14.2.11

LUGAR ONDE - Página no semanário BADALADAS de 18 de Fevereiro 2011



ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY
MUITO MAIS QUE UM PRINCIPEZINHO


Em redor de Antoine de Saint-Exupéry criou-se uma lenda e um equívoco. A lenda está ligada à vida de aviador em tempo de pioneiros do ar. O equívoco resulta da redução da sua obra literária à história do “PRINCIPEZINHO”.

Vejamos mais de perto. Saint-Exupery ( 1900-1944) foi de facto um pioneiro da segunda fase da aviação, quando os gloriosos malucos foram substituídos por especialistas de voo com brevets e conhecimentos de engenharia aeronáutica. Tornou-se um aviador profissional, participou no estabelecimento de novas rotas e, sobretudo, nos serviços aeropostais que revolucionaram as comunicações. Na Segunda Grande-Guerra foi piloto de aviões de reconhecimento em missões de alto risco e nesse serviço perdeu a vida, no sul de França. O avião despenhou-se no Mediterrâneo e o seu corpo nunca foi encontrado.
Pelo meio sucederam-se viagens de missões lendárias em que sobreviveu a desastres tremendos. Numa delas esteve perdido no deserto do Sara, de onde regressou transformado. Encontrara o Principezinho, essa criança única que vive escondida em cada homem e só aparece quando a consciência da morte desvenda o essencial da vida.

Este breve relato – que não é uma história infantil! - continua a comover os homens de todo o mundo que não receiam conversar com esse menino que os acompanha pela vida fora. Mas está aqui o equívoco injusto: a obra de Antoine de Saint-Exupéry não se reduz a esse livrinho maravilhoso. Ele escreveu muito mais: páginas luminosas sobre o seu tempo, tornadas intemporais pela perspectiva humanista em que se colocou. O seu estilo, de um subjectivismo impressivo, radica na visão compassiva do homem, esse ser de imensa grandiosidade nos miseráveis limites da sua pequenez. Livros como Piloto de Guerra, Um Sentido para a Vida e Cidadela (todos traduzidos para Português pelo grande poeta Ruy Belo) fazem parte do património da Literatura Universal. Ou ainda Terra dos Homens ou Carta a Um Refém. Num tempo de graves incertezas como é o nosso, a leitura destas páginas abre perspectivas, alimenta a esperança, torna os homens mais Homens.


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VIDA E OBRA


Antoine de Saint-Exupéry nasceu em Lyon (França) no ano de 1900. Viveu grande parte da infância na Borgonha e na Provença, e estudou em Le Mans, Friburgo (Suíça) e Paris. Cumpriu o serviço militar em Estrasburgo, tornando-se piloto em 1922 (cerca de dez anos após a sua primeira experiência de voo). Voa sem¬pre que pode, e a sua vida une-se à aviação. Como piloto civil, colabora numa empresa de correio aéreo (no Norte de Africa e na América do Sul). No final de 1935, ao tentar estabelecer a ligação aérea Paris-Saigão, aterra de emergência no deserto da Líbia, sendo salvo por uma caravana de beduí¬nos; sofre depois (1938) acidente grave na Guatemala, quando procurava voar de Nova Iorque à Terra do Fogo. Entretanto, é inventor de diver¬sos aparelhos relacionados com a aeronáutica e repórter (Moscovo, 1935; guerra de Espanha, 1936 e 1937), e desenvolve a sua obra literária, num estilo inimitável, cada vez mais exigente e depu¬rado. Publica Courrier Sud (1928), Vol de Nuit (1931), Terre des Hommes (1939), Pilote de Guerre, Lettre a un Otage e Le Petit Prince(1943)

Postumamente, em 1948, é publicado o romance inacabado Citadelle e em 1956 um conjunto de textos dispersos, Un Sens à la Vie.

Profundamente empenhado na defesa da sua pátria durante a II Guerra Mundial, desapareceu no mar, a norte da Córsega, em missão de reco¬nhecimento fotográfico aéreo (31.07.1944). (in: Carta a Um Refém, ed. Grifo, Lisboa, 1995)

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PASSAGEM POR LISBOA


Em 1940 Saint-Exupéry passou em Portugal a caminho de Nova Iorque. Aqui se demorou alguns dias e visitou a Exposição do Mundo Português. No seu estilo marcado por intenso impressionismo subjectivo, traçou um quadro melancólico de Lisboa, onde se amontoavam os refugiados, em trânsito para os Estados Unidos.
Começa assim esse texto:

«Quando, em Dezembro de 1940, atravessei Portugal a caminho dos Estados Unidos, Lisboa surgiu-me como uma espécie de paraíso claro e triste. Falava-se lá muito, então, de uma invasão iminente, e Portugal aferrava--se à ilusão da sua felicidade. Lisboa, que edificara a mais deslumbrante exposição que já houve no Mundo, sorria com um sorriso um tanto pálido, como o daquelas mães que não têm quaisquer notícias de um filho que foi para a guerra e se esforçam por salvá-lo com a sua confiança: “O meu filho está vivo, visto que eu sorrio…”» ( Carta a Um Refém, ed. Grifo, Lisboa, 1995)

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TEXTOS DE SAINT-EXUPÉRY


«Porque o Homem da minha civilização não se define a partir dos homens. São os homens que se definem a partir dele. Há nele, como aliás em todo o ser, qual¬quer coisa que os materiais que o constituem não expli¬cam. Uma catedral é uma coisa totalmente diferente de um somatório de pedras. É geometria e arquitectura. Não são as pedras que a definem, é ela que enriquece as pedras com o seu próprio significado. Essas pedras cobram nobreza no facto de serem pedras de uma catedral. As pedras mais diversas servem a sua uni¬dade. A catedral absorve até as goteiras mais irrequie¬tas do seu cântico.

Mas, a pouco e pouco, fui perdendo de vista a minha verdade. Pensei que o Homem era o resumo dos homens, da mesma forma que a Pedra era o resumo das pedras. Confundi catedral e soma de pedras e, a pouco e pouco, a herança foi-se desvanecendo. Urge restaurar o Homem. É ele a essência da minha cultura. É ele a chave da minha comunidade. É ele o princípio da minha vitória.»

(…)

«É muito cómodo basear a ordem de uma sociedade na submissão de cada um dos seus componentes a regras fixas. É bastante cómodo formar um homem que, além de cego, tolerasse sem protestar um mestre ou um Corão. Mas o resultado a atingir é de uma transcendência tal que, para libertar o homem, é pre¬ciso fazê-lo reinar sobre si próprio.»

(in: PILOTO DE GUERRA, edit Aster, 7ª ed.- Lisboa,)
                                   
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«- Adeus...
- Adeus — disse a raposa. — Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos — repetiu o principe-zinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... — repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade — disse a raposa. — Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és respon¬sável pela tua rosa...
- Sou responsável pela minha rosa... — repetiu o principe¬zinho, para nunca mais se esquecer.»
(in: O PRINCIPEZINHO, ED. Caravela, Lisboa, s/d)




13.2.11

TEXTOS INESQUECÍVEIS


Antoine de Saint-Exupéry não é só O PRINCEPEZINHO.
Deixou obras magníficas que iluminaram o meado do século XX: CIDADELA, PILOTO DE GUERRA,
TERRA DOS HOMENS, UM SENTIDO PARA A VIDA.
Livros de intenso e luminoso humanismo, escritos entre duas guerras, por um homem que olhou o mundo com compaixão e compreensão profundas.
De vez em quando é bom conversar com ele.

(...)
"Porque, tal como acontece com a árvore, não podes saber seja o que for do homem se o desdobras pela sua duração e o destribuis pelas suas diferenças. A árvore não é semente, depois caule, depois tronco flexível, depois madeira morta. Para a conhecer é bom não a dividir. Á árvore é essa força que desposa a pouco e pouco o céu."
(...)
Antoine de Saint-Exupéry, in CIDADELA, ed. Aster, Lisboa, s/d

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[ NUMA VIAGEM DE COMBOIO ATRAVÉS DA POLÓNIA ]

E prossegui minha viagem entre esse povo cujo sono era turvo como um local de má fama. Flutuava um ru-mor vago, feito de roncos surdos, de obscuros lamentos, do raspar das botas no chão, quando eles, corpo dorido de um lado, experimentavam o outro...

E sempre, em surdina, esse inesgotável acompanhamento de seixos rolados pelo mar.
Sentei-me defronte de um casal. Entre o homem e a mulher, a criança, mal ou bem, conseguira anichar-se e dormia. Virou-se, no sono, e enxerguei seu rosto, sob a lamparina. Ah, que rosto adorável! Um fruto dourado havia nascido desse casal. Desses lerdos farrapos, nascera uma obra-prima de encanto e graça! Curvei-me para a sua fronte lisa e, vendo o doce trejeito da boca, disse para comigo: "Eis aqui um rosto de músico, eis aqui Mozart menino, eis aqui uma bela promessa de vida!" Os principezinhos das fábulas não seriam diferentes dele. Protegido, rodeado de carinho, educado, o que não poderia ele vir a ser? Quando por mutação nasce num jardim uma rosa nova, todos os jardineiros se emocionam. Isola-se a rosa, cultiva-se a rosa, conferem-se-lhe privilégios... Não existem, porém, jardineiros de homens. Mozart menino será marcado, como os outros, pela máquina trituradora. Mozart. Mozart quem sabe? frequentará os cafés-concertos e, desse fedor e dessa música apodrecida, fará uma das suas maiores alegrias. Mozart está condenado...

