30.3.11

MATARAM A TUNA!

Em ano de centenário do nascimento de Manuel da Fonseca, recordo o poema que foi minha porta de entrada na obra do escritor.
Continuo a lê-lo com o mesmo deslumbramento do início. A frescura da evocação, a capacidade sugestiva, a reconstrução cinematográfica dos ambientes. Tudo numa linguagem surpreendentemente simples, sem atavios. Absolutamente genial!






MATARAM A TUNA

Nos domingos antigos do bibe e pião
saía a Tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim.

Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à vila
tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve
o burro da nora da Quinta Nova
espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.


Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor ...
(só a Marianita se enganava
ai só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar ... )
que eu sabia de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almadanim!

Entanto as senhoras não gostavam
faziam troça dizendo coisas
e os senhores também não gostavam
faziam má cara para a Tuna:
- que era indecente aquela marcha parecia
até coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha Almadanim.

Mas Zé Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
enchendo a rua enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
raspavam notas violentas
rasgava a Tuna o quebranto da vila
tangendo nas violas e bandolins
a heróica marcha Almadanim!

Meus companheiros antigos do bibe e pião
agora empregados no comércio
desenrolando fazenda medindo chita
agora sentados
dobrados nas secretárias do comércio
cabeças pendidas jovens-velhinhos
escrevendo no Deve e Haver somando somando
na vila quieta
sem vida
sem nada
mais que o sossego das falas brandas ...
- onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha Almadanim?!

Ó meus amigos desgraçados
se a vida é curta e a morte infinita despertemos e vamos
eia!
vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!

25.3.11

LUGAR ONDE Nº 104 - Badaladas, 18 março 2011

ESCRITORES ESQUECIDOS


TRINDADE COELHO E OS SEUS AMORES.
Há muito que não aparece nas selectas de Língua Portuguesa. No entanto escreveu páginas de antologia sobre a vida campestre dos finais do século XIX, descrições coloridas de lugares e costumes que permanecem no nosso imaginário - filhos e netos de camponeses que todos somos…

O século XIX português é o lugar de todas as mudanças sociais e políticas que explicam o nosso modo de ser actual. A incipiente industrialização com o início do desenvolvimento das áreas urbanas de Lisboa e Porto determinou o início da decadência rural, numa sucessão lenta mas inexorável de transformações que se projectaram até aos nossos dias. Na balança de ganhos e perdas, a crueza da vida urbana, em contraste com os antigos modos de vida ligados à Natureza, suscitou uma visão idílica da vida campesina que teve grande expressão literária nos romances de tema campestre como os de Júlio Dinis, herdeiros de alguns textos românticos de Garrett e Herculano, ou nas abordagens mais complexas de Eça de Queiroz ou de Camilo C. Branco.
Trindade Coelho, não sendo um escritor de carreira, foi talvez o maior expoente do que ficou conhecido como “conto rústico”, pequena peça literária em que ele aborda a simplicidade e a autenticidade da vida no campo. O conjunto de contos que publicou em 1891 com o título de Os Meus Amores – Contos e Baladas é, ainda hoje, de leitura extremamente atractiva, pelo pitoresco, a capacidade descritiva e a evocação de costumes, tradições e modos de falar das aldeias transmontanas. Camilo Castelo Branco apreciava-o e fez questão de o manifestar publicamente.
Mas a obra deste escritor não se quedou no conto rústico. Para além das memórias da sua vida de estudante de Direito em Coimbra, insertas no engraçadíssimo livro In Illo Tempore, bem como de alguns tratados de Direito que fizeram escola, Trindade Coelho foi um republicano convicto e empenhado, ainda em tempo de Monarquia, com a preocupação pela educação cívica do povo e a erradicação do analfabetismo, o que deu origem a obras como Manual Político do Cidadão Português, o ABC do Povo e o Livro de Leitura.
Na colecção Livros de Bolso Europa-América podem os nossos leitores encontrar, a preço muito acessível, os livros Os Meus Amores – Contos e Baladas (nº 244) e In Illo Tempore (nº 287).

                                                                                          * * *

BIOGRAFIA BREVE
José Francisco Trindade Coelho (1861, Mogadouro – 1908, Lisboa). Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, de cuja vivência deixa testemunho impressivo no livro In Illo Tempore. Actividade literária em jornais e revistas. Delegado do procurador régio em diversas localidades, fixa-se depois em Lisboa, já como juiz. Actividade intensa no plano jurídico e na formação cívica e pedagógica. A saudade da vida simples da terra natal leva-o à escrita de Os Meus Amores, obra-prima do conto rústico que lhe garante lugar de relevo na nossa Literatura.
                                                                                       * * *
HISTÓRIAS DE ESTUDANTES


UM HOMEM NÃO É DE PAU

Um dos livros mais conhecidos de Trindade Coelho tem título em Latim: In Illo Tempore, que significa “Naquele Tempo”. É um conjunto de narrativas muito engraçadas que documentam como era a vida dos estudantes em Coimbra no final do século XIX. Dessas memórias ainda hoje se alimenta uma certa mitologia coimbrã, que associa a boémia e a irreverência à vida académica. Trindade Coelho deixou neste livro as recordações do tempo em que estudou na Lusa Atenas, referindo aspectos característicos da época, figuras típicas, poemas cómicos e, até, anedotas que fizeram história. Como esta, que faz parte do capítulo “Um homem não é de pau”:

