13.7.12
LER, uma boa opção...
Já chegou há dias, este número que é de Julho e Agosto.
Como sempre, tem coisas de grande interesse, a começar pelas chamadas da capa.
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Revista LER
11.7.12
Peter Gabriel - Biko (HQ)
Para o meu filho João que me recordou hoje este canto inesquecível à Liberdade e à Justiça.
5.7.12
Família Relvas regressa aos Patudos
Uma Casa a que regresso com frequência. Agora renovada. Uma visita que vale a pena. Em Alpiarça.
MORREU O HOMEM DOS LIVROS
Na revista LER de JUlho/Agosto 2012 vem esta nota de reportagem, da autoria de Sara F. Costa, sobre a Livraria Esperança, no Funchal, uma das maiores e mais antigas de Portugal e o seu proprietário, Jorge Figueira de Sousa, um homem de muitas memórias e experiências ligadas à difusão dos livros.
Infelizmente este homem acaba de partir, como vi nesta notícia do Público:
http://www.publico.pt/Cultura/morreu-o-livreiro-jorge-figueira-de-sousa-da-livraria-esperanca-1552984
Uma referência muito sentida pode ser vista aqui, juntamente com os comentários dos leitores:
http://livrariapodoslivros.blogspot.pt/2012/07/um-livreiro-e-um-homem.html
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Livraria Esperança
23.6.12
JÚLIO DINIS, UM CITADINO ENAMORADO DO CAMPO - BADALADAS _ 22 Junho 2012
Escritor oitocentista ( 1839 / 1871 ), foi nas suas páginas que
se sedimentou o mito da ruralidade feliz. Pegando na ideia já desenvolvida por
Herculano no Pároco da Aldeia e que
Eça levará mais longe em A Cidade e as
Serras, Júlio Dinis valorizou intensamente a vida no campo, onde encontrava
a simplicidade e as virtudes que a cidade já não tinha e que constituíram o
cerne da sua escrita. Com ele nasce verdadeiramente o romance campesino – que
Camilo C. Branco e Herculano saudaram - ao mesmo tempo que se despede o
romantismo já gasto, em favor do olhar realista que alimentará a nossa prosa
até ao final do séc. XIX. As Pupilas do
Senhor Reitor e A Morgadinha dos
Canaviais são os momentos altos dessa escrita que encantou os leitores dos
folhetins de jornal em que primeiro foram publicados, antes de passarem a
livro.
Se nos dispusermos a enfrentar a prosa intensamente
descritiva de Júlio Dinis, ainda hoje lemos essas páginas com o encantamento
dos leitores de antanho. Nelas encontraremos os ambientes e as paisagens, os
costumes e os tipos humanos, que povoavam as nossas aldeias até há bem pouco
tempo.
Referência especial à Morgadinha
dos Canaviais: já foi livro de leitura obrigatória no ensino oficial, hoje
parece esquecido. Todavia é o primeiro romance de matriz sociológica da nossa
Literatura. Nele se retratam de forma brilhante as mudanças sociais e políticas
do século XIX português com o embate entre a tradição imobilista e as ideias de
progresso civilizacional: as novas estradas e consequente luta contra as
expropriações; os enterramentos fora das igrejas que motivaram fortíssimas
revoltas populares; o sistema representativo com os jogos eleitorais e o
caciquismo local; a idealização e dignificação do papel da mulher na família;
enfim, a importância do Ensino Público. Um livro de leitura indispensável e
gratificante, ainda hoje.
* * *
COMO FOI
POSSÍVEL?
A
vida de Júlio Dinis foi um prodígio de realização. Repare-se: morre com 32
anos, vítima de tuberculose, mal que vinha dizimando a família. Aos 19 anos começou
a escrita de Uma Família Inglesa (“Uma
obra-prima, pela observação de ambientes, contornos e tipos humanos” – História
da Literatura Portuguesa, de A. J. Saraiva e O. Lopes).
Escreveu
peças de teatro para grupos de amadores em que foi ator, o que lhe deu o
domínio da técnica do diálogo, bem patente nos romances posteriores (Teatro Inédito,
3 vols., 1946-1947). Exerceu crítica literária (Inéditos e Dispersos, 2 vols. 1910). Cultivou a poesia (Poesias, 1873-1874), o conto (Serões da Província, 1870) e o romance (As Pupilas do Sr. Reitor, 1867; A Morgadinha dos Canaviais, 1868; Uma Família Inglesa. 1868; Os Fidalgos da Casa Mourisca, 1872).
Contudo,
esta intensa atividade literária foi apenas uma parte da sua vida, oculta sob o
pseudónimo de Júlio Dinis. De facto, poucos contemporâneos sabiam que o médico
e professor da Escola Médica do Porto, Dr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho, era
o aclamado autor daqueles livros. Sobre ser um grande criador literário e
clínico competente, ele foi um homem modesto e simples, trabalhador persistente,
pouco dado a mundanidades. Só isso explica a obra prodigiosa que nos legou.
* * *
Aguarela de Roque Gameiro
JOÃO SEMANA
Júlio Dinis
criou tipos humanos inesquecíveis, caso de João Semana, médico de província,
abnegado e altruísta, que acorria aos doentes, montado na sua mula.
