30.10.10
UM TEXTO OPORTUNO SOBRE "ALTOS SALÁRIOS"
Um dia destes, em PEDRAS ROLANTES, mais um texto de Venerando de Matos, esclarecedor pela pertinência e acerto da análise. Transcrevemos:
«Não deixa de ser curiosa a forma como os comentadores e políticos usam e abusam da demagogia quando se fala de salários.
Ontem correu a notícia de que os Juízes portugueses, no topo da carreira, eram os “mais bem pagos da Europa”.
Depois percebeu-se que eram os mais bem pagos, comparando o seu rendimento (liquido) como o rendimento médio do país.
Na verdade, como revela hoje o Público, recebem pouco mais de metade que os seus congéneres espanhóis, menos de um terço dos irlandeses. Só os polacos e os checos recebem menos.
Convém recordar que os salários mínimos (e não estamos a falar de salários médios…) em Espanha e na Irlanda são, respectivamente, cerca do dobro e três vezes maiores que em Portugal.
O truque já tinha sido usado contra os médicos e os professores.
Na realidade, num país onde as desigualdades sociais são das maiores da Europa, onde a maior parte do trabalho é precário e mal pago, o rendimento médio é muito baixo e portanto, quem esteja em profissões de topo, que exigem mais estudos e responsabilidades, recebem muito mais que a média miserável do país.
O que não quer dizer que ganhem mais ou tenham um melhor poder de compra que os seus congéneres do resto da Europa, nomeadamente da Europa do Euro, que é com esta que nos devemos comparar.
Recordo-me que, no caso dos professores, apresentavam-se estatísticas da OCDE segundo as quais o rendimento médio dos professores do topo da carreira era maior, comparativamente com os rendimentos médios do país, do que no resto da Europa. Se não me engano, apenas éramos ultrapassados pelo…México.
Por esta lógica, os professores Mexicanos e Portugueses seriam os mais bem pagos dos países da OCDE e foi esta a mensagem que então se procurou passar para a opinião pública, para justificar o corte dos “seus privilégios”.
Contudo, o que acontecia era que, sendo a situação salarial e de qualificação, no México e em Portugal, das piores dos países analisados, o salário das profissões qualificadas era muito superior a essa média.
Na realidade, se observássemos os salários reais, um professor mexicano recebia metade do português e o português ficava muito aquém da média europeia.
Ou seja, na realidade um professor português em final de carreira ( e o mesmo se pode dizer de um médico do SNS, de um professor universitário ou de um Juiz) recebia muito menos e tinha um poder de compra mais reduzido que os seus parceiros europeus, até porque, fazendo o nosso país parte dos países do euro, o custo de vida na maior parte da Europa não é assim tão diferente.
Devemos ainda acrescentar o facto de grande parte dos rendimentos assim noticiados nunca chegar aos seus “beneficiários”, já que, professores, médicos do SNS e juízes que trabalhem no serviço público, recebem apenas cerca de 2/3 daquele rendimento. O outro terço fica retido para pagamento dos impostos e da segurança social.
Ou seja, usa-se e abusa-se da demagógica manipulação estatística para tentar justificar a retirada de direitos e os cortes salariais, em nome do combate aos “privilegiados” e às “corporações”!!
Esta é uma boa forma de tentar dividir para reinar, fomentando a inveja social dos que pouco têm contra os que têm alguma coisa, desviando a atenção do verdadeiro problema: os salários e as pensões douradas dos “boys”; a fuga maciça aos impostos por parte das profissões liberais; os escandalosos benefícios fiscais do poder financeiro; a corrupção generalizada do poder político e financeiroe que o recurso aos offshores garante.»
Marcadores:
Pedras Rolantes,
salários
25.10.10
LUGAR ONDE - BADALADAS - 22 OUTUBRO 2010
POETAS DE AGORA
NUNO JÚDICE : DO QUE É FEITO O POEMA?
«Um ritmo próprio regula a invenção das imagens
que, sob a ilusão nascida da sua existência,
transmitem um nexo oculto. Ao escrever, então,
não me limito a designar realidades do mundo
aparente, antes dou uma ordem diversa aos elementos
que a tradição me legou e que,
através do sopro da imaginação, me sugerem o poema.»
(Nuno Júdice, A Condescendência do Ser, 1988)
Desde o início, em 1972 com o livro A NOÇÃO DE POEMA, Nuno Júdice imprimiu à sua escrita uma marca muito própria. O poema é uma construção de palavras – já o sabíamos. Mas ele instituiu a reflexão sobre o acto da escrita como um dos seus temas, perspectiva que é comum a toda a arte contemporânea, profundamente envolvida na teorização da sua génese. Daí a nossa dificuldade em entendê-la se nos limitarmos a uma leitura imediata. Todo a arte, hoje em dia, exige do receptor uma esforçada aproximação que passa, em primeiro lugar, pela superação da estranheza e, depois, pelo estudo das condições da sua elaboração.
Fernando Pessoa já levantara a ponta do véu: “O poeta é um fingidor…”. Queria ele dizer que o poeta transfigura a dor/emoção, modela-a, transforma-a em escrita. Mas ficou por explicar a poética, isto é, os modos como isso se faz. Nuno Júdice foi dos primeiros tentar fazê-lo desvendando o mistério da poesia através da própria poesia. Não por acaso, sendo criador literário, ele é, também, professor de Literatura.
Ao longo de 38 anos de actividade tem vindo a erigir uma obra imensa que se afirma como das mais notáveis no panorama da nossa literatura contemporânea, num ímpeto criador sempre acompanhado pela preocupação de encontrar respostas à interrogação inicial: de que matéria é feito o poema? + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + +
Nuno Júdice estreou-se, como poeta, em 1972, com A Noção de Poema. Desse volume até ao muito recente O Breve Sentimento do Eterno vai um percurso marcado por um ritmo alto de publicação, na poesia mas também na ficção, no teatro ou ainda no ensaio, uma vez que é também professor na Universidade Nova de Lisboa. Coligiu pela primeira vez a sua obra poética em 1991 (Obra Poética. 1972-1985), datando a última reunião dos seus versos de 2000. Poeta traduzido em várias línguas e na prestigiosa colecção da Gallimard, foram-lhe atribuídos já os mais significativos prémios literários portugueses. (in: Inquérito por OLAMblogue, 23-10-2008)
+ + + + + + + + + + + + + + + + + + + +
POÉTICA NATURAL
Com os olhos do verso procuro a palavra
que, na terra de sílabas e fonemas,
arrasta a cesura, como quem lavra,
congeminando frases e teoremas.
Abstracto, o poema solta-se do berço,
como voam gaivotas, velas, asas de moinho,
e acaba em quadra seu movimento inverso
em música de cisco, nas palhas de um ninho.
Concreto, pousa o seu baraço de rimas,
como, na procissão, o relapso penitente.
Mas reza; e os seus lábios, como limas,
dão lhe uma cor de sinestesia dolente.
Mas um poema não vai buscar as suas flores
ao velho canteiro da retórica cega,
onde a estrofe é um enunciado de dores
em morna ladainha de cegarrega.
A inspiração roda nas mós de cada vogal,
até se desfazer em alcofas consoantes
que deito ao vento, na tarde outonal,
como nuvens brancas em céus brilhantes.
