21.11.06

AQUILINO RIBEIRO: o escritor de Novembro no BADALADAS


Aquilino Ribeiro

















A Casa Grande de Romarigães


AQUILINO RIBEIRO NO PANTEÃO NACIONAL

Quem foi este homem? Merece tamanha honra?

Os restos mortais do escritor Aquilino Ribeiro devem ser trasladados para o Panteão nacional – propôs, há duas semanas, o Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama.

Para as novas gerações talvez este nome já diga pouco. No entanto ele é um dos grandes escritores portugueses. Depois de Camilo C. Branco e de Eça de Queiroz, não houve mais nenhum que tão bem soubesse dominar a Língua Portuguesa, pela capacidade plástica e expressiva, pela riqueza vocabular, pela variedade de construção, pelo recurso à saborosíssima oralidade popular que ele bebeu desde a infância na Beira Alta onde nasceu. A sua pena laboriosíssima – 50 anos de vida literária, com romances, novelas, contos, memórias, traduções e muito mais – fixou em páginas inesquecíveis todos os tipos humanos do povo, os pobres e esquecidos do progresso, que se afirmam pela tenacidade e pela manha, habituados às condições duríssimas da vida serrana ou da sorte adversa nas mais diversas paragens.
Aquilino Ribeiro foi acusado de “escritor difícil” porque usava muitos termos caídos em desuso no falar urbano – e talvez se encontre aqui a causa de algum esquecimento a que foi votado. Aos acusadores lembrava que, a esses termos regionalistas, os ouvia do povo nas aldeias. E que, perante uma palavra desconhecida, o bom leitor tira pelo sentido e passa adiante.
Dele ficou a imagem do escritor que não se refugiou na secretária. Lutou contra a monarquia e contra a ditadura do Estado Novo, correu riscos, foi preso, exilou-se. Cinco anos antes de morrer ainda publicou “Quando os Lobos Uivam”, romance em que denunciou a florestação forçada dos baldios, até aí secular fonte de lenha e pastorícia dos povos serranos. O governo de Salazar perseguiu-o e ele respondeu, intrépido, com um opúsculo exemplar de desassombro, intitulado “Quando os Lobos julgam, a Justiça uiva”. Só não foi a julgamento devido ao levantamento nacional e internacional que se organizou em sua defesa.
Parece-nos, pois, que a iniciativa de Jaime Gama, propondo a inumação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro no Panteão Nacional de Santa Engrácia, é justíssima e só pecará por tardia.
JMD


Aquilino Ribeiro: Biografia

Aquilino Ribeiro nasce a 13 de Setembro de 1885 em Carregal, concelho de Sernancelhe. Aos dez anos, vai residir com os pais para Soutosa, onde faz a instrução primária. Transita depois para Lamego e Viseu, onde chega a frequentar o seminário, abandonando-o por falta de vocação. Em 1906 muda-se para Lisboa e, em pleno período de agitação republicana, começa a escrever os primeiros artigos em jornais. Em 1907, devido à explosão de uma bomba, é preso. Mas consegue evadir-se e, entre 1908 e 1914, divide a sua residência entre Paris e Berlim. Em 1914, com a eclosão da I Grande Guerra, volta a Portugal. Em 1918 publica o primeiro romance, "A Vida Sinuosa". A convite de Raul Proença, entra em 1919 para a Biblioteca Nacional. A partir desse ano, escreve incessantemente: "Terras do Demo" (1919), "O Romance da Raposa" (1924), "Andam Faunos Pelos Bosques" (1926), "A Batalha Sem Fim" (1931) e muitos outros títulos. Envolvido em revoltas contra a ditadura militar, no Porto e em Viseu, exila-se por duas vezes em Paris, onde casa pela segunda vez (a primeira mulher falecera). A partir de 1935 o seu labor literário torna-se mais fecundo: "Volfrâmio" (1944), "O Arcanjo Negro" (1947), "O Malhadinhas" (1949), "A Casa Grande de Romarigães" (1957), "Quando os Lobos Uivam" (1958), este último apreendido pela censura e pretexto para um processo em tribunal. Entretanto, viaja: Brasil, Londres, Paris. Em 1960 o seu nome foi proposto para o Prémio Nobel da Literatura. Três anos depois, durante as comemorações do 50° aniversário do seu primeiro livro – promovidas pela Sociedade Portuguesa de Escritores, então presidida por Ferreira de Castro – adoece inesperadamente. Morre a 7 de Maio de 1963, no Hospital da CUF, com 78 anos.



A História da Casa Grande
Aquilino Ribeiro, no prefácio que escreveu para o romance "A Casa Grande de Romarigães" – uma das suas obras mais lidas, inspirada num velho solar do alto Minho que ainda hoje pode ser visitado –, explica em que é que se baseou:

"Quando se procedeu ao restauro da Casa Grande, que foi solar dos Meneses e Montenegros, houve que demolir paredes de côvado e meio de bitola em que há um século lavrava a ruína, ocasionando-lhes fendas por onde entravam os andorinhões de asas abertas e desníveis com tal bojo que a derrocada parecia por horas. Num armário, não maior que o nicho dum santo, embutido na ombreira da janela, que a portada, em geral aberta, dissimulava atrás de si, encontrou-se uma volumosa rima de papéis velhos. (…) Não posso ver um farrapo impresso que não se me sobressalte a curiosidade. Com avidez fui tirando para fora cartapácios sem frontispício e sem índice, entre os quais um Mestre de Vida que ostentava uma dactiloscopia densa e salivosa, com os cantos das folhas tenazmente arrebitados, avisos e recibos da contribuição predial, uma resma de bulas da Santa Cruzada de pinto e de doze vinténs, receitas de botica, algumas traindo pelo sebo e a usura terem sido aviadas amiúde, folhinhas de anos sucessivos, e uns cadernos de papel almaço em que me palpitou matéria de bisbilhotice. Um deles, (...)foi o “Livro que há-de servir ao assentamento das cisas notáveis que assucederem na Casa Grande de Romarigães, também chamada Quinta de Nossa Senhora do Emparo. Com um epítome da origem, fundação, sítio e nobilíssima árvore de seus morgados, pelo Padre Sebastião Mendrugo, da Casa Cachada, e seu capelão. Ano da Graça de 1680". (…)"O outro manuscrito, em letra especiosamente torneada, chamava-se Vida de D. Luís António de Antas e Meneses, sargento-mor de Milícias e procurador às Cortes de 1828. Ao que se depreendia do estilo, abundante em ciência heráldica e genealógica, era obra dum linhagista do Alto Minho, tão amigo de Deus e do rei como inimigo dos malhados, o senhor Manuel Afonso, de Venade":

Para concluir, Aquilino refere que nunca pretendeu realizar um romance, mas sim uma monografia. E sai-se com uma frase que exemplifica o humor que percorre muitas das suas páginas: "Se me saiu romance, aconteceu-me a mesma coisa que a um triste e tosco carpinteiro dos meus sítios, de quem toda a gente zombava, decerto por milagre desenfadado do Espírito Santo: estava a fazer um gamelo para o cão e saiu-lhe uma viola”.


O ESCRITOR BEIRÃO

Até ao fim de uma vida intensamente vivida, Aquilino Ribeiro manteve-se ligado ao universo rural da Beira Alta, onde nasceu, cresceu e se tornou (de acordo com as suas palavras) «são e escorreito de corpo e espírito». Nem a permanência, alguns anos, em Paris nem meio século de Lisboa o afastaram das origens, homem da serra dos pés à cabeça, por dentro e por fora, «sem febre nem desejos metafísicos, como o mais néscio e regalão dos regalões». (Abóboras no Telhado.) Deixou o livro de memórias Um Escritor Confessa-Se. Todavia, a infância e a adolescência na Beira Alta revivem, com mais pitoresco e nitidez, nos romances Cinco Réis de Gente, Uma Luz ao longe e Via Sinuosa. O mesmo cenário se depara, por exemplo, nas Terras do Demo e na Estrada de Santiago, em cuja primeira edição surgiu a novela O Malhadinhas, um dos pontos mais altos da criação literária de Aquilino.
No entanto, Aquilino Ribeiro condensou muito mais elementos em que se conjugam a geografia, a história e a antropologia numa série de livros que costumo chamar «o quinteto da Beira Alta»: Os Avós dos Nossos Avós (l943); Aldeia (l946); Geografia Sentimental (l95l); Arcas Encoiradas (l953), e O Homem da Nave (l954). Aqui se depara tudo quanto define os usos e tradições dos habitantes da serra desde épocas remotas até às primeiras décadas deste século, quando se abrem estradas e se introduzem meios de transporte que vão do caminho-de-ferro até ao automóvel. Testemunho deste quotidiano era o Malhadinhas, o almocreve que se incumbira de estabelecer as comunicações entre o interior e o litoral, o campo e a cidade, levando e trazendo muitos produtos essenciais do comércio regional. (Texto do jornalista António Valdemar)

O que dele disseram alguns

“Conheci Aquilino Ribeiro, de quem me prezo de ter sido amigo e de quem continuo, cada vez mais, com o passar dos anos e as sucessivas leituras, rendido admirador." (Mário Soares)

"A força plástica e musical do mundo aquiliniano é admirável.A serra portuguesa, a aldeia patriarcal, o rebanho transumante, vivem nos seus livros como a vida flamenga e holandesa nos quadros dos grandes pintores dos Países Baixos." (Vitorino Nemésio)

“É a única personalidade literária da República que hoje podemos pôr ao par (e também em condigna oposição a) Fernando Pessoa.” (Óscar Lopes)

"É um inimigo do Regime. Dir-lhe-á mal de mim; mas não importa: é um grande escritor." (António de Oliveira Salazar)



18.11.06

Espaços de silêncio


A graciosidade, um certo ar ingénuo...