O pai de certo estudante, espantado com os extraordinários que lhe fazia o filho, escreveu para Coimbra a pedir-lhe contas! Queria o rol da despesa todos os meses: «Ao menos, que demónio!, p’ra saber em que se vai embora tanto dinheiro!»
Obediente, prega-lhe o filho a conta seguinte, p’ra começar:

Quarto e comida..................................................... 18$000
Roupa lavada.........................................................  1$800
Cosida e engomada.................................................. 1$200
Sapateiro e alfaiate.................................................. 7$000
Papel, estampilhas, etc............................................. 2$000
Barba e cabelo........................................................   $500
Um homem não é de pau.........................................90$0OO

Soma réis..................................................………      120$500


                                                                                       * * *

Trindade Coelho e Camilo C Branco


Trindade Coelho nascera remediado e o andar da vida fizera dele menos de remediado; no entanto, formara-se em direito, à custa de suar estopinhas e de trabalhar, já casado e com um filho.
Publicara artigos nos jornais e escrevera dois dos contos que enriquecem a jóia que é Os Meus Amores: O Sultão e Idílio Rústico.
Concorre, em 1886, ao lugar de Delegado do Procurador Régio.
E recebe uma carta de alguém que não conhece e é o maior romancista português, como ele  conta:
“Um dia de manhã recebo uma carta, de Camilo Castelo Branco, o grande escritor, que eu nunca tinha visto, nem ele a mim: dizia-me que vira nos jornais que eu fora a concurso e que escrevera ao ministro pedindo-lhe que me despachasse!
Caí das nuvens! Mas daí a poucos dias estava efectivamente despachado “delegado do Procurar Régio” do Sabugal, e eu ia ao Minho visitar o grande escritor, vê-lo pela primeira vez (primeira e última!) e beijar-lhe as mãos pelo seu tão grande favor”. (in: http://sobreorisco.blogspot.com/2011/03/camilo-e-trindade-coelho.html, acedido em 14 /03/2011)

                                                                                           * * *


A COLHEITA

«Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras, sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente, monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam, submissa...
Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da farta colheita do Tomé da Eira.
— Colheita rica, sim senhor! —vinham dizer-lhe os vizinhos.— A primeira da aldeia!
— Qual?! Isso sim! Vão vocês ver a tulha! Muita palha é que vocês hão-de dizer, muita palha e pouco grão...
E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens, repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas.» (Extracto do conto O SULTÃO, de Trindade Coelho)

22.3.11

9.3.11

PORTUGUÊS

Hélia Correia no romance LILLIAS FRASER, Ed. Relógio d´Agua, Lisboa, 2001:

"Ele não rezava, é claro. Mas ficara, na sua formação de português, aquela espécie de infantilidade que era a essência do catolicismo. Contava com favores de acaso."

"Mal adivinha um deslaçar da ordem que mantém cada classe em seu degrau, recai na insolência, o português."

4.3.11

CENTENÁRIO DA MORTE DE FIALHO DE ALMEIDA

Seara, de Van Gogh

Já AQUi deixei alguns dados sobre Fialho de Almeida, escritor alentejano que marcou as nossas letras com o traço grosso de uma prosa viril, truculenta, salpicada de vocabulário já em desuso mas de  sonoridade expressiva. Isso se pode ver neste extracto da descrição que ele faz do trabalho sobrehumano da ceifa, no tórrido verão alentejano:



Apenas os calores primeiros de Junho encinzeiram o céu de tintas baças, toda a seara, tornada em palha de repente, cobre os margios dum infindável preia-mar cheio de galgões. Em quatro dias, os aspectos desse oceano de espigas transmutam para uma sinfonia oftálmica de cores cáusticas, entre que a vida crocita, nas mordeduras da luz, que bebe o sangue das ervas, como louca.
Hálito do inferno, já duas vezes o suão, ou vento levante, passando o Estreito, todo abrasado da escandência das areias africanas, veio sobre esses grandes vales argilosos do distrito de Beja lançar a morte; e o Verão do país sem água, o Verão alentejano, martirizante, irradiante, começa a encher de angús­tias a província e prepara cenário à colheita cerealífera, que este ano foi, sempre lho digo, duma vitoriosa e esplêndida abundância.
Vem na vanguarda a debulha das favas, o primeiro cereal que seca, na escala dos cultivados no Alentejo; após, vêm as cevadas; e o trigo logo; e, no fim de todos, os tremeses, que ainda mal espigam, quando já todo o faval está no celeiro.
Seca a seara, forçoso é ceifá-la célere e mão-tente, pois, nas cevadas sobretudo, apenas o bago mirra, desagrega-se da cáp­sula e logo tomba, do que a formiga se aguarda, para poder dizer à cigarra: —«Agora dança!».
Para os lavradores retardatários estas perdas de sementes chegam a contar-se por dezenas de alqueires, sumidos pelo formigal no subsolo, caso de espanto que nesta província sem braços obriga a disputar, a poder de dinheiro, os ceifadores.
O usual é dar as searas grandes de empreitada. Formam-se então bandos de trabalhadores à voz dum chefe. Vilas e aldeias, em ranchos, amaltesam para os campos das herdades, que no Alentejo, lá baixo, têm quilómetros. E a horrível faina começa sob os cinquenta graus do Sol, num céu de chumbo irradiante.
Nos anos quentes, é de ordinário o primeiro domingo de Junho, cinco da tarde, já pela fresca, a hora propícia para a abalada das companhas de ceifeiros. Â boca das estradas, no adro das igrejas, pelos cerros jacentes aos casebres, vem o manajeiro tocar uma buzina espinhosa, das que se desenter­ram na praia de Sines, e que produz no ar apático das vilas alguma coisa do apelo soturno que ficou talvez da tradição, das guerras célticas.
Logo, a pouco e pouco, começam a chegar os troços de rapazes, vestidos de velho, cotins arremendados, jaleco e alforje às costas com as provisões da semana — seis pães de trigo rijo, queijo de cabra, e o tarro das azeitonas sapateiras —, e à cinta a foice ,e o chapeirão braguês sombreando faces doi­radas de morenos, tão árabes algumas, onde olhos pretos, pro­fundos, de animal, estrelam a nostalgia dessa casta poética e mercenária.
(…)

