Primeiro como militante da Frelimo quando havia PIDE e guerra colonial; depois como construtor da independência na Cultura e na Ciência. Na escrita percebeu desde cedo que o caminho teria de ser o da inovação, na rota do que já faziam grandes escritores brasileiros como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos ou Luandino Vieira em Angola. Inovação que significa “necessidade de desarranjar aquela norma gramatical, para deixar passar aquilo que era a luz de Moçambique, uma cultura de raiz africana” (entrevista à revista brasileira ISTOÉ, 2007).
Noutra ocasião Mia Couto afirmou:”A escrita que eu faço está na fronteira entre a prosa e a poesia. A poesia, mais do que uma técnica da escrita, mais do que um género literário, é uma visão do mundo, para mim é uma filosofia.” (Revista LER, Verão 2002). Ora, a poesia - sabemo-lo bem - transgride e supera, transforma e recria, é veículo privilegiado para o novo e o indizível. É na superação destas fronteiras – Europa / África; prosa / poesia - que se plasma a sua obra. Tão importante como o que se diz, é o modo de o dizer, pelo que não se pode usar o Português clássico como veículo de culturas tão diferentes. Há que o recriar e nisso a Língua de Camões mostra uma versatilidade espantosa. A comprová-lo, mais ma vez, aí está a obra fulgurante de Mia Couto.



PERCURSO

Filho de pais portugueses que fizeram vida em Moçambique, Mia Couto nasceu, vive e trabalha naquele território, sua pátria na luta que partilhou pela libertação e na construção do novo país independente. Foi jornalista. Formado em Biologia, dedica-se a projectos de defesa ecológica e preservação dos últimos santuários naturais daquele país. Escritor, está traduzido em diversas línguas. Entre outros prémios e distinções, foi galardoado, pelo conjunto da sua obra, com o Prémio Virgílio Ferreira; e com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas, em 2007. Ainda nesse ano recebeu o Prémio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura. Foi escolhido para ocupar, como Sócio Correspondente, a Cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Letras.
Mia Couto tem 22 títulos publicados, abarcando poesia, crónica, contos e romance. Terra Sonâmbula, 9ª ed. em 2008, é considerada um dos 12 melhores livros africanos do século XX. Outros títulos conhecidos: Vozes Anoitecidas; Cada Homem é uma Raça; Estórias Abensonhadas; A Varanda do Frangipani; Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra; O Outro Pé da Sereia;Raiz de Orvalho e Outros Poemas; Venenos de Deus, Remédios do Diabo.

MIA COUTO POR ELE MESMO

«Não sou niilista, acredito que as respostas para os assuntos sérios podem ser encontradas também naquilo que faço nos meus livros, nesta brincriação, neste desafio aos sistemas de pensamento que até agora usámos e pelos quais fomos usados. Temos que inventar outros sistemas de pensar, autorizarmo-nos a pensar em poesia. Aquilo que faço é também a experimentação do próprio pensamento, dos modelos de pensamento, é uma ligação a esses universos para os quais não existe idioma. Para dar expressão a esses universos invisíveis é preciso criar mais do que palavras, é preciso criar um outro idioma.» [Entrevista ao jornal PÚBLICO, 15 Junho 1996]

SONO COLOQUIAL


Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.

Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço

Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.

(Do livro
“Idades/cidades/divindades”, 2007)

[Entrevista à revista brasileira, 26 Julho 2007]

Revista ISTOÉ – Quando e por que começou a inventar palavras? Couto – É uma coisa que me acontece, meus pais sempre lembram disso, desde menino – uma certa desobediência em relação àquilo que era norma. Começa pelo meu próprio nome. Nasci António e, quando tinha dois anos e meio, decidi que queria me chamar Mia, pela relação de afecto que tinha com os gatos. Eu pensava que era um deles (risos). Mais tarde, a poesia foi uma escola de desobediência, de transgressão. E havia uma outra condição: o português de Moçambique, sendo o mesmo do de Portugal, não fala àquela cultura. Senti desde sempre a necessidade de desarranjar aquela norma gramatical, para deixar passar aquilo que era a luz de Moçambique, uma cultura de raiz africana. A descoberta dos escritores brasileiros foi uma felicidade imensa para mim, pois eles já estavam fazendo isso: usando a língua portuguesa, mas com uma outra marca cultural.


O FORASTEIRO

«Era um lugar que ficava para além de todas as viagens. Por ali só o vento passeava, aguamente. Naquele solitário chão há muito que o tempo envelhecera, avô de outroras.
Certa vez, porém, passou por ali um forasteiro. Era homem sem retrato nem versões. Se muito chegou, mais ficou. Todos receavam o medonhável intruso, o irreputado intromissionário. Nos olhos dele, em verdade, não aparecia nenhuma alma, parecia o cego espreitando fora das órbitas.
Quando as tardes se inclinavam, ele se aproximava da aldeia em busca de coisa que só ele sabia. Os aldeantes se perguntavam:
- Mas esse homem: de onde veio, quem é o nome dele?
Ninguém sabia. Ele aparecera sem notícia. Chegara em Fevereiro, disso se lembravam. O mês já se molhava, de água plantada. O estranho trazia um cão, seus passos se uniam um a dois. Homem e bicho multipingavam. Foram atravessando a terra matopada mas quando mais iam menos se afastavam. Quando desapareceram, além-árvores, a chuva parou, em súbito desmaio. Todos entenderam, todos se inquietaram.» (…)
[ Início do conto “A lenda da noiva e do forasteiro”, do livro Cada Homem é Uma Raça]

20.2.09

CHARLES DARWIN: UMA NOVA VISÃO DA VIDA




«Há grandiosidade nesta visão da vida, com os seus diversos poderes originalmente concentrados num pequeno conjunto de formas ou mesmo numa única forma. Enquanto este planeta continuava a girar de acordo com as leis fixas da gravidade, uma quantidade infinita de formas tão belas e admiráveis emergia de um começo tão simples, evoluía e continua, ainda hoje, a evoluir.»