Vêmo-lo
aqui, numa das muitas aguarelas de Roque Gameiro, um admirador de Júlio Dinis,
cuja obra estudou em profundidade para poder recriar fielmente os ambientes
descritos nos romances campesinos do grande escritor.
* * *
O MAU JULGADOR POR SI SE JULGA…
Júlio Dinis era um homem bom. Isso reflete-se na sua
escrita, marcada por intuitos educativos e formativos, na linha do humanismo
liberal de Alexandre Herculano. São frequentes, nos seus romances, pedaços de
prosa reflexiva, defensora da cidadania interventiva e da moralidade na vida
pública:
«É uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma fé que se tem
no desinteresse dos outros!
Não há explicação mais difícil de ser recebida do que a que
se fundamenta n'um sentimento nobre de abnegação ou de generosidade.
É preciso que duvidemos muito de nós mesmos, para assim
desconfiarmos do próximo. Porque a final o que é verdade é que a mais exata e
infalível ciência do coração humano só se adquire pelo estudo do próprio
coração: esse é o único que nos está bem patente. É por isso que as melhores
almas são de ordinário as mais crentes.
Um homem, a quem a desconfiança tenazmente escuda contra
todas as aparências de virtude, ainda as mais insinuantes, tem já tão inquinado
o coração como supõe o dos outros.» (A
Morgadinha dos Canaviais, cap. XXXI)
15.6.12
JACARANDÁS DE LISBOA
Tirei esta foto há dias, na Rua do Século. Lá estão o jacarandá e a buganvília, em flor.
A primeira vez que ouvi falar em jacarandás foi na peça "As árvores morrem de pé".
E esta recordação traz outras:
«"As Árvores Morrem de Pé", uma das peças de teatro
que marcaram para sempre os espectadores e as noites de televisão.
Gravada no Teatro Avenida, em 1966, com público presente, esta foi a última peça com que Palmira Bastos apareceu nos ecrãs de televisão, mas foi igualmente uma da suas melhores actuações de sempre. Quanto ao tratamento televisivo, todo ele esteve a cargo de Fernando Frazão.
"Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores". Esta frase, uma das mais célebres da televisão portuguesa, pertence à peça "As Árvores Morrem de Pé" e é dita quase no final da peça pela fabulosa actriz Palmira Bastos, que faz de protagonista da peça.»
Gravada no Teatro Avenida, em 1966, com público presente, esta foi a última peça com que Palmira Bastos apareceu nos ecrãs de televisão, mas foi igualmente uma da suas melhores actuações de sempre. Quanto ao tratamento televisivo, todo ele esteve a cargo de Fernando Frazão.
"Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores". Esta frase, uma das mais célebres da televisão portuguesa, pertence à peça "As Árvores Morrem de Pé" e é dita quase no final da peça pela fabulosa actriz Palmira Bastos, que faz de protagonista da peça.»
A peça é de Alexandre Casona, poeta e dramaturgo espanhol ( 1903 - 1965)
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10.6.12
PARAÍSO
Mata do Convento do Varatojo, Torres Vedras
Foto(C) J Moedas Duarte, Junho 2012
*
Nos arredores da luz, procuro um bosque
de sombra. Abrigo-me sob uma cúpula
de folhas, desenhadas pelos lápis do
sol; e sigo as suas nervuras de ócio
até encontrar um ritmo de estilhaços
de silêncio nos vitrais do horizonte.
Nenhum muro me impede a passagem;
nenhuma cortina de pálpebras me esconde
a paisagem. E um verso atravessa
o céu, quebrando o espelho da estrofe;
reflexos multiplicam o puro azul,
poço aéreo para onde lanço a pedra
branca do início - e na sua vertigem,
uma dança de palavras ébrias como pétalas.
Nuno Júdice, O BREVE SENTIMENTO DO ETERNO
Edições Nelson de Matos, Lisboa, 2008
31.5.12
PRÉMIO CAMÕES 2012
Repito o que já aqui tenho escrito: ainda bem que há prémios!
Chamam a atenção para autores que nos passam despercebidos no meio da ganga de tralha que diariamente desagua nas livrarias.
Digo sem rebuço: não conhecia este autor e fiquei com curiosidade, naturalmente.
PRÉMIO
CAMÕES 2012
Dalton
Trevisan foi distinguido com o Prémio Camões, no valor de cem mil euros,
anunciou hoje em Lisboa o secretário de Estado da Cultura, Francisco José
Viegas.
A atribuição do Prémio ao autor de "O
Vampiro de Curitiba" foi feita por unanimidade.
O júri destaca a obra sem concessões à vida
social do escritor, que se distinguiu, em particular, na arte do conto.
"Vozes do Retrato - Quinze Histórias de
Mentiras e Verdades" (1998), "O Maníaco do Olho Verde" (2008),
"Violetas e Pavões" (2009), "Desgracida" (2010) e "O
Anão e a Ninfeta" (2011) são algumas das suas últimas obras.
"Cemitério de Elefantes" foi uma
das primeiras obras do escritor editadas em Portugal, pela Relógio d'Água, na
década de 1980.