Eles entanto, em linha à borda do trigo, distanciando seis metros um dos outros, começaram em silêncio a terrível faina de ceifar. Trazem as pernas apolainadas de trapos, atados estes por cordas que se lhes entrecruzam, desde os sapatos até às coxas, por defesa aos abrolhos do restolho; trazem nos braços e mãos peúgas velhas, de que fizeram mite-nes contra as escoriações da palha ardente; e a cara mal se lhes vê sob as abas do chapeirão de feltro ou de palmeira, e o mover dos seus rins trai o derreamento de miseráveis envile­cidos pelas moedeiras da fome e do trabalho. Com a mão direita lançam a foice ao rés da terra; com a esquerda agarram nos caules e vão deixando atrás de si o trigo, em pequenos molhos paralelos. Aqui, além, inda os mais novos cantam, mas nas respirações opressas, cantiga e palestra entrecortam-se--lhes de pragas, quando o suor, trespassando a saragoça das calças e o pano cru das camisas, começa de se lhes pegar à carne, salgado e chamuscando-lhes as sarnas como fogo. As primeiras horas até ao almoço, são suaves, porque os 38 graus do Sol pouco fazem nessas índoles de salamandra, afeitas a torrar. Apenas alguma sede, um ou outro assopro aos mos­cardos que os perseguem, e olhadelas ao Sol para indagar se a meia hora de descanso do almoço, estará longe. Esse plácido interregno, porém, por pouco alcança, que a fornalha solar refila de brasidos, graduando o martírio na proporção da mais atroz perversidade. A oriente o Sol vem caminhando, saindo da fumarada do horizonte, passando da cor de sangue a bronze líquido; e os seus raios, à medida que se aprumam, trazem na escandescência náuseas de veneno, e a angústia horrorosa do metal derretido sobre a carne; rareia o ar, a aragem matinal cessa de todo, os cães arquejam de língua caída, as cavalga­duras cessam de rilhar; e calando-se os pássaros, e os voos mais lentos, os ares mais turvos, a sombra mais efémera — a hora do tormento diabólico da sede, não sede do paladar, tendo por centro de refrigério a gorja seca, mas sede do sangue espessado nas artérias, extenuadora sede dos tecidos, colossal, geral, que nada estanca, e sob cujo estertor o cérebro zumbe nos alucinantes delírios da insolação! Julgareis que a tempe­ratura, marcada ao Sol por 44 mortais riscos do termómetro, tocado este acume, regresse lentamente às virações mais frí­gidas da tarde.

Falando em ceifeiros do Alentejo, logo acode a lembrança de um comovente poema que viemos encontrar AQUI,  "Canta, ceifeiro, canta", com uma foto dos anos 30, num blogue muito interessante sobre o Alentejo esquecido...

SE ÁLVARO DE CAMPOS ESCREVESSE EM "O BARRETE"...

Encenação de "O Marinheiro" No Teatro de Almada



A Fernando Pessoa depois de ler o seu  drama estático «O Marinheiro»:

Depois de doze minutos
Do seu drama O Marinheiro,
Em que os mais ágeis e astutos
Se sentem com sono e brutos,
E de sentido nem cheiro,
Diz uma das veladoras
Com langorosa magia:

De eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos nós falando ainda?

Ora isso mesmo é que eu ia
Perguntar a essas senhoras...

(Poemeto de Álvaro de Campos,
no «Orpheu I» )

23.2.11

Zeca Afonso - Maria Faia



Nos 24 anos da morte de Zeca Afonso.
Vive na nossa memória!

14.2.11

LUGAR ONDE - Página no semanário BADALADAS de 18 de Fevereiro 2011



ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY
MUITO MAIS QUE UM PRINCIPEZINHO


Em redor de Antoine de Saint-Exupéry criou-se uma lenda e um equívoco. A lenda está ligada à vida de aviador em tempo de pioneiros do ar. O equívoco resulta da redução da sua obra literária à história do “PRINCIPEZINHO”.