Voltei para o meu vagão. Disse para comigo: "Esta gente não sofre com o destino que tem. E não é caridade o que me está atormentando. Não se trata de me enternecer sobre uma chaga eternamente sangrando. Os que a sofrem não mais a sentem. E a espécie humana que aqui está ferida, lesada, e não o indivíduo. Não acredito na compaixão. Nesta noite, o que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me está atormentando não é esta miséria, na qual, afinal de contas, é possível as pessoas instalarem-se tão bem quanto na preguiça. Gerações e gerações de orientais têm vivido na sujeira com prazer. O que me atormenta não é remediável com as sopas dos pobres. O que me atormenta não são estas corcundas nem esta fealdade. É que, em cada um destes homens, existe um pouco de um Mozart assassinado."

A. Saint-Exupéry, in UM SENTIDO PARA A VIDA, editORA Nova Fronteira, rIO DE jANEIRO, 1983

8.2.11

PARVOS?

Já se tornou um hino! Como todos os hinos é de uma simplicidade desconcertante. E acerta em cheio no alvo!



QUE PARVA QUE EU SOU - canção dos "DEOLINDA" que satiriza o desemprego

dos licenciados. O album ainda não saiu



Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'casinha dos pais',
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'vou queixar-me pra quê?'
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração 'eu já não posso mais!'
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar

28.1.11

JORNAL DE LETRAS: SOPHIA CONTINUA

Temas deste número:

Sophia continua Uma Vida de Poeta - e a exposição na Biblioteca Nacional * Um poema textos inéditos * Entrevista com Maria Andresen * Testemunhos * A obra, a leitura de Carlos Mendes de Sousa + O início da Guerra Colonial foi há 50 anos + Nova Coluna de Maria Alzira Seixo + Aitobiografia de Carlos J Pessoa + O diário de Carlos Vale Ferraz + O bovo filme de Woody Allen

22.1.11

COLÓQUIO INTERNACIONAL


Sophia de Mello Breyner Andersen revisitada.
Dias 27 e 28 de Janeiro, na Fundação C. Gulbenkian, um Colóquio Internacional sobre esta figura maior da literatura contemporânea portuguesa.
Ver AQUI o site.

19.1.11

LUGAR ONDE - Semanário BADALADAS de 21 JANEIRO







Foto EXPRESSO on-line


AGUSTINA BESSA-LUÍS:
O ESCRITOR DESPERTA AS COISAS DO SILÊNCIO
EM QUE FORAM CRIADAS

Os grandes escritores desencadeiam sentimentos extremos. Amor ou ódio, nunca indiferença. Agustina é dessa estirpe. Mas até os que a detestam lhe reconhecem a grandeza. Ela é a grande prosadora portuguesa, a maior de sempre, criadora de um território linguístico imenso que vale a pena percorrer.
Criadora na ficção, interventora nas crónicas, não receou expor-se, fosse na direcção de um jornal e do Teatro D. Maria II, ou no apoio político a candidatos de direita. Ouvi a Alexandre Babo, escritor comunista: “Escreve maravilhosamente bem, é pena ser tão reaccionária…” Mas seria redutor acusar a sua escrita de carga ideológica agressiva. Ela afirma-se sobretudo pela análise profunda da interioridade humana, um território onde não há rótulos fáceis e exprime o que observa através de uma escrita sumptuosa, num caudal narrativo de enorme talento. E tudo ao serviço de uma inteligência sagaz, de grande perspicácia, desvendando aspectos desconcertantes do ser humano. Tem predilecção pela escrita de aforismos: frases em que resume de forma lapidar uma observação, uma reflexão, às vezes um paradoxo. Não se considera uma autora perfeita, não faz planos de escrita, não se preocupa muito com a depuração estilística, o que considera ser uma característica muito portuguesa, “não se valorizar demasiado, é um dos nossos defeitos e, ao mesmo tempo, uma qualidade, porque, na verdade, é tudo transitório” (Jornal de Letras, Junho, 2004).
Desilude-se quem procura nos seus livros um enredo trepidante ou uma intriga muito elaborada. Agustina não gasta lugares comuns nem histórias inesperadas. Prefere a sondagem dos abismos e leva como máquina de perfuração apenas a curiosidade e a capacidade para ver e compreender.
Agustina deixou de escrever desde que foi vítima de um AVC em 2006 e vive recolhida na sua casa no Porto, na companhia de Alberto Luís, seu marido, que juntamente com dois investigadores, trabalha na fixação dos seus textos. O primeiro livro desta “opera omnia” é o “Dicionário Imperfeito” que, juntamente com o livro “Contemplação Carinhosa da Angústia”, é a melhor iniciação aos viajantes que decidam percorrer este território. Ambos editados pela Guimarães Editores. De referir também o nº 12 da revista literária Textos e Pretextos, co-editada em 2009 pela LivrodoDia de Torres Vedras, totalmente dedicado a Agustina Bessa-Luís. | MD

