27.6.11

OS POETAS... A POESIA..

Aguarela de António Bártolo - Torres Vedras



«O que te atrai nos poetas?
Aquilo que me atrai nos poetas é a poesia. A poesia é como a água nas profundidades da terra. O poeta é semelhante ao vedor de águas, encontra a água também nos lugares mais áridos e a faz jorrar.
Mas tu falaste de alguns poetas como pessoas da maneira um pouco limitativa.
Os poetas são poetas somente na página, porque nas páginas já não estão sós. Existem eles e o seu demónio. Na vida estão sós, sem demónio, e então são homens como os outros.»
(Vida de Moravia, Ed Livros do Brasil, Lx, 1992. A partir da conversa do jornalista Alain Elkann com o escritor Alberto Moravia)

19.6.11

ALVES REDOL - Publicado no BADALADAS de 17 JUNHO 2011




NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO
ALVES REDOL, ESCRITOR DO POVO
Designação apropriada para um homem que escreveu no meio do povo e para o povo, num tempo em que se trabalhava por salários de miséria e não havia protecção social. Que os mais velhos ainda hoje recordam como “o tempo da fome”.
Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira em 1911 e viveu na carne a dureza daqueles tempos. Ainda experimentou o sonho de fazer vida em África mas logo regressou. Desiludido mas disposto a enfrentar o salazarismo que se afirmava contra as liberdades e a democracia. Homem decidido, sentiu o apelo da escrita como arma de denúncia e de libertação. Adere ao Partido Comunista e envolve-se no MUD – Movimento de Unidade Democrática. Firme, ideologicamente coerente, traça o seu caminho literário na senda do chamado neo-realismo com uma obra fundadora, fulgurante, publicada em 1939, GAIBÉUS, onde retrata o inaudito sofrimento do trabalho nos arrozais do Ribatejo, em pleno verão, pelos ranchos de camponeses vindos das Beiras.
Redol criou o seu próprio método de escrita: ia viver para o meio das gentes que retratava, ouvindo, observando, na partilha total das dificuldades. Foi assim que escreveu AVIEIROS, esses nómadas do Tejo que habitavam nos seus barcos varinos ou em barracas de madeira nas margens do grande rio. Ou UMA FENDA NA MURALHA, sobre os pescadores da Nazaré. Ou ainda o ciclo de romances sobre o Douro, em que descreve a faina duríssima nos socalcos da vinha.
Homem da borda d’água, será no cenário do latifúndio ribatejano que Alves Redol erguerá a sua obra-prima literária, BARRANCO DE CEGOS, publicada em 1961. Aí aplica todos os seus recursos para descrever a queda de um mundo aparentemente imutável e a ascensão de novos personagens num tempo de violentas mudanças.
Redol deixou uma obra que vale a pena revisitar, tanto pela realidade social que descreve como pela belíssima prosa em que se exprime.
* * *

O que resta da aldeia avieira do Patacão (Margem esquerda do Tejo, concelho de Alpiarça)

                                              
Barco avieiro no Tejo


Nos anos 60 do século XX a praia da terra onde nasci – Alpiarça – era nos areais do Tejo, junto à aldeia avieira do Patacão. Por cinco escudos alugávamos um barco a remos para uma tarde de sol e água. Não sabíamos ainda que as famílias que ali viviam eram descendentes dos pescadores da praia de Vieira de Leiria, emigrados no início do século XX de uma costa desabrigada para um rio largo, rico em sável, fataças e sabogas. Sabemos hoje que este fenómeno de migração interna deu origem a uma população com características específicas, os Avieiros, “nómadas do rio”, dispersos por aldeias na margem do Tejo e do Sado. Hoje pouco mais resta que ruínas e abandono. Por isso se constituiu há alguns anos um movimento tendente a propor a Cultura Avieira como Património Nacional. E nos dias 17 e 18 deste mês de Junho decorrerá em Santarém o 2º Congresso da Cultura Avieira, com a finalidade de sublinhar o valor turístico-cultural deste original património histórico e sociológico.
                                                                                       * * *

Retrato de Alves Redol
de Ary dos Santos
Porém se por alguém não foi ninguém
cantou e disse flor canção amigo
a si o deve. A si e mais a quem
floriu cresceu cantou lutou consigo.