Vejamos mais de perto. Saint-Exupery ( 1900-1944) foi de facto um pioneiro da segunda fase da aviação, quando os gloriosos malucos foram substituídos por especialistas de voo com brevets e conhecimentos de engenharia aeronáutica. Tornou-se um aviador profissional, participou no estabelecimento de novas rotas e, sobretudo, nos serviços aeropostais que revolucionaram as comunicações. Na Segunda Grande-Guerra foi piloto de aviões de reconhecimento em missões de alto risco e nesse serviço perdeu a vida, no sul de França. O avião despenhou-se no Mediterrâneo e o seu corpo nunca foi encontrado.
Pelo meio sucederam-se viagens de missões lendárias em que sobreviveu a desastres tremendos. Numa delas esteve perdido no deserto do Sara, de onde regressou transformado. Encontrara o Principezinho, essa criança única que vive escondida em cada homem e só aparece quando a consciência da morte desvenda o essencial da vida.

Este breve relato – que não é uma história infantil! - continua a comover os homens de todo o mundo que não receiam conversar com esse menino que os acompanha pela vida fora. Mas está aqui o equívoco injusto: a obra de Antoine de Saint-Exupéry não se reduz a esse livrinho maravilhoso. Ele escreveu muito mais: páginas luminosas sobre o seu tempo, tornadas intemporais pela perspectiva humanista em que se colocou. O seu estilo, de um subjectivismo impressivo, radica na visão compassiva do homem, esse ser de imensa grandiosidade nos miseráveis limites da sua pequenez. Livros como Piloto de Guerra, Um Sentido para a Vida e Cidadela (todos traduzidos para Português pelo grande poeta Ruy Belo) fazem parte do património da Literatura Universal. Ou ainda Terra dos Homens ou Carta a Um Refém. Num tempo de graves incertezas como é o nosso, a leitura destas páginas abre perspectivas, alimenta a esperança, torna os homens mais Homens.


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VIDA E OBRA


Antoine de Saint-Exupéry nasceu em Lyon (França) no ano de 1900. Viveu grande parte da infância na Borgonha e na Provença, e estudou em Le Mans, Friburgo (Suíça) e Paris. Cumpriu o serviço militar em Estrasburgo, tornando-se piloto em 1922 (cerca de dez anos após a sua primeira experiência de voo). Voa sem¬pre que pode, e a sua vida une-se à aviação. Como piloto civil, colabora numa empresa de correio aéreo (no Norte de Africa e na América do Sul). No final de 1935, ao tentar estabelecer a ligação aérea Paris-Saigão, aterra de emergência no deserto da Líbia, sendo salvo por uma caravana de beduí¬nos; sofre depois (1938) acidente grave na Guatemala, quando procurava voar de Nova Iorque à Terra do Fogo. Entretanto, é inventor de diver¬sos aparelhos relacionados com a aeronáutica e repórter (Moscovo, 1935; guerra de Espanha, 1936 e 1937), e desenvolve a sua obra literária, num estilo inimitável, cada vez mais exigente e depu¬rado. Publica Courrier Sud (1928), Vol de Nuit (1931), Terre des Hommes (1939), Pilote de Guerre, Lettre a un Otage e Le Petit Prince(1943)

Postumamente, em 1948, é publicado o romance inacabado Citadelle e em 1956 um conjunto de textos dispersos, Un Sens à la Vie.

Profundamente empenhado na defesa da sua pátria durante a II Guerra Mundial, desapareceu no mar, a norte da Córsega, em missão de reco¬nhecimento fotográfico aéreo (31.07.1944). (in: Carta a Um Refém, ed. Grifo, Lisboa, 1995)

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PASSAGEM POR LISBOA


Em 1940 Saint-Exupéry passou em Portugal a caminho de Nova Iorque. Aqui se demorou alguns dias e visitou a Exposição do Mundo Português. No seu estilo marcado por intenso impressionismo subjectivo, traçou um quadro melancólico de Lisboa, onde se amontoavam os refugiados, em trânsito para os Estados Unidos.
Começa assim esse texto:

«Quando, em Dezembro de 1940, atravessei Portugal a caminho dos Estados Unidos, Lisboa surgiu-me como uma espécie de paraíso claro e triste. Falava-se lá muito, então, de uma invasão iminente, e Portugal aferrava--se à ilusão da sua felicidade. Lisboa, que edificara a mais deslumbrante exposição que já houve no Mundo, sorria com um sorriso um tanto pálido, como o daquelas mães que não têm quaisquer notícias de um filho que foi para a guerra e se esforçam por salvá-lo com a sua confiança: “O meu filho está vivo, visto que eu sorrio…”» ( Carta a Um Refém, ed. Grifo, Lisboa, 1995)

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TEXTOS DE SAINT-EXUPÉRY


«Porque o Homem da minha civilização não se define a partir dos homens. São os homens que se definem a partir dele. Há nele, como aliás em todo o ser, qual¬quer coisa que os materiais que o constituem não expli¬cam. Uma catedral é uma coisa totalmente diferente de um somatório de pedras. É geometria e arquitectura. Não são as pedras que a definem, é ela que enriquece as pedras com o seu próprio significado. Essas pedras cobram nobreza no facto de serem pedras de uma catedral. As pedras mais diversas servem a sua uni¬dade. A catedral absorve até as goteiras mais irrequie¬tas do seu cântico.

