25.7.11

LUGAR ONDE de 22 Julho 2011 no BADALADAS





ENTÃO… BOA VIAGEM!

Ler é viajar, certo? Por isso, mais viajamos se o livro é um relato de viagem. Bom exercício para um verão caseiro. Sugestões de leituras - de viagens! - para todos os gostos.

 Qual é a essência de uma viagem? Mais do que o percurso ou o ponto de chegada, o que conta é o espírito de quem a faz. Ou seja: o famoso “sei que não vou por aí!”, de José Régio, traduzido por “o tino é mais importante que o destino”!
Seja a “VIAGEM AO FIM DA NOITE” – isto é, ao mais recôndito da alma humana -, ou a “VIAGEM À RODA DO MEU QUARTO” – divertido e lúcido passatempo de um prisioneiro no século XVIII, - é na cabeça dos viajantes que lemos a geografia do caminho andado. “VIAGENS NA MINHA TERRA” - Tejo acima, até Vila Nova da Rainha, e um passeio de mula da Azambuja até Santarém – pouco seria se não fosse a pena do escritor brilhante a transfigurar a paisagem. “VIAGEM AO CENTRO DA TERRA” - mergulho no mais delirante e verosímil mundo imaginário – continua a incendiar as nossas memórias de leitores. “OS LUSÍADAS” – essa viagem de todos nós ao oriente do nosso oriente – é um livro aborrecido apenas para quem se deixou embotar por novelas mal amanhadas. Valha-nos alguém da nova geração para nos propor “UMA VIAGEM À INDIA” – visão irónica e desencantada de quem perdeu caravelas e navega agora na vulgaridade de um continente sem horizontes.
Livros para abalar daqui, ir embora, dar de frosques…
Então… Boa viagem! (JMD)

* * *



«Numa aventura inaudita, Vasco da Gama parte à conquista de novos mundos. As suas caravelas representam o sonho de um povo e as suas velas brancas simbolizam a Fé e a União entre os Povos. De Lisboa à Índia, navegando pelos oceanos mais profundos, assolada pelos ventos mais tempestuosos, assaltada pelos monstros mais terríficos, sob a protecção de deuses e deusas, esta expedição de aventureiros e sonhadores parte em busca do desconhecido, procurando novos rumos para o mundo e encontrando a Glória e a Fama. Atravessando mares nunca dantes navegados e dando início àquilo que viria a ser a época áurea do Império português, Os Lusíadas é uma grandiosa homenagem ao Povo Luso, uma epopeia imortal que toca o mais fundo da alma portuguesa. Um épico genial do nosso maior poeta que para sempre viverá na memória do País que somos e do Império que fomos.» (Texto de apresentação)

* * *




«Este é um livro a muitos títulos surpreendente. Não pelo ineditismo ou pela novidade das peripécias, não por aspectos empolgantes da acção, mas, desde logo, pela maneira como, nele, caleidoscopicamente tudo se eleva à dignidade de literatura enquanto meio para retratar, talvez dizendo melhor, radiografar a condição humana.»
«É um livro cheio de fantasmas, fantasmas dos Lusíadas, fantasmas do homem contemporâneo, uma viagem, uma antiepopeia, e é um livro extraordinário. Estou convencido de que dentro de cem anos ainda haverá teses de doutoramento sobre passagens e fragmentos». (Vasco Graça Moura, na apresentação da obra, CCB, 13/11/10 e em «A Torto e a Direito», TVI24, 6/11/10)

«Uma Viagem à Índia, com consciência aguda da sua ficcionalidade, navega e vive entre os ecos de mil textos-objectos do nosso imaginário de leitores. Como são todos os grandes livros, e este é um deles.» (Eduardo Lourenço, prefácio à obra)