E é nesse horizonte que colho a única flor
que ao poema vem dar ritmo e sentido,
com as pétalas da vida e o pólen do amor
que em mim vestem o teu corpo despido.
VIAGEM
Na curva da estrada, um moinho
de velas abertas no ar sem vento: move-as
o eco das palavras esburacadas pelo
uso; empurra-lhe as pás um murmúrio
de asas queimadas pelo sol
da memória.
Subindo as escadas, sinto
um cheiro a mofo de farinha, a impressão
áspera da serapilheira dos sacos, um ténue
calor de barro no intervalo das pedras. Mós
num remoinho de sílabas
esmagadas.
Frestas por entre as telhas. Um
fragmento de céu limpo de nuvens. O
pássaro negro da eternidade
pousa no azul.
de velas abertas no ar sem vento: move-as
o eco das palavras esburacadas pelo
uso; empurra-lhe as pás um murmúrio
de asas queimadas pelo sol
da memória.
Subindo as escadas, sinto
um cheiro a mofo de farinha, a impressão
áspera da serapilheira dos sacos, um ténue
calor de barro no intervalo das pedras. Mós
num remoinho de sílabas
esmagadas.
Frestas por entre as telhas. Um
fragmento de céu limpo de nuvens. O
pássaro negro da eternidade
pousa no azul.
Marcadores:
Nuno Júdice
18.10.10
14.10.10
HINO DE LOS MINEROS
A canção original, adaptada pelos nossos mineiros, parece ter origem na região mineira das Astúrias.
Homenagem aos mineiros do Chile e a todos os mineiros.
12.10.10
2.10.10
UM GRANDE, GRANDE POETA DA NOSSA LÍNGUA
Acabo de pôr um comentário no blogue dele, AQUI:
«Um amigo ensinou-me o caminho para si, caro Affonso. Não quero bajular. Por isso apenas digo que estou muito grato ao meu amigo e que você passou a fazer parte do meu tesouro literário. Já o pus no meu blogue e vou continuar. Gosto da sua escrita: mordente, trabalhada de palavras, surpreendente nas redescobertas de sentidos.
Bom dia senhor POETA da minha/nossa Língua comum!»
Esse amigo chama-se Cid Simões e é um garimpeiro de ouro literário. Na minha ignorância, por vezes enciclopédica!, nunca me tinha dado conta deste grande poeta da Língua Portuguesa. Chama-se Affonso Romano Sant'Anna e é brasileiro.
Nas minhas caturrices por vezes sou preconceituoso com os nomes. Já tinha lido algures e não tinha gostado da prosápia deste afonso com dois ff e santana com ' e dois nn. E passei adiante. Não sabia o que perdia. Vem o Cid e zás! - espeta-me com dois poemas à frente dos olhos que me deixaram abananado e... rendido. Grande poeta, caramba! Da estirpe do Ferreira Gullar, do prémio Camões deste ano.
Mas isto é poesia?
Claro, e da melhor!
Há verve, há trabalho de linguagem, há a veia satírica que tão arredada tem andado das nossas letras. Há uma voz que se agiganta nestes trocadilhos que nos arrastam pelos cabelos.
Exagero?
Então aqui vai, com mais um abraço de agradecimento ao meu caro amigo Cid!
Entre a coisa pública
e aprivada
achou-se aRepública
assentada.
Uns queriamprivar
dacoisa pública ,
outros queriam provar
daprivada ,
conquanto , é claro ,
que , na provação ,
aprivada , publicamente,
parecesse perfumada.
Dessaluta intestina
entre a gula pública e a privada
aRepública
acabou desarranjada
ejá ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada .
Assim ia a rês pública : avacalhada
umarês pública : charqueada
umarês pública , publicamente
corneada,que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.
Qual o jeito ?
Submetê-la aum jejum ?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?
Oque fazer ?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar , de uma penada ,
que a coisa pública
sedeixar de ser privada
podeser recuperada?
—Sim , é preciso sanear ,
desinfetar a coisa pública ,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada .
Enfim , acabar com a alquimia
deempresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.

«Um amigo ensinou-me o caminho para si, caro Affonso. Não quero bajular. Por isso apenas digo que estou muito grato ao meu amigo e que você passou a fazer parte do meu tesouro literário. Já o pus no meu blogue e vou continuar. Gosto da sua escrita: mordente, trabalhada de palavras, surpreendente nas redescobertas de sentidos.
Bom dia senhor POETA da minha/nossa Língua comum!»
Esse amigo chama-se Cid Simões e é um garimpeiro de ouro literário. Na minha ignorância, por vezes enciclopédica!, nunca me tinha dado conta deste grande poeta da Língua Portuguesa. Chama-se Affonso Romano Sant'Anna e é brasileiro.
Nas minhas caturrices por vezes sou preconceituoso com os nomes. Já tinha lido algures e não tinha gostado da prosápia deste afonso com dois ff e santana com ' e dois nn. E passei adiante. Não sabia o que perdia. Vem o Cid e zás! - espeta-me com dois poemas à frente dos olhos que me deixaram abananado e... rendido. Grande poeta, caramba! Da estirpe do Ferreira Gullar, do prémio Camões deste ano.
Mas isto é poesia?
Claro, e da melhor!
Há verve, há trabalho de linguagem, há a veia satírica que tão arredada tem andado das nossas letras. Há uma voz que se agiganta nestes trocadilhos que nos arrastam pelos cabelos.
Exagero?
Então aqui vai, com mais um abraço de agradecimento ao meu caro amigo Cid!
A Coisa Pública e a Privada
e a
achou-se a
assentada.
Uns queriam
da
da
a
parecesse perfumada.
Dessa
a
acabou desarranjada
e
uma
uma
corneada,
Submetê-la a
O
publicamente assentados?
se
pode
—
de
Affonso Romano Sant’Anna
1987
E agora a cara do poeta:

Marcadores:
Affonso Romano de Sant'Anna,
poesia
28.9.10
A TORRE DOS LIVROS
A Biblioteca Nacional sempre foi, para mim, um lugar mágico. "Templo do saber" - não sei evitar a expresão vulgar. Sinto-me bem lá dentro. Claro que me exasperava, em tempos idos, aquela vigilância de olhos que circulavam numa galeria superior, câmaras humanas de vigilância, pobres contínuos que passavam ali os dias a olharem cá para baixo, a ver se alguém rasgava uma folha e roubava uma gravura de uma edição única. ( Parece que isso chegou a acontecer...).
Mas uma biblioteca nacional é um monstro. Pelo tamanho, pela quantidade de livros, pelos problemas de manutenção e funcionamento.
Agora está em obras, o que vai acarretar um fecho temporário e enfurecer muitos utilizadores que fizeram uma petição à Assembleia da República...
Esperemos para ver o resultado. Que tem de ser melhor do que a situação actual, de quase ruptura.
A propósito aqui fica a reportagem do jornal I de hoje:
Mas uma biblioteca nacional é um monstro. Pelo tamanho, pela quantidade de livros, pelos problemas de manutenção e funcionamento.
Agora está em obras, o que vai acarretar um fecho temporário e enfurecer muitos utilizadores que fizeram uma petição à Assembleia da República...