Mas, a pouco e pouco, fui perdendo de vista a minha verdade. Pensei que o Homem era o resumo dos homens, da mesma forma que a Pedra era o resumo das pedras. Confundi catedral e soma de pedras e, a pouco e pouco, a herança foi-se desvanecendo. Urge restaurar o Homem. É ele a essência da minha cultura. É ele a chave da minha comunidade. É ele o princípio da minha vitória.»

(…)

«É muito cómodo basear a ordem de uma sociedade na submissão de cada um dos seus componentes a regras fixas. É bastante cómodo formar um homem que, além de cego, tolerasse sem protestar um mestre ou um Corão. Mas o resultado a atingir é de uma transcendência tal que, para libertar o homem, é pre¬ciso fazê-lo reinar sobre si próprio.»

(in: PILOTO DE GUERRA, edit Aster, 7ª ed.- Lisboa,)
                                   
                                                                        *  *  *  *
«- Adeus...
- Adeus — disse a raposa. — Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos — repetiu o principe-zinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... — repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade — disse a raposa. — Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és respon¬sável pela tua rosa...
- Sou responsável pela minha rosa... — repetiu o principe¬zinho, para nunca mais se esquecer.»
(in: O PRINCIPEZINHO, ED. Caravela, Lisboa, s/d)




13.2.11

TEXTOS INESQUECÍVEIS


Antoine de Saint-Exupéry não é só O PRINCEPEZINHO.
Deixou obras magníficas que iluminaram o meado do século XX: CIDADELA, PILOTO DE GUERRA,
TERRA DOS HOMENS, UM SENTIDO PARA A VIDA.
Livros de intenso e luminoso humanismo, escritos entre duas guerras, por um homem que olhou o mundo com compaixão e compreensão profundas.
De vez em quando é bom conversar com ele.

(...)
"Porque, tal como acontece com a árvore, não podes saber seja o que for do homem se o desdobras pela sua duração e o destribuis pelas suas diferenças. A árvore não é semente, depois caule, depois tronco flexível, depois madeira morta. Para a conhecer é bom não a dividir. Á árvore é essa força que desposa a pouco e pouco o céu."
(...)
Antoine de Saint-Exupéry, in CIDADELA, ed. Aster, Lisboa, s/d

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[ NUMA VIAGEM DE COMBOIO ATRAVÉS DA POLÓNIA ]

E prossegui minha viagem entre esse povo cujo sono era turvo como um local de má fama. Flutuava um ru-mor vago, feito de roncos surdos, de obscuros lamentos, do raspar das botas no chão, quando eles, corpo dorido de um lado, experimentavam o outro...

E sempre, em surdina, esse inesgotável acompanhamento de seixos rolados pelo mar.
Sentei-me defronte de um casal. Entre o homem e a mulher, a criança, mal ou bem, conseguira anichar-se e dormia. Virou-se, no sono, e enxerguei seu rosto, sob a lamparina. Ah, que rosto adorável! Um fruto dourado havia nascido desse casal. Desses lerdos farrapos, nascera uma obra-prima de encanto e graça! Curvei-me para a sua fronte lisa e, vendo o doce trejeito da boca, disse para comigo: "Eis aqui um rosto de músico, eis aqui Mozart menino, eis aqui uma bela promessa de vida!" Os principezinhos das fábulas não seriam diferentes dele. Protegido, rodeado de carinho, educado, o que não poderia ele vir a ser? Quando por mutação nasce num jardim uma rosa nova, todos os jardineiros se emocionam. Isola-se a rosa, cultiva-se a rosa, conferem-se-lhe privilégios... Não existem, porém, jardineiros de homens. Mozart menino será marcado, como os outros, pela máquina trituradora. Mozart. Mozart quem sabe? frequentará os cafés-concertos e, desse fedor e dessa música apodrecida, fará uma das suas maiores alegrias. Mozart está condenado...

Voltei para o meu vagão. Disse para comigo: "Esta gente não sofre com o destino que tem. E não é caridade o que me está atormentando. Não se trata de me enternecer sobre uma chaga eternamente sangrando. Os que a sofrem não mais a sentem. E a espécie humana que aqui está ferida, lesada, e não o indivíduo. Não acredito na compaixão. Nesta noite, o que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me está atormentando não é esta miséria, na qual, afinal de contas, é possível as pessoas instalarem-se tão bem quanto na preguiça. Gerações e gerações de orientais têm vivido na sujeira com prazer. O que me atormenta não é remediável com as sopas dos pobres. O que me atormenta não são estas corcundas nem esta fealdade. É que, em cada um destes homens, existe um pouco de um Mozart assassinado."

A. Saint-Exupéry, in UM SENTIDO PARA A VIDA, editORA Nova Fronteira, rIO DE jANEIRO, 1983

8.2.11

PARVOS?

Já se tornou um hino! Como todos os hinos é de uma simplicidade desconcertante. E acerta em cheio no alvo!