Homem que vive só não vive bem
morto que morre só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo com todos ficar vivo.

Nado-vivo da morte. É isso. É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer. E dar por isso.

                                                                                    * * *
VIVER COM OS AVIEIROS
Alves Redol foi cronista do povo trabalhador, dos assalariados agrícolas e pescadores, de cuja existência sofrida jurou dar testemunho. Fiel ao seu método de trabalho, Alves Redol meteu-se a viver algumas semanas com os pescadores do Tejo numa aldeia avieira, a Palhota, donde resultou o belíssimo romance AVIEIROS. Explicou no prólogo:
«Mas voltemos à minha experiência espontânea, logo depois premeditada. Muitos chamavam recolha, talvez impropriamente, a esta busca de contacto humano; outros apoucaram o processo, impropriamente também. Na verdade, não se recolhem os materiais da vida; vivem-se. Ou inventam-se. Mas escolhem-se as vivências ou as invenções quando um escritor sabe para que vive. E como lhe importa viver.»
Quem for hoje à Palhota, lá encontrará uma lápide evocativa desta vivência de Redol, sinal de gratidão dos habitantes da aldeia para com o homem que perpetuou na escrita a memória de um duro quotidiano de luta pela sobrevivência.

Casa onde viveu Alves Redol, na aldeia avieira da Palhota (margem direita, concelho do Cartaxo)
Lápide comemorativa, dedicada a Alves Redol* * *
Trecho de "AVIEIROS"
FOLHAS DE OUTONO NO TEJO
«Ela sentara-se no banco de remar e partira antes dos outros. Quase ao fim da tarde, o Tejo pusera-se mais calmo; parecia que o saveiro navegava por cima de um vidro colorido que a proa cortava de mansinho, deixando-o em estilhaços que se recompunham com os restos do sol. (…)
Mal entraram no túnel das árvores que enchem as duas margens, apareceu um vento áspero, a sacudir tudo; até assobiava nos troncos e nos ramos. E corria tanto, e assobiava tanto, espantado, quem o espantara? que as folhas começaram a cair aos cachos, fugindo algumas, juntando-se depois, num torvelinho, indo e regressando num corropio, que Olinda Carramilo parou de remar e ficou queda no banco, meio tonta, como o Tóino, que já bebera mais de meio garrafão de vinho e ainda não parara de cantar.
E num repente, quando o vento garanhão fugiu para a Lezíria à procura das éguas, as folhas que revoluteavam como pintassilgos tontos caíram de chapuz sobre a vala da Casa Branca e deixaram tudo alagado das cores do Outono, um nadinha triste, mas tão sorrateiro, que o Tóino da Vala não se moveu no fundo do barco. Amarelas, doiradas, vermelhas, quase de fogo, ardidas e ainda ardentes, verdes, cúpricas, verde-cré, verde-montanha, verde-gaio, verde-negro, ocres, castanho-queimado, e vermelhas, acesas, fogaréus a arder, as folhas do arvoredo da vala tombaram, de repente, sobre o corpo do pescador vagabundo e vestiram-no a esmo de todas as cores que havia nesse mês.
Deslumbrada, Olinda Carramilo ergueu os olhos para aquela chuva fantástica que também lhe escorria pelos ombros e engrinaldava a cabeça.
Depois tudo se quedou num grande silêncio, como se as árvores ficassem a ver o que delas fugira com o vento. »
(in: AVIEIROS, A. Redol; Livros de Bolso Europa-América, nº 214, p. 117))

Pescadores avieiros no Tejo, anos 60 do séc. XX






15.6.11

UM PROJECTO FASCINANTE




Pegue-se numa tela de Klimt, O BEIJO, e habitêmo-la com gente de carne e osso.
Trabalho fascinante de uma turma do 12º ano na Escola Secundária Eça de Queirós, na Póvoa de Varzim.
Ver AQUI.http://asamantesdeklimt.blogspot.com/

6.6.11



Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serva para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

E ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.