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VIDA E OBRA


Agustina Bessa-Luís, Vila Meã, Amarante, 1922. Infância e adolescência passadas nesta região, cuja ambiência marcará a sua obra. Estreou-se em 1948, com a novela Mundo Fechado. Desde aí manteve um elevado ritmo de publicação, contando com mais de meia centena de títulos.
Entre 1986 e 1987 foi Directora do diário O Primeiro de Janeiro (Porto). Entre 1990 e 1993 assumiu a direcção do Teatro Nacional de D. Maria II (Lisboa) e foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social.
Em 1954, com o romance A Sibila, Agustina Bessa-Luís  impõe-se  como uma das vozes mais importantes da ficção portuguesa contemporânea.
Vários dos seus romances foram adaptados ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira:  Fanny Owen ("Francisca"), Vale Abraão e As Terras do Risco ("O Convento"), para além de "Party", cujos diálogos foram igualmente escritos pela escritora. Autora de peças de teatro e guiões para televisão, tendo o seu romance As Fúrias sido adaptado para teatro e encenado por Filipe La Féria (Teatro Nacional D. Maria II, 1995).
Várias vezes apresentada como candidata ao Nobel, Agustina Bessa-Luís é pela segunda vez contemplada com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), relativo a 2001, com a obra "O Princípio da Incerteza - Jóia de Família", obra que Manoel de Oliveira adaptou ao cinema com o título "O Princípio da Incerteza". Entre muitos outros, recebeu os prémios Vergílio Ferreira 2004, atribuído pela Universidade de Évora, pela sua carreira como ficcionista, e o Prémio Camões 2004, o mais alto galardão das letras em português.

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ESCRITAS DE AGUSTINA

O que a leva a escrever? – perguntou-lhe um jornalista francês. Agustina respondeu: “Escrevo para incomodar o maior nú­mero possível de pessoas, com o máximo de inteligên­cia. Por narcisismo, que é um facto civilizador. Para ganhar a vida (...). Escrever é isto: comover para des­convocar a angústia e aligeirar o medo (…) Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas».
                                                                                  
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«Carta a Eugénio de Andrade, (25.06.2005)

Querido Eugénio

O melhor não são os sentimentos nobres das pessoas, mas o ácido prazer de amar seja o que for. Uma longa viagem nos une e nos separa. Nunca trocámos cartas porque essa débil força da confidência esteve sempre para nós fora de moda. Nunca deixámos que as palavras nos dessem lições. As palavras são como caminhos, umas vão dar a qualquer sítio que não nos importa conhecer; outras não servem para nada, e são as melhores.
A poesia não é feita de palavras, mas da cólera de não sermos deuses.
A Grécia, como a conhecemos, isso é que é poesia. O vento no fim da tarde em Delfos, o olival até ao mar, duma cor que já não me lembro. Nós não éramos profanos, mas argonautas em terra. Tenho ainda o medalhão de ouro, com Atena esculpida e a coruja ao lado. Tanta formosura para tão poucos iniciados!
Estou aqui a pensar que vou construir uma casa numa árvore do jardim, para navegar ao largo como o capitão Slocum, num iole de 12,70 toneladas de peso bruto. Daqui ao cabo Horn é um pulo. E sempre nos acenam os que ficam em terra, os lenços agitados pelo bom vento da costa. Somos navegadores solitários tentando não embirrar com o presidente do Transval que acredita que o mundo é plano e que não pode haver a volta ao mundo.
Um bom sorriso, e está bem assim.
Agustina Bessa-Luís» [ Retirada do blogue SAL DA LÍNGUA ( http://saldalingua.wordpress.com/2009/12/29/o-lugar-dos-amigos-agustina-bessa-luis/#comment-149), acedido em 16 /01/2011.]

