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19.1.13

UM PRÉMIO PARA MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA





A Fundação Inês de Castro premiou a poetisa pela sua POESIA REUNIDA.



Deita-te aqui - esta noite, dentro de mim,
está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
beijos: talvez assim eu possa esquecer para
sempre quem me matou de amor, ou morrer
de uma vez sem me lembrar. Isso, abraça-me

também: onde os teus dedos tocarem há uma
ferida que o tempo não consegue transportar.
Mas fecho os olhos, se tu não te importares, e
finjo que essa dor é uma mentira. Claro, o que

quiseres está bem - tudo, ou qualquer coisa,
ou mesmo nada serve, desde que o frio fique
no laço das tuas mãos e não regresse ao corpo
que te deixo agora sepultar. Não sentes frio, tu,

dentro de mim? Nunca nevou de madrugada no
teu quarto? Que país é o teu? Que idade tens?
Não, prefiro não saber como te chamas.

( POESIA REUNIDA, pág. 159,Quetzal
Lisboa, 2012)



12.12.12

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA



Maria do Rosário Pedreira é uma profissional da edição mas é também escritora. Em 1996 estreou-se com A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS e neste título está a essência da sua poesia: a casa onde tudo acontece, casa como espaço de vida e como metáfora de vida interior; e os livros, espaço onde se escreve a vida e a interioridade poética.
Em Setembro deste ano a Quetzal publicou a sua poesia reunida.

                                                        




Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes da viagem, para que nele 
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos - tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos - nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.

O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES
Maria do Rosário Pedreira



4.5.11