FALAVAM-ME DE AMOR
Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.
Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.
O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.
NATÁLIA CORREIA
*
NATAL CHIQUE
Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado...
Só esse me pareceu Cristo.
VITORINO NEMÉSIO
*
OS PROFETAS
Assombra, esta verdade que trazemos.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém.
REINALDO FERREIRA
*
PRECE DE NATAL
Menino Jesus
De novo nascido,
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!
Vede que os humanos
Erros e cuidados
Nos são tão pesados
Como há dois mil anos.
A nossa ignorância
É um fardo que arde.
Como se faz tarde
Para a nossa ânsia!
Nós somos da Terra,
Coisa fria e dura.
Olhai a amargura
Que esse olhar encerra.
Colai o ouvido
À alma que sofre;
Abri esse cofre
Do sonho escondido.
Pegai nessa mão
Que treme de medo;
Sondai o segredo
Da minha oração.
Esta pobre gente
Que mal é que fez?
Nós somos, talvez,
Um povo «inocente»...
Menino Jesus
Que andais distraído
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!
(…)
Carlos Queiroz (1907-1949)
Presépio de Machado de Castro - Basílica da Estrela, Lisboa
*
CEM LUGARES! ONDE?
Foi em Julho de 2002 que teve início esta página mensal LUGAR ONDE que atingiu em Novembro o número 100. Espaço de outras leituras, literaturas, escritas e dizeres das nossas vivências culturais. Intenção de aqui trazer contrapontos, outros pontos de vista, as intuições dos poetas, a expressão da arte escrita, ou outras artes. Um projecto a partir da verificação de que “a escuridão que cobre tantos recantos do nosso tempo se deve ao gasto excessivo das palavras, tornadas irrelevantes.” E a partir da ideia cada vez mais arreigada em nós de que a literatura é o LUGAR em que o homem encontra as palavras essenciais da vida, do mundo. E também da interrogação: ONDE?
LUGAR ONDE: venham mais cem!