Manuel António Pina

3.6.11

Poesia, Saudade da Prosa - WOOK

Título: Poesia, Saudade da Prosa - WOOK
Link: http://www.wook.pt/ficha/poesia-saudade-da-prosa/a/id/10956740

 

Manuel António Pina, Prémio Camões 2011, numa antologia pessoal.

Um poeta de primeira água, a redescobrir.

27.5.11

CAFÉ COM FILMES - Uma história de infância



Hoje era o dia de "CRIANÇAS INVISÍVEIS", coletânea de sete curtas-metragens de sete realizadores.
"Mas as crianças, senhor/ Porque lhes dás tanta dor..."


Antes houve o desafio de uma canção. Dois jovens, uma curta história e uma viola em toque elementar.
No fim a deixa, olhando para mim: "O senhor... sim, o senhor: conte-nos uma história da sua infância..."

Entupi. Mas recompus-me, com a recordação daquela história que ficou sepultada lá para trás e voltou hoje à vida, inesperadamente. Contei:

Teria cinco ou seis anos, sei que ainda não andava na escola. Gostava de remexer em gavetas, por baixo da roupa encontrava quase sempre coisas inesperadas. Naquele dia encontrei um pedaço de papel colorido, com uma textura desconhecida. Brilhante, cheio de imagens e números, pintado dos dois lados. Guardei-o no bolso, saí do quarto em bicos de pés e fui à procura de um lugar seguro para guardar aquele papelinho maravilhoso. Numa das paredes do quintal, num sítio esconso, havia um buraco no tijolo. O papelinho lá ficou, muito enrolado.

Dois ou três dias depois não percebi o rebuliço que se levantou lá em casa. Alguma coisa importante tinha desaparecido. Os adultos, numa inquietação desusada, interrogavam-se mutuamente, num crescendo de desespero. Até que alguém se lembrou de me perguntar se eu tinha visto uma nota de 500$00?
Um papelinho às cores dos dois lados?
Sim, era uma nota, era dinheiro, era muito dinheiro.

Tive de revelar o sítio do meu tesouro sem perceber onde estava a gravidade da minha maldade. Não me bateram mas ainda hoje sinto a injustiça dos ralhos violentos que se repetiram ao longo de muitos dias.

Como é que eu hoje me fui lembrar disto?

21.5.11

MANUEL ANTÓNIO PINA, PRÉMIO CAMÕES 2011- Lugar Onde nº 106


Semanário Badaladas em 20 MAIO 2011




AINDA BEM QUE HÁ PRÉMIOS LITERÁRIOS…
PARABÉNS, MANUEL ANTÓNIO PINA!


A notícia apanhou muita gente desprevenida: Manuel António Pina (MAP) foi distinguido com o prémio Camões 2011, o mais alto galardão literário da Língua Portuguesa, instituído em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil e que se aplica a autores do espaço da lusofonia pelo conjunto da sua obra. Se pensarmos que, dos portugueses já premiados, fazem parte Miguel Torga, Virgílio Ferreira e José Saramago, entre outros, a atribuição deste ano é surpreendente. Nem a dimensão da obra nem a qualidade dela parecem do mesmo plano desses consagrados autores. Contudo, o júri, reunido no Rio de Janeiro, foi unânime e esse facto desafia o nosso preconceito.

Olhemos então esta obra: tem início em 1973 e abrange vários géneros: infanto-juvenil, poesia, crónica, teatro e ensaio, num total de 38 títulos; e foi reconhecida por 9 prémios, entre os quais o prestigiado “Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores”.