Esperemos para ver o resultado. Que tem de ser melhor do que a situação actual, de quase ruptura.
A propósito aqui fica a reportagem do jornal I de hoje:
Biblioteca Nacional em obras. Livros salvos de uma morte anunciada
por Marta F. Reis, Publicado em 28 de Setembro de 2010 | Jornal I
A torre de depósitos não tem lavagem de ar há mais de dez anos
O director vagueia pelo telhado da livraria da Biblioteca Nacional, com uma vista privilegiada para a nova ala da torre de depósitos. "Uma semana e a fachada fica pronta", atira Jorge Couto. Para quem lidera a maior biblioteca pública do país, em Lisboa, a obra já vem tarde: está em causa a preservação dos livros e a falta de espaço. Para quem a utiliza como ferramenta de trabalho, o que veio tarde foi o aviso de encerramento, afixado só a 8 de Junho. Esgrimem-se argumentos e o tema ainda vai ser discutido no parlamento. Entretanto as obras continuam e a expectativa lá dentro é que não parem até 1 de Setembro do próximo ano, o dia em que a biblioteca voltará a funcionar.
Por fora, a nova ala parece acabada. Por dentro, faltam acabamentos. Na nova sala de leitura, no rés-do-chão, as paredes envidraçadas deixam entrar a luz do final de tarde. É mais pequena que a que passará a ser a velha, e ainda não está decidido se será só para quem quiser consultar as colecções especiais ou para quem queira um cenário diferente de estudo.
A ampliação que estica a torre original em 33 metros de comprimento e 6300 m2 de área vai ficar concluída a 20 de Outubro, dentro do prazo, garantem a subdirectora Maria Inês Cordeiro e o arquitecto João Pardal Monteiro. Mas é a fase de remodelação que mais tem dado que falar. Arrancou nos últimos dias: as colecções guardadas nos últimos pisos deixam de estar acessíveis a partir de 1 de Outubro, mas já começaram a ser encaixotadas. Dia 15 de Novembro a sala de leitura fecha por quase dez meses.
Não é uma mudança "É uma remodelação. Não era possível fazê-lo de outra maneira", diz a subdirectora. A torre é praticamente o único depósito da biblioteca: guarda 3,5 mil milhões de livros e em alguns pisos já não há espaço para os depósitos legais. Ao todo são dez andares e subir ao sexto é uma aventura. O elevador de serviço, projectado para carrinhos de livros, mostra uma lotação máxima para 800 quilos e dez pessoas mas tem pouco mais que a largura de uma. No destino abre-se um corredor com 5,5 km de estantes de um lado e do outro - 55 km em toda a torre, para pouco mais de 20 funcionários todos os dias. Se o espaço é arrumado, as falhas estão à vista: as luzes e os interruptores parecem os de casas antigas e o ar não circula. "Está desactualizado, e com a maioria dos sistemas inutilizados", diz Pardal Monteiro. O problema vai consumir a maior fatia dos 8 milhões de euros de orçamento da obra iniciada em 2008. "Todo o sistema de aquecimento, ventilação e ar condicionado vai ser remodelado. Vamos instalar sistemas de combate a incêndios. Só tínhamos de detecção e extintores", explica a subdirectora.
No corredor do sexto piso há um aparelho que mede temperatura e humidade. É um dos primeiros dias de Outono e estão 25,6 o C quando o ideal seriam 18. "Há uma parte de envelhecimento dos livros provocada por estas condições, que não é visível a olho nu", explica Maria Inês Cordeiro. "Se continuasse assim, grande parte dos livros sofreria em 20 anos uma degradação aceleradíssima. Não temos limpeza de ar há mais de dez anos." E há ainda os aviões que passam rente ao edifício. "Temos caixas que têm aquele negro de quem tem a janela aberta e mora na Avenida de Roma." A diferença de dez graus tem impacto a outro nível, mais microscópio. Maria Inês Cordeiro mostra uma armadilha para pequenos insectos onde está um peixinho-de-prata. "Estes não gostam de papel, mas há outras espécies de bibliófagos consideradas pragas. Tornam os livros uma renda."
O plano para os próximos meses prevê 20 dias certos para remodelar cada um dos pisos, que terão de ser esvaziados. O objectivo é conseguir depositar no chão da sala de leitura nova, casa forte e sala de leitura velha - as únicas superfícies com capacidade para aguentar o peso - 20 toneladas de livros por dia, "O único espaço preparado para receber tantos livros seria a Torre do Tombo, mas também está cheia", diz a subdirectora.
O ex-líbris Desce-se pela nova escada exterior até à cave onde está um dos ex-líbris da obra: a casa forte. São 700 metros, 400 para o cofre e um perímetro de segurança com menos de um metro de largura. "Não é possível passar uma lança térmica", explicam. Seria a única ferramenta capaz de furar 60 centímetros de betão e entrar num espaço onde estarão preciosidades como as primeiras edições dos "Lusíadas" ou uma cópia de "As Aves da América", do naturalista do século xviii John James Audubon, avaliada entre 4,5 e 6,6 milhões de euros. A casa forte vai ter videovigilância e ambiente antichamas, ou seja, se se acender um fósforo lá dentro não arde. "Não vai ser uma biblioteca de ponta, porque a crise não o permite", diz Pardal Monteiro, mas vai ser a biblioteca que sempre se quis ter - as fundações da nova ala já lá estavam desde a década de 1950 -, mais segura e moderna.
Por fora, a nova ala parece acabada. Por dentro, faltam acabamentos. Na nova sala de leitura, no rés-do-chão, as paredes envidraçadas deixam entrar a luz do final de tarde. É mais pequena que a que passará a ser a velha, e ainda não está decidido se será só para quem quiser consultar as colecções especiais ou para quem queira um cenário diferente de estudo.
A ampliação que estica a torre original em 33 metros de comprimento e 6300 m2 de área vai ficar concluída a 20 de Outubro, dentro do prazo, garantem a subdirectora Maria Inês Cordeiro e o arquitecto João Pardal Monteiro. Mas é a fase de remodelação que mais tem dado que falar. Arrancou nos últimos dias: as colecções guardadas nos últimos pisos deixam de estar acessíveis a partir de 1 de Outubro, mas já começaram a ser encaixotadas. Dia 15 de Novembro a sala de leitura fecha por quase dez meses.
Não é uma mudança "É uma remodelação. Não era possível fazê-lo de outra maneira", diz a subdirectora. A torre é praticamente o único depósito da biblioteca: guarda 3,5 mil milhões de livros e em alguns pisos já não há espaço para os depósitos legais. Ao todo são dez andares e subir ao sexto é uma aventura. O elevador de serviço, projectado para carrinhos de livros, mostra uma lotação máxima para 800 quilos e dez pessoas mas tem pouco mais que a largura de uma. No destino abre-se um corredor com 5,5 km de estantes de um lado e do outro - 55 km em toda a torre, para pouco mais de 20 funcionários todos os dias. Se o espaço é arrumado, as falhas estão à vista: as luzes e os interruptores parecem os de casas antigas e o ar não circula. "Está desactualizado, e com a maioria dos sistemas inutilizados", diz Pardal Monteiro. O problema vai consumir a maior fatia dos 8 milhões de euros de orçamento da obra iniciada em 2008. "Todo o sistema de aquecimento, ventilação e ar condicionado vai ser remodelado. Vamos instalar sistemas de combate a incêndios. Só tínhamos de detecção e extintores", explica a subdirectora.