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«Também eu assisti a um congresso de mulheres capacitada dos seus direitos e ouvi esse argumento da solidão como mal necessário da independência feminina. Mas a solidão é sobretudo motivada pela rápida transição da vida familiar à vida profissional e à perda das reacções parentais mal substituídas por outras. Depressa se abandona o lar paterno, se têm filhos, se casa outra vez e se reconhece uma coisa assustadora: as pessoas são dispensáveis como uma chaleira cuja resistência ardeu. E mais fácil adquirir outra do que remediar os estragos para os quais não basta um bocado de fio eléctrico e de habilidade. É preciso piedade e boa dose de alegria amorosa. As mulheres, em geral desviadas da procriação por razões económicas e factores frustrantes, estão muito recalcadas quanto ao estado de alegria amorosa que é a de ver os filhos pequenos à sua volta. Antes que ela se adapte a uma sociedade laboriosa e secreta, onde a criança não tem sentido messiânico mas sim sentido decorativo, passará muito tempo. Ser mulher foi uma invenção maravilhosa; terá de ser uma descoberta ilustre.» (In: Dicionário Imperfeito, Guimarães Editores, Lisboa, 2008)

                                                                                        

16.1.11

A ESCRITA SUMPTUOSA DE AGUSTINA BESSA-LUÍS



«E, contudo, auspiciosos dias os da matança! Vinham de longe os parentes, os homens com os varapaus de marmeleiro dourado pelo tempo e pelo fumo, as mulheres com as saias pretas em cuja fímbria secara a lama. Eram muitos, com suíças e cabeleiras duma cor parda ou ardente, e possuíam todos aquele sorriso áspero e fechado, como se permanentemente enfrentassem o vento, não com desagrado, mas com uma espécie de desdenhosa beatitude. Acampavam praticamente na cozinha, debicando azeitonas, pão doce, figos, e adivinhava-se neles uma sobriedade que não era desprezo da fartura, mas antes um fastio benevolente de quem nunca conheceu privação nem fomes. Constituíam, assim de pele clara, independentes e administradores magistrais das suas paixões, um verdadeiro clã, difícil de penetrar e de subornar. Mesmo alguém como Maria Delfina, ligada a essa gente pelo casa¬mento e entregando-se com boa-fé a toda a classe de subserviências de coração, não podia jamais pertencer à família e nunca obtivera senão uma estima tolerante da parte das suas jovens cunhadas; a pró¬pria sogra tratava-a sempre como a uma visita acidental, punha-lhe na cama os melhores lençóis, seguia-a com um olhar afável e preocupado cada vez que Delfina se deslocava dum lugar para o outro da casa; e, se a adivinhava grávida, prestava-lhe os cuidados mais comoventes, sem deixar de exprimir esse fiozinho de desdém com que se brinda toda a inexperiência. Fora preciso muito tempo para Maria Delfina compreender que um temperamento não obriga a laços profundos; e essa tribo, com as suas sobrancelhas loiras e os seus pequenos olhos vigiadores, com o seu ar onde pairava sempre uma ligeira e intrigante expectativa, possuía um temperamento, mas não amava senão duma forma episódica e imparcial aqueles que não nasciam nas suas fron¬teiras e no seu sangue. Era inútil servi-los, endividar-se por eles, per¬der a alma em nome dos seus vícios e dos seus dons; nunca o reco¬nheciam, sacudiam da pele os favores e as simpatias, com essa grosseria que se pressente nas autênticas solidões.


No tempo da matança, sem que fosse preciso distribuir convites, toda a família se reunia na casa-mãe, com os seus pequenos rebentos que perseguiam às varadas os patos até aos tanques e que disputavam velhos botões e piões e fundas. As mulheres eram bem feitas, o ventre um tanto salientei pelo estrangular da cintura, os pés bonitos e calçados com perfeição; vestiam-se com uma elegância sensual, gostavam das cores belas, da seda e do oiro, mas, ainda que atrevidas de palavras, pareciam ignorar os homens e esquivar-se, com algo de intencional, à sua categoria de fêmeas. Através duma prudência cheia de avisos e ausências, havia uma forma audaciosa, uma vontade manifesta da escolha, um decidir sem nunca chegar a oferecer condições — e Del¬fina achava tudo isso atroz, ainda que, de certo modo, apaixonante.»

in: A Brusca, Contos, 1971

12.1.11

UM POUCO DE AUDÁCIA...