E se nos aproximarmos mais daremos conta do rigor e da originalidade de uma voz que ressoa nas suas páginas, interrogando o enigma do tempo que passa e o sentido essencial da existência humana. Eduardo Prado Coelho escreveu: Seja nos seus poemas, seja nos textos que nos oferece no âmbito do que se pode chamar «literatura para as crianças», seja ainda no teatro, Manuel António Pina é certamente um dos nomes fun­damentais da actual literatura portuguesa.” (ver: A Poesia Ensina a Cair, 2010, p.87)

Procuremos os seus livros, leiamos a sua poesia. Manuel António Pina não nos desilude. Por mais redutores e injustamente selectivos que sejam, ainda bem que há prémios literários…


                                                                                        ***

OBRA

Manuel António Pina nasceu no Sabugal (Guarda) em 1943. Licenciado em Direito. Poeta, autor de livros infanto-juvenis, tradutor, cronista, dramaturgo e jornalista profissional com passagem pelos títulos mais prestigiados da imprensa portuguesa, e também pela rádio e televisão. Foi professor da Escola Superior de Jornalismo do Porto e membro do Conselho de Imprensa.
38 títulos publicados e 9 prémios literários. De índole discreta, a sua obra tem-se afirmado pela qualidade e originalidade, sem concessões ao populismo fácil.

                                                                               ***

CITAÇÕES

«O escritor Manuel António Pina ganhou o Prémio Camões. E, de repente, eis-me reconciliado com a justiça deste tempo. Poeta enorme, escritor incomparável, camarada indomável, jornalista e cronista de estalo, o Pina tem a justa recompensa em vida por um percurso original, digno e desafiador. Brindo a isto numa altura em que Portugal, pelos vistos, apenas se avalia em dívida ou em Dublin.» (Miguel Carvalho, jornalista, in http://adevidacomedia.wordpress.com/ em 12 Maio 2011)
«Independentemente de à poesia pouco mais ser dado dizer do que o silêncio do mundo (silêncio que é, na língua, abertura ao sentido e sentido aberto), ela pode constituir uma espécie de epifania sem revelação daquilo que talvez saibamos sem sabermos que o sabemos.”(M. A. Pina, entrevista à revista brasileira Agulha, 2003)
                                                                                    ***



POEMAS DE MANUEL ANTÓNIO PINA

ARTE POÉTICA

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.

Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?

                                *
LUZ

Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,

e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.

*

COMPLETAS

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


                                                                                     ***

SENTIDO MISTERIOSO

«Encheu os pulmões de ar fresco e pensou: «Deve ser isto a alegria. Que estranho sentimento! De repente, fiquei de bem comigo, como se estivesse zangado e tivesse feito as pazes comigo.» E recordou-se então de quando era criança, e a mãe, à noite, antes de adormecer, lhe aconchegava os lençóis e se debru­çava sobre ele para lhe dar um beijo. «Há quanto tempo não me lembrava de minha mãe!», murmu­rou. E, sem saber porquê (que bem que se sentia por não saber finalmente qualquer coisa!), tudo à sua volta, o mundo, a vida, ele próprio, lhe pareceu então fazer sentido, um sentido claro e misterioso que ele, que sabia tudo, não conseguia entender, mas sentia dentro de si como se tivesse encontrado uma coisa que há muito perdera e de que já se esque­cera.» (M. A. Pina, HISTÓRIA DO SÁBIO FECHADO NA SUA BIBLIOTECA, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009)





17.5.11

O PAÍS PERDIDO


Venerando de Matos e a sua evocação do país perdido da infância.
A ler AQUI.