No corredor do sexto piso há um aparelho que mede temperatura e humidade. É um dos primeiros dias de Outono e estão 25,6 o C quando o ideal seriam 18. "Há uma parte de envelhecimento dos livros provocada por estas condições, que não é visível a olho nu", explica Maria Inês Cordeiro. "Se continuasse assim, grande parte dos livros sofreria em 20 anos uma degradação aceleradíssima. Não temos limpeza de ar há mais de dez anos." E há ainda os aviões que passam rente ao edifício. "Temos caixas que têm aquele negro de quem tem a janela aberta e mora na Avenida de Roma." A diferença de dez graus tem impacto a outro nível, mais microscópio. Maria Inês Cordeiro mostra uma armadilha para pequenos insectos onde está um peixinho-de-prata. "Estes não gostam de papel, mas há outras espécies de bibliófagos consideradas pragas. Tornam os livros uma renda."
O plano para os próximos meses prevê 20 dias certos para remodelar cada um dos pisos, que terão de ser esvaziados. O objectivo é conseguir depositar no chão da sala de leitura nova, casa forte e sala de leitura velha - as únicas superfícies com capacidade para aguentar o peso - 20 toneladas de livros por dia, "O único espaço preparado para receber tantos livros seria a Torre do Tombo, mas também está cheia", diz a subdirectora.
O ex-líbris Desce-se pela nova escada exterior até à cave onde está um dos ex-líbris da obra: a casa forte. São 700 metros, 400 para o cofre e um perímetro de segurança com menos de um metro de largura. "Não é possível passar uma lança térmica", explicam. Seria a única ferramenta capaz de furar 60 centímetros de betão e entrar num espaço onde estarão preciosidades como as primeiras edições dos "Lusíadas" ou uma cópia de "As Aves da América", do naturalista do século xviii John James Audubon, avaliada entre 4,5 e 6,6 milhões de euros. A casa forte vai ter videovigilância e ambiente antichamas, ou seja, se se acender um fósforo lá dentro não arde. "Não vai ser uma biblioteca de ponta, porque a crise não o permite", diz Pardal Monteiro, mas vai ser a biblioteca que sempre se quis ter - as fundações da nova ala já lá estavam desde a década de 1950 -, mais segura e moderna.
Marcadores:
Biblioteca Nacional
19.9.10
Jornal BADALADAS - 24 de SETEMBRO DE 2010
MEMÓRIAS DE SANTA CRUZ
AS PINTURAS DE MESTRE PERES NA CASA DOS MOTAS
Agosto de 1993, férias em Santa Cruz. Alguém me falou de pinturas antigas existentes na casa do senhor Joaquim Alberto Mota, que teriam sido feitas no tempo em que Antero de Quental esteve naquela praia, convidado de Jaime Batalha Reis. E logo se combinou uma visita à casa.
O senhor Mota recebeu-me muito bem e desatou a desfiar memórias dos seus 85 anos. “Meu pai comprou aqui uma casa que tinha sido convento de freiras e fez a Pensão Mira-Mar que depois vendeu à Maria Sabe-Tudo.” A casa em que estávamos a ter esta conversa “foi construída por João Pinto Mendes, que teve um estabelecimento onde hoje é a casa das bicicletas, no Largo do Grilo, em Torres Vedras. Deixou esta casa às primas, uma delas era minha avó.” Joaquim Mota ia contando mas eu já estava absorvido na contemplação das tais pinturas, de que já me recordava por ter lido um trabalho de Andrade Santos na revista “Torres Cultural” de Novembro de 1991. Eram três círculos com cerca de dois metros de diâmetro cada um, pintados sobre o estuque, na sala de fora, que ocupavam os espaços de duas paredes entre as portas de ligação com as outras dependências da casa. O que eu estava ali a ver era um precioso documento iconográfico da Santa Cruz dos anos 70 do século XIX.
Olhei melhor o nosso anfitrião. Homem de palavra fácil, culto, muito conhecido em Torres Vedras. Funcionário da Caixa Geral de Depósitos durante mais de trinta anos, Presidente da direcção da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, mesário da Misericórdia. “Sempre ouvi dizer que Antero de Quental assistiu à feitura destas pinturas por Mestre Peres. Ele falou disto a Jaime Batalha Reis numa carta. Esse pintor também esteve na Igreja da Ponte do Rol. Ainda hoje tem família em Torres Vedras, a Cesária Hipólito, o Alberto Peres Alves…”
Nessa visita não tirei fotografias, apenas alguns apontamentos. Dois anos depois o senhor Mota morreu. Não voltei a ver as pinturas mas pensava nelas amiúde e na necessidade de guardar um registo fotográfico de qualidade para o Arquivo Municipal. A oportunidade surgiu agora, em conversa com amigos em Santa Cruz, e logo me foi dada a ligação com a filha do Sr. Mota, dona Maria Manuela. De novo fui bem recebido, desta vez com um amigo munido de máquina para o necessário registo. E o encanto renovou-se. Apesar da ingenuidade da composição, o conjunto tem um poderoso efeito evocativo. Santa Cruz, há 140 anos, era assim. | JMD
«A povoação reduzia-se então a poucas casas espalhadas sobre as arribas, como se sabe muito pitorescas, altas e de estratos vivamente coloridos, donde, para noroeste, se avista Peniche, ao largo a Berlenga.» (Jaime Batalha Reis, Gazeta de Torres, 5/5/1929.)
Penedo do Guincho
Casa actual da família Mota, em Santa Cruz
Pela observação da pintura principal, podemos identificar a ermida de Santa Helena, com a cruz na empena, fachada diferente da actual. Identifica-se também a casa da família Mota, na parte esquerda da pintura, que na altura tinha uma porta ao meio e três janelas de cada lado.
.............................................................................................................................
ANTERO EM SANTA CRUZ
(Jaime Batalha Reis na “Gazeta de Torres”, 5/5/1929, excertos *)
«Em 1870, Antero de Quental e eu vivíamos juntos em Lisboa. No mês de Agosto fomos, por alguns dias, para casa de meu Pai no Turcifal, e, em seguida passar dois meses à Praia, então quase desconhecida, de Santa Cruz.» (…)
«Morávamos numa casinhola térrea, das últimas habitações, ao sul, que voltava as costas a todas as outras, de telha vã e adobes rebocados, porta sempre aberta para um campo valado por piteiras, à beira duma quebrada profunda, por onde, de inverno a água corria em torrente. O pequenino prédio pertencia ao Francisco Banheiro que, com a Madalena, sua mulher, nos tratava dos quartos, da cozinha e da roupa.»
«São de Santa Cruz alguns dos Sonetos filosóficos, entre eles me parece o Justitia mater em que se cita o mar:
No espaço constelado passa o vulto / Do inominado Alguém que os sois aviva: / No mar ouve-se a voz grave e aflitiva / Dum Deus que luta, poderoso e inculto.»