Um pouco de audácia com todos é uma importante prudência. É preciso moderar a ideia que se tem dos outros para não os elevar a ponto de os temer­mos. Que a imaginação nunca vença o coração. Alguns parecem importantes até que se começa a conviver. Este contacto provoca mais a decepção que a estima. Ninguém excede os curtos limites da humanidade: cada qual tem o seu "mas", uns na inteligência e outros no carácter. A dignidade proporciona uma autoridade apa­rente que quase nunca é acompanhada de autoridade pessoal. A sorte costuma castigar um emprego importan­te com méritos inferiores. A imaginação aumenta sem­pre e torna as coisas mais importantes do que são; não capta só o que há, mas o que poderia haver. A razão, cur­tida pela experiência, deve corrigi-la. Mas, nem a necedade deve ser atrevida, nem temeroso o mérito. Se à simpli­cidade lhe valeu a confiança em si própria, muito mais à valia e ao saber!

BALTAZAR GRACIÁN (1601-1658), in A ARTE DA PRUDÊNCIA

23.12.10

LUGAR ONDE Nº 101 - Semanário BADALADAS de 24 DEZ 2010





NATAL
SAUDADE OU ESPERANÇA?

Natal, centro histórico da nossa infância. Fascínio da memória, saudade do lume antigo. E choramos as ruínas e os escombros dos anos, agora que não há luzes e as baladas se calaram. Quem pode falar de Natal a quem tem fome e sede de justiça? A quem perdeu um filho, um pai? Que Natal podemos convocar a quem tudo falta? Natal: saudade ou esperança?
Teixeira de Pascoaes: “Vemos somente recordações, memórias, da divina Esperança. Somos lembranças de Deus; e é por isso que temos a faculdade de o perceber ou inventar…”
Que resta de tantos natais de esperança para quem perdeu a esperança do Natal?
Que o lume se ateie! Que a luz ilumine! Que a esperança renasça!


                                                                                    *


HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação. 

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

MIGUEL TORGA 

*
NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

DAVID MOURÃO-FERREIRA

*
FALAVAM-ME DE AMOR

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

NATÁLIA CORREIA

*
NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado...
Só esse me pareceu Cristo.

VITORINO NEMÉSIO

*


OS PROFETAS

Assombra, esta verdade que trazemos.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém.

REINALDO FERREIRA

*



PRECE DE NATAL

Menino Jesus
De novo nascido,
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

Vede que os humanos
Erros e cuidados
Nos são tão pesados
Como há dois mil anos.

A nossa ignorância
É um fardo que arde.
Como se faz tarde
Para a nossa ânsia!

Nós somos da Terra,
Coisa fria e dura.
Olhai a amargura
Que esse olhar encerra.

Colai o ouvido
À alma que sofre;
Abri esse cofre
Do sonho escondido.

Pegai nessa mão
Que treme de medo;
Sondai o segredo
Da minha oração.


Esta pobre gente
Que mal é que fez?
Nós somos, talvez,
Um povo «inocente»...

Menino Jesus
Que andais distraído
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!
(…)

Carlos Queiroz (1907-1949)




Presépio de Machado de Castro - Basílica da Estrela, Lisboa


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CEM LUGARES! ONDE?

Foi em Julho de 2002 que teve início esta página mensal LUGAR ONDE que atingiu em Novembro o número 100. Espaço de outras leituras, literaturas, escritas e dizeres das nossas vivências culturais. Intenção de aqui trazer contrapontos, outros pontos de vista, as intuições dos poetas, a expressão da arte escrita, ou outras artes. Um projecto a partir da verificação de que “a escuridão que cobre tantos recantos do nosso tempo se deve ao gasto excessivo das palavras, tornadas irrelevantes.” E a partir da ideia cada vez mais arreigada em nós de que a literatura é o LUGAR em que o homem encontra as palavras essenciais da vida, do mundo. E também da interrogação: ONDE?
LUGAR ONDE: venham mais cem!




 

16.12.10

ACONTECE


E Carlos Pinto Coelho partiu pela segunda vez. (Da primeira, por influência de um tal político que nunca chegou a indemnizar-me com a viagem à volta do mundo...)
Adiante. Pinto Coelho e a cultura que ele tão bem serviu pertencem a um mundo bem diferente, onde as viagens não se contabilizam. Nunca dei pela falta do Sarmento mas pela do Carlos sim, e muito.