A monumentalidade serena, o equilíbrio...


Por vezes sinto necessidade de recuperar o socrático conceito de "oração": «conhece-te!»

Não se trata de alinhar em celebrações colectivas - para as quais sempre me senti pouco atraído - mas de entrar em espaços consagrados pelo homem para a reflexão, o silêncio.

Uma mesquita... ...uma capelinha, algures no Alentejo...

15.11.06

VIDA ESCANGALHADA


A vida pode estar complicada mas enquanto não acontecer uma catástrofe nada está perdido.

E, mesmo que aconteça, ainda podemos rir...

Carpe Diem!!

9.11.06

José Gil: "QUEM SE IMPORTA COM OS PROFESSORES?"

Acabo de ler o artigo de José Gil na VISÃO de hoje, com este título.
Chamo a atenção para ele. Felizmente aparece alguém prestigiado, a dizer o que, sendo óbvio, se tornou "politicamente incorrecto": os professores trabalham! E muito!
Mas o que está na moda é dizer mal dos professores.
Pessoas que não conseguem "controlar" em casa um miúdo de cinco anos, arrogam-se o direito de atacar quem tem de trabalhar com dezenas de crianças e jovens todos os dias.
Pessoas que não conseguem motivar um filho para ajudar em casa, não percebem o trabalho dos professores que procuram todos os dias motivar dezenas de jovens para aprendizagens difíceis.
Pessoas que não pegam num livro para estudar um assunto qualquer, que vivem numa constante preguiça mental, desvalorizam o trabalho dos professores que lutam quase sozinhos contra a incultura geral, contra o vazio de valores e de saberes em que se tornou a Televisão, contra o consumismo desenfreado em que se atolam mais as suas criancinhas.
Pessoas que não têm tempo para amar os filhos, ou que os estragam com privilégios absurdos, esperam dos professores que estes sejam capazes de restaurar as personalidades deformadas das crianças.
Aos vinte e três anos tive uma entrevista num Banco e era só dizer que sim para iniciar uma carreira bancária. Como muitos colegas meus que já estão reformados há anos e a receber o dobro do que ganho. Não quis e escolhi o ensino. Jamais me arrependi.
Em cada manhã penso: e se, em vez de ir ao encontro dos jovens que me esperam, eu tivesse de caminhar para a agência bancária, passar o dia a manipular dinheiro, cheques, promissórias, vales, financiamentos, etc.?
E os jovens lá estão. Custa-lhes, porque o esforço custa. Mas se eu estiver alegre, eles ficam alegres. Se eu me esforçar, eles esforçam-se. Todos os anos faço dezenas de amigos.
O que me custa agora é ver, ao fim de trinta e cinco anos de carreira, uma equipa do Ministério da Educação que ultraja os professores com um tratamento absolutamente injusto, revoltante.
E que essa equipa não reconheça o meu trabalho e contribua para o agravamento das condições em que se realiza.
Ninguém ignora que a incultura geral dos portugueses tende a desvalorizar a escola e que o insucesso escolar, em grande parte, tem origem aqui. Pois o ME não encontra melhor saída para esse problema do que tratar os professores como se fossem um bando de inúteis.
Espero pelo futuro com impaciência. Porque esta equipa do ME será desalojada - mas as escolas continuarão, com seus jovens e seus professores.

8.11.06

RUBEM ALVES: vale a pena (re) descobri-lo








"Enquanto a sociedade feliz não chega, que haja pelo menos fragmentos de futuro em que a alegria é servida como sacramento, para que as crianças aprendam que o mundo pode ser diferente. Que a escola, ela mesma, seja um fragmento do futuro..." (Rubem Alves)

Rubem Alves nasceu no dia 15 de Setembro de 1933, em Boa Esperança, sul de Minas Gerais, naquele tempo chamada de Dores da Boa Esperança. A cidade é conhecida pela serra imortalizada por Lamartine Babo e Francisco Alves na música "Serra da Boa Esperança".A família mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1945, onde, apesar de matriculado num bom colégio, sofria com a chacota de seus colegas que não perdoavam o seu sotaque mineiro. Buscou refúgio na religião, pois vivia solitário, sem amigos. Teve aulas de piano.
Foi bem sucedido no estudo de teologia e iniciou a carreira como pastor no interior de Minas. No período de 1953 a 1957 estudou Teologia no Seminário Presbiteriano de Campinas (SP), tendo-se transferido para Lavras (MG), em 1958, onde exerceu as funções de pastor naquela comunidade até 1963.
Casou-se em 1959 e teve três filhos: Sérgio (1959), Marcos (1962) e Raquel (1975), sendo esta a inspiradora na feitura de contos infantis.Em 1963 foi estudar para Nova York, retornando ao Brasil no mês de Maio de 1964 com o título de Mestre em Teologia pelo Union Theological Seminary. Denunciado pelas autoridades da Igreja Presbiteriana como subversivo, em 1968, foi perseguido pelo regime militar.
Abandonou a igreja presbiteriana e regressou com a família para os Estados Unidos, fugindo das ameaças que recebia. Torna-se Doutor em Filosofia (Ph.D.) pelo Princeton Theological Seminary. A tese de doutoramento em teologia, “A Theology of Human Hope”, publicada em 1969 pela editora católica Corpus Books é, no seu entendimento, “um dos primeiros brotos daquilo que posteriormente recebeu o nome de Teologia da Libertação”. De volta ao Brasil, por indicação do professor Paul Singer, conhecido economista, é contratado para dar aulas de Filosofia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro (SP).
Em 1971, foi professor-visitante no Union Theological Seminary.Em 1973, transferiu-se para a Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, como professor-adjunto na Faculdade de Educação. No ano seguinte, 1974, ocupa o cargo de professor-titular de Filosofia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), na UNICAMP. É nomeado professor-titular na Faculdade de Educação da UNICAMP e, em 1979, professor livre-docente no IFCH daquela universidade. Convidado pela "Nobel Fundation", profere conferência intitulada "The Quest for Peace".Na Universidade Estadual de Campinas foi eleito representante dos professores titulares junto ao Conselho Universitário, no período de 1980 a 1985, Diretor da Assessoria de Relações Internacionais de 1985 a 1988 e Diretor da Assessoria Especial para Assuntos de Ensino de 1983 a 1985.
No início da década de 80 torna-se psicanalista pela Sociedade Paulista de Psicanálise.Em 1988, foi professor-visitante na Universidade de Birmingham, Inglaterra. Posteriormente, a convite da "Rockefeller Fundation" fez "residência" no "Bellagio Study Center", Itália.
Na literatura, sobretudo na poesia, encontrou a alegria que o manteve vivo nas horas más por que passou. Admirador de Adélia Prado, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Octávio Paz, Saramago, Nietzsche, T. S. Eliot, Camus, Santo Agostinho, Borges e Fernando Pessoa, entre outros, tornou-se autor de inúmeros livros, é colaborador em diversos jornais e revistas com crónicas de grande sucesso, em especial entre os vestibulandos.
Afirma que é “psicanalista, embora heterodoxo”, pois acredita que no mais profundo do inconsciente mora a beleza. Após se aposentar tornou-se proprietário de um restaurante na cidade de Campinas, onde deu vazão ao seu amor pela cozinha. No local eram também ministrados cursos sobre cinema, pintura e literatura, além de contar com um óptimo trio com música ao vivo, sempre contando com “canjas” de alunos da Faculdade de Música da UNICAMP.
O autor é membro da Academia Campinense de Letras, professor-emérito da Unicamp e cidadão-honorário de Campinas, onde recebeu a medalha Carlos Gomes de contribuição à cultura.


Ver na net:
A casa de Rubem Alves


Projeto Releituras — Todos os direitos reservados. O Projeto Releituras — um sítio sem fins lucrativos — tem como objetivo divulgar trabalhos de escritores nacionais e estrangeiros, buscando, sempre que possível, seu lado humorístico,satírico ou irônico. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões. A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior. ® @njo



COMO CONHECI ESTE AUTOR:

Um pequeno folheto da ASA deu-me a chave desta porta:

" Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais..." (Rubem Alves)


Vamos (re) descobri-lo?