«(…) Tinha em Torres Vedras um antigo companheiro de Universidade, — o Dr. Philemon da Silva Avelino, que às vezes nos aparecia em Santa Cruz, e gostava muito o Antero de conversar com o Francisco Banheiro, a quem contava casos das Ilhas dos Açores, que este, interessado, escutava e comentava com gestos vagos e misteriosos para o mar.»
* Transcrito em fac-simile na revista “TORRES CULTURAL”, nº 4, Nov. 1991
.............................................................................................................................
Outras imagens:27.8.10
REDESCOBRIR A CIÊNCIA
LEITURAS DE VERÃO
REDESCOBRIR A CIÊNCIA
Para muitos de nós a Ciência é um território interdito: os progressos da investigação ao longo do século XX criaram uma barreira quase intransponível para o vulgar cidadão. Por isso nunca foi tão grande a distância entre o saber comum e o saber científico.
E no entanto a Ciência, com a tecnologia que nela se baseia, é a base da vida actual. Novos materiais, recursos médicos, electrotecnia, informática, produtos alimentares, genética… - são inúmeras as aplicações das descobertas científicas que acontecem todos os dias e de que raramente temos conhecimento. Neste campo fazemos a figura do indígena do filme “Os Deuses Devem Estar Loucos”.
Muitas vezes desejei encontrar um guia de viagem que me permitisse aventurar no país da Ciência, sem me perder e evitando becos e atalhos inúteis, ciente de que os meus estudos de há quarenta anos estavam mais que antiquados. É certo que em tempos descobri os maravilhosos livros de divulgação científica das Publicações Gradiva, de que Carl Sagan com “Os Dragões do Eden” ou “Cosmos” são exemplos brilhantes. Mas faltava-me um livro-síntese dos saberes. Uma obra cientificamente rigorosa, bem fundamentada, actual e que resumisse o percurso de cada ramo da Ciência; e que, simultaneamente, tivesse linguagem acessível à minha condição de leigo nas matérias. Esse livro, felizmente, existe. Encontrei-o há meia dúzia de anos e encheu-me as medidas.
Chama-se “Breve História de Quase Tudo”, da autoria de Bill Bryson, editado pela Quetzal Editores em 2004 e distinguido com o Prémio Aventis 2004 para melhor obra de divulgação científica (atribuído anualmente pela Real Sociedade das Ciências de Inglaterra).
Não se trata de um pesado tijolo de papel, repleto de dados e equações, esquemas e enumerações sem fim. Pelo contrário: é uma abordagem muito inteligente da Ciência, recorrendo a exemplos sugestivos e não descurando o humor. Para os mais exigentes não falta, no final, uma boa Bibliografia e um Índice Remissivo.
Agosto vai alto e pode ser uma boa altura para pôr em dia as leituras atrasadas. Ou para variar, indo ao encontro de outros saberes e experiências. Bill Bryson é um mestre da boa divulgação científica e lê-lo não é perder tempo.
A partir deste primeiro livro, fui em busca de outros do autor, na mesma editora. Continuei encantado: trata-se de relatos de viagem, muito bem escritos, cheios de humor e perspicácia, juntando informações pertinentes da História, Geografia ou Antropologia dos lugares visitados. Deliciei-me com “Made in América”, e “Crónicas de uma Pequena Ilha”. Faltam-me mais três que deixo ao leitor o cuidado de descobrir, caso tenha ficado curioso com estas despretensiosas sugestões de leituras de Verão. | JMD
....................................................................................................
DO LIVRO “BREVE HISTÓRIA DE QUASE TUDO”
«Hoje em dia, os astrónomos podem fazer coisas inacreditáveis. Por exemplo, se alguém acendesse um fósforo na Lua, eles seriam capazes de distinguir a chama. A partir da mais pequena pulsação ou oscilação de astros distantes conseguem deduzir o tamanho, a natureza e até a potencial habitabilidade de planetas demasiado longínquos para serem visíveis por nós. Planetas tão distantes, que precisaríamos de meio milhão de anos de viagem em nave espacial para lá chegar. Com os seus radiotelescópios conseguem capturar ondas de radiação tão incrivelmente ténues que o total de energia recolhida do exterior do sistema solar, desde que essa recolha foi iniciada (eml951), é, nas palavras de Carl Sagan, "inferior à energia de um simples floco de neve a bater no solo".
Resumindo, não há quase nada no universo que os astrónomos não consigam detectar quando resolvem fazê-lo. Daí que pareça inacreditável que só em 1978 se tenha descoberto que Plutão tem uma lua.»
Outro exemplo do estilo de escrita do autor encontramo-lo no texto em que trata do átomo, essa partícula invisível a olho nu e que é a base da matéria:
«Meio milhão de átomos, lado a lado, poderiam esconder-se por trás de um cabelo humano (…) se quisesse ver a olho nu uma paramécia a nadar numa gota de água, teria de aumentar a gota até esta ter 12 metros de largura. No entanto, se quisesse ver os átomos na mesma gota, teria de a aumentar até ela ter 24 quilómetros de largura».
....................................................................................................
CIÊNCIA E POESIA
António Gedeão (1906 - 1997 ) foi poeta mas também divulgador de Ciência. A sua escrita e o seu magistério docente mostraram a unidade fundamental do Homem, provando que entre a emoção poética e o rigor científico não há oposição mas complementaridade.
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
Gota de Água
Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.
Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.
Amostra sem valor
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
................................................................................................
Página dedicada ao meu filho João Daniel, que faz hoje 29 anos e escolheu a Ciência como lugar e realização de vida.
30.7.10
Beethoven - Sexta sinfonia - la "Pastorale"
https://youtu.be/dbfa86bTD34
Desejando dias bons aos meus leitores,
a "Pastoral" para ouvir nestes dias de Verão.
Marcadores:
A Pastoral de Beethoven
20.7.10
NÃO ESQUECER OS NOSSOS CLÁSSICOS
Página LUGAR ONDE, semanário BADALADAS, Torres Vedras, 23 JULHO 2010
........................................
(in: http://www.camilocastelobranco.org/
LEITURAS PARA O VERÃO: os nossos clássicos
CAMILO CASTELO BRANCO
Um grande livro do nosso século XIX tem por título «Memórias do Cárcere». Não é um romance, é um conjunto de recordações, magnificamente escritas por um homem preso durante um ano numa enxovia da Relação do Porto e que aproveitou o tempo para conhecer e relatar as vidas de outros presos. Falo de Camilo Castelo Branco, que ali conheceu José do Telhado – o salteador que já recebera a Torre e Espada -, de quem relata a história. Camilo que teve a suprema distinção de ali ser visitado pelo Rei D. Pedro V, em 23 de Novembro de 1860.
A propósito, recordo o professor Reis Brasil, que lia «O Amor de Perdição» nas aulas e chorava sempre na última página, quando Mariana salta para o mar e se afunda abraçada ao cadáver de Simão. E também Aquilino Ribeiro e o seu «O Romance de Camilo», escrito em 1957. Com ele redescobri o caminho para o escritor/personagem que em si próprio escavava a matéria das suas histórias. Mas foi com Teixeira de Pascoaes, em «O Penitente», publicado em 1959, - páginas comoventes e impressivas sobre a tragédia e a farsa de um homem que ousou viver da escrita depois de desafiar as hipocrisias de uma sociedade empalhada – que melhor me apercebi da espantosa envergadura de Camilo. Longe de ser um homem eticamente exemplar, é a sua humanidade contraditória que, ali, toda se revela e nos fascina.