 * * *



«Como é glorioso iniciar uma nova carreira, e aparecer subita­mente no mundo culto, com um livro de descobertas na mão, tal um cometa inesperado que fulge no espaço!
Não, não mais guardarei o meu livro in petto; ei-lo, senhores, leiam-no. Iniciei e terminei uma viagem de quarenta e dois dias à roda do meu quarto. (…) Sente o meu coração uma satisfação inexprimível quando penso no número infinito de infelizes a quem ofereço um meio garantido contra o tédio e um alívio para os males de que sofrem. O prazer que se encontra ao viajar no próprio quarto está ao abrigo da inquieta in­veja dos homens; (…)
Estou certo de que qualquer homem sensato adoptará o meu sis­tema, seja qual for o seu carácter, qualquer que seja o seu temperamento; (…) enfim, na imensa família dos homens que pululam sobre a superfície da terra, não existe um só – um só que seja (entenda-se, daqueles que habitam quartos) que possa, depois de ter lido este livro, recusar-se a aprovar a nova maneira de viajar que introduzo no mundo.»
(Xavier de Maistre, (1763-1852). Primeiro capítulo da Viagem à roda do meu quarto)


 * * *


«Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo— entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escre­vesse, ao menos ia até o quintal.
Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões; pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.
Era uma ideia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonteiras de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita.»
(Almeida Garret, Viagens na minha terra, 1846)

16.7.11

VIAGENS



Viajando num tempo improvável, entro nestes dois livros que uma curiosidade renovada me fez tirar da fila de trás da biblioteca. Garrett coloca em epígrafe das suas Viagens o primeiro parágrafo do livro de X. de Maistre,  Viagem à Roda do meu Quarto: "Como é glorioso iniciar uma nova carreira, e aparecer subitamente no mundo culto, com um livro de descobertas na mão, tal um cometa inesperado que fulge no espaço." Páginas adentro, sou arrebatado pela vertigem destas escritas profundamente inovadoras para o tempo em que foram publicadas. Longe dos fastidiosos relatos de viagens, repletos de erudição pedante, estes afirmam-se pela frescura da escrita e a risonha ironia de quem sabe que não precisa nem quer afirmar-se como literato. O primeiro, publicado em 1795, o segundo em 1846, chegam-nos com a novidade e o viço de fruta apanhada ontem. 

6.7.11

OS POETAS "A METRO"



Li e apreciei... 

http://bibliotecariodebabel.com/geral/e-levavam-nos-a-conhecer-as-principais-tipografias-do-reino/



No mais recente número da revista Ítaca (o terceiro), encontrei um poema muito divertido de Tiago Patrício. Uma vez que a expressão «poema muito divertido» raramente coexiste na mesma frase com o nome de um autor português, façam o favor de apreciar:



OS CRIADORES DE POETAS

Recolhiam os escritores à porta

dos clubes recreativos e colocavam-lhes pulseiras

com um número e uma cor a condizer com a alcofa

depois ficavam a olhar para eles

com uma certa ternura e curiosidade

liam-lhes os direitos em prosa

e faziam apostas quanto ao valor

de mercado depois do primeiro Inverno



Escolhiam nomes provisórios como pseudónimo

uma nacionalidade e um passaporte

e quando eles começavam a esboçar

as primeiras inclinações para um género literário

metiam-nos num avião ou num comboio internacional

que os levasse a conhecer o estado da arte

e as principais tipografias do reino



Eram os criadores de poetas

que lhes lavavam a cara

e os vestiam logo de manhã

com roupas adequadas à estação

compravam alfinetes de ama

ou ganchos e fitas para o cabelo



Mudavam-lhes as fraldas e faziam-nos rir

com caretas e expressões idiomáticas

até esboçarem o primeiro poema de amor

depois levavam-nos ao colo para os encontros de poetas

ofereciam-lhes guloseimas quando eles fazia birras

e cantavam-lhes canções durante as crises criativas

como se dessem corda a uma caixa de música



Tosquiavam-nos na altura certa

ofereciam-lhes a ração diária e um afago sincero

enquanto os levavam pela trela

até aos caminhos apressados da transumância

dos lugares santos entre os portos nocturnos

das cidades a transbordar

e abriam as portas para as paisagens

mais férteis da imaginação



Entretanto mostravam-lhes as grandes inovações

e diziam-lhes isto é a ciência, isto é a arte

isso meu pequeno

é a impaciência



Eram os criadores que lhes apresentavam

as pessoas certas e os lugares onde se deviam sentar

que os ajudaram a decifrar letreiros noutras línguas

e a atravessar a estrada na passadeira



Quando atingiam um determinado porte

e aprendiam a escrever sozinhos

poemas de várias páginas

trocavam-nos por outros mais novos

ainda sem óculos e aquela barba incómoda

Às vezes os poetas resistiam à mudança

e sentiam-se rejeitados quando lhes diziam

- Agora vai à tua vida



Mas criadores de poetas continuam

a lembrar-se deles nos aniversários dos seus livros

oferecem-lhes canetas douradas

e papel timbrado e no dia mundial da poesia

ainda os convidam a dizer algumas palavras

para essa grande celebração religiosa



Nessa altura os poetas cativos

de outras casas de criação rápida

e um corpo empanturrado por atenção

cheios de um ressentimento criativo dizem

- Não te conheço de lado nenhum

e agora as palavras estão fora de moda

27.6.11

OS POETAS... A POESIA..

Aguarela de António Bártolo - Torres Vedras



«O que te atrai nos poetas?
Aquilo que me atrai nos poetas é a poesia. A poesia é como a água nas profundidades da terra. O poeta é semelhante ao vedor de águas, encontra a água também nos lugares mais áridos e a faz jorrar.
Mas tu falaste de alguns poetas como pessoas da maneira um pouco limitativa.
Os poetas são poetas somente na página, porque nas páginas já não estão sós. Existem eles e o seu demónio. Na vida estão sós, sem demónio, e então são homens como os outros.»
(Vida de Moravia, Ed Livros do Brasil, Lx, 1992. A partir da conversa do jornalista Alain Elkann com o escritor Alberto Moravia)

19.6.11

ALVES REDOL - Publicado no BADALADAS de 17 JUNHO 2011




NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO
ALVES REDOL, ESCRITOR DO POVO
Designação apropriada para um homem que escreveu no meio do povo e para o povo, num tempo em que se trabalhava por salários de miséria e não havia protecção social. Que os mais velhos ainda hoje recordam como “o tempo da fome”.
Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira em 1911 e viveu na carne a dureza daqueles tempos. Ainda experimentou o sonho de fazer vida em África mas logo regressou. Desiludido mas disposto a enfrentar o salazarismo que se afirmava contra as liberdades e a democracia. Homem decidido, sentiu o apelo da escrita como arma de denúncia e de libertação. Adere ao Partido Comunista e envolve-se no MUD – Movimento de Unidade Democrática. Firme, ideologicamente coerente, traça o seu caminho literário na senda do chamado neo-realismo com uma obra fundadora, fulgurante, publicada em 1939, GAIBÉUS, onde retrata o inaudito sofrimento do trabalho nos arrozais do Ribatejo, em pleno verão, pelos ranchos de camponeses vindos das Beiras.
Redol criou o seu próprio método de escrita: ia viver para o meio das gentes que retratava, ouvindo, observando, na partilha total das dificuldades. Foi assim que escreveu AVIEIROS, esses nómadas do Tejo que habitavam nos seus barcos varinos ou em barracas de madeira nas margens do grande rio. Ou UMA FENDA NA MURALHA, sobre os pescadores da Nazaré. Ou ainda o ciclo de romances sobre o Douro, em que descreve a faina duríssima nos socalcos da vinha.
Homem da borda d’água, será no cenário do latifúndio ribatejano que Alves Redol erguerá a sua obra-prima literária, BARRANCO DE CEGOS, publicada em 1961. Aí aplica todos os seus recursos para descrever a queda de um mundo aparentemente imutável e a ascensão de novos personagens num tempo de violentas mudanças.
Redol deixou uma obra que vale a pena revisitar, tanto pela realidade social que descreve como pela belíssima prosa em que se exprime.
* * *

O que resta da aldeia avieira do Patacão (Margem esquerda do Tejo, concelho de Alpiarça)

                                              
Barco avieiro no Tejo


Nos anos 60 do século XX a praia da terra onde nasci – Alpiarça – era nos areais do Tejo, junto à aldeia avieira do Patacão. Por cinco escudos alugávamos um barco a remos para uma tarde de sol e água. Não sabíamos ainda que as famílias que ali viviam eram descendentes dos pescadores da praia de Vieira de Leiria, emigrados no início do século XX de uma costa desabrigada para um rio largo, rico em sável, fataças e sabogas. Sabemos hoje que este fenómeno de migração interna deu origem a uma população com características específicas, os Avieiros, “nómadas do rio”, dispersos por aldeias na margem do Tejo e do Sado. Hoje pouco mais resta que ruínas e abandono. Por isso se constituiu há alguns anos um movimento tendente a propor a Cultura Avieira como Património Nacional. E nos dias 17 e 18 deste mês de Junho decorrerá em Santarém o 2º Congresso da Cultura Avieira, com a finalidade de sublinhar o valor turístico-cultural deste original património histórico e sociológico.
                                                                                       * * *