(frases finais de A Origem das Espécies, C. Darwin)


“A Origem das Espécies”, publicado há 150 anos, é um dos grandes livros da Humanidade. Não é preciso ser-se cientista ou erudito para o ler e entender. As Publicações Europa-América editaram-no em 2005, com pequenos textos introdutórios e um vocabulário final, muito úteis. Vale a pena mergulhar nele para compreendermos melhor o mundo em que vivemos.
As grandes descobertas científicas normalmente desmentem o chamado “senso comum”. Parece que é o Sol que anda à volta da Terra – até que Galileu mostrou que era ao contrário. Parece que a Natureza é e sempre foi como a conhecemos – até que Darwin demonstrou que os nossos sentidos nos enganam: tudo muda (ideia que já era admitida no tempo dele), mas segundo um mecanismo que ninguém sabia qual era e que ele descobriu, após muitos anos de estudo: a “selecção natural”, uma ideia que, afinal, é bem simples. Parte de duas premissas: 1 - a quantidade de alimento disponível é normalmente inferior aos seres existentes; 2 - o meio ambiente altera-se devido a factores diversos. Consequência: os seres com mais hipóteses de sobrevivência são os que têm alguma característica vantajosa sobre os outros, e que lhes permite adaptarem-se melhor às condições envolventes. Essas características são transmitidas por hereditariedade. É este processo que, ao longo de períodos muito extensos de tempo, acaba por dar origem à evolução dos seres vivos, que têm origem comum.
Porque é que ninguém se lembrara disto antes? Darwin só lá chegou porque observou no terreno a correcção das novas teorias geológicas de Charles Lyell, seu contemporâneo. E estas teorias apontavam para uma idade da Terra que excedia em muitos milhões de anos o que até aí era admitido e que é condição necessária para a “selecção natural” – processo biológico que atravessa milhares de gerações.
Tal como já acontecera dois séculos antes com Galileu, as ideias de Darwin colidiam com leituras e interpretações simplistas da Bíblia. Daí o seu repúdio na época em que surgiram, manifestado ainda hoje em alguns meios conservadores dos Estados Unidos da América. Fenómenos de ignorância, que o são por teimarem em negar a Ciência e não quererem conhecer as circunstâncias históricas das religiões.



A GRANDE VIAGEM


De 27 de Dezembro de 1831 a 2 de Outubro de 1836 Darwin fez a que foi talvez a viagem mais produtiva de toda a história da Ciência. Percurso: Plymouth (Inglaterra), Canárias, Cabo Verde, Brasil, Argentina, Chile, Ilhas Galápagos (no O. Pacífico), Austrália, O, Índico, África do Sul, Brasil, Açores e de novo Plymouth.




Recolheu milhares de amostras zoológicas, botânicas e minerais e escreveu milhares de páginas de anotações. Recolheu também informações sociais, políticas e antropológicas sobre os povos visitados. Observou in loco muitas espécies até aí desconhecidas.
A ideia de transformação das espécies já fora defendida antes dele, sem apoio experimental, e gerara grandes polémicas. Darwin estava consciente das dificuldades da tarefa. Por isso, depois desta viagem, recolheu-se em longo estudo, adiando a publicação da tese, avesso aos confrontos inevitáveis perante reacções desfavoráveis, inclusive da mulher que amava, uma crente fervorosa. Utilizou pela primeira vez, de forma sistemática, o método hipotético-dedutivo, em que uma hipótese é testada, determinando se as deduções dela obtidas são corroboradas pela observação ou outras formas de escrutínio. Só decidiu publicar os resultados quando, por circunstâncias externas, verificou que já não era possível adiar mais.
Já no século XX as descobertas da biologia em geral, e da genética em particular, vieram corroborar as conclusões de Darwin.
A propósito desta viagem, escreveu Venerando de Matos no seu blogue PEDRAS ROLANTES (
http://venerandomatos.blogspot.com/) :


Qual seria o jovem cientista dos nossos dias que se proporia a fazer uma volta ao mundo durante cinco anos, sujeitando-se às mais duras condições de sobrevivência, como o fez Darwin em 1836, com 22 anos, a bordo do navio da Real Marinha Britânica HMS Beagle?
E quem seria o jovem cientista que, sem se preocupar com o êxito fácil imediato e mediático, se submeteria a esperar quase mais vinte anos para publicar a sua obra fundamental e desafiar os dogmas estabelecidos?
É esse espírito de aventura, de curiosidade e de paixão permanente pelo conhecimento que é, quanto a mim, o grande exemplo da vida de Darwin.


VIDA DE DARWIN


1809 (12 Fev) – nasce em Shrewsbury, Oeste da Inglaterra.
1827 a 1831 - Estuda Teologia na Universidade de Cambridge, depois de frequentar Medicina para a qual não se considerou vocacionado.
1831 a 1836 – Longa viagem de circum-navegação da Terra a bordo do barco Beagle, como cientista.
1837 – Casado, instala-se perto de Londres. Faz inúmeros estudos de botânica, zoologia e geologia. Tem dez filhos. A herança de família permite-lhe o sustento e a dedicação total ao trabalho de investigação.
1859 – Publicação do livro A Origem das Espécies, que abala o mundo.
1864 – Condecorado com a mais alta distinção científica, a medalha da Royal Society de Londres.
1882 (19 Abr) – Morre e é enterrado com honras oficiais na Abadia de Westminster, o panteão nacional inglês.





A IGREJA E DARWIN


O debate sobre a teoria da evolução é cada vez mais forte, tanto no âmbito cristão como no estritamente evolucionista, e cientistas, filósofos e teólogos cristãos estão directamente envolvidos no debate. Mais uma vez uma autoridade da Santa Sé declara que a Igreja aceita a teoria da evolução, desde que guiada por Deus. Desta vez foi o presidente do Conselho Pontifício para a Cultura e também presidente da Comissão Pontifícia para os Bens Culturais da Igreja, arcebispo Gianfranco Ravasi quem se manifestou, no 17 de setembro de 2008 (
ZENIT.org).
Dom Ravasi recordou dois pronunciamentos históricos sobre a evolução do Magistério pontifício: a encíclica Humani Generis, de Pio XII, de 12 de agosto de 1950, e a Mensagem de João Paulo II à Plenária da Academia Pontifícia de Ciências, de 22 de outubro de 1996. Entre outras coisas afirmou que “Não existe «a priori» incompatibilidade entre as teses de Charles Darwin e a Bíblia”. (in Site http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/ )


23.1.09

LIVRO DE JÚLIO VIEIRA FINALMENTE REEDITADO



Publicado em 1926, “Torres Vedras Antiga e Moderna” é hoje uma raridade. Valiosíssimo repositório de informação histórica, de escrita muito acessível, ele tem sido uma das grandes fontes de conhecimento do nosso passado. Com os temas bem organizados, fruto de muito estudo e investigação em arquivos locais – sobretudo paróquias e Misericórdia – e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, este livro tornou-se imprescindível para quem queira conhecer a História torriense. Mas hoje, praticamente, só é possível lê-lo na Biblioteca Municipal.
Por isso saudamos vivamente a iniciativa da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras que decidiu reeditar esta obra, em parceria com a Livrododia Editores. Não se trata de um fac-simile mas sim de uma nova edição que, respeitando escrupulosamente o conteúdo da 1ª, optou por um grafismo actualizado e fez o tratamento informático das fotos e gravuras antigas que se encontravam muito degradadas. Por outro lado, foi feita uma releitura anotada do texto de Júlio Vieira, trabalho minucioso realizado por Carlos Guardado da Silva e Venerando Aspra de Matos. Também não é uma edição crítica, uma vez que as notas introduzidas procuram tão-somente actualizar informação, o que é justificável se tivermos em conta a enorme produção historiográfica que o município de Torres Vedras conheceu, sobretudo nas últimas duas décadas. E porque esta é uma obra para ler, assim como para consultar, optou-se pela integração de índices (toponímico, onomástico e didascálico), tornando a sua consulta mais fácil.
O lançamento desta 2ª edição está previsto para finais de Março, por altura do 30º aniversário da Associação de Defesa do Património de Torres Vedras.