Quem lê hoje Camilo Castelo Branco? E Aquilino? E Pascoaes? Aflige-me a indiferença pelos nossos clássicos, que a Escola mal consegue enfrentar. E, no entanto, Camilo é um dos mais prodigiosos criadores da nossa Língua, como ainda há pouco confirmei com a leitura de um dos seus livros menos conhecidos, «Coração, Cabeça e Estômago», (nº 240 dos Livro de Bolso Europa-América).
Vale a pena voltar aos nossos clássicos. Camilo, por exemplo. Ou Aquilino e Pascoaes, igualmente dois vastíssimos e inesgotáveis continentes da escrita. Eles são, além do mais, a casa-forte do nosso maior tesouro cultural: a Língua Portuguesa. | MD
SOBRE CAMILO
«Os seus livros são hoje mais do que os seus anos; os seus lanços romanescos, mais do que os seus cabelos brancos. Raro escritor numa língua terá atingido, nos lavores do estilo, a contextura sóbria, mágica e resistente que ele tem conseguido, sabendo amoldar a palavra a todas as exigências do assunto, forçando-a, naturalmente, a todos os brinquedos da imaginação, podendo à vontade ser quinhentista por convicção, ou realista por troça, para se divertir com a indignação literária dos outros e ter ensejo de se medir depois com eles em combate singular.»
(Guilherme de Azevedo, Álbum das Glórias, Ed. Frenesi, Lisboa, 2003)
«Camilo, para mim, é um autor sagrado. Amo-o com todos os seus defeitos e virtudes. Não distingo as suas páginas, roubadas à Bíblia, de outras plagiadas ao lugar-comum da literatura romântica. Não sou dos que blasfemam de Deus, por ele ter criado as moscas.
Amo-o porque se entregou todo à sua obra, como as crianças se entregam aos seus brinquedos. E, por isso, os bonecos vivem nas suas mãos.» (Teixeira de Pascoaes, O Penitente, Assírio & Alvim, 2002)
«Nasceu Camilo com um extraordinário talento de narrador. Assim geralmente começa o seu romance por ser uma narrativa empolgante, que até por isso mesmo compartilha, não há que negá-lo, do que preferimos hoje chamar de novela, e por outro lado se aparenta ao que chamamos folhetim. O bom êxito do romance camiliano vem em muito desse seu carácter de narrativa apaixonante, folhetinesca, espectacular e viva.» (José Régio, Ensaios de Interpretação Crítica)
«Para suportar Camilo Castelo Branco como cidadão e como escritor, usou-se tudo que está em iminência no coração e na inteligência: usou-se a piedade, o humor e a razão prática. Mas ele resiste a tudo. É um homem livre e fantasioso. Pessoas assim acabam mal e deixam às vezes uma obra que se pode imitar, mas que não serve senão para o recordar mais ainda naquilo que se não copia: o génio.»
(Agustina Bessa-Luís, Camilo, génio e figura)
.......................................
UMA PÁGINA DE CAMILO
“- O meu amigo Faustino Xavier de Novais conheceu perfeitamente aquele nosso amigo Silvestre da Silva…
- Ora, se conheci!... Como está ele?
- Está bem: está enterrado há seis meses.
- Morreu?!
- Não morreu, meu caro Novais. Um filósofo não deve aceitar no seu vocabulário a palavra morte, se não convencionalmente. Não há morte. O que há é metamorfose, transformação, mudança de feitio. Pergunta tu ao doutíssimo poeta José Feliciano de Castilho o destino que tem a matéria. Dir-te-á a teu respeito o que disse de Ovídio, sujeito que não era mais material que tu e que o nosso amigo Silvestre da Silva. «Ovídio cadáver», pergunta o sábio, «onde é que pára? Tudo isso corre fados misteriosos, como Adão, como Noé, como Rómulo, como nossos pais, como nós, como nossos filhos, rolando pelos oceanos, flutuando nos ares, manando nas fontes, correndo nos rios, agregado nas pedras, sumido nas minas, misturado nos solos, viçando nas ervas, rindo nas flores, recendendo nos frutos, cantando nos bosques, rugindo nas matas, rojando dos vulcões, etc. »Isto, a meu ver, é exacto e, sobretudo, consolador. O nosso amigo Silvestre da Silva, a esta hora, anda repartido em partículas. Aqui faz parte da garganta dum rouxinol; além, é pétala duma tulipa; acolá, está consubstanciado num olho de alface; pode ser até que eu o esteja bebendo neste copo de água que tenho à minha beira e que tu o encontres nos sertões da América, alguma vez, transfigurado em cobra-cascavel, disposto a comer-te, meu Faustino.” (“Coração, Cabeça e Estômago”, Camilo C Branco)
A CASA DE CAMILO
Em S. Miguel de Ceide, a meia dúzia de quilómetros de Famalicão, a casa amarela não é mais uma residência senhorial de antigos fidalgos semelhante a tantas outras do país rural. Hoje, é um espaço obrigatório de visita, lugar de recordações e de conhecimento da vida e obra de Camilo, autor de “O Amor de Perdição” e de outros romances capazes de resgatar uma literatura como “A queda de um anjo” (1866), “A bruxa do Monte Córdova” (1867) ou, ainda, “Memórias do cárcere”. (in: http://www.camilocastelobranco.org/
Amazon já vende mais 'e-books' do que livros impressos - Ciência - DN
Amazon já vende mais 'e-books' do que livros impressos - Ciência - DN
A leitura será sempre uma das actividades humanas mais frequentes, não tenho dúvidas. O suporte é que será diferente. Já houve o tempo dos tijolos de argila, das tabuinhas de cera, do papiro, dos rolos de pergaminho... Agora estamos ainda no papel. Mas daqui a vinte anos?
O futuro está a chegar em grandes passadas...
A leitura será sempre uma das actividades humanas mais frequentes, não tenho dúvidas. O suporte é que será diferente. Já houve o tempo dos tijolos de argila, das tabuinhas de cera, do papiro, dos rolos de pergaminho... Agora estamos ainda no papel. Mas daqui a vinte anos?
O futuro está a chegar em grandes passadas...
30.6.10
22.6.10
DISCURSO DE JOSÉ SARAMAGO NA ENTREGA DO NOBEL
De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz
O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animalzinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável. Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que accionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algunas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira." Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para todas as pessoas da casa, a figueira. Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz nocturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?" Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas. Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tijela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranquilizava : "Não faças caso, em sonhos não há firmeza". Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quanto o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não podería significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolaçao da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.