2.11.06

ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE: uma questão gravíssima

O que se está a passar com o Estatuto da Carreira Docente é muito grave. O Ministério da Educação propõe a criação de dois tipos de professor dentro das escolas.
Se essa distinção correspondesse a conteúdos funcionais diferentes, entender-se-ia a proposta. ( Ex: Os professores de tipo A vão fazer as tarefas 1,2,3,4. Os de tipo B vão fazer as tarefas 5,6,7,8.)
Mas as escolas não funcionam (nem é possível que venham a funcionar!) assim. Porquê?
Porque todos os professores têm que realizar a tarefa nº 1: ministrar aulas. Se o não fizerem é porque não são professores. Um professor, por definição, dá aulas. Esse é o seu trabalho. Essa é parte de 60% do seu dia, sendo o restante a preparação e a avaliação dos alunos fora da aula.
Claro, há outras tarefas: ser Director de Turma (na minha escola há cerca de 90 professores e 27 turmas. Portanto só pode haver 27 Directores de Turma). Ser Coordenador de Departamento e de Grupos de trabalho ( em número variável, conforme o modo como a escola se organiza). Ser membro dos órgãos de gestão.
Ora parece justo que, sendo estas as tarefas supranumerárias em relação às aulas, a haver distinção entre professores, ela deve ser feita pagando tais tarefas quando e enquanto são cumpridas. Quando o não forem, não se pagam.
Isto já eu aceitava pois, de facto, há professores que trabalham muito dentro das escolas e outros nem tanto. Mas isso é assim porque há trabalhos diferentes a fazer, como exemplifiquei acima. E há rotatividade para não castigar sempre os mesmos.
Para as realizar, o professor tem de fazer formação? Que faça. Mas, à partida não se pode dizer que na escola tal há 27 Directores de Turma, (sempre os mesmos), e mais X Coordenadores, mais X na gestão, etc. Isso não faz sentido porque todas as tarefas são, por definição, rotativas, não há cargos vitalícios, eles fazem parte do ser professor, são extensões naturais da docência.
Claro que deve fazer-se a avaliação de todo este trabalho! Mas se ela não tem sido bem feitaaté agora é porque o Ministério da Educação nunca a regulamentou, tal como lhe era exigido pelo actual Estatuto da Carreira Docente.
Isto que parece evidente para quem trabalha na escola há 35 anos ( sim, sou professor há trinta e cinco anos!), não o é para o ME e 1º Ministro. Porquê?
Estou à espera desde o início que o Ministério da Educação apresente, juntamente com o "seu" ECD, o modelo correspondente de organização de escola. Essa era a sua obrigação, para percebermos a bondade da sua proposta para o sucesso escolar dos alunos. Mas não o faz. Porque sabe que esse ECD é impraticável. Deixa para um futuro Ministro de Educação a tarefa de realizar a quadratura do círculo.
Então aquela gente é destituída de inteligência?
Não o creio. São apenas obstinados que seguem cegamente a orientação do seu Primeiro que manda cortar despesas. E els cortam. Cegamente. Quem vier atrás há-de fechar a porta.
O que se está a passar é, de facto, muito grave!

31.10.06

Cores da vida





Uma amiga muito especial está em Timor e sofre. Por ela e por aquele país que, de facto, parece inviável.

Muitos quilómetros nos separam. Mas a solidariedade e o afecto anulam distâncias.
Partilhamos os sonhos e as dores.



Sonhos com as cores do Outono...






Dores como alguns cinzentos da vida.
Eia, Amiga! Não deixes que os limos destruam a madeira do teu barco!

27.10.06

RILKE: palavras que são como luz na escuridão




Rainer Maria Rilke:

Rainer Maria Rilke nasceu em Praga no dia 4 de dezembro de 1875. Depois de viver uma infância solitária e cheia de conflitos emocionais, estudou nas universidades de Praga, Munique e Berlim. As suas primeiras obras publicadas foram poemas de amor, intitulados Vida e canções (1894). Em 1897, Rilke conheceu Lou Andreas-Salomé, a filha de um general russo, e dois anos depois viajava com ela para seu país natal. Inspirado pelas dimensões e pela beleza da paisagem como também pela profundidade espiritual das pessoas que conheceu, Rilke passou a acreditar que Deus estava presente em todas as coisas. Estes sentimentos encontraram expressão poética em Histórias do bom Deus (1900). Depois de 1900, Rilke eliminou de sua poesia o lirismo vago que em parte lhe haviam inspirado os simbolistas franceses, e, em seu lugar, adotou um estilo preciso e concreto, que podemos perceber em O livro das horas (1905), que consta de três partes: O livro da vida monástica, O livro da peregrinação e O livro da pobreza e da morte. Esta obra o consolidou como um grande poeta por sua variedade e riqueza de metáforas, e por suas reflexões um pouco místicas sobre as coisas.


«Há apenas uma coisa realmente necessária: solidão, grande solidão interior. Entar-em-si e não encontrar ninguém durante horas a fio - é isso que se tem de alcançar. estar só, como quando se era criança e os adultos andavam em redor, para lá e para cá, absorvidos com coisas que pareciam grandes e importantes só porque eles pareciam tão ocupados e porque não se compreendia nada sobre a sua actividade.» ( in Cartas a Um Jovem Poeta, R.M.Rilke)
Em Paris, em 1902, Rilke conheceu o escultor Auguste Rodin e foi seu secretário de 1905 a 1906. Rodin ensinou o poeta a contemplar a obra de arte como uma atividade religiosa e a fazer versos tão consistentes e completos como se fossem esculturas. Os poemas deste período apareceram em Novos poemas (2 volumes, 1907-1908). Até o início da I Guerra Mundial, o autor viveu em Paris de onde realizou viagens pela Europa e pelo norte da África. De 1910 a 1912 viveu no castelo de Duíno, próximo a Trieste (agora na Itália), e ali escreveu os poemas que formam A vida de Maria (1913). Logo após iniciou a primeira redação das Elegias de Duíno (1923), obra esta em que já se percebe uma certa aproximação dos conceitos filosóficos existenciais de Soren Kierkegaard.Em sua obra em prosa mais importante, Os cadernos de Malte Laurids Brigge (1910), novela iniciada em Roma no ano de 1904, empregou imagens corrosivas para transmitir as reações que a vida em Paris provocava em um jovem escritor muito parecido com ele mesmo.Residiu em Munique durante quase toda a I Guerra Mundial e em 1919 mudou-se para Sierra (Suíça), onde se estabeleceu para o resto de sua vida, salvo algumas visitas ocasionais a Paris e Veneza, concluindo as Elegias de Duíno e escreveu Sonetos a Orfeu (1923). Estas obra são consideradas as mais importantes de sua produção poética. As Elegias representam a morte como uma transformação da vida e uma realidade interior que, junto com a vida, foram uma coisa única. A maioria dos sonetos cantam a vida e a morte como uma experiência cósmica. Rilke morreu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suíça).Sua obra, com seu hermetismo, solidão e ociosidade, chegou a um profundo existencialismo e influenciou os escritores dos anos cinqüenta tanto na Europa como na América.

26.10.06

...!!!???

Calma aí! Já não se podem dizer coisas sérias a propósito de uma brincadeira?

Para além de mim, quem?









A RTP lançou o anzol e o cardume acorreu. Milhares de respostas X 0,60 € = grande ajuda para as contas correntes! Esse foi o primeiro ganho da noite, parabéns!

Vi uma parte do programa da Maria Elisa, ontem. Gostei de muitas intervenções, fiquei a saber que aquilo já foi êxito noutros países ( caraças, 'tou sempre a leste destes acontecimentos mundiais), apreciei a forma como E. Lourenço "ignorou" a presença desse sempre em pé que é J. Hermano Saraiva ( Min. da Educação no outro tempo, quando havia polícia de choque dentro da universidade, a mando do dito senhor), enfim, «fiquei mais enriquecido».

Agora só me falta votar.

Mas... penso, cogito, escarafuncho nos miolos, e nada. Para além de mim, não encontro mais ninguém verdadeiramente grande em Portugal. E como só eu acredito nisto, não vou arriscar uma votação. Receio que seja mal entendido.
Vou esperar. A ver como é que os outros se desenrascam...

23.10.06

Outra vez escola




Não quero entrar num registo "corporativista" mas este também é um lugar de desabafos. Daí o que segue.

Parece-me que o problema do Estatuto da Carreira Docente é apenas financeiro: não é possível 150 000 professores atingirem o topo da carreira pois isso seria incomportável. Mais de 50% já lá estavam e muitos outros reformaram-se, nos últimos dez anos, com o último escalão.