O Prémio Camões foi instituído em 1988 pelos
Governos de Portugal e do Brasil e, segundo o texto do protocolo constituinte,
consagra anualmente "um autor de língua portuguesa que, pelo valor
intrínseco da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património
literário e cultural da língua comum".
O júri desta 24.ª edição do Prémio é formado
por Alcir Pécora, da Universidade de Campinas, no Brasil, Rosa Martelo, da
Faculdade de Letras do Porto, Abel Barros Baptista, da Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas de Lisboa, a poetisa angolana Ana Paula Tavares, o escritor
moçambicano João Paulo Borges Coelho, e o crítico, ensaísta e escritor
brasileiro Silviano Santiago.
Ana Paula Tavares e Rosa Martelo fizeram
também parte do júri do ano passado que distinguiu o poeta Manuel António Pina,
o décimo português que recebeu o galardão.
O escritor Miguel Torga foi o primeiro
galardoado, em 1989. Desde então foram já distinguidas 23 personalidades e
apenas uma, o escritor angolano José Luandino Vieira recusou o Prémio, em 2006.
Na lista de distinguidos por país, a
Portugal com dez distinguidos, segue-se o Brasil com nove personalidades, entre
elas, Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles e Rubem Fonseca.
Da lista de premiados constam ainda o poeta
moçambicano José Craveirinha distinguido em 1993, o escritor angolano Pepetela,
em 1997, e o cabo-verdiano Arménio Vieira, em 2009.
O júri reúne e anuncia o distinguido,
intercaladamente, em Portugal e no Brasil. Era esperada a entrega do Prémio a
um autor brasileiro, ou a um autor de um país africano de língua portuguesa, depois
de o poeta português Manuel António Pina ter sido distinguido em 2011.
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Dalton Trevisan,
Prémio Camões 2012
27.5.12
EDUARDO LOURENÇO - O pensador afável (BADALADAS, maio 2012)
“O grande intérprete da sociedade portuguesa”
EDUARDO LOURENÇO, O PENSADOR AFÁVEL
Nos anos 60 houve um
livro que nos abriu horizontes inesperados: Mitologias, de Roland
Barthes. Lembro-me bem do fascínio que me provocou, a mim e a tantos cuja
formação se fez na escola de pensamento francês. Abalo semelhante só vim a
tê-lo, anos mais tarde, quando descobri Eduardo Lourenço.
Vive em França há mais de 50 anos, onde desenvolve atividade
docente universitária mas detesta que o considerem estrangeirado. É por estar lá fora que se sente muito mais cá dentro,
num desses paradoxos que são marca da sua escrita ensaística. É a distância,
que não significa afastamento, que lhe permite a análise profunda, a visão
inteligente, instrumentos de observação lúcida mas sempre carregada de afetos.
Leitor voraz e atento, observador arguto das Artes, os seus
inúmeros ensaios convidam-nos a uma apaixonante viagem pela nossa Cultura
contemporânea. Fiel a um apurado e exigente sentido cívico, situando-se no
campo das esquerdas, tem sido um incansável analista dos fenómenos políticos e
sociais que aborda com argúcia e lucidez.
Mas Eduardo Lourenço não se arvora em juiz da pátria, em
profeta de mensagens salvíficas, como vimos fazer a outros. Filósofo de
formação, leva a sério a velha mensagem do templo grego - “conhece-te a ti
mesmo” - e é nessa linha que ele nos lê,
nos olha, nos entende. E no final de cada um dos seus textos é como se
dissesse: eu sou um de vós, sei isto porque sou isto também.
Tal como no livro de Barthes, encontrámos em Eduardo
Lourenço o sentido crítico, a análise fulgurante e a reflexão iluminadora sobre
os nossos desgastados quotidianos.
JMD
* * * * *
Biografia
EDUARDO LOURENÇO (DE FARIA) nasceu a 23 de Maio de 1923, em S. Pedro de Rio Seco, concelho de Almeida, distrito da Guarda. É o filho mais velho (de sete) de Abílio de Faria, oficial do Exército, e de Maria de Jesus Lourenço. Frequenta a Escola Primária na sua terra natal. Depois ingressa no Liceu da Guarda e termina os seus estudos secundários no Colégio Militar em Lisboa. Frequenta o Curso de Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra onde conclui a Licenciatura no dia 23 de Julho de 1946, com uma Dissertação com o título O Sentido da Dialéctica no Idealismo Absoluto. Primeira parte.