Muitos anos depois, escrevendo pela primeira vez sobre este meu avô Jerónimo e e esta minha avó Josefa (faltou-me dizer que ela tinha sido, no dizer de quantos a conheceram quando rapariga, de uma formosura invulgar), tive consciência de que estava a transformar as pessoas comuns que eles haviam sido em personagens literárias e que essa era, provavelmente, a maneira de não os esquecer, desenhando e tornando a desenhar os seus rostos com o lápis sempre cambiante da recordação, colorindo e iluminando a monotonia de um quotidiano baço e sem horizontes, como quem vai recriando, por cima do instável mapa da memória, a irrealidade sobrenatural do país em que decidiu passar a viver. A mesma atitude de espírito que, depois de haver evocado a fascinante e enigmática figura de um certo bisavô berbere, me levaria a descrever mais ou menos nestes termos um velho retrato (hoje já com quase oitenta anos) onde os meus pais aparecem: "Estão os dois de pé, belos e jovens, de frente para o fotógrafo, mostrando no rosto uma expressão de solene gravidade que é talvez temor diante da câmara, no instante em que a objectiva vai fixar, de um e do outro, a imagem que nunca mais tornarão a ter, porque o dia seguinte será implacavelmente outro dia... Minha mãe apoia o cotovelo direito numa alta coluna e segura na mão esquerda, caída ao longo do corpo, uma flor. Meu pai passa o braço por trás das costas de minha mãe e a sua mão calosa aparece sobre o ombro dela como uma asa. Ambos pisam acanhados um tapete de ramagens. A tela que serve de fundo postiço ao retrato mostra umas difusas e incongruentes arquitecturas neoclássicas". E terminava: "Um dia tinha de chegar em que contaria estas coisas. Nada disto tem importância, a não ser para mim. Um avô berbere, vindo do Norte de Àfrica, um outro avô pastor de porcos, uma avó maravilhosamente bela, uns pais graves e formosos, uma flor num retrato - que outra genealogia pode importar-me? a que melhor árvore me encostaria?"
Escrevi estas palavras há quase trinta anos, sem outra intenção que não fosse reconstituir e registar instantes da vida das pessoas que me geraram e que mais perto de mim estiveram, pensando que nada mais precisaria de explicar para que se soubesse de onde venho e de que materiais se fez a pessoa que comecei por ser e esta em que pouco a pouco me vim tornando. Afinal, estava enganado, a biologia não determina tudo, e, quanto à genética, muito misteriosos deverão ter sido os seus caminhos para terem dado uma volta tão larga... À minha árvore genealógica (perdôe-se-me a presunção de a designar assim, sendo tão minguada a substância da sua seiva) não faltavam apenas alguns daqueles ramos que o tempo e os sucessivos encontros da vida vão fazendo romper do tronco central, também lhe faltava quem ajudasse as suas raízes a penetrar até às camadas subterrâneas mais fundas, quem apurasse a consistência e o sabor dos seus frutos, quem ampliasse e robustecesse a sua copa para fazer dela abrigo de aves migrantes e amparo de ninhos. Ao pintar os meus pais e os meus avós com tintas de literatura, transformando-os, de simples pessoas de carne e osso que haviam sido, em personagens novamente e de outro modo construtoras da minha vida, estava, sem o perceber, a traçar o caminho por onde as personagens que viesse a inventar, as outras, as efectivamente literárias, iriam fabricar e trazer-me os materiais e as ferramentas que, finalmente, no bom e no menos bom, no bastante e no insuficiente, no ganho e no perdido, naquilo que é defeito mas também naquilo é excesso, acabariam por fazer de mim a pessoa em que hoje me reconheço: criador dessas personagens, mas, ao mesmo tempo, criatura delas. Em certo sentido poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo, sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que, sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a minha vida não tivesse logrado ser mais do que um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras que de promessa não conseguiram passar, a existência de alguém que talvez pudesse ter sido e afinal não tinha chegado a ser.
Agora sou capaz de ver com clareza quem foram os meus mestres de vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de viver, essas dezenas de personagens de romance e de teatro que neste momento vejo desfilar diante dos meus olhos, esses homens e essas mulheres feitos de papel e de tinta, essa gente que eu acreditava ir guiando de acordo com as minhas conveniências de narrador e obedecendo à minha vontade de autor, como títeres articulados cujas acções não pudessem ter mais efeito em mim que o peso suportado e a tensão dos fios com que os movia. Desses mestres, o primeiro foi, sem dúvida, um medíocre pintor de retratos que designei simplesmente pela letra H., protagonista de uma história a que creio razoável chamar de dupla iniciação (a dele, mas também, de algum modo, do autor do livro), intitulada Manual de Pintura e Caligrafia, que me ensinou a honradez elementar de reconhecer e acatar, sem ressentimento nem frustração, os meus próprios limites: não podendo nem ambicionando aventurar-me para além do meu pequeno terreno de cultivo, restava-me a possibilidade de escavar para o fundo, para baixo, na direcção das raízes. As minhas, mas também as do mundo, se podia permitir-me uma ambição tão desmedida. Não me compete a mim, claro está, avaliar o mérito do resultado dos esforços feitos, mas creio ser hoje patente que todo o meu trabalho, de aí para diante, obedeceu a esse propósito e a esse princípio.
Vieram depois os homens e as mulheres do Alentejo, aquela mesma irmandade de condenados da terra a que pertenceram o meu avô Jerónimo e a minha avó Josefa, componeses rudes obrigados a alugar a força dos braços a troco de um salário e de condições de trabalho que só mereceriam o nome de infames, cobrando por menos que nada a vida a que os seres cultos e civilizados que nos prezamos de ser apreciamos chamar, segundo as ocasiões, preciosa, sagrada ou sublime. Gente popular que conheci, enganada por uma Igreja tão cúmplice como beneficiária do poder do Estado e dos terratenentes latifundistas, gente permanentemente vigiada pela polícia, gente, quantas e quantas vezes, vítima inocente das arbitrariedades de uma justiça falsa. Três gerações de uma família de componeses, os Mau-Tempo, desde o começo do século até à Revolução de Abril de 1974 que derrubou a ditadura, passam nesse romance a que dei o título de Levantado do Chão, e foi com tais homens e mulheres do chão levantados, pessoas reais primeiro, figuras de ficção depois, que aprendi a ser paciente, a confiar e a entregar-me ao tempo, a esse tempo que simultaneamente nos vai construindo e destruindo para de novo nos construir e outra vez nos destruir. Só não tenho a certeza de haver assimilado de maneira satisfatória aquilo que a dureza das experiências tornou virtude nessas mulheres e nesses homens: uma atitude naturalmente estóica perante a vida. Tendo em conta, porém, que a liçao recebida, passados mais de vinte anos, ainda permanece intacta na minha memória, que todos os dias a sinto presente no meu espírito como uma insistente convocatória, não perdi, até agora, a esperança de me vir a tornar um pouco mais merecedor da grandeza dos exemplos de dignidade que me foram propostos na imensidão das planícies do Alentejo. O tempo o dirá.