13.12.10

CHEGÁMOS A 100!



A página LUGAR ONDE no BADALADAS atingiu o número 100 em Novembro passado.
Teve início em Julho de 2002 e sai mensalmente.
É um espaço de livros, leituras, autores e, por vezes, de alguns comentários na área cultural.
Um pequeno contra-peso para compensar algum excesso de páginas dedicadas ao desporto...
Realço a autonomia absoluta que sempre me foi dada pela Direcção do jornal.
Não tenho retorno dos leitores, é um facto. As pessoas lêem e deitam fora, jornal é assim mesmo. Mas sei de algumas pessoas que gostam,  e isso sabe-me bem...

10.12.10

AFORISMOS



Vive a tua vida. Não sejas vivido por ela.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego)




5.12.10

LUGAR PARA SOPHIA

Maria de Sousa Tavares, filha de Sophia


A ler na revista ÚNICA, Expresso de 4/12/2010:

---> a entrevista à filha mais velha de Sophia de Mello Breyner, Maria de Sousa Tavares, que se tem dedicado à organização do importante espólio da poetisa, doado à Biblioteca Nacional.

A ter em conta:

---> o Colóquio sobre Sophia em 27 e 28 de Janeiro de 2011. Ver AQUI.

27.11.10

PRÉMIO LITERÁRIO AGUSTINA BESSA-LUÍS






Prémio Agustina Bessa-Luís para Paulo Mourão Bugalho, pelo romance "A CABEÇA DE SÉNECA".
Ver AQUI.

26.11.10

ACORDO ORTOGRÁFICO







ACORDO ORTOGRÁFICO *

TEMOS DE ESTAR DE ACORDO?



Toda a gente pergunta: o Acordo Ortográfico (AO) já está em vigor? Desde quando, exactamente? Sou obrigado a respeitá-lo? Mas afinal, o que é que mudou? Fomos à procura e encontrámos algumas respostas. Mas estamos num terreno movediço.

Fernando Pessoa teve o mesmo problema que nós: em 1911 – tinha ele 23 anos – foi feita uma importante reforma ortográfica, considerada urgente pela variedade caótica de formas de escrita, incompatível com a necessidade da rápida e universal divulgação das leis republicanas. E insurgiu-se frontalmente contra as mudanças propostas, que iam no sentido de aproximar a escrita da pronúncia, o que, no seu entender, colidia com a necessidade de respeitar a etimologia das palavras, isto é, a sua origem greco-latina.

Sabemos hoje que qualquer alteração ortográfica é discutível, para mais quando ela envolve países diferentes, como é o caso do espaço da lusofonia. Há sempre opções polémicas, consideradas incongruentes por uns e defensáveis por outros.

Em nosso entender a questão é esta: a Língua é o resultado de uma longa sedimentação de hábitos e procedimentos. Tanto na fala como na escrita, há normas que o tempo consagrou, mas que são convencionais, mais ou menos impostas, mais ou menos adoptadas e aceites. Este processo era lento e elitista no tempo em que só uma minoria sabia escrever ou tinha acesso aos púlpitos, fosse nas igrejas ou em actos públicos. Hoje, porém, a realidade é bem diferente: alfabetização geral, escolaridade obrigatória até ao 12º ano, proliferação de meios de comunicação, expansão da Língua em todos os continentes, com a emergência de novos países de língua oficial portuguesa, num universo de mais de 200 milhões de falantes; participação de Portugal na União Europeia e no Conselho de Segurança da ONU, a par de muitos outros organismos mundiais em que estão todos os outros países da lusofonia, com a consequente circulação de milhares de documentos escritos em Português.

Assim se tem justificado a necessidade de adoptar algumas simplificações na escrita, que a isso se resume este Acordo Ortográfico, que vem na sequência de outros. Sempre houve opositores a estas mudanças, como acontece agora, em que figuras muito conhecidas da nossa vida cultural se insurgiram e levaram ao Parlamento uma petição com cerca de 33 mil assinaturas. Mas o acordo foi ratificado em Portugal, como consta no Dº da República, 1ª série, nº 145, de 29 de Julho de 2008, tendo entrado em vigor em 13 de Maio de 2009, data a partir da qual se conta o período de seis anos de transição, que se aplica sobretudo às escolas e aos documentos oficiais. É claro que ninguém é obrigado a seguir as novas regras, nem será punido por desrespeitá-las. Por isso vai repetir-se a dualidade de maneiras de escrever, como quando eu era miúdo e me ria da minha avó Leonor que escrevia “à moda antiga” (antes do acordo de 1911) e não percebia as regras que eu andava a aprender na escola primária