JÚLIO VIEIRA: ESBOÇO BIOGRÁFICO

Júlio do Nascimento Vieira, (1880-21/01/1930), foi um homem multifacetado – jornalista, político, dirigente associativo e sindical, industrial, comerciante, publicista e historiador – que marcou política e culturalmente a sociedade torriense nos três primeiros decénios do século XX. As gerações seguintes recordam-no sobretudo pela sua faceta historiográfica, com a publicação da monografia Torres Vedras Antiga e Moderna, no Verão de 1926, pela qual muitos conheceram a história torriense.
Cursou na Escola de Belas Artes de Lisboa, formação artística que o tornaria autor de diversos quadros a óleo, desconhecendo-se, porém, a sua localização.
Foi também um industrial de tipografia e comerciante nas áreas da livraria, da papelaria e do calçado.
Como jornalista, teve uma actividade intensa. Foi proprietário, editor e director dos jornais semanais regionais Folha de Torres Vedras (1905-1913) e A Vinha de Torres Vedras (1913-1919), tendo aquele recebido a Medalha de Bronze na Exposição Agrícola de Lisboa, de 1905. Nos anos de 1906 e 1907, editou o Anuário da Região de Torres Vedras.
Ainda no tempo da Monarquia, Júlio Vieira foi dinamizador de um grupo de intelectuais torrienses, propagandista e defensor dos ideais republicanos, e Presidente da Comissão Municipal Republicana de Torres Vedras.
Teve uma participação cívica intensa: Provedor da Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, sócio fundador do Centro Republicano Torriense, membro da direcção do Sindicato Agrícola de Torres Vedras, Presidente da Associação de Socorros Mútuos 24 de Julho de 1884, fundador e membro da direcção da corporação de Bombeiros Voluntários de Torres Vedras, membro da Comissão Organizadora da Previdência Agrária, Administrador-delegado da Comissão de Iniciativa das Termas dos Cucos e Praia de Santa Cruz e principal impulsionador da I Exposição Agrícola, Pecuária e Industrial de Torres Vedras, em 1926.
A par da faceta do historiador, ficou ainda a do escritor, testemunhada pelos escritos literários, ainda inéditos e de valor muito desigual, que integram os Fundos do Arquivo Municipal de Torres Vedras: romances, poesia, teatro e impressões de viagem.
Faleceu aos 49 anos, quando tinha em projecto os livros Torres Vedras sob as Invasões Francesas e Igrejas e conventos de Torres Vedras e termo.
Como reconhecimento do seu elevado mérito o Município de Torres Vedras prestou-lhe homenagem póstuma, em 1990, atribuindo-lhe a Medalha de Mérito Cultural.
(Dados recolhidos na Revista Torres Cultural, nº8, 1998 e no texto de abertura da 2ª edição, de Carlos Guardado da Silva)



A publicação de Torres Vedras Antiga e Moderna foi largamente referenciada nas páginas da imprensa regional e nacional. Acerca da mesma, o jornal Diário da Tarde, na edição de 28 de Agosto de 1926, referia o seguinte: «a edição deste importante trabalho que, sem favor, deve figurar na estante de todos os estudiosos, é da Livraria da Sociedade Progresso Industrial, de Torres Vedras e, sem lisonja ou falso reclamo, podemos dizer que, no género, dificilmente se fará melhor nos editores de Lisboa e Porto».

O livro de Júlio Vieira é um manancial riquíssimo de informações sobre a história da antiga vila de Torres Vedras, como se pode ver nestes curtos excertos:


“Para boa orientação da nomenclatura antiga das ruas, tomaremos por ponto de partida o Largo da Graça, ou actual Praça da República.
Foi em 1892 que esse largo se ampliou, terraplenando-se a parte ajardinada, que ainda pertencia à antiga cerca do convento, separada apenas por um velho e baixo muro, orlado de frondosas amoreiras.”

“A parte calçada do largo, que faz parte integrante da Praça da República e da qual nascem as ruas Dias Neiva e Serpa Pinto, era conhecida pelo Outeirinho, como se vê nas confrontações de prédios ali situados e de escritos no tombo da Misericórdia. É nome antiquíssimo, que devia existir ao tempo em que se conservavam ainda as muralhas da vila.”

“A Avenida Cinco de Outubro foi uma artéria rasgada, de 1886 para 1887, através do Campo de S. João, para ligar à vila a estação do caminho-de-ferro que acabava de se construir.”



17.1.09

LUGARES MENOS CONHECIDOS

Dar de beber a quem tem sede...
Estamos a meia dúzia de quilómetros de Torres Vedras: Caixaria, Louriceira
Um púcaro perto da bomba de tirar água. A roda de tirar água. Um fontanário rústico. Um mina de água com depósito, no meio do campo...








A capelinha da Orjeiriça



28.12.08

PERTO DO FIM...

Encostado a um antigo palacete rústico, já foi uma das adegas mais bem equipadas da antiga vila de Torres Vedras. Mais tarde virou oficina de automóveis, que ainda é.

Agora o velho edifício vai agonizando e já poucos se lembram da antiga grandeza...