6.5.11

FELICIDADE



«Procuremos, pois, manter-nos de boa saúde, não ter quaisquer preconceitos, ter paixões, pô-las ao serviço da nossa felicidade, substituir as nossas paixões por gostos, conservar preciosamente as nossas ilusões, ser virtuo­sos, nunca nos arrependermos, afastar de nós as ideias tristes e nunca permitir ao nosso coração conservar uma centelha de gosto por alguém cujo gosto diminua e que deixe de amar-nos. Por pouco que envelheçamos, um dia seremos forçados a abrir mão do amor, e esse dia deve ser aquele em que o amor já não nos faça felizes. Pensemos, enfim, em cultivar o gosto pelo estudo, esse gosto que faz depender a felicidade apenas de nós pró­prios. Ponhamo-nos ao abrigo da ambição e, sobretudo, cuidemos bem de saber o que queremos ser; decidamo-nos sobre o caminho que queremos seguir para passar a nossa vida e procuremos semeá-lo de flores.»
(in: Discurso sobre a felicidade, Madame du Châtelet (1706-1749))

4.5.11

25.4.11

José Afonso "Maria"



Uma balada pouco conhecida, de 1964, dedicada a Zélia, sua segunda mulher.
Simplicidade e originalidade, bases do seu génio criador.
Uma canção muito bonita!

LUGAR ONDE Nº 105 - Badaladas, 22 abril 2011


LANÇAMENTO PÚBLICO EM 9 DE MAIO
TORRES VEDRAS ANTIGA E MODERNA,
de Júlio Vieira

A Associação do Património de Torres Vedras teve a iniciativa, a Livrododia associou-se, a Câmara Municipal apoiou e a obra aí está, em segunda edição. A primeira, de 1926, estava há muito esgotada. Livro imprescindível para quem quiser conhecer a História torriense.
Mas uma obra com 85 anos não estará desactualizada? A resposta é clara: não! Apesar do extraordinário incremento dos estudos recentes que vieram esclarecer e completar aspectos particulares do conhecimento do nosso passado, o livro de Júlio Vieira mantém uma indiscutível actualidade. Debruçando-se sobre a História de Torres Vedras, a cidade e o concelho, continua a ser de consulta imprescindível. Mais ainda: não perdeu a frescura da escrita. O estilo elegante, rigoroso e sóbrio garante-lhe uma surpreendente proximidade com o leitor de hoje.
É sabido que outra obra básica sobre a História torriense é a do P. Agostinho Madeira Torres, publicada em 1819, com as anotações posteriores dos responsáveis da 2ª edição em 1861, que a enriqueceram mas tornaram de difícil consulta. Está apenas disponível hoje numa edição de 1988, fac-similada, de fraca qualidade gráfica.
Júlio Vieira incorporou essa informação e ampliou-a por investigação própria, apoiando-se em fontes documentais que cita abundantemente, num trabalho de grande probidade intelectual. O resultado foi esta obra publicada em 1926. Sai agora, finalmente, a segunda edição, que respeita integralmente o original mas enriquecida com anotações dos historiadores locais nossos contemporâneos, Carlos Guardado da Silva e Venerando Aspra de Matos, e com utilíssimos índices onomástico, toponímico e didascálico.
* * *

Foto: Biblioteca Municipal, Espólio de Adão de Carvalho


Esta foto ajuda-nos a recuar no tempo. É um postal dos anos 20 do século passado. À direita, a rua Dias Neiva – é agora a 9 de Abril. Ao centro, o edifício de dois pisos, onde está hoje o prédio de três andares da Havaneza, construído nos anos 30/40.
Olhando à esquerda, vemos o edifício pertencente à Misericórdia, que ainda hoje existe. Mas a loja – actualmente o “Luís Pereira” – era a Sapataria Vieira, pertencente a Júlio Vieira, de quem falamos a propósito da História torriense. Os vultos em que se fixa agora o nosso olhar eram seus contemporâneos.
Homem de prodigiosa actividade! Viveu apenas 49 anos mas deixou marcas indeléveis na terra que tanto amou: além de comerciante com sucesso na área do calçado, foi proprietário e redactor de jornais locais, dirigente político republicano, activista sindical e associativo, impulsionador de iniciativas de desenvolvimento regional, publicista e historiador.
O nosso olhar perde-se nesta contemplação e encontra na História, escrita por homens como Júlio Vieira, a ponte que vem do passado para ligar os de hoje aos que já aqui viveram e morreram.