CONHECER A NOVA ORTOGRAFIA


Quem pretende escrever com correcção sempre precisou de ter à mão vários instrumentos de consulta: gramáticas, dicionários e prontuários ortográficos. Com o Acordo O. vai passar-se o mesmo. As editoras já estão a publicar esses preciosos auxiliares e na internet há alguns muito úteis, inclusivamente conversores ortográficos gratuitos, pese embora algumas divergências que encontrámos, reveladoras de que este processo de revisão ortográfica tem sido bastante mal conduzido, dando razões suplementares aos seus detractores. Só o tempo limará as arestas. Pelo seu equilíbrio de análise e por conter os textos fundamentais do AO aconselhamos o livro “O Acordo Ortográfico” de Francisco Álvaro Gomes, Porto Editora, 2008.

O Portal da Língua Portuguesa tem disponível no seu site o download gratuito de um conversor do novo Acordo Ortográfico, o Lince.
O conversor está disponível para o Windows, MAC OS X ou Linux, suporta os formatos DOC, DOCX, ODT, HTML, XML, RTF, PDF e TXT e permite converter em simultâneo um número elevado de ficheiros de qualquer dimensão.
Esta ferramenta, lançada pelo Estado, permite que os Portugueses se adaptem às novas regras da escrita.
 
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PERGUNTAS E RESPOSTAS
 


O que é o Acordo Ortográfico de 1990?

O "Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa" é um documento assinado em 1990 pela Academia das Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Letras e delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, com a adesão da delegação de observadores da Galiza; foi aprovado, para ratificação, na Assembleia da República Portuguesa a 4 de Junho de 1991 e publicado a 23 de Agosto de 1991 em Diário da República. Este Acordo foi alvo de dois protocolos modificativos (em 2000 e em 2004), o último dos quais permite a adesão de Timor Leste e estipula que o Acordo pode entrar em vigor quando três países o ratificarem.

Este documento legal pretende regular a ortografia portuguesa, a única área da língua que é objecto de uma regulamentação oficial.

O Acordo Ortográfico de 1990 já está em vigor em Portugal?

Sim. De acordo com o aviso n.º 255/2010 do Ministério dos Negócios Estrangeiros, publicado em 17 de Setembro de 2010 no Diário da República n.º 182, I Série, pág. 4116, o Acordo Ortográfico de 1990 vigora em Portugal desde 13 de Maio de 2009, data em que foi depositado junto da República Portuguesa o instrumento de ratificação do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. É a partir desta data, 13 de Maio de 2009, que começa a ser contado em Portugal o período de transição de 6 anos estipulado por lei, o que significa que 2015 é o prazo limite para a adopção oficial da nova ortografia. O art.º 2º da Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, de 16 de Maio de 2008, prevê esse período de transição em Portugal, durante o qual "[...] a ortografia constante de novos actos, normas, orientações, documentos ou de bens referidos no número anterior ou que venham a ser objecto de revisão, reedição, reimpressão ou de qualquer outra forma de modificação, independentemente do seu suporte, deve conformar-se às disposições do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa".

RETIRADO DE: http://www.flip.pt/AcordoOrtogr%C3%A1fico/PerguntasFrequentes/tabid/536/Default.aspx (acedido em 14/11/2010)






VOZES DISCORDANTES



“A palavra Phantasma, por exemplo, escrita com F perde todo o seu aspecto espectral e misterioso; Theologia escrita só com T, perde o seu sinal de transcendência divina. Mas já não acontece o mesmo nas palavras Teatro, Fotografia...; aquelas são complexas e profundas, estas são simples e claras.” (Teixeira de Pascoaes, in A Águia, aquando da reforma ortográfica de 1911)

«Devo dizer que considero o acordo ortográfico um chorrilho de asneiras, absolutamente incompatível com a dignidade da língua portuguesa e da identidade do nosso país, não por qualquer espécie de nacionalismo exacerbado, mas porque o acordo é completamente desajustado à maneira como nós falamos a nossa própria língua» (Vasco Graça Moura in: Bom Dia Portugal, RTP, 23 JAN 2010)


* Publicado no semanário BADALADAS, em 26 de Novembro de 2010, página LUGAR ONDE -Escritas e Dizeres (nº 100)


22.11.10

Carolyn Carlson - DARK



Negrume, gestos desesperados, lugares inóspitos: uma dança que "diz" o mundo em que vivemos...