Sendo assim ( e os números que tenho lido provêm dos mais diversos sectores), há duas ou três coisas que não percebo:

1 - porque é que a Ministra não diz isto claramente e manda o sr. Pedreira fazer malabarismos de linguagem que só confundem e não esclarecem?

2 - porque é que os anteriores ministros da educação do PS embarcaram ( e nós atrás deles... eles é que tinham os livros, eles é que sabiam...) no delírio de "tudo para todos"?

3 - porque é que nunca houve coragem para avaliar os professores de forma séria e credível, deixando que se estabelecesse uma avaliação desleixada, laxista?
Agora quere-se resolver tudo "à bruta" e doa a quem doer.


Pôr os professores na mira das armas do Min. da Educação é transmitir para a opinião pública a mensagem de que eles é que são o grande entrave para a melhoria da Escola Pública. Sem que nada se faça para ajudar a resolver o grave problema da indisciplina que grassa por muitas escolas, sobretudo as dos meios suburbanos.
Há escolas em que aos professores já quase só falta entrarem assim:



20.10.06

Onde não chove





O reverso da medalha...

Isto passa-se na Austrália, numa região onde não chove há cinco ou seis anos.

Onde estão os "anjos da guarda"?

Calma! O sol há-de regressar!








Podes cair, chuva. Há quem suspire por ti e não te sinta há muito tempo. Mas não exageres...

O sol virá de novo. Podes ir, então, cair p'ra outro lado.

(Fraco pretexto para rever este magnífico quadro de Hopper)

18.10.06

Lá fora, a tempestade






Um trovão medonho fez saltar o gato para cima do armário da cozinha.

Com trovões destes havia na minha terra uns brutamontes que resmungavam: "lá 'tão os gajos a desarrumar as cadeiras..."

Entretanto faço greve às aulas. Não concordo com o estilo sindical em uso. Mas também me vai faltando a paciência para a cara de pau da Srª Ministra da Ed.

Em Portugal mais uma vez acontece: do imobilismo para o voluntarismo de tudo querer fazer à pressa e à bruta.

Povo de arranques súbitos ... seguidos de longos períodos de sonolência.

Portanto, na dúvida... adiro à greve.

17.10.06

Os autaratarcas...

Aquele "prós e contras" sobre a Lei das Finanças Locais de ontem foi uma delícia. A Fátima Campos - que tem muita classe - se pudesse, mandava alguns daqueles convidados para Foz Côa, a fazerem desenhos na rocha com as cabeças duras.
Há um tal Ruas que é o presidente da Assoc. Nacional de Municípios. Saido de um filme dos anos 40, bigodinho e cabelinho pintado, parece uma caricatura de si próprio. E tem gente que o leva a sério.
E o outro que estava ao lado dele, tipo delegado de turma reguila, dentinhos a sobrar do ar de riso, a puxar ao simpático lá da rua? Alguém percebeu o que ele disse, para além da defesa ridícula da virtude de todos os autarcas, como se fossem uma corporação de anjos vindos do céu para nos protegerem dos demónios do Governo?

Eu já desconfiava que ser autarca podia ser uma doença. Agora fiquei com a certeza. Muitos autarcas, ( demasiados! ) portam-se como regedores analfabetos, incapazes de ver a realidade sem ser pelo estreito óculo da sua terrinha.

Hilariante aquela defesa cerrada do direito a endividarem-se, sem reconhecerem que esse é o grande problema que todos enfrentam quando são eleitos por uma lista diferente da que estava no poder. Não há dúvida, estão quase todos contaminados pela virose do soba madeirense!...

Em certa altura, já ia alta a madrugada, perdi a pachorra para aquela cegada.

O quê? Se gostei do ministro António Costa?

Gostei, sim senhor. Preparado, documentado, muito claro na exposição das ideias.

E mais não digo. Ainda me vão acusar de andar a dar lustro ao poder...

16.10.06

LUGAR ONDE | Outubro 2006 -- Semanário BADALADAS, Torres Vedras

REGISTO DE NASCIMENTO DE UM POETA

Que esperamos nós de um livro de poesia?

Em “REGISTO DE NASCIMENTO”, seu primeiro livro (Livrododia Editores, Torres Vedras, 2005) - Luís Filipe Cristóvão põe a questão ao contrário: o que espera o poeta do leitor? E responde: “os dedos longos do leitor, pela noite esticados, / têm válvulas de fogo imitando línguas / (…) o verdadeiro leitor passa os dias bebendo sangue / e adormece extasiado em qualquer parte do mundo. (…) ao não-leitor tudo isto é indiferente.”
Isto é: o poeta espera uma leitura longa, atenta; que nós, seus leitores, sejamos capazes de deixar passar (como válvulas) os tumultuosos e intensos rios de palavras e seus múltiplos sentidos (fogo imitando línguas); que ousemos mesmo matar a sede com a escrita de dor e sofrimento (sangue), numa cumplicidade comungada que nos conduzirá, onde quer que estejamos, a um estado apaziguado de êxtase. O contrário disto será a indiferença.
Trata-se pois de um pacto inicial que nos é proposto. A partir dele, os 61 poemas deste belíssimo livro desvendam a memória com seus vastos recantos - infância, patamares de crescimento, recordações dispersas, algumas dores – assumindo o escritor este trabalho como o lavrador que revolve a terra e nela se suja. Neste desvendamento cabem também “o crescimento pessoal e as dúvidas da literatura, experiências do pensamento”, propósitos de vida (subo devagar / não quero acordar o passado).
Mas atenção leitores: a poesia de LFC não se reduz aos sentidos imediatos e banais das palavras. Joga com ambivalências, relações subtis, em que as referências constantes ao quotidiano parecem facilitar a adesão do leitor para logo a seguir lhe propor tensões inesperadas que deixam campo aberto para múltiplas leituras. E esta é a marca de água da poesia de qualidade. Se detectamos, aqui e ali, soluções verbais menos conseguidas, há um evidente e esforçado trabalho de oficina, bem visível no despojamento nos 84 versos do muito belo poema final “Itinerários”. Em versos curtos, espraiando-se por 20 páginas, o poeta atinge aqui, em nossa opinião, o mais elevado nível de expressividade.
Este livro é, para nós, o atestado inequívoco da afirmação de um poeta, nascido e criado em Torres Vedras cujo percurso vale a pena seguir com atenção.

Foto de Vanessa Fernandes




NOTAS BIOGRÁFICAS

Luís Filipe Cristóvão nasceu em Torres Vedras a 24 de Fevereiro de 1979. Desde cedo muito dedicado aos livros, licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas e concluiu uma pós-graduação em Teoria da Literatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estando ligado ao associativismo, fez parte da direcção do Académico de Torres Vedras, tendo sido Presidente durante dois mandatos. Foi também no ATV que iniciou a sua actividade como editor, primeiro com a revista quase da qual saíram cinco números e, actualmente, com a revista sítio, da qual se apresta para sair o terceiro número.

A sua carreira literária iniciou-se com a publicação de poemas na revista universitária Os Fazedores de Letras e com as séries de crónicas ficcionadas “Viver prejudica gravemente a saúde” e “ O direito de não ler” no jornal Em Frente Oeste. Colaborou com a revista 365, com o DN Jovem e em diversos sites portugueses e brasileiros. Publica regularmente nos blogues
www.prazeresminusculos.blogspot.com e www.milnove79.blogspot.com. Em 2005 publicou o livro de poesia Registo de Nascimento, na Livrododia Editores, estando neste momento a preparar originais para publicação em 2007.
Desde o início do ano de 2005 é gerente da Livraria Livrododia, Lda, uma empresa que se tem dedicado à promoção do livro e da leitura a partir do concelho de Torres Vedras, tendo uma alargada agenda de actividades na livraria, onde no primeiro ano já estiveram presentes diversos autores como Mia Couto, Luiz Ruffato, Gonçalo M. Tavares e José Afonso Furtado, entre outros. Para além da livraria vem desenvolvendo actividades como leituras de poesia e organização de feiras do livro em escolas do concelho. No plano editorial, tem dado destaque aos autores torrienses: para além do próprio Luís Filipe Cristóvão, foram editados livros de Ana Meireles e Jaime Batalha Reis. Nos próximos meses serão publicadas obras de João Carvalho Ghira e Vítor-Luís Grilo.