Publica, em edição de autor, o seu primeiro livro Heterodoxia I em Novembro de 1949. Casa com Annie Salomon em 1954. Em 1966, nasce o seu filho adoptivo, Gil. Ao seu livro Pessoa Revisitado – Leitura Estruturante do Drama em Gente é atribuído o Prémio Casa da Imprensa (1974). Em 10 de Junho de 1981, é condecorado com a Ordem de Sant’Iago d’Espada. Pelo seu livro Poesia e Metafísica recebe, no ano de 1984, o Prémio de Ensaio Jacinto Prado Coelho. Dois anos mais tarde, é distinguido com o Prémio Nacional da Crítica graças a Fernando, Rei da nossa Baviera. Por ocasião da publicação da sua obra Nós e a Europa – ou as duas razões, é galardoado com o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon, que distingue o conjunto da sua obra. Dirige, a partir do Inverno de 1988, a revista Finisterra - Revista de Reflexão e Crítica. É nomeado Adido Cultural junto da Embaixada de Portugal em Roma. É condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique (Grande Oficial). Recebe, no dia 1 de Julho de 1992, o Prémio António Sérgio. Participa no Parlamento Internacional de Escritores que decorre entre 28 e 30 de Setembro de 1994 em Lisboa. Pela sua obra O Canto do Signo recebeu em 1995 o Prémio D. Dinis de Ensaio.Nos últimos anos, Eduardo Lourenço recebeu inúmeras distinções, entre as quais se destacam: Prémio Camões (1996), Officier de l’Ordre de Mérite pelo Governo francês (1996), Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres pelo Governo francês (2000), Prémio Vergílio Ferreira da Universidade de Évora (2001), Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra (2001), Cavaleiro da Legião de Honra (2002), Prémio da Latinidade (2003), Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (2003), Prémio Extremadura a la Creación (2006), Medalha de Mérito Cultural pelo Governo português (2008), Medalha de Ouro da Cidade da Guarda (2008) e Encomienda de Numero de la Orden del Mérito Civil pelo Rei de Espanha (2009).
Eduardo Lourenço é ainda Doutor Honoris Causa pelas Universidades do Rio de Janeiro (1995), Universidade de Coimbra (1996), Universidade Nova de Lisboa (1998) e Universidade de Bolonha (2006). Desde 2002 exerce as funções de administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.
Em Dezembro de
2011, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa.
http://www.eduardolourenco.uevora.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=51&Itemid=57&lang=pt
* * * *
Eduardo Lourenço vence Prémio Pessoa 2011
Eduardo
Lourenço é o 25.º distinguido com o Prémio Pessoa. O anúncio foi feito no
Palácio de Seteais em Sintra por Francisco Pinto Balsemão, Presidente do júri,
constituído por Fernando Faria de Oliveira, António Barreto, Clara Ferreira
Alves, Diogo Lucena, João Lobo Antunes, José Luís Porfírio, Maria de Sousa,
Mário Soares, Miguel Veiga e Rui Magalhães Baião.
"Num
momento crítico da História e da sociedade portuguesa, torna-se imperioso e
urgente prestar reconhecimento ao exemplo de uma personalidade intelectual,
cultural, ética e cívica que marcou o século XX português", escreveu o
júri em comunicado sobre a escolha de Eduardo Lourenço, homenageando "a
generosidade e a modéstia desta sabedoria, que tendo deixado uma marca
universal nos Estudos Portugueses e nos Estudos Pessoanos, nunca desdenhou a
heterodoxia nem as grandes questões do nosso tempo e da nossa identidade".
Para
o júri, do qual Eduardo Lourenço foi membro até 1993, este prémio pretende
prestigiar o filósofo e a sua intervenção na sociedade, "ao longo de
décadas de dedicação, labor e curiosidade intelectual, que o levaram à
constituição de uma obra filosófica, ensaística e literária sem paralelo".
* * * * * *
PRÉMIOS LITERÁRIOS ?
«Não acho que os prémios tornem alguém melhor ou pior, mas
regozijo-me quando são justos. A atribuição do Prémio Pessoa a Eduardo Lourenço
não o faz maior do que já é, mas a publicidade que envolve atrairá mais gente à
sua magnífica obra. Os verdadeiros vencedores do Prémio Pessoa são todos os
curiosos que através do prémio tomarão pela primeira vez contacto com a obra
maior daquele que é um dos pouquíssimos intelectuais a pensar Portugal em
profundidade.»
Raul Almeida, blogue NORTADAS http://nortadas.blogspot.pt/2011/12/eduardo-lourenco.html
CITAÇÕES
“Que o português médio conhece mal a sua terra
– inclusive aquela que habita e tem por sua em sentido próprio – é um facto que
releva de um mais genérico comportamento nacional, o de viver mais a sua existência do que compreendê-la.”
“Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente
vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título
pessoal ou coletivo.”
(in: O
Labirinto da Saudade, Gradiva,
2005.)
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Eduardo Lourenço,
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Prémio Pessoa
9.5.12
MIA COUTO E JOSÉ EDUARDO ÁGUALUSA NA LIVRODODIA HOJE
A Confissão da Leoa
Autor: Mia Couto
Editora: Caminho
N.º de páginas: 270
ISBN: 978-972-21-2567-3
Ano de publicação: 2012
Autor: Mia Couto
Editora: Caminho
N.º de páginas: 270
ISBN: 978-972-21-2567-3
Ano de publicação: 2012
O novo romance de Mia Couto parte de uma história real, acompanhada de perto pelo escritor – biólogo de profissão – em 2008. Na província de Cabo Delgado (norte de Moçambique), um grupo de leões começou a atacar pessoas, causando 26 vítimas mortais em poucos meses. Numa nota inicial, o autor explica que na região havia quem acreditasse que «os verdadeiros culpados eram habitantes do mundo invisível, onde a espingarda e a bala perdem toda a eficácia». Aos leões verdadeiros sobrepunham-se leões imaginários, «fabricados» (emanações ou espelhos da maldade humana), contra os quais mesmo o mais experiente dos caçadores nada podia, porque eles «eram apenas os sintomas de conflitos sociais».