(Rua Raimundo Porta)Foto © Méon

22.12.08

Recordar o Padre Américo



PRESÉPIO DE NATAL TODOS OS DIAS

Comece-se a ler Páginas Escolhidas. Ao fim dos primeiros parágrafos, acontece aquilo que só é possível nos grandes escritores: estamos presos ao livro. Que há de assinalável nele? Trazer, transportado de meados do século XX, algo que interpela o que andamos a fazer hoje. A obra coloca-nos, sem aviso prévio, perante o mais fundo dos problemas das sociedades, o da desigualdade e o da indiferença perante a sua evidência. (Luís Fernandes in jornal PÚBLICO, 23 Out 2008)

O livro de que se fala é um conjunto de textos, agora reeditado, que traz para a actualidade a acção extraordinária da Padre Américo, o criador da Obra da Rua e das Casas do Gaiato. Textos escritos por ele, - Pai Américo e Procurador-geral dos pobres, como gostava que lhe chamassem, - que nos transportam ao cerne de uma vivência humana comovente.
Este homem, nascido em 1887 de família abastada de Penafiel, que foi empregado de comércio em Portugal e em Moçambique, torna-se frade franciscano aos 36 anos e aos 42 é ordenado Padre! Vocação tardia, mas muito a tempo de erguer uma Obra que permanece como um hino à solidariedade e ao bem-fazer. Profundamente imbuído do espírito evangélico incarnado por Francisco de Assis, P. Américo vê nas crianças abandonadas dos bairros miseráveis das grandes cidades os meninos do Presépio e transformou em Natal todos os dias do ano. Perante os ricos e os poderosos proclamou desassombradamente os direitos dos marginalizados, os pobres, os mendigos, os doentes sem recursos.
Sem dinheiro e praticamente sozinho, funda as Casas do Gaiato de Miranda do Corvo (1940), Paço de Sousa (1943), Santo Antão do Tojal (1948) e Paredes (1955), além das obras «Património dos Pobres» e «Calvário».
Confia no poder da Palavra. Com ela, vai percorrer o país, acordando consciências, despertando generosidades, suscitando seguidores. Morre, vítima de acidente de viação, em 1956.
Pobre, como escolhera viver. Pobre como as personagens do Presépio.




AS CASAS DO GAIATO

A finalidade de cada Casa do Gaiato é acolher, educar e integrar na sociedade crianças e jovens que, por qualquer motivo, se viram privados de meio familiar normal. No dizer do fundador, P. Américo Monteiro de Aguiar, " somos a família para os que não têm família".A população média de cada Casa do Gaiato é de 150 rapazes distribuídos pelas diferentes idades desde o nascimento até cerca dos 25 anos. São Instituições totalmente particulares vivendo dia a dia o risco evangélico da solidariedade humana.Aceita Voluntariado a tempo inteiro e também a tempo parcial. Neste caso pede-se que sejam pessoas totalmente disponíveis para as crianças e jovens, com sentido de maternidade e paternidade. Naturalmente que será útil terem conhecimentos de pedagogia e psicologia.Quanto aos funcionários são exigidas as qualificações para que são contratados.As actividades de cada casa são sempre orientadas para a realização dos fins em vista proporcionando aquilo que é melhor para o desenvolvimento de cada rapaz: saúde, alimentação, estudos, formação profissional, emprego, férias, tempos livres, cultura...

PRINCÍPIOS PEDAGÓGICOS

1 . Regime de autogoverno: Os chefes são eleitos pela comunidade - OBRA DE RAPAZES, PARA RAPAZES, PELOSRAPAZES.
2 . Liberdade e espontaneidade: " Ninguém espere fazer homens de rapazes domados". "Porta sempre aberta"
3 . Responsabilidade: "Em nossas casas todos e cada um tem a sua responsabilidade"
4 . Virtudes humanas: Solidariedade, generosidade, camaradagem, amor ao próximo "Os mais velhos cuidam dos mais novos"
5 . Vida familiar: "Não somos asilo, nem reformatório, nem colónia penal. Não há nem nunca houve fardas ou uniformes. " A família é o modelo da Obra".
6 . Ligação à natureza
7 . Formação religiosa

(do site A Obra da Rua)



O P. AMÉRICO, ESCRITOR ADMIRÁVEL:

Escreveu, sobretudo, no jornal O Gaiato:

Estas páginas do «Pão dos Pobres» foram escritas muitas vezes, rentinho à cama onde sofrem os irmãos, por isso te feres nas letras e vens acusar a tua presença, no lugar onde eu estiver. Sim, há-de ser o teu livro de horas.
Será dedicado ao Pobre; ao Pobre com letra maiúscula, de sentido absoluto, que abrange a legião dos famintos e dos escorraçados, por amor de quem tenho sangue nos pés e desejaria dar todo o das veias, para melhor os servir e mais perfeitamente os amar.

Como tudo começou…

Esta paixão nasceu-me dentro da alma no tempo em que me ocupava a ver presos na cadeia; e aprendi de cor que aquele homem repelente, dado como incorrigível pelos oficiais da justiça e entregue aos ferros por tempo sem fim – esse homem foi uma adorável criança nascida num berço triste. Aborrecida da Mãe, que viu nele uma desgraça; aborrecida do Mundo que a toma por um ser perigoso – como e a quem podia aquela criança amar?! E aqui mesmo, nesta ausência do amor, começou a série de crimes (?) praticados pelo nosso condenado!

A Casa do Gaiato era a sua casa, a sua família:

Regressar. Depois de uns dias de ausência, no transporte do peso da minha cruz, por becos e vielas de Portugal, o que eu gosto mais é de regressar. Este verbo é bonito e sonoro, sobretudo quando se regressa para Paço de Sousa. Comigo é assim. Ainda vou a caminho e já me sinto aliviado. (…) É o regressar de um mundo que não vive, nem faz caso dos que vivem. Regressar a um mundo espumante de vida e de beleza – o mundo da nossa Aldeia. (…) É por isso que, quando eu venho por aí fora, trago sempre vontade de chegar. Eles chamam-me pai e sabem que eu os amo. Eles são meus filhos e eu sinto-me bem no meio deles. Sinto-me feliz.

Quando o acusaram de não ser como os outros, escreveu:

Eu detesto e abomino essa paz podre das sacristias, que estraga o sol e apaga a luz. O sal é para salgar; a luz para dar claridade. Detesto aquela paz. Por causa dela é que o mundo anda às escuras e cheira a podre. E não sei como se pode andar em paz, debruçado sobre os ficheiros dos arquivos, enquanto que aqueles mesmos que ali têm seus nomes, vivem no mundo sem nomes, ignorados. Não compreendo.

A Obra da Rua edita quinzenalmente o jornal O GAIATO. Os escritos de P. Américo, aí publicados e no "Correio de Coimbra", estão coligidos em livros que podem ser pedidos à editora (obradarua@iol.pt).Livros Publicados: Pão dos Pobres ( 4 volumes); Obra da Rua; Isto é a Casa do Gaiato (2 Volumes); Barredo; Ovo de Colombo; Viagens; Doutrina (4 volumes); Cantinho dos Rapazes; Notas da Quinzena; De como eu fui….; Correspondência dos Leitores

Bibliografia para esta página:
O Pai Américo era assim
, Padre Elias, Gráfica de Coimbra, 1958
Padre Américo – páginas escolhidas e documentário fotográfico, coord. José da Cruz Santos, Modo de Ler – editores e livreiros, Porto, 2008



6.12.08

CHOUPAL E RIO SIZANDRO: a nossa tristeza!