POEMAS

semanário

esta semana comecei um poema que fala de chuva e despedidaschávenas de chá e borras de café, olhares quentes e políciase girassóis e livros e comboios e telefonemas com três palavrase versos e poemas e músicas e abraços e insistências várias.esta semana comprei uma máquina de fazer olhares sensuaise despi o meu casaco de senhor doutor para te dar as boas noitese peguei num boné que era do meu avô e gritei golo algumas vezese fui ver o sol nascer no mar do lado de lá do lado de lá de mim.esta semana encontrei-te na rua e disse-te adeus em duas ocasiõesdancei desajeitado no corredor da minha casa desarrumadalavei os dentes catorze vezes e tomei banho outras setedormi sempre pouco e sempre mal com calor e dores de garganta.esta semana pensei que podíamos ficar apaixonados para semprea música que eu ouvi na rádio poderia repetir em continuidadeos dicionários podiam ser peças de armários onde nos encontrássemosas férias são uma estrada comprida com curvas e garrafas de água.esta semana fui às compras e trouxe, em sacos de plástico, requeijãopão fresco manteiga chourição guardanapos fígado de porcopatê cervejas arroz doce salame salsichas alfaces iogurtespapel higiénico bolos secos e uma revista de palavras cruzadas.esta semana a minha mãe não me falou e a minha avó faz anostodos os jornais trazem na capa jogadores de futebol e bandeirinhasum pneu do meu carro estava vazio e eu enchi-o antes de ir ver-tenão me acabou a gasolina a meio do caminho e fiquei contente.esta semana tu foste embora para dentro de um livro que eu escrevie os meus versos longos ficaram cheios de pedacinhos de tieu sorrio ao ver crescer os meus filhos que ainda não nascerame entretenho-me a ver desenhos animados e a mudar de calendário


assume o escritor

assume o escritor a sua condição de lavrador
levando os joelhos a terra, deixando que os dedos
mergulhem no mar castanho onde nascem as videiras.
não se pense, no entanto, que lhe são desconhecidas
as distâncias entre a enxada e a caneta.
o que o escritor lavra, neste gesto repetido,
é a comunhão do homem com a terra.

13.10.06

Hoje também falo de política

A política, ao contrário do que diziam os desiludidos da pátria nos finais do séc. XIX, não é a "grande porca". Ela é o mais nobre território do colectivo social porque é a organização da vida em comum. Alguém tem de se ocupar disso. E se são os menos aptos a fazê-lo é porque os mais aptos o permitem. E se estes o permitem por muito tempo, deixam de ser aptos porque se tornam ineficazes.
Penso nisto quando ouço as críticas ao actual governo. Elas tanto vêm da esquerda como da direita, o que pode significar uma coisa: este não é um bom governo para quem tem uma visão parcelar das coisas.
O grande problema é só um: o Estado não tem dinheiro suficiente para os encargos que todos nós lhe atribuímos e dele esperamos. E corta nas despesas. Só isso.
- Olha a novidade! Mas se não há dinheiro é porque o Estado não vai buscá-lo a quem o tem: os ricos, os bancos, as grandes empresas...
Pois é. Mas quem assim fala esquece que o problema central da sociedade capitalista em que vivemos é o de que o dinheiro não tem pátria, é volátil. Esquece que no tempo em que o dinheiro era físico, o rei podia tomar conta dele à força. Agora não. O dinheiro não existe, só existe o se estatuto social. Ele é um bem volátil, fugidio, que corre o mundo, em fuga, quando acossado por qualquer Estado.
Max disse com toda a razão: contra o capital sem pátria, só o proletariado internacionalmente organizado pode lutar. Fez-se a tentiva que, infelizmente, foi um fracasso.
Nas condições actuais Max diria: contra o capital sem fronteiras, só pode lutar um Estado dos cidadãos, também sem fronteiras. A União Europeia poderia ser o princípio disso mas os nacionalismos estreitos e curtos de vista não o entendem. Por isso ela não avança.
Sócrates governa bem?
Mas quem pode governar bem um país que estava à beira da bancarrota?
E depois da triste figura que fizeram Durão Barroso e Santana Lopes, depois da boa vontade generosamente inconsciente das consequências que foi Guterres, quem acredita que alguém da oposição possa fazer melhor?
Jerónimo de Sousa?
Marques Mendes?
Louçã?
Paulo Portas?
As manifestações são uma prova de cidadania e civismo. Mas alguém acredita que as suas razões se aguentam perante o estado a que chegou a nossa economia?
Os nossos gestores são um problema, é verdade. Mas que pode fazer o Estado? Mandá-los prender todos?
Isto não tem solução?
Se calhar não. Eu pelo menos não faço ideia nenhuma. E depois de ver o estrondoso fracasso da União Soviética - em que cheguei a acreditar, há muitos anos atrás! - não sei mesmo.
A não ser que se caminhe para o tal Estado Internacional dos cidadãos. E aqui já estou na utopia.
Pode ser que, daqui a 500 anos... ou mesmo 1000...

11.10.06

A MORTE DA ÁGUA







Perante estas imagens da foz do Cávado, em Esposende, fui à procura de um texto de Ruy Belo de que me lembrava. Encontrei-o muito perto d'aqueloutro que a Avelaneira Florida me oferecera há poucos dias num dos seus atentos comentários. Este texto pertence ao belíssimo livro de Ruy Belo, HOMEM DE PALAVRA(S).

Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a esposende ver desaguar o cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore genealógica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.

9.10.06

O mais é nada...






Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!



Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
e cala. O mais é nada.

(Ricardo Reis)

6.10.06

Ah! Outono lindo...


(...)
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.
( Natália Correia)

1.10.06

Alguém, bem longe...






De Timor, Ana V. envia um SMS desesperado e lúcido.
Mergulhado na incerteza, procuro Ruy Belo. Leio:



Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu

Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu


Daqui a Timor vai a ponte de um enorme abraço de solidariedade!

29.9.06

HELP ME!!!!

É bem verdade, como diziam os antigos gregos:

DA ESTUPIDEZ HUMANA ATÉ OS DEUSES TÊM MEDO!


Não tenho, pois, que me admirar...

27.9.06

Pelo Outono...andando...





Nevoeiro leva
lava-me
leveda-me
pelo Outono andando
perco-me
percebo-me
parca que me leva
Por onde, Outono?
Parto? Chego?
Por perto me parto
tão parco, tão pouco
me louco
m'evado, m' Outono...

Que lugar é este?

Pergunto, perguntamos. E abro Fernando Pessoa ao acaso. Põe-me a mão sobre o ombro e arrasta-me pelas ruas de Lisboa. Vai falando:


« Estou assim...
Pobre velha casa da minha infância perdida!

Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?Está maluco.
(...)


Hoje é quem eu sou.Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.

Se eu pudesse crer num manipanso qualquer
–Júpiter, Jeová, a Humanidade,
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!


Fernando Pessoa

Droga pesada, este homem. Procuro desembaraçar-me dele, quero caminhar sozinho. Paro junto ao Jardim de S. Pedro de Alcântara, olho o mar de casas. Custa-me respirar, a angústia tira o sono, o apetite, a alegria.
Mas ele alcançou-me de novo e diz, muito de leve, a olhar em frente:
"... netos do Destino e enteados de Deus , que casou com a Noite Eterna quando ela enviuvou do Caos que nos procriou..."

22.9.06

O estado da Educação

A revistaVISÃO traz um suplemento com o título "O estado da educação". Vale a pena ler, começando no "A revolução necessária", de Henrique Botequilha. Cito:
«Em 2003, a empregabilidade dos jovens entre os 20 e os 24 anos que não acabaram o ensino secundário era ligeiramente superior à dos que o completaram. Portugal era o único país que apresentava esta situação. Esse tem sido o estímulo do mercado de trabalh0: pouco exigente, acaba por tratar de forma indiferenciada, em admissões e salários, toda a gente, independentemente das suas habilitações.»
Nós já suspeitávamos que assim fosse, mas vê-lo apoiado em estudos sérios até arrepia!
Porque a realidade tem sido esta: o insucesso escolar radica, em grande parte, no atraso cultural das famílias e da sociedade em geral, atraso contra o qual a Escola se esfalfa numa luta muitas vezes inglória.
Claro, é mais fácil apontar o dedo à Escola, isto é, aos professores.
Mas... Por exemplo: quantas famílias têm uma biblioteca razoável em casa? Quantos pais são capazes de se sentarem a ler (ao menos!) um dos livros que os filhos estudam na Escola? Quantos pais dizem não ter tempo para acompanhar os filhos mas já o têm para ler os jornais desportivos, que continuam a vender-se melhor que qualquer dos outros? Quantos pais foram, este ano, ao teatro? Ao cinema? A um concerto de música de qualidade?
E ao futebol?
Nos debates públicos gostava de ver, ao lado da senhora ministra da Educação, a titular da Cultura. Para que, quando a primeira falasse dos professores como fala, a outra contrapusesse os dados arrasadores de todos os índices culturais da sociedade portuguesa.
Talvez assim se percebesse - finalmente! - onde está a grande causa do insucesso escolar dos nossos alunos!

21.9.06

Presença menos regular




O meu PC vai para revisão o que me leva a estar por aqui menos vezes. Mas sempre que apanhar um PC de empréstimo...
Agora vou comer um gelado - este encontrei-o numa rua em Budapeste, fazia parte do cowparade lá do sítio.
:-) :-) ;-)

19.9.06

Ler é assim tão importante?