QUE PARVA QUE EU SOU - canção dos "DEOLINDA" que satiriza o desemprego

dos licenciados. O album ainda não saiu



Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'casinha dos pais',
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'vou queixar-me pra quê?'
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração 'eu já não posso mais!'
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar

28.1.11

JORNAL DE LETRAS: SOPHIA CONTINUA

Temas deste número:

Sophia continua Uma Vida de Poeta - e a exposição na Biblioteca Nacional * Um poema textos inéditos * Entrevista com Maria Andresen * Testemunhos * A obra, a leitura de Carlos Mendes de Sousa + O início da Guerra Colonial foi há 50 anos + Nova Coluna de Maria Alzira Seixo + Aitobiografia de Carlos J Pessoa + O diário de Carlos Vale Ferraz + O bovo filme de Woody Allen

22.1.11

COLÓQUIO INTERNACIONAL


Sophia de Mello Breyner Andersen revisitada.
Dias 27 e 28 de Janeiro, na Fundação C. Gulbenkian, um Colóquio Internacional sobre esta figura maior da literatura contemporânea portuguesa.
Ver AQUI o site.

19.1.11

LUGAR ONDE - Semanário BADALADAS de 21 JANEIRO







Foto EXPRESSO on-line


AGUSTINA BESSA-LUÍS:
O ESCRITOR DESPERTA AS COISAS DO SILÊNCIO
EM QUE FORAM CRIADAS

Os grandes escritores desencadeiam sentimentos extremos. Amor ou ódio, nunca indiferença. Agustina é dessa estirpe. Mas até os que a detestam lhe reconhecem a grandeza. Ela é a grande prosadora portuguesa, a maior de sempre, criadora de um território linguístico imenso que vale a pena percorrer.
Criadora na ficção, interventora nas crónicas, não receou expor-se, fosse na direcção de um jornal e do Teatro D. Maria II, ou no apoio político a candidatos de direita. Ouvi a Alexandre Babo, escritor comunista: “Escreve maravilhosamente bem, é pena ser tão reaccionária…” Mas seria redutor acusar a sua escrita de carga ideológica agressiva. Ela afirma-se sobretudo pela análise profunda da interioridade humana, um território onde não há rótulos fáceis e exprime o que observa através de uma escrita sumptuosa, num caudal narrativo de enorme talento. E tudo ao serviço de uma inteligência sagaz, de grande perspicácia, desvendando aspectos desconcertantes do ser humano. Tem predilecção pela escrita de aforismos: frases em que resume de forma lapidar uma observação, uma reflexão, às vezes um paradoxo. Não se considera uma autora perfeita, não faz planos de escrita, não se preocupa muito com a depuração estilística, o que considera ser uma característica muito portuguesa, “não se valorizar demasiado, é um dos nossos defeitos e, ao mesmo tempo, uma qualidade, porque, na verdade, é tudo transitório” (Jornal de Letras, Junho, 2004).
Desilude-se quem procura nos seus livros um enredo trepidante ou uma intriga muito elaborada. Agustina não gasta lugares comuns nem histórias inesperadas. Prefere a sondagem dos abismos e leva como máquina de perfuração apenas a curiosidade e a capacidade para ver e compreender.
Agustina deixou de escrever desde que foi vítima de um AVC em 2006 e vive recolhida na sua casa no Porto, na companhia de Alberto Luís, seu marido, que juntamente com dois investigadores, trabalha na fixação dos seus textos. O primeiro livro desta “opera omnia” é o “Dicionário Imperfeito” que, juntamente com o livro “Contemplação Carinhosa da Angústia”, é a melhor iniciação aos viajantes que decidam percorrer este território. Ambos editados pela Guimarães Editores. De referir também o nº 12 da revista literária Textos e Pretextos, co-editada em 2009 pela LivrodoDia de Torres Vedras, totalmente dedicado a Agustina Bessa-Luís. | MD

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VIDA E OBRA


Agustina Bessa-Luís, Vila Meã, Amarante, 1922. Infância e adolescência passadas nesta região, cuja ambiência marcará a sua obra. Estreou-se em 1948, com a novela Mundo Fechado. Desde aí manteve um elevado ritmo de publicação, contando com mais de meia centena de títulos.
Entre 1986 e 1987 foi Directora do diário O Primeiro de Janeiro (Porto). Entre 1990 e 1993 assumiu a direcção do Teatro Nacional de D. Maria II (Lisboa) e foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social.
Em 1954, com o romance A Sibila, Agustina Bessa-Luís  impõe-se  como uma das vozes mais importantes da ficção portuguesa contemporânea.
Vários dos seus romances foram adaptados ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira:  Fanny Owen ("Francisca"), Vale Abraão e As Terras do Risco ("O Convento"), para além de "Party", cujos diálogos foram igualmente escritos pela escritora. Autora de peças de teatro e guiões para televisão, tendo o seu romance As Fúrias sido adaptado para teatro e encenado por Filipe La Féria (Teatro Nacional D. Maria II, 1995).
Várias vezes apresentada como candidata ao Nobel, Agustina Bessa-Luís é pela segunda vez contemplada com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), relativo a 2001, com a obra "O Princípio da Incerteza - Jóia de Família", obra que Manoel de Oliveira adaptou ao cinema com o título "O Princípio da Incerteza". Entre muitos outros, recebeu os prémios Vergílio Ferreira 2004, atribuído pela Universidade de Évora, pela sua carreira como ficcionista, e o Prémio Camões 2004, o mais alto galardão das letras em português.