Página LUGAR ONDE no BADALADAS, 21 Novembro 2008

O Rio Sizandro e o Choupal são duas faces do mesmo problema.
O abandono do Choupal por parte da população torriense é uma acusação silenciosa à incapacidade autárquica para resolver o problema do Rio. Não há uma política eficaz de “integração dos recursos naturais e dos valores ambientais no quadro do ordenamento do território”. Porque “os rios são mais do que um simples sistema biofísico. Eles são, e através dos tempos sempre foram, um elemento de cultura e de civilização” (in O RIO COMO PAISAGEM, Maria da Graça Saraiva)
Os projectos para o Choupal estão prometidos há anos e é com cepticismo que aguardamos a sua concretização. Mas, enquanto isso não acontece, achamos inaceitável o estado de abandono do Parque e da sua Bica histórica. Trata-se da simples manutenção e limpeza daqueles espaços, ao lado dos quais passam diariamente centenas de pessoas. É uma tristeza!





Torre Vedras também tem um Choupal!
É um espaço onde o Outono poisa todos os anos com as cores que só ele tem.Mas para que serve? Para estar abandonado! Raramente se vê alguém por lá, apesar de rodeado por zonas habitacionais.





Neste Choupal há uma Bica centenária, com uma inscrição de 1665. Foi valorizada há mais de um ano por uns vândalos, com intervenções artísticas cuidadosamente preservadas pela autarquia local...
Diz Júlio Vieira, na conhecida obra “Torres Vedras, Antiga e Moderna”:
Refira-se ainda o Chafariz de São Miguel, hoje situado no Choupal, cujo nome se deve à igreja de São Miguel, que se encontrava de fronte, ao Sul, na margem esquerda do rio Sizandro.
A sua presença é atestada por uma carta de emprazamento, datada de 1267, relativa a um olival, situado a São Vicente a par do Chafariz de São Miguel.
O chafariz tinha igualmente um brasão de armas moderno, não datado, mas que seria, muito provavelmente, do século XVI, encontrado em um monte de pedras, junto à igreja da Graça.



Ainda podem ser apreciadas as ruínas de antigas gaiolas e capoeiras onde, há vinte anos, viveram alguns animais. E há vestígios de um parque infantil, de um campo de jogos, um coreto sem préstimo e um depósito de água meio arruinado. As casas de banho públicas metem medo…
Porque é que as pessoas ignoram o Choupal?
Talvez seja altura de olhar para o rio que corre ali perto.





O Rio Sizandro está a ser alvo de nova limpeza. Isto é: arrasa-se toda e qualquer vegetação, rapam-se os taludes, mata-se qualquer hipótese de vestígios biológicos. No meio corre um líquido negro, pestilento, com garrafas de plástico, pneus, lixo…
Leia-se o que, a este propósito, escreveu uma estudiosa dos rios:


Sujeitos à poluição e à artificialidade pelas obras de regularização, muitos rios assumem uma degradação crescente que se reflecte no condicionamento das utilizações, no afastamento das actividades urbanas de maior prestígio e na profunda alteração dos sistemas biológicos a eles associados. Canalizados e poluídos, transformam-se em elementos indesejáveis pelas populações e autoridades decisoras do ordenamento do espaço. Quando a sua dimensão o permite, são cobertos e eliminados da superfície do solo, criando-se gravíssimos e crescentes problemas, sobretudo face à ocorrência de cheias e inundações, agravando os prejuízos e efeitos pela obstrução e redução da sua capacidade de escoamento. Quando de maiores dimensões, e, na impossibilidade da sua cobertura, transformam-se em canais artificializados, de cor e cheiro desagradáveis, sem vida animal ou vegetal ou com a presença de vegetação invasora e desadequada ecologicamente. (O RIO COMO PAISAGEM, Maria da Graça Amaral N. Saraiva, Fundação C. Gulbenkian, Lisboa, 1999)
SUGESTÃO

Agora que a estrada para Santa Cruz está a ser alargada, sugiro à população que exija da Câmara Municipal o abate das árvores do Choupal, a substituição da Bica por um bebedouro como o que foi feito na Praça 25 de Abril, o nivelamento por terraplanagem e a implantação, finalmente, da rotunda distribuidora de trânsito de que Torres Vedras tanto precisa.
Torres Vedras tem direito ao progresso, de modo a implementar o desenvolvimento, com vista às sinergias nas duas vertentes concomitantes: o conceito e a atitude! ! !

Fotos © Méon

27.11.08

HERBERTO HÉLDER: obscura luminosidade

Página LUGAR ONDE no jornal BADALADAS em 24 Outubro 2008




Aventura radical da linguagem poética

Não é fácil a convivência com a obra deste autor, até porque ele foge ao convívio. Homem reservado, recusa a exposição mediática. Há muito que escolheu o silêncio contra o ruído social e os holofotes da fama. Nem mesmo quando foi distinguido, em 1994, com o maior galardão literário português – o Prémio Pessoa – H. Hélder transigiu, recusando até os sete mil contos do prémio. Snobismo? Quem o conhece diz que não. Trata-se de uma opção estética e ética. Veja-se o que diz o poeta: O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia.

Ler H. Hélder é uma aventura. Muitos acusam-no de ser hermético, obscuro, temem a torrencialidade desta escrita que tanto se expressa em verso como em texto corrido. Mas a aventura está precisamente na capacidade para entrar nos seus textos com a mente livre e o coração aberto. (“Poesia: liberdade livre” – escreveu António Ramos Rosa…) É uma escrita que não tem paralelo, que cria um universo próprio – tal como acontece com toda a grande Arte dos nossos dias. Sem referente directo com o mundo real, cria outra realidade, isto é, enriquece o mundo.

CITAÇÕES
(...) um elemento recorrente na obra do poeta português: a concepção da criação lírica como uma atividade corporal, sangüínea, resultado do anseio pela expressão mais adequada, pela palavra que não existe – ou que, se existe, não está ao alcance do poeta.

A ressaltar apenas a recorrência de temas do amor carnal (‘o êxtase’, ‘o beijo’ etc.) e da natureza (‘a árvore’, ‘o pássaro’) – usuais na poética helderiana e representativos do sincretismo entre o físico e o transcendente que se dá no universo do poeta.

Se é ponto pacífico o fato de a leitura de um texto literário não deixar nenhum receptor indiferente, da poesia de Herberto Helder é impossível não se sair com um grande sentimento de inquietação, e, face à linguagem calculadamente caótica proposta pelo poeta, não apenas ver as palavras – e lembremos que a poesia helderiana é essencialmente sensorial (especialmente visual) – por se oporem umas às outras, mas sim em sua própria essência, em sua faceta material, em sua corporeidade. (...)