Ora vejamos...


Estamos na civilização da imagem. Houve até quem dissesse muito a sério que “uma imagem vale por mil palavras”.
Então, para quê tanto alarido com a necessidade de ler?

Há mais de cinco mil anos os escribas eram considerados pelos egípcios uma classe privilegiada. Porque dominavam os códigos de comunicação, escreviam mensagens e lançavam-nas ao futuro – e elas chegaram até nós. Hoje mantém estatuto idêntico quem domina esses códigos e os coloca ao serviço de qualquer projecto de afirmação: os advogados, os políticos, os economistas, os ministros de todas as religiões. Quem os desconhece perde capacidade de intervir ou, mesmo, de sobreviver. Tudo gira em torno da palavra escrita, meio indispensável de manutenção dos vínculos sociais.
Esta evidência está na origem do gigantesco esforço que se tem vindo a fazer ao longo das últimas décadas para erradicar o analfabetismo português que, à data da implantação da República, em 1910, rondava os 80%.
Em 1997 o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas lançou o Programa Nacional de Promoção da Leitura. Por esse país fora alastrou uma rede pública de bibliotecas que cobriu praticamente todos os concelhos. Um exemplo é o dinamismo da nossa Biblioteca Municipal, integrada nessa rede e apoiada pelo referido programa. Mas os resultados palpáveis tardam em aparecer. Se o analfabetismo puro e duro foi muito atenuado, continua a manifestar-se um elevado índice de iliteracia, entendida esta como a “capacidade para ler e perceber o(s) sentido(s) do que se lê”.
Daí o lançamento recente – em Junho deste ano – do Plano Nacional de Leitura (Resolução do Conselho de Ministros nº 86/2006), em cuja introdução se lê, a abrir:


«Os resultados globais de estudos nacionais e internacionais realizados nas últimas duas décadas demonstram que, no que respeita ao domínio da leitura, a situação de Portugal é grave, revelando baixos níveis de literacia, significativamente inferiores à média europeia, tanto na população adulta, como entre crianças e jovens em idade escolar.»
E mais adiante:

«Também os resultados das provas de aferição, realizadas no final do 1.º ciclo, tornaram evidente que a maioria das crianças faz a transição para o 2.º ciclo sem ter adquirido competências básicas no domínio da leitura e da escrita.»
Em nossa opinião, este é um projecto que deve assumir dimensão nacional. Estando centrado nas escolas, todos somos chamados a intervir: pais, educadores, associações, comunicação social.
Não, uma imagem não vale por mil palavras. Porque, sem palavras, qualquer imagem fica prisioneira da simples e limitada percepção visual.
MD
Os jovens não lêem! Que fazer? Sim, que fazer?

Daniel Pennac tentou responder à pergunta angustiada de pais e professores num livro notável e plenamente actual, publicado em 1993 pelas ed. ASA: Como Um Romance.
O autor faz uma análise brilhante sobre o percurso da aprendizagem da leitura. Em pequenos capítulos, cheios de humor e observações centradas na experiência de todos nós, mostra como a perda do gosto pela leitura está ligada aos erros pedagógicos dos primeiros anos escolares. E assim, o que era gosto e aventura na fase da leitura recreativa, feita pelos pais antes de a criança adormecer, torna-se, na escola, obrigação penosa, uma “seca”. Transformamos os ouvintes sedentos em dissecadores de frases, livros sobre a mesa da morgue.
Opõem-lhe o exemplo de professores que fazem leitura expressiva (em voz alta) nas aulas. Uma aluna de um desses professores relata a sua experiência inesquecível:

«Essa descoberta aconteceu depois de uma interminável escolaridade, onde o ensino das Letras nos colocara a uma respeitável distância dos livros. Mas o que fazia ele, que os outros professoreis não faziam? Nada de especial. Sob certos aspectos, até fazia menos. Acontecia apenas que não nos entregava a literatura com um conta-gotas analítico, servia-a em generosas quantidades… (…) Falava-nos de tudo, lia-nos tudo, porque sabia que não tínhamos uma biblioteca na cabeça. Tomava-nos por aquilo que éramos, jovens alunos incultos que mereciam aprender.». (Op.cit, 11ª ed., pág. 84/85)

Na linha da dessacralização da literatura que é o pano de fundo do seu livro, Daniel Pennac enunciou um decálogo que se tornou célebre:

" Em matéria de leitura, nós, os «leitores», temos todos os direitos, a começar pelos que recusamos aos jovens que pretendemos iniciar na leitura.
1) O direito de não ler.
2) O direito de saltar páginas.
3) O direito de não acabar um livro.
4) O direito de reler.
5) O direito de ler não importa o quê.
6) O direito de amar os «heróis» dos romances.
7) O direito de ler não importa onde.
8) O direito de saltar de livro em livro.
9) O direito de ler em voz alta.
10) O direito de não falar do que se leu.
(...)
Porque se queremos que o nosso filho, a nossa filha, a juventude leiam, é urgente outorgar-lhes os direitos que outorgamos a nós próprios."

11.9.06

À janela...



De janela para janela, como antigamente.

Claro, um computador não é tão bonito. Mas permite esta comunicação à distância.
Deste LUGAR ONDE comunico com os vizinhos aqui vai um "aviso" à navegação: ouçam os CANTARES DE AMIGO. ( cantaresdeamigo.blogspot.com)
Lá hão-de encontrar o pequeno texto, a fotografia muito bonita, o humor subtil, a ternura de partilhar recordações, livros, discos...

Olá, "Avelaneira florida"!

9.9.06

Museu Municipal Leonel Trindade - Torres Vedras






O tempo dos museus como lugares bafientos já lá vai. Hoje vai-se ao museu para passear, para ver coisas bonitas e diferentes. As exposições não ficam paradas no tempo, renovam-se. Alguns até têm bar com jornais e revistas.

Antigamente:
- Já visitaste o Museu Municipal?
- Fui lá há três anos... aquilo é sempre a mesma coisa...

Agora:
-Não percas a nova exposição do Museu!
-Já abriu?
-Vai ser inaugurada em 22 de Setembro. Fui lá espreitar, acho que vale a pena. É sobre o castro do Zambujal, apresentado de uma forma muito sugestiva. A exposição apela à participação activa dos visitantes.

6.9.06

A FOTO QUE FALTAVA



Kazuo Dan era este homem amável e feliz que a foto documenta numa rua de Santa Cruz, praia do concelho de Torres Vedras.
(Só agora consegui transferir a foto que saíu na página LUGAR ONDE. )

5.9.06

IMAGENS A RETER





Abóbada de nervuras - Castelo de Torres Vedras


Porta de entrada no Castelo (vista do lado de dentro)



O Armando é um homem atento e amante das coisas torrienses. Não se vai zangar comigo por eu mostrar aqui duas ou três fotos que ele fez nas visitas guiadas ao Centro Histórico com a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras.
Olhar e VER!
Obrigado, Armando!

FOI EM SETEMBRO ... 1965... Muitos de nós vivemos isto por dentro...

JOSÉ BAÇÃO LEAL: testemunha e mártir

O que dói na lembrança deste jovem que a guerra colonial roubou à vida em Setembro de 1965- faz agora 40 anos -, é a lucidez e a amargura com que caminha em direcção ao fim pressentido. José Bação Leal é hoje um símbolo de milhares de vidas cortadas à vida pela obstinação de uma política cega: aquela que inventou a ideia supremamente estúpida de “Portugal, um país que vai do Minho a Timor”.

Muitos fugiram à guerra emigrando. A maioria teve de suportá-la, na Guiné, em Moçambique ou em Angola. De 1961 a 1974 os jovens de Portugal eram recrutados para uma missão que a comunidade internacional condenava mas que Salazar e Marcelo Caetano defendiam “orgulhosamente sós”!
Um desses jovens chamava-se José Crisóstomo Gomes Bação Leal, nascido em Lisboa em 1-7-1942. Inteligente e de invulgar sensibilidade, escreveu poemas que chegaram até nós porque a mãe os recuperava carinhosamente do cesto dos papéis para onde ele os mandava, na impaciência dos vinte anos. Atento às ideias do seu tempo, lia os grandes autores e deles dava conta em muitas cartas aos amigos.
Não escapou ao recrutamento militar. Primeiro em Mafra, depois nos Rangers de Lamego, foi levado para o norte de Moçambique “para combater os terroristas” – na linguagem, essa sim terrorista, de Kaúlza de Arriaga. Insofrido com as injustiças do colonialismo e a arrogância dos senhores da guerra, enfrentou-os pela palavra e pelo gesto. Não lhe perdoaram. Atiraram-no para onde a guerra era mais acesa. Morreu numa emboscada perto de Nampula, em 1 de Setembro de 1965.
Em 1971 seu pai e um grupo de amigos publicaram um livro intitulado “POESIA E CARTAS”, com os textos de José Bação Leal. Um pequeno prefácio de Urbano Tavares Rodrigues salientava a sua extraordinária dimensão humana e literária.
Estes textos são hoje um impressionante libelo contra a guerra colonial, contra todas as guerras. Como diz Urbano T. Rodrigues:
«Além de nos fazer conviver humana e esteticamente com quem teria porventura vindo a ser – não lhe houvessem truncado a vida a crueldade e a insânia que ele denuncia – um dos maiores escritores da língua portuguesa do nosso tempo, este livro fica para sempre, no seu valor testemunhal, como um marco histórico, resumindo a agonia e o martírio de tantos e tantos jovens... O seu testamento – este maço de cartas, este punhado de versos – toma o valor de um legado escrito com sangue, de um eco que nenhum vento repressivo poderá apagar, senão que há-de ampliar-se, em sementeira de som, até ao triunfo do que foi para José Bação Leal razão de viver e morrer: a glória da paz e da justiça.»