Para contar esta história à sua maneira, Mia Couto centrou-a numa aldeia africana inventada mas arquetípica: um lugar agreste, em que «até as plantas tinham garras» e onde tudo o que é vivo «está treinado para morder». Eis Kulumani, povoação doente e mesquinha, com cicatrizes da guerra civil, esquecida na imensidão da savana e subjugada a «arcaicos mandamentos» que moldam a sociedade («Todo o nosso presente era feito de passado»). O aparecimento dos leões serve como catalizador do medo colectivo, um pavor irracional que desenterra o lado mais selvagem dos seres humanos. E a ordem natural inverte-se: «as pessoas tornaram-se animais e os animais tornaram-se gente».
Resolvido a acabar de vez com a ameaça, chega à aldeia um caçador mulato, Arcanjo Baleiro, autor de um diário feito de fragmentos curtos, em que cruza o relato da espinhosa missão, para a qual é duvidoso que esteja preparado, com memórias traumáticas da sua vida familiar (a morte do pai, a loucura do irmão, o arrebatamento amoroso pela cunhada). Os capítulos alternam entre o diário de Baleiro e o caderno de Mariamar, irmã de uma das vítimas, mulher martirizada pelos maus tratos do pai durante a infância, mas figura fortíssima, luminosa, que sabe escrever (coisa rara numa terra de analfabetos) e encontra na escrita uma «máscara», um «amuleto». A primeira vez que enfrentou um leão foi ao aprender a letra «L» («ali, caligrafada no papel, a fera se ajoelhava a meus pés»); depois, não mais temeu uma natureza animalesca que reconhece em si própria.
Tendo em conta os contornos da narrativa, atravessada por cosmogonias, lendas, crenças e sonhos premonitórios, havia o risco de Mia Couto cair em estereótipos – ou, pior ainda, nas armadilhas do realismo mágico. Felizmente, tal não acontece. A sua prosa mimetiza a paisagem e flui como o rio que atravessa a aldeia. Não há demasiados afloramentos líricos, nem o exagero de neologismos que saturava muitas das obras anteriores. Sobretudo, afigura-se subtil e inteligente o modo de empurrar o leitor para o verdadeiro tema deste romance, que não é a caça (essa «alucinada vertigem» que acontece nas «costas da razão»), nem o receio da força bruta animal ou a “gestão das coisas invisíveis”, mas a trágica e «infindável» guerra entre homens que sempre abusaram do seu poder e mulheres educadas para a renúncia.
Para contar esta história à sua maneira, Mia Couto centrou-a numa aldeia africana inventada mas arquetípica: um lugar agreste, em que «até as plantas tinham garras» e onde tudo o que é vivo «está treinado para morder». Eis Kulumani, povoação doente e mesquinha, com cicatrizes da guerra civil, esquecida na imensidão da savana e subjugada a «arcaicos mandamentos» que moldam a sociedade («Todo o nosso presente era feito de passado»). O aparecimento dos leões serve como catalizador do medo colectivo, um pavor irracional que desenterra o lado mais selvagem dos seres humanos. E a ordem natural inverte-se: «as pessoas tornaram-se animais e os animais tornaram-se gente».
Resolvido a acabar de vez com a ameaça, chega à aldeia um caçador mulato, Arcanjo Baleiro, autor de um diário feito de fragmentos curtos, em que cruza o relato da espinhosa missão, para a qual é duvidoso que esteja preparado, com memórias traumáticas da sua vida familiar (a morte do pai, a loucura do irmão, o arrebatamento amoroso pela cunhada). Os capítulos alternam entre o diário de Baleiro e o caderno de Mariamar, irmã de uma das vítimas, mulher martirizada pelos maus tratos do pai durante a infância, mas figura fortíssima, luminosa, que sabe escrever (coisa rara numa terra de analfabetos) e encontra na escrita uma «máscara», um «amuleto». A primeira vez que enfrentou um leão foi ao aprender a letra «L» («ali, caligrafada no papel, a fera se ajoelhava a meus pés»); depois, não mais temeu uma natureza animalesca que reconhece em si própria.