Retrato de Alves Redol
de Ary dos Santos
Porém se por alguém não foi ninguém
cantou e disse flor canção amigo
a si o deve. A si e mais a quem
floriu cresceu cantou lutou consigo.

Homem que vive só não vive bem
morto que morre só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo com todos ficar vivo.

Nado-vivo da morte. É isso. É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer. E dar por isso.

                                                                                    * * *
VIVER COM OS AVIEIROS
Alves Redol foi cronista do povo trabalhador, dos assalariados agrícolas e pescadores, de cuja existência sofrida jurou dar testemunho. Fiel ao seu método de trabalho, Alves Redol meteu-se a viver algumas semanas com os pescadores do Tejo numa aldeia avieira, a Palhota, donde resultou o belíssimo romance AVIEIROS. Explicou no prólogo:
«Mas voltemos à minha experiência espontânea, logo depois premeditada. Muitos chamavam recolha, talvez impropriamente, a esta busca de contacto humano; outros apoucaram o processo, impropriamente também. Na verdade, não se recolhem os materiais da vida; vivem-se. Ou inventam-se. Mas escolhem-se as vivências ou as invenções quando um escritor sabe para que vive. E como lhe importa viver.»
Quem for hoje à Palhota, lá encontrará uma lápide evocativa desta vivência de Redol, sinal de gratidão dos habitantes da aldeia para com o homem que perpetuou na escrita a memória de um duro quotidiano de luta pela sobrevivência.

Casa onde viveu Alves Redol, na aldeia avieira da Palhota (margem direita, concelho do Cartaxo)
Lápide comemorativa, dedicada a Alves Redol* * *
Trecho de "AVIEIROS"
FOLHAS DE OUTONO NO TEJO
«Ela sentara-se no banco de remar e partira antes dos outros. Quase ao fim da tarde, o Tejo pusera-se mais calmo; parecia que o saveiro navegava por cima de um vidro colorido que a proa cortava de mansinho, deixando-o em estilhaços que se recompunham com os restos do sol. (…)
Mal entraram no túnel das árvores que enchem as duas margens, apareceu um vento áspero, a sacudir tudo; até assobiava nos troncos e nos ramos. E corria tanto, e assobiava tanto, espantado, quem o espantara? que as folhas começaram a cair aos cachos, fugindo algumas, juntando-se depois, num torvelinho, indo e regressando num corropio, que Olinda Carramilo parou de remar e ficou queda no banco, meio tonta, como o Tóino, que já bebera mais de meio garrafão de vinho e ainda não parara de cantar.
E num repente, quando o vento garanhão fugiu para a Lezíria à procura das éguas, as folhas que revoluteavam como pintassilgos tontos caíram de chapuz sobre a vala da Casa Branca e deixaram tudo alagado das cores do Outono, um nadinha triste, mas tão sorrateiro, que o Tóino da Vala não se moveu no fundo do barco. Amarelas, doiradas, vermelhas, quase de fogo, ardidas e ainda ardentes, verdes, cúpricas, verde-cré, verde-montanha, verde-gaio, verde-negro, ocres, castanho-queimado, e vermelhas, acesas, fogaréus a arder, as folhas do arvoredo da vala tombaram, de repente, sobre o corpo do pescador vagabundo e vestiram-no a esmo de todas as cores que havia nesse mês.
Deslumbrada, Olinda Carramilo ergueu os olhos para aquela chuva fantástica que também lhe escorria pelos ombros e engrinaldava a cabeça.
Depois tudo se quedou num grande silêncio, como se as árvores ficassem a ver o que delas fugira com o vento. »
(in: AVIEIROS, A. Redol; Livros de Bolso Europa-América, nº 214, p. 117))

Pescadores avieiros no Tejo, anos 60 do séc. XX






15.6.11

UM PROJECTO FASCINANTE




Pegue-se numa tela de Klimt, O BEIJO, e habitêmo-la com gente de carne e osso.
Trabalho fascinante de uma turma do 12º ano na Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim.
Ver AQUI.http://asamantesdeklimt.blogspot.com/

6.6.11



Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serva para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

E ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.