Excertos de cartas
José B. Leal a vários amigos

«(...) Mas regressando ao Alto Molocué, trata-se duma espécie de povoação onde meia dúzia de brancos exploram muitas centenas de negros. De resto, talvez não saibas que se atribuíssemos a invenção da ternura ou da inocência a uma raça, só um cego voluntário não a atribuiria à raça negra. Esclareço: ainda não percebi, não constatei em nenhuma criança branca a ternura e a inocência que diariamente constato no doloroso, antigo olhar das crianças negras que se cruzam. Elas param à minha passagem (não minha de alferes ou senhor, mas de branco) e dizem usando uma voz que vem do coração dos séculos: «bom dia mêu alfé». Aprendo que nunca fui criança, vivi uma infância manchada de egoísmo.» (26/Novembro/1964)

(…) Não sei como enfrentar o cruel silêncio do mato. Vou “dar gritos à natureza”. Vou perder a infância, as manhãs verdes. Vou crescer inocente, forte, contra os muros do medo. Um dia, o inevitável encontro comigo mesmo, a tragédia numa rua da alma, não me reconhecerei. Reconhecer-me-ei? Talvez. Para isso… (indizível coerência) …vou passar em fúria pelas mesas, vou acordar no povo uma bandeira de trigo, à flor dos lábios. (…) (17/Abril/1965)

“Esta é a terceira carta que te escrevo num período temporal bastante curto. Ainda estou vivo, dentro desta morte, é claro.
“Desculpa o apelo. Mas aqui no Alto Molocué, só consigo, melhor: já consigo conversar com os cães. Os homens não sei onde estão. Minto: sei, mas não digo!
Aguentarei dois anos tão desesperadamente calmo? De quando em vez faço-me esta pergunta. Depois, instalo-me num canto, convido uma ou outra sombra que mereça a minha simpatia, e fico, por muito tempo, olhando nos olhos, sem espanto, a vida. Aconselho-te: como exercício é quase salutar. “ (30/Janeiro/1965)



Poemas de José B. Leal

Porque voam os pensamentos no ventre da solidão?

se a minha mão adormece numa chaga bêbeda…

Porquê? Pergunto-me na transparência do meu mundo.

As respostas batem na parede espelhada

que esclarece as cores do desespero


E caem

pesada inutilmente no tapete da consciência.


Por momentos sei que pensar não ajuda as coisas.

Gasta o tempo mudo

e coloca-nos na obliquidade da vida.



E como não sou uma parede com alma

que sangre em silêncio

fecho as portas da angústia e entro

como um príncipe bêbado na festa dos vivos.

*

Coragem mão
como coisa possessa
e fora de horas defronta o tempo
O rasgão está aberto
Basta um murmúrio de dedos
e a morte fará o resto

3.9.06


«Rosa rosae
flor que tantas vezes dissemos sem pensar


Fulgurante,
indiferente e absoluta,
apenas rosa»







A rosa, eu sei. Não esqueço. Amanhã direi todas as palavras que faltam.

1.9.06

RECORDAR UM GRANDE POETA DO SÉC. XX

Ruy Belo (1933 /1978)



Conhecem S. João da Ribeira? Fica perto da Ribeira de S. João, concelho de Rio Maior. Quem entra na A-15, vindo da A-8 a caminho de Santarém, encontra a saída para esta aldeia.
O que tem ela de especial?
É a terra natal de Ruy Belo, poeta enorme, que não me canso de revisitar. E é lá que ele está sepultado.
Mais uma vez deixei uma rosa amarela sobre a sua campa rasa.
Na pedra tumular foi gravado um poema seu, com o título de COLOFON OU EPITÁFIO


Trinta dias tem o mês
e muitas horas o dia
todo o tempo se lhe ia
em polir o seu poema
a melhor coisa que fez
ele próprio coisa feita
ruy belo portugalês
Não seria mau rapaz
quem tão ao comprido jaz
ruy belo, era uma vez

21.8.06

Ah! Belo sol poente!



Para ti, que gostas de "espantar gaivotas" em Santa Cruz:


Descobri este pôr-do-sol em Santa Cruz, visto da varanda onde está o monumento a Kazuo Dan, esse "enamorado de poentes".
Quando lá voltares alonga os olhos: talvez paire sobre o horizonte o vulto do poeta. Mais perto encontrarás, ainda, o rasto dos meus olhos...

KAZUO DAN: Um poeta em Santa Cruz





O ENAMORADO DOS POENTES

Belo sol poente
Ah! Pudesse eu ir buscar-te
Lá, ao fim do mar!

Este é o breve poema ( “Haiku” em japonês ) que está gravado no monumento a Kazuo Dan, em Santa Cruz. Um “haiku” é um pequeno poema japonês de três versos, de cinco, sete e cinco sílabas, respectivamente. O poema inclui sempre uma palavra referente às estações do ano. Na descrição da natureza, o autor exprime simbolicamente o seu sentimento ou pensamento. No caso deste poema a expressão “sol poente” representa o outono e simboliza a “decadência”. O autor, sentindo que a vida se aproxima do fim, projecta-a na imagem de um belo sol poente, que ele deseja suster no fim do mar, como se fosse possível, assim, prolongar a vida. (in: “O Pôr do Sol em Santa Cruz”)

Este japonês percorreu o mundo mas foi na praia de Santa Cruz que viu os mais belos crepúsculos. Morreu no Japão, em 1976, com a mágoa de não ter podido regressar. Talvez tenha conseguido chegar lá, ao fim do mar, em busca do último sol poente...


Quem passeia na esplanada frente ao Bar do Manel, em Santa Cruz, concelho de Torres Vedras, encontra um monumento original: uma laje de pedra assente numa base com degraus e uma inscrição bilingue (japonês / português). Ele perpetua a recordação de um escritor japonês que, em 1970, aqui chegou e viveu durante um ano e quatro meses. Os suficientes para fazerem chegarem ao Japão, sua pátria, o testemunho de uma envolvência total com esta terra que o recebeu com inexcedível hospitalidade.
«Em toda a minha vida nunca havia feito amizades tão sinceras e tão intensas como lá, no espaço de pouco mais de um ano» – escreveu Kazuo Dan no livro de crónicas “Dias passados, dias vindouros”, publicado no Japão.
As gentes que o acolheram ainda hoje falam do japonês que gostava de se sentar na cervejaria “Imperial” e que se ria muito, forma universal de comunicação quando as palavras não chegam. Recordam, ainda, o seu gosto moderado pelo “tinto”, particularidade de quem, sobretudo, gostava da vida e a bebia, a plenos pulmões, em caminhadas intermináveis, ora pelas arribas ora pelas areias. Embebedava-se, sim, mas da imensidão do mar, pelo cavalgar incessante das ondas, emocionado por cada sol poente que se despedia lá onde nem a vista alcança.
Kazuo Dan não era banhista casual de Verão e Santa Cruz foi muito mais do que a estância de veraneio das rotas turísticas.
«É bem verdade que a partir de Junho até meados de Setembro a multidão de veranistas invade as praias, mas esses aglomeram-se nas proximidades da aldeia e poucos banhistas invadem o meu salão nobre. Passados os meados de Setembro, tal como a maré que vaza, essa vasta população desaparece. Então sinto-me envolvido pelo desejo de gritar “O mar é todo meu, o mar é todo meu”, como se fosse intensamente abraçado pelo mar».
O salão nobre de que Kazuo fala era um casebre abandonado num dos extensos areais desta costa. «Num canto da praia havia uma casa abandonada a que eu chamava por brincadeira “o palácio real”. Aí gozava da solidão de viajante até à saciedade.»
Kazuo Dan descobriu a imensa beleza de Santa Cruz nos meses de Outono, o mar bravio, as neblinas matinais, as nuvens derramando-se em aguaceiros breves. E aprendeu a conviver com as gentes da aldeia, aqueles que não se retiram ao cair do Verão e constituem uma pequena comunidade onde todos se conhecem.
«Quando chegava a casa encontrava por vezes um robalo grande deixado por Joaquim ou enguias trazidas pelo José. E então precipitava-me para preparar o jantar. Mas, o que faria com um robalo tão grande? Claro que não poderia comê-lo todo e via-me obrigado a convidar amigos para consumi-lo.»
A casa que alugou em Santa Cruz está assinalada e fica na rua com o seu nome. Para que se recorde o escritor e viajante japonês que se enamorou dos poentes e que, em muitas páginas de intenso lirismo, deu testemunho do seu amor por esta terra.
«Visto que se tratava de férias especialmente concedidas por Deus, não tinha dúvidas de que o melhor seria desfrutá-las num lugar desprovido de quaisquer distúrbios, onde fosse possível uma interacção perfeita do meu ser com o céu e a terra. Para isso a Praia de Santa Cruz era simplesmente perfeita, sem igual. E nessa interacção havia o acompanhamento melódico, ininterrupto, das ondas do mar. (...) O que há de realmente esplêndido lá é o poente. Sempre que sentia a sua proximidade, deixava de lado tudo o que estivesse a fazer e corria ao penhasco mais próximo. (...) Então sentia no íntimo a vibração do Sol ardente enquanto o via desaparecer por entre as ondas. O reluzir das nuvens logo após era de uma beleza inesquecível.»