Tendo em conta os contornos da narrativa, atravessada por cosmogonias, lendas, crenças e sonhos premonitórios, havia o risco de Mia Couto cair em estereótipos – ou, pior ainda, nas armadilhas do realismo mágico. Felizmente, tal não acontece. A sua prosa mimetiza a paisagem e flui como o rio que atravessa a aldeia. Não há demasiados afloramentos líricos, nem o exagero de neologismos que saturava muitas das obras anteriores. Sobretudo, afigura-se subtil e inteligente o modo de empurrar o leitor para o verdadeiro tema deste romance, que não é a caça (essa «alucinada vertigem» que acontece nas «costas da razão»), nem o receio da força bruta animal ou a “gestão das coisas invisíveis”, mas a trágica e «infindável» guerra entre homens que sempre abusaram do seu poder e mulheres educadas para a renúncia.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso] (Retirado daqui:
ººººººººººººººººººººººººººººººº
Sinopse
Luanda, 1975, véspera da Independência. Uma mulher portuguesa, aterrorizada com a evolução dos acontecimentos, ergue uma parede separando o seu apartamento do restante edifício - do resto do mundo. Durante quase trinta anos sobreviverá a custo, como uma náufraga numa ilha deserta, vendo, em redor, Luanda crescer, exultar, sofrer. Teoria Geral do Esquecimento é um romance sobre o medo do outro, o absurdo do racismo e da xenofobia, sobre o amor e a redenção. (Do site da Wook:http://www.wook.pt/ficha/teoria-geral-do-esquecimento/a/id/12940450 )
ººººººººººººººººººººººººº
O que é a LivroDoDia, em Torres Vedras:
30.4.12
DOMINGO À TARDE NA LISBOA DE EÇA
Reler Eça é ver um filme de época, tal o poder evocativo da sua prosa.
Peguei no Primo Basílio e lá fui de novo à Lisboa oitocentista que ele descreveu com a mestria de um alvenel. É no final do primeiro capítulo.
(…)
Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo,
apareceu então ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz;
parou, pôs-se a voltear a manivela, levantando em redor, para as janelas, um
sorriso triste de dentes brancos, e a «Casta Diva», com uma sonoridade
metálica e seca, muito tremida, espalhou-se pela rua.
Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de matemática, veio
encostar logo aos caixilhos estreitos da janela a sua vasta face trigueira de
quarentona farta e estabelecida; adiante, na
sacada aberta de um segundo andar, debruçou-se a figura do Cunha Rosado, magro e chupado,
com um boné de borla, o aspecto desconsolado do doente de intestinos, conchegando com as
mãos transparentes o robe-de-chambre ao ventre. Outras faces enfastiadas
mostraram-se entre as bambinelas de cassa.
Na rua, a estanqueira chegou-se à porta, vestida de luto,
estendendo o seu carão viúvo, os braços cruzados sobre o xale tingido de preto,
esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa do Azevedo, veio a
carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabelo esguedelhado em repas secas, a
cara oleosa e enfarruscada, com três pequenos meio nus, quase negros, chorões e
hirsutos, que se lhe penduravam da saia de chita. E o Paula, com loja de
trastes velhos, adiantou-se até ao meio da rua; a pala de verniz do seu boné de pano preto nunca se erguia de
cima dos olhos; escondia sempre as mãos, como para ser mais reservado, por trás
das costas, debaixo das abas do seu casaco de cotim branco; o calcanhar sujo da
meia saía-lhe para fora da chinela bordada a missanga; e fazia roncar o seu
pigarro crónico de um modo despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado
das coisas públicas enfurecia-o. Assobiava frequentemente a «Maria da Fonte»; e
mostrava-se nas suas palavras, nas suas atitudes, um patriota exasperado.
O homem do realejo tirou o seu largo chapéu desabado e, tocando
sempre, ia-o estendendo em redor para as janelas, com um olhar necessitado. As
Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraça. A carvoeira deu-lhe uma
moeda de cobre; mas interrogou-o; quis decerto saber de que país era, por que
estradas tinha vindo, e quantas peças tinha o instrumento.
Gente endomingada
começava a recolher, com um ar derreado do longo passeio, as botas
empoeiradas: mulheres de xale, vindas das hortas, traziam ao colo as crianças
adormecidas da caminhada e do calor; velhos plácidos, de calça branca, o chapéu
na mão, gozavam a frescura, dando um giro no bairro; pelas janelas,
bocejava-se; o céu tomava uma cor azulada e polida, como uma porcelana; um sino
repicava a distância o fim de alguma festa de igreja; e o domingo terminava,
com uma serenidade cansada e triste.
(…)
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Eça de Queiroz,
Lisboa oitocentista,
O Primo Basílio
28.4.12
LUGAR ONDE Nº 117 - UM MONUMENTO NACIONAL À NOSSA ESPERA
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GRUTA
CALCOLÍTICA DA ERMEGEIRA
UM MONUMENTO NACIONAL À NOSSA
ESPERA
A Associação do Património de Torres Vedras, inspirada no
lema deste ano do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios – ver texto nesta
página – decidiu realizar um programa de divulgação e sensibilização para este
Monumento Nacional, tão pouco conhecido dos torrienses, a decorrer neste mês de
Abril no Maxial, freguesia do Município de Torres Vedras com numerosos
vestígios de ocupação humana desde a Pré-História. O mais significativo é a
Gruta Calcolítica da Ermegeira – aldeia próxima da sede de freguesia –
descoberta e explorada no final dos anos 30 do século passado. Do espólio
existente avulta um par de pendentes (brincos?) e parte de um colar, de ouro,
guardados no Museu Leite de Vasconcelos, em Belém, cuja valia e raridade
explicam a classificação daquela estação arqueológica como Monumento Nacional.
Da gruta resta apenas uma parte da calote, o que se
explica pela ação do tempo e algum vandalismo. Mas aquele é um vestígio
importante a preservar e que está em risco de ser desclassificado devido ao
estado de abandono.