                                                                                   * * *

O QUE DIZ A ASSOCIAÇÃO DO PATRIMÓNIO DE TORRES VEDRAS

Um dos objectivos da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras é contribuir para um maior interesse de todos os torrienses pela sua história. Ao longo de 32 anos de existência (1979-2011) esta tem sido uma das suas linhas de orientação, expressa nas inúmeras intervenções e actividades que desenvolve, quer nas páginas da imprensa regional quer nos debates públicos ou nos pareceres sobre projectos autárquicos.
A iniciativa de reeditar o livro de Júlio Vieira é mais um contributo da ADDPCTV para o conhecimento da nossa história local.
A Associação do Património de Torres Vedras, através desta reedição, presta público reconhecimento ao ilustre cidadão torriense que foi Júlio Vieira.

                                                                                   * * *

HOMENAGEM
A Biblioteca Municipal de Torres Vedras, inaugurada a 19 de Fevereiro de 1934, foi criada por proposta de França Borges, então edil da Comissão Executiva Municipal, após a aquisição, por parte da Câmara de Torres Vedras, em 1931, da biblioteca particular do escritor torriense Júlio Vieira, falecido em 1930, cujo espólio faz parte do seu fundo documental. Este é um facto pouco conhecido, a merecer destaque. Pela nossa parte, e dando continuidade a uma ideia de alguém que muito consideramos, deixamos aqui uma sugestão aos nossos edis municipais: prestar pública homenagem a Júlio Vieira atribuindo o seu nome à Biblioteca Municipal de Torres Vedras.

                                                                                * * *

…ESTA TERRA
«E pois desta terra, por tantos títulos notável, e à qual me pren¬dem os laços de nascimento e de família, que entendi dever fazer a presente narração histórica e descritiva, baseada nos elementos de estudo e observação que tenho conseguido reunir.
Se algum benefício resultar do meu sincero esforço, convencido ficarei da utilidade desta obra.
Suficientemente recompensado me encontro já, pela satisfação do que julgo um dever cumprido, e pela lembrança também do exem¬plo que deixo a meus filhos, demonstrando que, sempre que honre-mos por qualquer forma ao nosso alcance, a terra que nos foi berço, honraremos nossa família e dignificar-nos-emos a nós próprios.»
(Júlio Vieira, Preâmbulo de TORRES VEDRAS ANTIGA E MODERNA.)

                                                                      * * *

CONVITE A TODA A POPULAÇÃO
O lançamento da segunda edição do livro de Júlio Vieira, TORRES VERDRAS ANTIGA E MODERNA, terá lugar em SESSÃO PÚBLICA nos Paços do Concelho, no próximo dia 9 de Maio, pelas 18 horas. A apresentação será feita pelo nosso conterrâneo e ilustre historiador torriense, Bispo do Porto, D. Manuel Clemente.

9.4.11

ESTRANHA ABELHA



«Endiabrada Bela! Estranha abelha que dos mais doces cálices só sabe extrair fel! «Para que quer esta criatura a inteligência, se não há meio de ser feliz?», dizia, dantes, meu pai, indignado. Ó ingé­nuo pai de 60 anos, quando é que tu viste servir a inteligência para tornar feliz alguém? Quando, ó ingénuo-pai de 60 anos?... Só se pode ser feliz simplificando, simplificando sempre, arrancando, dimi­nuindo, esmagando, reduzindo; e a inteligência cria em volta de nós um mar imenso de ondas, de espumas, de destroços, no meio do qual somos depois o náu­frago que se revolta, que se debate em vão, que não quer desaparecer sem estreitar de encontro ao peito qualquer coisa que anda longe: raio de sol em reflexo de estrelas. E todos os astros moram lá no alto, ó ingénuo pai de 60 anos!»