Antony Bezerra

A irredutibilidade desta poesia converge para a aglutinação total, transgredindo os cânones da tradição e ultrapassando as fronteiras. Poesia decisiva e órfã, a insubmissão de Herberto Helder é única. Poeta sábio e lúcido, a sua obra faz-se distante das luzes dos acontecimentos, sob a égide da "solidão essencial" proclamadapor Blanchot(…)
Jorge Henrique Bastos

[ O grande poema O AMOR EM VISITA pode ser lido AQUI ]




RETRATO ESCRITO



Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira, nasceu a 23 de Novembro de 1930 no Funchal, ilha da Madeira, no seio de uma família de origem judaica. Em 1946, com 16 anos, viaja para Lisboa para freqüentar o 6º e o 7º ano do curso liceal. Em 1948, matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra e, em 1949, muda para a Faculdade de Letras onde freqüenta, durante três anos, o curso de Filologia Romântica, não tendo terminado o curso. Três anos mais tarde regressa a Lisboa, começando por trabalhar durante algum tempo na Caixa Geral de Depósitos e depois como angariador de publicidade, sendo que durante este tempo vive, por razões de ordem vária e pessoal, numa «casa de passe».
Em 1954, data da publicação do seu primeiro poema em Coimbra, regressa à Madeira onde trabalha como meteorologista, seguindo depois para a ilha de Porto Santo. Quando em 1955 regressa a Lisboa, freqüenta o grupo do Café Gelo, de que fazem parte nomes como Mário Cesariny, Luís Pacheco, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo. Durante esse período trabalha como propagandista de produtos farmacêuticos e redactor de publicidade, vivendo com rendimentos baixos. Três anos mais tarde, em 1958, publica o seu primeiro livro, O Amor em Visita. Durante os anos que se seguiram vive em França, Holanda e Bélgica, países nos quais exerce profissões pobres e marginais, tais como: operário no arrefecimento de lingotes de ferro numa forja, criado numa cervejaria, cortador de legumes numa casa de sopas, empacotador de aparas de papéis e policopista. Em Antuérpia, viveu na clandestinidade e foi guia dos marinheiros no sub mundo da prostituição.
Repatriado em 1960, torna-se encarregado das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, percorrendo as vilas e aldeias do Baixo Alentejo, Beira Alta e Ribatejo. Nos dois anos seguintes publica os livros A Colher na Boca, Poemacto e Lugar. Em 1963 começa a trabalhar para a Emissora Nacional com redactor de noticiário internacional, período durante o qual vive em Lisboa. Ainda nesse mesmo ano publica Os Passos em Volta e produz A máquina de emaranhar paisagens. Em 1964 trabalha nos serviços mecanográficos de uma fábrica de louça, datando desse ano a sua participação na organização da revista Poesia Experimental. Nesse ano reedita ainda Os Passos em Volta, escreve «Comunicação Acadêmica» e publica Electronicolírica. Em 1966 participa na co-organização do segundo número da revista Poesia Experimental e no ano seguinte publica Húmus, Retrato em Movimento e Ofício Cantante. Data de 1968 a sua participação na publicação de um livro sobre o Marquês de Sade, o que o leva a ser envolvido num processo judicial no qual foi condenado. Porém, devido às repercussões deste episódio consegue obter suspensão de pena, fato este que não conseguiu evitar que fosse despedido da Rádio e da Televisão portuguesas. Refugia-se na publicidade e, posteriormente, numa editora onde desempenha o cargo de co-gerente e director literário. Ainda nesse ano publica os livros Apresentação do Rosto, que foi suspenso pela censura, O Bebedor Noturno e ainda Kodak e Cinco Canções Lacunares.
Em 1970 viaja por Espanha, França, Bélgica, Holanda e Dinamarca, publicando nesse ano a terceira edição de Os Passos em Volta e escreve Os Brancos Arquipélagos. Em 1971 desloca-se para Angola onde trabalha como redactor numa revista. Enquanto repórter de guerra é vítima de um grave desastre tendo que ser hospitalizado durante três meses. Data ainda desse ano a publicação de Vocação Animal e a produção de Antropofagias. Regressa a Lisboa e parte de novo, desta vez para os E.U.A., em 1973, ano durante o qual publica Poesia Toda, obra que contém toda a sua produção poética, e faz uma tentativa frustrada de publicar Prosa Toda. Em 1975 passa alguns meses na França e Inglaterra, regressando posteriormente a Lisboa onde trabalha na rádio e em revistas, meios restritos de sobrevivência económica. Em 1976, Herberto Helder participa na edição e organização da revista Nova que, sendo posterior à revolução de 25 de Abril de 1974, reconhecia na Literatura portuguesa características que a aproximaram às Literaturas latino-americana, africana e espanhola, declinando uma direcção literária revolucionária cuja actividade não ultrapassou o plano teórico devido à instabilidade política portuguesa que se fazia sentir na altura. Nos anos que se seguiram publicou as obras Cobra, O Corpo, O Luxo, A Obra e Photomaton e Vox. A última referência encontrada da instabilidade biográfica de Herberto Helder referia-se ao fato de o poeta ter abandonado todas as suas anteriores actividades e de viver no mais cioso dos anonimatos.

Texto biográfico publicado no site daUniversidade Nova de Lisboa - FCSHCentro de Investigação para Tecnologias Interativas

21.9.08

FIM DO VERÃO

Rasgou-se a folha do tempo. Nova página espera, como se os dias procurassem outra dimensão e as noites já não coubessem no sopro das horas.
Palavras regressam. iluminadas de outras brisas, como gente que tem saudades e traz recordações do sul.
Escorre a luz pelas tardes. Imperceptível, o Verão saiu e é de água que o tempo agora fala. Os lagos da memória guardam astros e sombras, sinais do vento ou de quando o sol se erguia mais alto e mais quente, e cada manhã trazia silêncios e perfumes.
É o Outono que aí vem? Já é o Outono?
Transfigura-se o verão. Mais doce, mais serena, chega a luz de Setembro envolta nas folhas que caem.
Hoje é o LUGAR ONDE guardamos alguns poemas que falam do Outono.


SE DESTE OUTONO

Se deste outono uma folha,

apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria.
Eugénio de Andrade



CANÇÃO DE OUTONO



Perdoa-me, folha seca,

não posso cuidar de ti.

Vim para amar neste mundo,

e até do amor me perdi.