Manuel António Pina

3.6.11

Poesia, Saudade da Prosa - WOOK

Título: Poesia, Saudade da Prosa - WOOK
Link: http://www.wook.pt/ficha/poesia-saudade-da-prosa/a/id/10956740

 

Manuel António Pina, Prémio Camões 2011, numa antologia pessoal.

Um poeta de primeira água, a redescobrir.

27.5.11

CAFÉ COM FILMES - Uma história de infância



Hoje era o dia de "CRIANÇAS INVISÍVEIS", coletânea de sete curtas-metragens de sete realizadores.
"Mas as crianças, senhor/ Porque lhes dás tanta dor..."


Antes houve o desafio de uma canção. Dois jovens, uma curta história e uma viola em toque elementar.
No fim a deixa, olhando para mim: "O senhor... sim, o senhor: conte-nos uma história da sua infância..."

Entupi. Mas recompus-me, com a recordação daquela história que ficou sepultada lá para trás e voltou hoje à vida, inesperadamente. Contei:

Teria cinco ou seis anos, sei que ainda não andava na escola. Gostava de remexer em gavetas, por baixo da roupa encontrava quase sempre coisas inesperadas. Naquele dia encontrei um pedaço de papel colorido, com uma textura desconhecida. Brilhante, cheio de imagens e números, pintado dos dois lados. Guardei-o no bolso, saí do quarto em bicos de pés e fui à procura de um lugar seguro para guardar aquele papelinho maravilhoso. Numa das paredes do quintal, num sítio esconso, havia um buraco no tijolo. O papelinho lá ficou, muito enrolado.

Dois ou três dias depois não percebi o rebuliço que se levantou lá em casa. Alguma coisa importante tinha desaparecido. Os adultos, numa inquietação desusada, interrogavam-se mutuamente, num crescendo de desespero. Até que alguém se lembrou de me perguntar se eu tinha visto uma nota de 500$00?
Um papelinho às cores dos dois lados?
Sim, era uma nota, era dinheiro, era muito dinheiro.

Tive de revelar o sítio do meu tesouro sem perceber onde estava a gravidade da minha maldade. Não me bateram mas ainda hoje sinto a injustiça dos ralhos violentos que se repetiram ao longo de muitos dias.

Como é que eu hoje me fui lembrar disto?

21.5.11

MANUEL ANTÓNIO PINA, PRÉMIO CAMÕES 2011- Lugar Onde nº 106


Semanário Badaladas em 20 MAIO 2011




AINDA BEM QUE HÁ PRÉMIOS LITERÁRIOS…
PARABÉNS, MANUEL ANTÓNIO PINA!


A notícia apanhou muita gente desprevenida: Manuel António Pina (MAP) foi distinguido com o prémio Camões 2011, o mais alto galardão literário da Língua Portuguesa, instituído em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil e que se aplica a autores do espaço da lusofonia pelo conjunto da sua obra. Se pensarmos que, dos portugueses já premiados, fazem parte Miguel Torga, Virgílio Ferreira e José Saramago, entre outros, a atribuição deste ano é surpreendente. Nem a dimensão da obra nem a qualidade dela parecem do mesmo plano desses consagrados autores. Contudo, o júri, reunido no Rio de Janeiro, foi unânime e esse facto desafia o nosso preconceito.

Olhemos então esta obra: tem início em 1973 e abrange vários géneros: infanto-juvenil, poesia, crónica, teatro e ensaio, num total de 38 títulos; e foi reconhecida por 9 prémios, entre os quais o prestigiado “Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores”.