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ESCRITAS DE AGUSTINA

O que a leva a escrever? – perguntou-lhe um jornalista francês. Agustina respondeu: “Escrevo para incomodar o maior nú­mero possível de pessoas, com o máximo de inteligên­cia. Por narcisismo, que é um facto civilizador. Para ganhar a vida (...). Escrever é isto: comover para des­convocar a angústia e aligeirar o medo (…) Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas».
                                                                                  
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«Carta a Eugénio de Andrade, (25.06.2005)

Querido Eugénio

O melhor não são os sentimentos nobres das pessoas, mas o ácido prazer de amar seja o que for. Uma longa viagem nos une e nos separa. Nunca trocámos cartas porque essa débil força da confidência esteve sempre para nós fora de moda. Nunca deixámos que as palavras nos dessem lições. As palavras são como caminhos, umas vão dar a qualquer sítio que não nos importa conhecer; outras não servem para nada, e são as melhores.
A poesia não é feita de palavras, mas da cólera de não sermos deuses.
A Grécia, como a conhecemos, isso é que é poesia. O vento no fim da tarde em Delfos, o olival até ao mar, duma cor que já não me lembro. Nós não éramos profanos, mas argonautas em terra. Tenho ainda o medalhão de ouro, com Atena esculpida e a coruja ao lado. Tanta formosura para tão poucos iniciados!
Estou aqui a pensar que vou construir uma casa numa árvore do jardim, para navegar ao largo como o capitão Slocum, num iole de 12,70 toneladas de peso bruto. Daqui ao cabo Horn é um pulo. E sempre nos acenam os que ficam em terra, os lenços agitados pelo bom vento da costa. Somos navegadores solitários tentando não embirrar com o presidente do Transval que acredita que o mundo é plano e que não pode haver a volta ao mundo.
Um bom sorriso, e está bem assim.
Agustina Bessa-Luís» [ Retirada do blogue SAL DA LÍNGUA ( http://saldalingua.wordpress.com/2009/12/29/o-lugar-dos-amigos-agustina-bessa-luis/#comment-149), acedido em 16 /01/2011.]

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«Também eu assisti a um congresso de mulheres capacitada dos seus direitos e ouvi esse argumento da solidão como mal necessário da independência feminina. Mas a solidão é sobretudo motivada pela rápida transição da vida familiar à vida profissional e à perda das reacções parentais mal substituídas por outras. Depressa se abandona o lar paterno, se têm filhos, se casa outra vez e se reconhece uma coisa assustadora: as pessoas são dispensáveis como uma chaleira cuja resistência ardeu. E mais fácil adquirir outra do que remediar os estragos para os quais não basta um bocado de fio eléctrico e de habilidade. É preciso piedade e boa dose de alegria amorosa. As mulheres, em geral desviadas da procriação por razões económicas e factores frustrantes, estão muito recalcadas quanto ao estado de alegria amorosa que é a de ver os filhos pequenos à sua volta. Antes que ela se adapte a uma sociedade laboriosa e secreta, onde a criança não tem sentido messiânico mas sim sentido decorativo, passará muito tempo. Ser mulher foi uma invenção maravilhosa; terá de ser uma descoberta ilustre.» (In: Dicionário Imperfeito, Guimarães Editores, Lisboa, 2008)

                                                                                        

16.1.11

A ESCRITA SUMPTUOSA DE AGUSTINA BESSA-LUÍS



«E, contudo, auspiciosos dias os da matança! Vinham de longe os parentes, os homens com os varapaus de marmeleiro dourado pelo tempo e pelo fumo, as mulheres com as saias pretas em cuja fímbria secara a lama. Eram muitos, com suíças e cabeleiras duma cor parda ou ardente, e possuíam todos aquele sorriso áspero e fechado, como se permanentemente enfrentassem o vento, não com desagrado, mas com uma espécie de desdenhosa beatitude. Acampavam praticamente na cozinha, debicando azeitonas, pão doce, figos, e adivinhava-se neles uma sobriedade que não era desprezo da fartura, mas antes um fastio benevolente de quem nunca conheceu privação nem fomes. Constituíam, assim de pele clara, independentes e administradores magistrais das suas paixões, um verdadeiro clã, difícil de penetrar e de subornar. Mesmo alguém como Maria Delfina, ligada a essa gente pelo casa¬mento e entregando-se com boa-fé a toda a classe de subserviências de coração, não podia jamais pertencer à família e nunca obtivera senão uma estima tolerante da parte das suas jovens cunhadas; a pró¬pria sogra tratava-a sempre como a uma visita acidental, punha-lhe na cama os melhores lençóis, seguia-a com um olhar afável e preocupado cada vez que Delfina se deslocava dum lugar para o outro da casa; e, se a adivinhava grávida, prestava-lhe os cuidados mais comoventes, sem deixar de exprimir esse fiozinho de desdém com que se brinda toda a inexperiência. Fora preciso muito tempo para Maria Delfina compreender que um temperamento não obriga a laços profundos; e essa tribo, com as suas sobrancelhas loiras e os seus pequenos olhos vigiadores, com o seu ar onde pairava sempre uma ligeira e intrigante expectativa, possuía um temperamento, mas não amava senão duma forma episódica e imparcial aqueles que não nasciam nas suas fron¬teiras e no seu sangue. Era inútil servi-los, endividar-se por eles, per¬der a alma em nome dos seus vícios e dos seus dons; nunca o reco¬nheciam, sacudiam da pele os favores e as simpatias, com essa grosseria que se pressente nas autênticas solidões.