De que serviu tecer flores

pelas areias do chão,

se havia gente dormindo

sobre o próprio coração?



E não pude levantá-la!

Choro pelo que não fiz.

E pela minha fraqueza

é que sou triste e infeliz.

Perdoa-me, folha seca!

Meus olhos sem força estão

velando e rogando àqueles

que não se levantarão...



Tu és a folha de outono

voante pelo jardim.

Deixo-te a minha saudade

- a melhor parte de mim.

Certa de que tudo é vão.

Que tudo é menos que o vento,

menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles



UMA NÉVOA DE OUTONO

Uma névoa de Outono o ar raro vela,

Cores de meia-cor pairam no céu.

O que indistintamente se revela,

Árvores, casas, montes, nada é meu.



Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.

Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.

Mas entre mim e ver há um grande sono.

De sentir é só a janela a que eu assomo.



Amanhã, se estiver um dia igual,

Mas se for outro, porque é amanhã,

Terei outra verdade, universal,

E será como esta [...]

Fernando Pessoa

TRISTÃO E ISOLDA

Sobre o mar de Setembro velado de bruma
O sol velado desce
Impregnando de oiro e espuma
Onde a mais vasta aventura floresce.

Tristão e Isolda que eu sempre vi passar
Num fundo de horizontes marítimos
Trespassados como o mar
Pela fatalidade fantástica dos ritmos
Caminham na agonia desta tarde
Onde uma ânsia irmã da sua arde.

Tristão e Isolda que como o Outono,
Rolando de abandono em abandono,
Traziam em si suspensa
Indizivelmente a presença
Extasiada da morte.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Os mortos aconchegam-se, no Outono,
Aonde, sendo mais secas,
As folhas juntam o pródigo tesouro
Da tristeza.
O seu distúrbio, em torno
Dos negros troncos, festeja
O fragilíssimo lugar, o modo
De estar cedendo, a transparência
Ao movimento universal do sono
Que acorda adequação de inteligência.
E é desse lado que os mortos
Sua inocência irrequieta
Avivam. E aventam o ouro
Outonal das folhas secas.

Fernando Echevarría



OUTONO

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga

23.8.08

RUY BELO, TRINTA ANOS DEPOIS


S. João da Ribeira ( freguesia do concelho de Rio Maior): Casa onde nasceu Ruy Belo.





“Procurava nas palavras uma chave para o código genético da angústia: a dor de saber quão precária é a nossa condição de seres viventes e de como o tempo nos é tão pouco”.(Lugar Onde, Julho 2003)
Sim, foi pouco o tempo de vida de Ruy Belo. Nascido em 1933, morreu em Agosto de 1978, faz agora trinta anos. O suficiente, porém, para nos deixar uma vasta obra poética que marcou a poesia portuguesa contemporânea:
Aquele Grande Rio Eufrates (
1961) / O Problema da Habitação (1962) / Boca Bilingue (1966) / Homem de Palavra(s) (1969) / Transporte no Tempo (1973) / País Possível (1973) / A Margem da Alegria (1974) / Toda a Terra (1976) / Despeço-me da Terra da Alegria (1978).
Obra publicada pela editorial Presença e pela Assírio & Alvim, está hoje praticamente esgotada e é difícil de encontrar. Por isso está a ser preparada uma nova edição da obra completa, a sair em Outubro.
A nossa homenagem ao grande poeta Ruy Belo!








À MEMÓRIA DE RUY BELO




Provavelmente já te encontrarás à vontade


entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância


tomava sempre o comboio para as férias grandes,


já terás feito amigos, sem saudades dos dias


onde passaste quase anónimo e leve


como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,


que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.


A morte como a sede sempre te foi próxima,


sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso


ela aí estava, um pouco distraída, é certo,


mas estava, como estava o mar e a alegria


ou a chuva nos versos da tua juventude.


Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta


página de um jornal trazido pelo vento,


nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,


jornal onde em primeira página também vinha


a promoção de um militar a general,


ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:


isto de militares custa a distingui-los,


feitos em forma como os galos de Barcelos,


igualmente bravos, igualmente inúteis,


passeando de cu melancólico pelas ruas


a saudade e a sífilis do império,


e tão inimigos todos daquela festa


que em ti, em mim, e nas dunas principia.


Consola-me ao menos a ideia de te haverem


deixado em paz na morte; ninguém na assembleia


da república fingiu que te lera os versos,


ninguém, cheio de piedade por si próprio,


propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,


te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,


qualquer coisa assim para estrumar os campos.


Eles não deram por ti, e a culpa é tua,


foste sempre discreto (até mesmo na morte),


não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,


não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,


e foste a enterrar numa aldeia que não sei


onde fica, mas seja onde for será a tua.




Agrada-me que tudo assim fosse, e agora


que começaste a fazer corpo com a terra


a única evidência é crescer para o sol.




Eugénio de Andrade, 1978






PARA A DEDICAÇÃO DE UM HOMEM
Terrível é o homem em quem o senhor
desmaiou o olhar furtivo das searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima
A morte é a grande palavra para esse homem
não há outra que o diga a ele próprio
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia



(Aquele Grande Rio Eufrates)




A MÃO NO ARADO

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará


Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
e equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua
É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente




(O Problema da Habitação)




Ruy Belo repousa no cemitério da sua terra natal, S. João da Ribeira (Rio Maior).
Na pedra tumular lê-se este poema, do livro “Homem de Palavra(s)”


COLOFON OU EPITÁFIO

Trinta dias tem o mês
e muitas horas o dia
todo o tempo se lhe ia
em polir o seu poema
a melhor coisa que fez
ele próprio coisa feita
ruy belo portugalês
Não seria mau rapaz
quem tão ao comprido jaz
ruy belo, era uma vez


Entrada do cemitério de S. João da Ribeira, última morada do poeta. Foto Méon.


16.7.08

ADEUS A UM HOMEM BOM

ANTÓNIO CORDEIRO MELO



“Homem bom” – antiga designação daqueles que se distinguiam na vida cívica. Assim foi António Cordeiro Melo. Homem de ideais, de cultura, de estudo. Cultor das letras e das artes, foi um dos obreiros do já lendário SUPLEMENTO cultural do Badaladas, em 1961. Humanista íntegro, resistente da liberdade, solidário com os desprotegidos. Marcou a vida cultural e política do Oeste. Deixou-nos no passado 23 de Junho, tinha 82 anos.