E se nos aproximarmos mais daremos conta do rigor e da originalidade de uma voz que ressoa nas suas páginas, interrogando o enigma do tempo que passa e o sentido essencial da existência humana. Eduardo Prado Coelho escreveu: Seja nos seus poemas, seja nos textos que nos oferece no âmbito do que se pode chamar «literatura para as crianças», seja ainda no teatro, Manuel António Pina é certamente um dos nomes fun­damentais da actual literatura portuguesa.” (ver: A Poesia Ensina a Cair, 2010, p.87)

Procuremos os seus livros, leiamos a sua poesia. Manuel António Pina não nos desilude. Por mais redutores e injustamente selectivos que sejam, ainda bem que há prémios literários…


                                                                                        ***

OBRA

Manuel António Pina nasceu no Sabugal (Guarda) em 1943. Licenciado em Direito. Poeta, autor de livros infanto-juvenis, tradutor, cronista, dramaturgo e jornalista profissional com passagem pelos títulos mais prestigiados da imprensa portuguesa, e também pela rádio e televisão. Foi professor da Escola Superior de Jornalismo do Porto e membro do Conselho de Imprensa.
38 títulos publicados e 9 prémios literários. De índole discreta, a sua obra tem-se afirmado pela qualidade e originalidade, sem concessões ao populismo fácil.

                                                                               ***

CITAÇÕES

«O escritor Manuel António Pina ganhou o Prémio Camões. E, de repente, eis-me reconciliado com a justiça deste tempo. Poeta enorme, escritor incomparável, camarada indomável, jornalista e cronista de estalo, o Pina tem a justa recompensa em vida por um percurso original, digno e desafiador. Brindo a isto numa altura em que Portugal, pelos vistos, apenas se avalia em dívida ou em Dublin.» (Miguel Carvalho, jornalista, in http://adevidacomedia.wordpress.com/ em 12 Maio 2011)
«Independentemente de à poesia pouco mais ser dado dizer do que o silêncio do mundo (silêncio que é, na língua, abertura ao sentido e sentido aberto), ela pode constituir uma espécie de epifania sem revelação daquilo que talvez saibamos sem sabermos que o sabemos.”(M. A. Pina, entrevista à revista brasileira Agulha, 2003)
                                                                                    ***



POEMAS DE MANUEL ANTÓNIO PINA

ARTE POÉTICA

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.

Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?

                                *
LUZ

Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,

e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.

*

COMPLETAS

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


                                                                                     ***

SENTIDO MISTERIOSO

«Encheu os pulmões de ar fresco e pensou: «Deve ser isto a alegria. Que estranho sentimento! De repente, fiquei de bem comigo, como se estivesse zangado e tivesse feito as pazes comigo.» E recordou-se então de quando era criança, e a mãe, à noite, antes de adormecer, lhe aconchegava os lençóis e se debru­çava sobre ele para lhe dar um beijo. «Há quanto tempo não me lembrava de minha mãe!», murmu­rou. E, sem saber porquê (que bem que se sentia por não saber finalmente qualquer coisa!), tudo à sua volta, o mundo, a vida, ele próprio, lhe pareceu então fazer sentido, um sentido claro e misterioso que ele, que sabia tudo, não conseguia entender, mas sentia dentro de si como se tivesse encontrado uma coisa que há muito perdera e de que já se esque­cera.» (M. A. Pina, HISTÓRIA DO SÁBIO FECHADO NA SUA BIBLIOTECA, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009)





17.5.11

O PAÍS PERDIDO


Venerando de Matos e a sua evocação do país perdido da infância.
A ler AQUI.

6.5.11

FELICIDADE



«Procuremos, pois, manter-nos de boa saúde, não ter quaisquer preconceitos, ter paixões, pô-las ao serviço da nossa felicidade, substituir as nossas paixões por gostos, conservar preciosamente as nossas ilusões, ser virtuo­sos, nunca nos arrependermos, afastar de nós as ideias tristes e nunca permitir ao nosso coração conservar uma centelha de gosto por alguém cujo gosto diminua e que deixe de amar-nos. Por pouco que envelheçamos, um dia seremos forçados a abrir mão do amor, e esse dia deve ser aquele em que o amor já não nos faça felizes. Pensemos, enfim, em cultivar o gosto pelo estudo, esse gosto que faz depender a felicidade apenas de nós pró­prios. Ponhamo-nos ao abrigo da ambição e, sobretudo, cuidemos bem de saber o que queremos ser; decidamo-nos sobre o caminho que queremos seguir para passar a nossa vida e procuremos semeá-lo de flores.»
(in: Discurso sobre a felicidade, Madame du Châtelet (1706-1749))

4.5.11