30.3.11

MATARAM A TUNA!

Em ano de centenário do nascimento de Manuel da Fonseca, recordo o poema que foi minha porta de entrada na obra do escritor.
Continuo a lê-lo com o mesmo deslumbramento do início. A frescura da evocação, a capacidade sugestiva, a reconstrução cinematográfica dos ambientes. Tudo numa linguagem surpreendentemente simples, sem atavios. Absolutamente genial!






MATARAM A TUNA

Nos domingos antigos do bibe e pião
saía a Tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim.

Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à vila
tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve
o burro da nora da Quinta Nova
espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.


Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor ...
(só a Marianita se enganava
ai só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar ... )
que eu sabia de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almadanim!

Entanto as senhoras não gostavam
faziam troça dizendo coisas
e os senhores também não gostavam
faziam má cara para a Tuna:
- que era indecente aquela marcha parecia
até coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha Almadanim.

Mas Zé Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
enchendo a rua enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
raspavam notas violentas
rasgava a Tuna o quebranto da vila
tangendo nas violas e bandolins
a heróica marcha Almadanim!

Meus companheiros antigos do bibe e pião
agora empregados no comércio
desenrolando fazenda medindo chita
agora sentados
dobrados nas secretárias do comércio
cabeças pendidas jovens-velhinhos
escrevendo no Deve e Haver somando somando
na vila quieta
sem vida
sem nada
mais que o sossego das falas brandas ...
- onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha Almadanim?!

Ó meus amigos desgraçados
se a vida é curta e a morte infinita despertemos e vamos
eia!
vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!

25.3.11

LUGAR ONDE Nº 104 - Badaladas, 18 março 2011

ESCRITORES ESQUECIDOS


TRINDADE COELHO E OS SEUS AMORES.
Há muito que não aparece nas selectas de Língua Portuguesa. No entanto escreveu páginas de antologia sobre a vida campestre dos finais do século XIX, descrições coloridas de lugares e costumes que permanecem no nosso imaginário - filhos e netos de camponeses que todos somos…

O século XIX português é o lugar de todas as mudanças sociais e políticas que explicam o nosso modo de ser actual. A incipiente industrialização com o início do desenvolvimento das áreas urbanas de Lisboa e Porto determinou o início da decadência rural, numa sucessão lenta mas inexorável de transformações que se projectaram até aos nossos dias. Na balança de ganhos e perdas, a crueza da vida urbana, em contraste com os antigos modos de vida ligados à Natureza, suscitou uma visão idílica da vida campesina que teve grande expressão literária nos romances de tema campestre como os de Júlio Dinis, herdeiros de alguns textos românticos de Garrett e Herculano, ou nas abordagens mais complexas de Eça de Queiroz ou de Camilo C. Branco.
Trindade Coelho, não sendo um escritor de carreira, foi talvez o maior expoente do que ficou conhecido como “conto rústico”, pequena peça literária em que ele aborda a simplicidade e a autenticidade da vida no campo. O conjunto de contos que publicou em 1891 com o título de Os Meus Amores – Contos e Baladas é, ainda hoje, de leitura extremamente atractiva, pelo pitoresco, a capacidade descritiva e a evocação de costumes, tradições e modos de falar das aldeias transmontanas. Camilo Castelo Branco apreciava-o e fez questão de o manifestar publicamente.
Mas a obra deste escritor não se quedou no conto rústico. Para além das memórias da sua vida de estudante de Direito em Coimbra, insertas no engraçadíssimo livro In Illo Tempore, bem como de alguns tratados de Direito que fizeram escola, Trindade Coelho foi um republicano convicto e empenhado, ainda em tempo de Monarquia, com a preocupação pela educação cívica do povo e a erradicação do analfabetismo, o que deu origem a obras como Manual Político do Cidadão Português, o ABC do Povo e o Livro de Leitura.
Na colecção Livros de Bolso Europa-América podem os nossos leitores encontrar, a preço muito acessível, os livros Os Meus Amores – Contos e Baladas (nº 244) e In Illo Tempore (nº 287).