Vinha muitas vezes a Torres Vedras mas residia na Merceana, concelho de Alenquer, onde desenvolveu uma vida dedicada ao ensino, à dinamização cultural e à participação política. Professor no antigo ensino primário, destacou-se como co-fundador e director da Tele-Escola da Merceana, e como pioneiro e dinamizador dos Centros de Apoio Pedagógico. Foi fundador, sócio nº 1 e o primeiro Presidente da Direcção do Clube Regional de Recreio e Cultura da Merceana, tendo também participado na Assembleia de Freguesia desta povoação. Fez parte da primeira Direcção do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa.
Em Alenquer, onde nasceu em 1925, deixou marcas profundas da sua acção. Foi membro da Assembleia Municipal desde as primeiras eleições livres até ao anterior mandato, eleito pela CDU como militante do Partido Comunista Português. Participou como Vogal na Comissão Administrativa de Alenquer após a revolução de Abril, onde criou e foi titular do primeiro pelouro municipal da Cultura. Colaborou activamente no “Jornal de Alenquer”que ajudou a fundar. Foi co-autor da monografia “O Concelho de Alenquer”, uma obra de referência para o estudo da etnografia e do património construído daquele concelho. Publicou diversos estudos sobre os usos e costumes, lendas e trabalhos agrícolas da região.
Detentor do Curso de Artes Decorativas do Instituto António Arroio, destacou-se como artista plástico, na pintura e na marcenaria, tendo sido profissional desta arte desde os 18 anos. Cursou Filosofia e Letras na Universidade de Lisboa, onde completou, já depois de reformado do Ensino, a Licenciatura em História.
No Voto de Pesar, aprovado pela Assembleia Municipal de Alenquer em 27 de Junho passado, a sua memória foi largamente documentada, recordando-se que a António Cordeiro Melo já havia sido atribuída a Medalha de Mérito Concelhio, Grau Prata e propondo-se a perpetuação do seu nome numa rua da Merceana.



Cordeiro Melo no BADALADAS

Esteve entre os fundadores do “Suplemento” do BADALADAS, em 1961, juntamente com António Augusto Sales, Ruy Moura Guedes e outros. Para quem não se lembre, tratou-se de um suplemento cultural que teve enorme importância na época, pela audácia, inovação e até desafio ao obscurantismo reinante.
Em 1993, a Cooperativa de Comunicação e Cultura relançou uma nova série desse Suplemento, homenageando os fundadores. Cerca de trinta anos depois, Cordeiro Melo aceitou prontamente voltar a colaborar:

[…] Assim, e neste início dos anos 90, estamos perante outras formas de agir e pensar, novas linguagens, novos “campos experimentais de cultura”, em suma, estamos perante uma nova geração. Dele emerge, agora, um novo grupo para quem a vida, também, não faz sentido sem utopia, que vem dar o novo sinal de partida para a publicação deste novo Suplemento de Badaladas [...]

[...]Eu tive o privilégio de ser solicitado e a sorte de estar vivo para poder estabelecer o elo de ligação entre os dois actos inaugurais, com a convicção de que a questão de fundo e as razões fundamentais que deram origem ao primeiro, continuam actuais para este novo SUPLEMENTO, 30 anos depois…



AS VELHAS TORRES

Lá no alto, correm as cristas de Montejunto. Cá em baixo, no fundo da cova e ao centro daquelas abas da serra, ergue-se, imponente, o Santuário.
As torres do templo enchem os olhos a toda a gente. A seus pés, afunda-se e rasteja uma aldeia calafetada de vinhedos.
Por cima, uma nesga de céu dá passagem às agulhas dos cata-ventos em busca de infinitos…
- Ninguém pode perder as torres de vista – já diziam os antigos.
Vivências milenárias afloram aos gestos e às palavras em cada esquina.
Lobisomens, almas penadas e espíritos maus andam a monte noite e dia; mas à noite zurram, uivam, piam, batem asas sobre as almas adormecidas e fazem mal. Fazem muito mal. Bruxedos, presságios, forças ocultas eclipsam auroras de claridade nascente em terras sagradas do Boi Marciano.
- Ninguém pode perder as torres de vista – clamam os velhos convictos.
Os olivais, as rendas da casa dos Romeiros e algumas cobranças aos mercadores que vêm fazer a feira todos os meses no Terrado, lá vão equilibrando as posses da Casa Santa; as quotas dos irmãos, esmolas e quetes dominicais fazem crescer, ao fim do ano, um pão feito de migalhas.
- Ninguém poder perder as torres de vista – dizem os novos desalentados.
A alegria e a tristeza dobram e repicam no alto das torres. Ecoam lá longe nas gargantas da serra. Vozes de bronze, cavas e fundas, tenórias ou finas – vibram no ar: clamores, preces, aleluias, finados, rebates; boas novas também.
A voz do tempo é a voz dos campanários. É uma voz que governa, anuncia, chama, recreia e dita. Voz que acerta o passo; enrola cigarros com lentidão de cava a dois ferros em terra dura. Voz desejada ao sol-poente para endireitar a espinha; o repique ao dia e à hora de receber a féria.
- Ninguém pode perder as torres de vista – aprendem as crianças.
O electricista deixa a luz acesa até altas horas da noite, mas ela perde-se nos bancos da Praça sem viv’alma. Amortece na escuridão dos cerros e vales onde as almas do outro mundo conspiram e apagam faróis atrevidos…

*

Sereias, relógios, cimento, vidro e ferro gritam progresso por atalhos e caminhos em direcção aos quatro ventos das vinhas do Oeste. Porém, tudo se cala à voz do sino grande. O seu badalar é um badalar dos tempos. Voz de um passado medieval que anima e conduz o coração e as ideias dos povoados que branquejam entre retalhos verdes e castanhos-claros. Voz a quem se obedece de dentro para fora. É uma voz sagrada a falar dentro de um tempo e de um espaço sagrados. Não há ano de 365 dias; há quatro tempos sagrados: o Presépio, a Páscoa, a Procissão do Senhor dos Passos e a festa grande em honra do Santíssimo. É a festa da Casa. Estes quatro tempos não são quatro estações de três meses. Longe disso. O tempo de nascer é pelas searas de trigo ou de milho; casam-se pela azeitona ou vindima; morrem pelo tempo da «fruta do tarde». Este é o regimento da vida dos montes redondos, dos vales bem feitos, das rainhas milagreiras e misericordiosas. Quando a poda e a empa mais o sulfato e o enxofre correm de feição: há o S. Martinho regado e repiques canoros vibram o azul rutilante do céu. Luas más, lado suão, Berlenga contrária, o silvo do comboio galga para cá da serra: amanhos ruins, «provas» desapaladadas – os vinhos não valem. E o mercado de Outubro já não é a feira por excelência. Negócios fracos. Ninguém se chega a comprar.
- Quer alguma coisa freguês?

(Excertos do livro Contos Portugueses de que Cordeiro Melo foi co-autor)