No tempo da matança, sem que fosse preciso distribuir convites, toda a família se reunia na casa-mãe, com os seus pequenos rebentos que perseguiam às varadas os patos até aos tanques e que disputavam velhos botões e piões e fundas. As mulheres eram bem feitas, o ventre um tanto salientei pelo estrangular da cintura, os pés bonitos e calçados com perfeição; vestiam-se com uma elegância sensual, gostavam das cores belas, da seda e do oiro, mas, ainda que atrevidas de palavras, pareciam ignorar os homens e esquivar-se, com algo de intencional, à sua categoria de fêmeas. Através duma prudência cheia de avisos e ausências, havia uma forma audaciosa, uma vontade manifesta da escolha, um decidir sem nunca chegar a oferecer condições — e Del¬fina achava tudo isso atroz, ainda que, de certo modo, apaixonante.»

in: A Brusca, Contos, 1971

12.1.11

UM POUCO DE AUDÁCIA...


Um pouco de audácia com todos é uma importante prudência. É preciso moderar a ideia que se tem dos outros para não os elevar a ponto de os temer­mos. Que a imaginação nunca vença o coração. Alguns parecem importantes até que se começa a conviver. Este contacto provoca mais a decepção que a estima. Ninguém excede os curtos limites da humanidade: cada qual tem o seu "mas", uns na inteligência e outros no carácter. A dignidade proporciona uma autoridade apa­rente que quase nunca é acompanhada de autoridade pessoal. A sorte costuma castigar um emprego importan­te com méritos inferiores. A imaginação aumenta sem­pre e torna as coisas mais importantes do que são; não capta só o que há, mas o que poderia haver. A razão, cur­tida pela experiência, deve corrigi-la. Mas, nem a necedade deve ser atrevida, nem temeroso o mérito. Se à simpli­cidade lhe valeu a confiança em si própria, muito mais à valia e ao saber!

BALTAZAR GRACIÁN (1601-1658), in A ARTE DA PRUDÊNCIA

23.12.10

LUGAR ONDE Nº 101 - Semanário BADALADAS de 24 DEZ 2010





NATAL
SAUDADE OU ESPERANÇA?

Natal, centro histórico da nossa infância. Fascínio da memória, saudade do lume antigo. E choramos as ruínas e os escombros dos anos, agora que não há luzes e as baladas se calaram. Quem pode falar de Natal a quem tem fome e sede de justiça? A quem perdeu um filho, um pai? Que Natal podemos convocar a quem tudo falta? Natal: saudade ou esperança?
Teixeira de Pascoaes: “Vemos somente recordações, memórias, da divina Esperança. Somos lembranças de Deus; e é por isso que temos a faculdade de o perceber ou inventar…”
Que resta de tantos natais de esperança para quem perdeu a esperança do Natal?
Que o lume se ateie! Que a luz ilumine! Que a esperança renasça!


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HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação. 

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

MIGUEL TORGA 

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NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

DAVID MOURÃO-FERREIRA

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FALAVAM-ME DE AMOR

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

NATÁLIA CORREIA

*
NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado...
Só esse me pareceu Cristo.

VITORINO NEMÉSIO

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OS PROFETAS

Assombra, esta verdade que trazemos.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém.

REINALDO FERREIRA

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PRECE DE NATAL

Menino Jesus
De novo nascido,
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

Vede que os humanos
Erros e cuidados
Nos são tão pesados
Como há dois mil anos.

A nossa ignorância
É um fardo que arde.
Como se faz tarde
Para a nossa ânsia!

Nós somos da Terra,
Coisa fria e dura.
Olhai a amargura
Que esse olhar encerra.

Colai o ouvido
À alma que sofre;
Abri esse cofre
Do sonho escondido.

Pegai nessa mão
Que treme de medo;
Sondai o segredo
Da minha oração.


Esta pobre gente
Que mal é que fez?
Nós somos, talvez,
Um povo «inocente»...

Menino Jesus
Que andais distraído
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!
(…)

Carlos Queiroz (1907-1949)




Presépio de Machado de Castro - Basílica da Estrela, Lisboa


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CEM LUGARES! ONDE?

Foi em Julho de 2002 que teve início esta página mensal LUGAR ONDE que atingiu em Novembro o número 100. Espaço de outras leituras, literaturas, escritas e dizeres das nossas vivências culturais. Intenção de aqui trazer contrapontos, outros pontos de vista, as intuições dos poetas, a expressão da arte escrita, ou outras artes. Um projecto a partir da verificação de que “a escuridão que cobre tantos recantos do nosso tempo se deve ao gasto excessivo das palavras, tornadas irrelevantes.” E a partir da ideia cada vez mais arreigada em nós de que a literatura é o LUGAR em que o homem encontra as palavras essenciais da vida, do mundo. E também da interrogação: ONDE?
LUGAR ONDE: venham mais cem!