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BIOGRAFIA BREVE
José Francisco Trindade Coelho (1861, Mogadouro – 1908, Lisboa). Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, de cuja vivência deixa testemunho impressivo no livro In Illo Tempore. Actividade literária em jornais e revistas. Delegado do procurador régio em diversas localidades, fixa-se depois em Lisboa, já como juiz. Actividade intensa no plano jurídico e na formação cívica e pedagógica. A saudade da vida simples da terra natal leva-o à escrita de Os Meus Amores, obra-prima do conto rústico que lhe garante lugar de relevo na nossa Literatura.
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HISTÓRIAS DE ESTUDANTES


UM HOMEM NÃO É DE PAU

Um dos livros mais conhecidos de Trindade Coelho tem título em Latim: In Illo Tempore, que significa “Naquele Tempo”. É um conjunto de narrativas muito engraçadas que documentam como era a vida dos estudantes em Coimbra no final do século XIX. Dessas memórias ainda hoje se alimenta uma certa mitologia coimbrã, que associa a boémia e a irreverência à vida académica. Trindade Coelho deixou neste livro as recordações do tempo em que estudou na Lusa Atenas, referindo aspectos característicos da época, figuras típicas, poemas cómicos e, até, anedotas que fizeram história. Como esta, que faz parte do capítulo “Um homem não é de pau”:

O pai de certo estudante, espantado com os extraordinários que lhe fazia o filho, escreveu para Coimbra a pedir-lhe contas! Queria o rol da despesa todos os meses: «Ao menos, que demónio!, p’ra saber em que se vai embora tanto dinheiro!»
Obediente, prega-lhe o filho a conta seguinte, p’ra começar:

Quarto e comida..................................................... 18$000
Roupa lavada.........................................................  1$800
Cosida e engomada.................................................. 1$200
Sapateiro e alfaiate.................................................. 7$000
Papel, estampilhas, etc............................................. 2$000
Barba e cabelo........................................................   $500
Um homem não é de pau.........................................90$0OO

Soma réis..................................................………      120$500


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Trindade Coelho e Camilo C Branco


Trindade Coelho nascera remediado e o andar da vida fizera dele menos de remediado; no entanto, formara-se em direito, à custa de suar estopinhas e de trabalhar, já casado e com um filho.
Publicara artigos nos jornais e escrevera dois dos contos que enriquecem a jóia que é Os Meus Amores: O Sultão e Idílio Rústico.
Concorre, em 1886, ao lugar de Delegado do Procurador Régio.
E recebe uma carta de alguém que não conhece e é o maior romancista português, como ele  conta:
“Um dia de manhã recebo uma carta, de Camilo Castelo Branco, o grande escritor, que eu nunca tinha visto, nem ele a mim: dizia-me que vira nos jornais que eu fora a concurso e que escrevera ao ministro pedindo-lhe que me despachasse!
Caí das nuvens! Mas daí a poucos dias estava efectivamente despachado “delegado do Procurar Régio” do Sabugal, e eu ia ao Minho visitar o grande escritor, vê-lo pela primeira vez (primeira e última!) e beijar-lhe as mãos pelo seu tão grande favor”. (in: http://sobreorisco.blogspot.com/2011/03/camilo-e-trindade-coelho.html, acedido em 14 /03/2011)

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A COLHEITA

«Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras, sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente, monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam, submissa...
Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da farta colheita do Tomé da Eira.
— Colheita rica, sim senhor! —vinham dizer-lhe os vizinhos.— A primeira da aldeia!
— Qual?! Isso sim! Vão vocês ver a tulha! Muita palha é que vocês hão-de dizer, muita palha e pouco grão...
E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens, repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas.» (Extracto do conto O SULTÃO, de Trindade Coelho)