BIOGRAFIA

Kazuo Dan, um dos mais populares escritores japoneses do pós-guerra, nasceu em 1912, de uma família oriunda de Kyushu, – que, por curiosidade, foi a ilha onde os portugueses aportaram no séc. XVI, os primeiros europeus a chegarem ao Japão. Desde muito novo revela-se um ser voltado para a contemplação da natureza, que ele sentia como consolação para as dificuldades da vida familiar. Mostra gosto pela escrita, que verte em poemas, romances e peças de teatro. Forma-se em Economia na universidade de Tóquio mas é à literatura que dedica mais tempo. Recebe um prémio literário em 1944, quando se encontrava na China, em plena guerra, como correspondente de um jornal. Regressa mais tarde ao Japão, casa-se e tem dois filhos. Em 1951 ganha o prestigioso prémio literário Naoki. Escreve e viaja, tendo estado com uma frota baleeira no Antárctico, e deslocando-se sucessivamente à Europa, aos Estados Unidos, China, Rússia, Austrália e Nova Zelândia. Aos 58 anos visita Portugal e fixa-se durante mais de um ano em Santa Cruz, Torres Vedras. Daqui viaja para a Suiça, Áustria, Alemanha, Espanha e Marrocos. Regressa ao Japão e ainda visita a Coreia e a Formosa. Uma crise hepática fá-lo parar. Tinha cancro. Consegue ainda ditar o último romance “O Homem das Paixões”. Morre em 2 de Janeiro de 1976, sem conseguir o realizar o seu anseio de rever Santa Cruz, de que falou até ao fim.



Nota: Segui de perto uma pequena brochura de 37 páginas sobre Kazuo Dan, “O Pôr-do-sol Em Santa Cruz”, publicada em 1992 e de que se encontra um exemplar na Biblioteca Municipal de Torres Vedras. Tive, como referência pela oportunidade, os artigos de Gualter Varela e Vasco Calixto sobre Kazuo Dan, recentemente publicados no BADALADAS.

19.8.06

HUNGRIA: País amável!










Não quero fazer alarde. Apenas... partilhar a viagem de férias.
Porquê a Hungria?
Por ter sido um país "do lá de lá" mas com raízes no lado de cá e recém-entrado na UE.
Por curiosidade ( qualidade óbvia de qualquer viajante, mesmo o turista formatado ...) e possibilidade de viajar em Agosto para fora dos grandes circuitos turísticos.
Gostei. País amável, com uma cidade capital muito bonita, Budapeste, toda voltada ao Danúbio, cidade sem aspectos agressivos, daquelas em que apetece ficar.
O campo: giarassol e milho a perder de vista. Tudo verde e muito limpo.
Monumentos? Há, mas tudo século XIX, mesmo quando aparece o gótico, que é sempre "neo".
Bem (re) construídos, ou não fosse aquele um país de múltiplas invasões, porque sem fronteiras naturais.
E a guia, Catarina, licenciada em Língua e Literatura Portuguesa, uma profissional de excepção, a falar e a conhecer a nossa língua e História. Espectácular.
Bem hajas, Catarina!
Aqui ficam umas fotos, para concluir. Minhas e alheias.

17.8.06

DANIEL FARIA : duas fotos








Os olhos do poeta interpelam-nos. Vale a pena conhecer o que escreveu.

Vamos re-descobri-lo?

Um grande poeta

Página LUGAR ONDE saída no BADALADAS há meses atrás:


DANIEL FARIA:
UM POETA EM DIRECÇÃO AO SOL

Escreveu sobre as moradas onde habitou e os caminhos breves por onde andou. Interrogou todos os silêncios, num diálogo interior que deixou milhares de palavras pelo chão antes de se ir embora.

E foi-se embora muito cedo: Daniel Faria morreu com 28 anos, após ter escolhido o caminho da consagração a Deus num mosteiro beneditino. O seu percurso foi desenhado com poemas que escreveu e ofereceu como quem se despede. Sem dramatismo nem proselitismo religioso. Ele não tinha a urgência da vida porque sabia que tudo era vida, mesmo a morte por onde entrou ao encontro do Nome definitivo.
Toda a sua poesia parece falar de um mundo onde as palavras remetem para uma dimensão estranha: o Verbo, essa forma de dizer o Absoluto, liberto da duração efémera da vida de cada homem. Os seus poemas não estão ancorados em pilares imediatamente reconhecíveis. Vogam sempre nas largas águas de sentidos ocultos cuja chave necessita de referências atentas: as narrativas bíblicas como o Êxodo e o Apocalipse; e também vozes poéticas como as de António Ramos Rosa e Herberto Helder.
Temos assim, neste poeta, a vivência mística expressando-se através de formas que não recusam a herança dos nossos grandes criadores contemporâneos. Mas não encontramos nessa vivência qualquer referência concreta a crenças e códigos eclesiais. É o homem perante o Nome Absoluto – que o poeta raramente escreveu em maiúsculas – exposto numa obra de impressionante dimensão e fôlego, reunida pela Editora Quasi numa edição de Novembro de 2003, sob o simples título de POESIA. Simplicidade que se conjuga com a riqueza dos títulos dados pelo poeta aos seis livros que escreveu e que, para facilidade de identificação a organizadora da edição – Vera Vouga – dividiu em dois momentos.
A saber: livros da idade juvenil: Uma Cidade com Muralha; Oxálida; A Casa dos Ceifeiros. E livros da idade adulta: Explicação das Árvores e de Outros Animais; Homens que São como lugares mal situados; Dos líquidos. Esta edição inclui ainda um conjunto de poemas inéditos.



VIDA

Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu em Baltar, Paredes, em 10 de Abril de 1971. Revelou paixão pela escrita desde a mais tenra idade. Aceitando uma vocação religiosa, frequentou os Seminários Diocesanos e o Curso de Teologia da Universidade Católica. Licenciou-se em Estudos Portugueses pela Faculdade de Letras do Porto, ao mesmo tempo que apresentava a Tese de Licenciatura em Teologia, intitulada “A meditação da Paixão na poesia de Frei Agostinho da Cruz”. Em 1997 optou pela vida monástica, tendo entrado em 1998 no Mosteiro beneditino de Singeverga (Santo Tirso).
Faleceu em 9 de Junho de 1999, de traumatismo craniano, na sequência de uma queda, aparentemente inofensiva.
Alguém que o conheceu de perto disse: “Daniel Faria escreveu cada verso como se fosse o primeiro, o primeiro e o último. Deixou à humanidade versos definitivos – um clarão que a si mesmo se alimenta.”

LER A POESIA DE DANIEL FARIA

A divulgação deste enorme poeta contemporâneo é a nossa forma de celebrar o Dia Mundial da Poesia, 21 de Março. Ao darmos a ler alguns poemas da vasta produção de Daniel Faria prestamos a nossa modesta homenagem ao poeta e à sua escrita, cientes de que a Poesia é sempre, e por definição, o lugar mais nobre da linguagem humana.


*

Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar

Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão

*

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens agitados sem bússola onde repousem
(...)
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar

*

Encosto-me à morte sem amparo ou sombra
Como o grão
Abeiro-me da flor que virá e venho
À superfície do teu sonho

Como se acordasse a mão que semeia
No coração lavrado de quem faz a ceifa
Rebento no interior da morte como o trigo

Rebento no interior do trigo
E de qualquer planta que se assemelhe a ti

*

Sei bem que não mereço um dia entrar no céu
Mas nem por isso escrevo a minha casa sobre a terra

Pai
Tenho medo de morrer antes da morte
Tenho medo de morrer antes da vida