PROGRAMA – mês de ABRIL:
Dias 17 a 23
No Auditório
da Junta de Freguesia do Maxial:
- Pequena
exposição alusiva ao período calcolítico, com peças do Museu Leonel
Trindade, de Torres Vedras
- Sessões com alunos das Escolas do
Maxial, em horas a definir
Dia 21 (sábado)
15H30: Autocarro da Câmara Municipal de
Torres Vedras, junto ao Tribunal, para quem
quiser
deslocar-se ao Maxial
16H00 – Auditório da Junta de
Freguesia: Sessão evocativa e documental sobre a Gruta da
Ermegeira
17H30
– Visita ao local da Gruta Calcolítica da Ermegeira
Dia 22
09H00:Caminhada
com passagem pelo local da gruta. Partida frente à Junta de Freguesia do
Maxial.
Percurso com cerca de 10 km, de nível fácil, aberto ao público em geral.
Este programa foi organizado com a colaboração da Junta
de Freguesia do Maxial, do Município de Torres Vedras e dos técnicos do Museu
Municipal Leonel Trindade, de Torres Vedras. Assinala-se, igualmente, a
participação do prof. Jorge Ferreira da Silva que executou réplicas perfeitas
do valioso espólio da Gruta, em exposição
na Junta de Freguesia do Maxial. | MD
Aspeto atual da gruta calcolítica da Ermegeira
Reconstituição da gruta, de acordo com o relatório de Manuel Heleno, seu investigador.
Desenho de José Pedro Sobreiro, exposto na Junta de Freguesia do Maxial.
DIA INTERNACIONAL DOS MONUMENTOS E SÍTIOS
Mais uma vez
a ADDPCTV assinala o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, 18 de Abril,
com um conjunto de iniciativas que estão integradas no Programa Nacional
coordenado pelo IGESPAR – Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e
Arqueológico.
Este Dia Internacional foi criado pelo ICOMOS
(Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios) a 18 de Abril de 1982 e aprovado
pela UNESCO no ano seguinte, com o objetivo de sensibilizar o público para a
diversidade e vulnerabilidade do património, bem como para o esforço envolvido
na sua proteção e preservação.
Os temas anualmente
sugeridos pelo ICOMOS pretendem promover o estabelecimento de uma ligação
efetiva entre as realidades locais, regionais, nacionais e internacionais.
Assim, através desta data comemorativa,
pretende-se celebrar o património nacional, mas, também, a solidariedade
internacional em torno da salvaguarda e da valorização do património de todo o mundo. O tema deste ano é: «Do
Património Mundial ao Património Local: proteger e gerir a mudança»
* * *
Pendentes de ouro encontrados na gruta(expostos no Museu Nacional de Arqueologia, em Belém)
Réplicas em latão (pendentes e contas tubulares), executadas por Jorge Ferreira da Silva
DESCOBERTA
DA GRUTA DA ERMEGEIRA
«(…) Em 1939 descobriu-se casualmente na Ermegeira, freguesia do
Maxial, concelho de Torres Vedras, na Quinta de Entrecampos, a cerca de 50
metros da residência existente na mesma, uma gruta artificial.
O
aparecimento de um par de brincos de ouro e quatro tubinhos de folha
enrolada do mesmo metal, ocasionaram
a destruição de parte do monumento e das ossadas e abundante cerâmica que
possuia.
Foi
o Museu Etnológico, que, apesar da doença que nesse ano sofreu o seu director,
se esforçou por salvar algo do que restava, se inteirou do destino dos objectos
de ouro, comunicou ao Instituto de Arqueologia (Vid. A
Voz, de 19 de Dezembro de
1939) e à sub-secção de Antiguidades da Junta Nacional de Educação o valor do
achado e os prejuízos sofridos com o seu remeximento.
Não
ficou por aqui a acção do mesmo Museu. Obteve do Sr. Lopes da Silva, gerente da
agência do Banco Ultramarino em Torres Vedras, a cedência dos brincos que
adquirira numa ourivesaria local e de cinco
tubinhos, já que os outros quatro foram derretidos, e promoveu a limpeza
da mesma gruta e a crivagem da terra tirada para fora. (…)
(…) A gruta artificial da Ermegeira está aberta nas camadas cretáceas, vulgarmente
designadas «grés de Torres» (neocomiano e aptiano). Apresenta hoje só câmara,
com a abóbada e a parte lateral norte destruídas pelos violadores e com
diâmetros que oscilam entre 4m,30 e 4m,5o. A altura do
fundo à superfície mede 3m,20, não podendo por isso a abóbada ir
acima de 2m,50. Não se pode já precisar o seu meio de comunicação
com o exterior: Corredor, se o houve, foi destruído por um corte feito para
abertura de um caminho; e a clarabóia, se existiu, foi demolida com a abóbada.
Contudo, o encontro de uma laje, ao meio do fundo da câmara, autoriza a presunção
da existência de clarabóia, mas só a presunção, porque não longe, na freguesia
de Monte Redondo, na Quinta das Lapas (…), há grutas da mesma época (…)»
in: Manuel Heleno,
GRUTA ARTIFICIAL DA ERMEGEIRA, Separata do vol. II de ETHNOS, revista do Instituto
Português de Arqueologia, História e Etnografia, Lisboa, 1942
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brincos da Ermegeira,
Gruta calcolítica da Ermegeira,
Maxial
18.4.12
HOMENAGEM A ANTERO
Estátua de Antero, na praia de Santa Cruz, Torres Vedras
Deixei AQUI uma homenagem ao grande poeta cuja data de nascimento hoje se comemora.
E recordo o que já aqui se escreveu, com fotos do monumento a Antero, na praia de Santa Cruz- TVedras.
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Antero de Quental
6.4.12
FERNANDO JORGE FABIÃO
Encontrámo-nos há dias numa tertúlia no centro histórico de Torres Vedras.
Fernando J F faz-me recordar um velho amigo que nunca me deixava vir de casa dele sem me oferecer laranjas ou ameixas, ou melão... conforme a época.
Obrigado por mais esta dádiva, caro amigo! Os teus poemas têm o sabor dos frutos.
....................................................................................................
A LINGUAGEM É UMA PELE
Aprendemos a vocação das aves
porque nem sempre voar é assunto de ave
as coisas mudam de cada vez que olhamos
para elas
basta alguém querer regressar à inocência
a essa parte intocável do texto
para que outro olor outro alvoroço
ilumine o olhar.
Escrevemos na parede interior dos pulsos
a linguagem é uma pele.
* * *
FOI COM AS MÃOS QUE VI
É na pele que o pensamento
inscreve a íntima caligrafia
e rejubila ante o inaudito de um nome
é nela que se refletem os espelhos
e o mar acede às minas do corpo
todo o meu cantar fala do deflagar do branco
no mapa da pele
foi com as mãos que vi
foi com elas que desatei a sombra
e resguardei a casa.
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Fernando Jorge Fabião
25.3.12
LUÍS FILIPE RODRIGUES: O PRÉMIO
Luís Filipe Rodrigues foi o grande vencedor, no Dia Mundial da Poesia, do Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho com a obra Lugares de Passagem, uma coletânea de 41 poemas. Instituído pela Câmara Municipal de Loures, e patrocinado pela empresa GelPeixe, o galardão tem como objetivo premiar obras de ficção literária inéditas de autores portugueses nas categorias de prosa ou poesia.
A Biblioteca Municipal José Saramago, em Loures, encheu, no dia 21 de março, para assistir à entrega do Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, este ano na modalidade de poesia.
Luís Filipe Rodrigues, de 66 anos, foi o vencedor com a obra Lugares de Passagem. A concurso, 135 coletâneas de poemas originais apreciadas por um júri de reconhecido mérito, no âmbito da escrita/crítica literária ou do ensino de literatura, composto por António Carlos Cortez, José Correia de Jesus Tavares e Amélia Vieira. (Notícia transcrita DAQUI)
.......................................................................................................................Alguns poemas do livro premiado
NA BIBLIOTECA
1.
Entrou na biblioteca e disse quero o livro
maior, um livro
que cresça dentro de mim. Tinha doze anos
e preparava-se para ler não sei o quê.
Ao sair quando o abriu e folheou encontrou
um outro, o grande mundo.
2.
O livro que lhe chegou às mãos trazia um olho
na capa, lugar donde partiu para.
O êxito da travessia dependia da luz que torna diferente o que é igual.
Ao folheá-lo notou por todo o lado coisa feita
de visões, vida intensa. Por algum tempo procurou
um fio que o unisse até que um
rosto brotou a toda a largura das duas páginas centrais. Era um rosto par
tido, incendiado em cada margem.
Quando fixava as páginas e por momentos uma ficava a prumo,
um olho olhava o outro
olho,
como bons vizinhos. Mal as fechava
ambos os olhos entravam um no outro obstinadamente,
cegando-se. Por muito tempo nos olhos passaram sombras,
como lâmpadas fundidas mergulhando na noite.
Que fazer do terceiro olho que vê o que
não vemos? O que fazer desse olho que jamais nos viu
entrar no livro?
3
Não basta ouvir, é preciso ler
em voz alta,
ver como se faz um livro, uma leira,
se tira água de um poço.
É preciso roer um osso,
sair à rua, sentir no peito a nona sinfonia,
pois quem mais vive mais sabe
e quem não lê é como quem não vê.
4.
A língua. O lápis. O ouvido. O dedo
ao entrar no livro lança raízes por onde passa
despertando os sentidos logo pela manhã.
As palavras crescem ao longo do dia,
razão para cada um ver o que o rodeia
sempre de outra maneira.
Ao folhear cada página cai por vezes uma estrela
naqueles olhos de criança.
O seu olho esquerdo dá-nos um ângulo imaginário,
próprio da idade. O direito criando fastio e sonolência.
Por isso tal criança costuma ler o mundo ouvindo,
sem disfarce nem olhar de terceiros.
Como é bom ser um ouvido pequenino, de manhã à noite.
5.
Arrumados numa estante os livros emudecem.
Precisam de uma voz que lhes grite.
O livro assim é um pássaro sem pio.
Se não lhe dermos asa não voa nem canta,
jaz ao comprido.
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