Que outras lições poderia eu receber de um português que viveu no século XVI, que compôs as Rimas e as glórias, os naufrágios e os desencantos pátrios de Os Lusíadas, que foi um génio poético absoluto, o maior da nossa Literatura, por muito que isso pese a Fernando Pessoa, que a si mesmo se proclamou como o Super-Camões dela? Nenhuma lição que estivesse à minha medida, nenhuma lição que eu fosse capaz de aprender, salvo a mais simples que-me poderia ser oferecida pelo homem Luís Vaz de Camões na sua estreme humanidade, por exemplo, a humildade orgulhosa de um autor que vai chamando a todas as portas à procura de quem esteja disposto a publicar-lhe o livro que escreveu, sofrendo por isso o desprezo dos ignorantes de sangue e de casta, a indiferença desdenhosa de um rei e da sua companhia de poderosos, o escárnio com que desde sempre o mundo tem recebido a visita dos poetas, dos visionários e dos loucos. Ao menos uma vez na vida, todos os autores tiveram ou terão de ser Luís de Camões, mesmo se não escreveram as redondilhas de Sôbolos rios... Entre fidalgos da corte e censcores do Santo Ofício, entre os amores de antanho e as desilusões da velhice prematura, entre a dor de escrever e a alegria de ter escrito, foi a este homem doente que regressa pobre da Índia, aonde muitos só iam para enriquecer, foi a este soldado cego de um olho e golpeado na alma, foi a este sedutor sem fortuna que não voltará nunca mais a perturbar os sentidos das damas do paço, que eu pus a viver no palco da peça de teatro chamada Que farei com este livro?, em cujo final ecoa uma outra pergunta, aquela que importa verdadeiramente, aquela que nunca saberemos se alguma vez chegará a ter resposta suficiente: "Que fareis com este livro?" Humildade orgulhosa, foi essa de levar debaixo do braço uma obra-prima e ver-se injustamente enjeitado pelo mundo. Humildade orgulhosa também, e obstinada, estar de querer saber para que irão servir amanhã os livros que andamos a escrever hoje, e logo duvidar que consigam perdurar longamente (até quando?) as razões tranquilizadoras que acaso nos estejam a ser dadas ou que estejamos a dar a nós próprios. Ninguém melhor se engana que quando consente que o enganem os outros...
Aproximam-se agora um homem que deixou a mão esquerda na guerra e uma mulher que veio ao mundo com o misterioso poder de ver o que há por trás da pele das pessoas. Ele chama-se Baltasar Mateus e tem a alcunha de Sete-Sóis, a ela conhecem-na pelo nome de Blimunda, e também pelo apodo de Sete-Luas que lhe foi acrescentado depois, porque está escrito que onde haja um sol terá de haver uma lua, e que só a presença conjunta e harmoniosa de um e do outro tornará habitável, pelo amor, a terra. Aproxima-se também um padre jesuíta chamado Bartolomeu que inventou uma máquina capaz de subir ao céu e voar sem outro combustível que não seja a vontade humana, essa que, segundo se vem dizendo, tudo pode, mas que não pôde, ou não soube, ou não quis, até hoje, ser o sol e a lua da simples bondade ou do ainda mais simples respeito. São três loucos portugueses do século XVIII, num tempo e num país onde floresceram as superstições e as fogueiras da Inquisição, onde a vaidade e a megalomania de um rei fizeram erguer um convento, um palácio e uma basílica que haveriam de assombrar o mundo exterior, no caso pouco provável de esse mundo ter olhos bastantes para ver Portugal, tal como sabemos que os tinha Blimunda para ver o que escondido estava... E também se aproxima uma multidão de milhares e milhares de homens com as mãos sujas e calosas, com o corpo exausto de haver levantado, durante anos a fio, pedra a pedra, os muros implacáveis do convento, as salas enormes do palácio, as colunas e as pilastras, as aéreas torres sineiras, a cúpula da basílica suspensa sobre o vazio. Os sons que estamos a ouvir são do cravo de Domenico Scarlatti, que não sabe se deve rir ou chorar... Esta é a história de Memorial do Convento, um livro em que o aprendiz de autor, graças ao que lhe vinha sendo ensinado desde o antigo tempo dos seus avós Jerónimo e Josefa, já conseguiu escrever palavras como estas, donde não está ausente alguma poesia: "Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem um coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu". Que assim seja.
De lições de poesia sabia já alguma coisa o adolescente, aprendidas nos seus livros de texto quando, numa escola de ensino profissional de Lisboa, andava a preparar-se para o ofício que exerceu no começo da sua vida de trabalho: o de serralheiro mecânico. Teve também bons mestres da arte poética nas longas horas nocturnas que passou em bibliotecas públicas, lendo ao acaso de encontros e de catálogos, sem orientação, sem alguém que o aconselhasse, com o mesmo assombro criador do navegante que vai inventando cada lugar que descobre. Mas foi na biblioteca da escola industrial que O Ano da Morte de Ricardo Reis começou a ser escrito... Ali encontrou um dia o jovem aprendiz de serralheiro (teria então 17 anos) uma revista - "Atena" era o título - em que havia poemas assinados com aquele nome e, naturalmente, sendo tão mau conhecedor da cartografia literária do seu país, pensou que existia em Portugal um poeta que se chamava assim: Ricardo Reis. Não tardou muito tempo, porém, a saber que o poeta propriamente dito tinha sido um tal Fernando Nogueira Pessoa que assinava poemas com nomes de poetas inexistentes nascidos na sua cabeça e a que chamava heterónimos, palavra que não constava dos dicionários da época, por isso custou tanto trabalho ao aprendiz de letras saber o que ela significava. Aprendeu de cor muitos poemas de Ricardo Reis ("Para ser grande sê inteiro/Põe quanto és no mínimo que fazes"), mas não podia resignar-se, apesar de tão novo e ignorante, que um espírito superior tivesse podido conceber, sem remorso, este verso cruel: "Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo". Muito, muito tempo depois, o aprendiz, já de cabelos brancos e um pouco mais sábio das suas próprias sabedorias, atreveu-se a escrever um romance para mostrar ao poeta das Odes alguma coisa do que era o espectáculo do mundo nesse ano de 1936 em que o tinha posto a viver os seus últimos dias: a ocupaçao da Renânia pelo exército nazista, a guerra de Franco contra a República espanhola, a criação por Salazar das milícias fascistas portuguesas. Foi como se estivesse a dizer-lhe: "Eis o espectáculo do mundo, meu poeta das amarguras serenas e do cepticismo elegante. Disfruta, goza, contempla, já que estar sentado é a tua sabedoria...".
O Ano da Morte de Ricardo Reis terminava com umas palavras melancólicas: "Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera". Portanto, não haveria mais descobrimentos para Portugal, apenas como destino uma espera infinita de futuros nem ao menos imagináveis: só o fado do costume, a saudade de sempre, e pouco mais... Foi então que o aprendiz imaginou que talvez houvesse ainda uma maneira de tornar a lançar os barcos à água, por exemplo, mover a própria terra e pô-la a navegar pelo mar fora. Fruto imediato do ressentimento colectivo português pelos desdéns históricos de Europa (mais exacto seria dizer fruto de um meu ressentimento pessoal...), o romance que então escrevi - A Jangada de Pedra - separou do continente europeu toda a Península Ibérica para a transformar numa grande ilha flutuante, movendo-se sem remos, nem velas, nem hélices em direcção ao Sul do mundo, "massa de pedra e terra, coberta de cidades, aldeias, rios, bosques, fábricas, matos bravios, campos cultivados, com a sua gente e os seus animais", a caminho de uma utopia nova: o encontro cultural dos povos peninsulares com os povos do outro lado do Atlântico, desafiando assim, a tanto a minha estratégia se atreveu, o domínio sufocante que os Estados Unidos da América do Norte vêm exercendo naquelas paragens... Uma visão duas vezes utópica entenderia esta ficção política como uma metáfora muito mais generosa e humana: que a Europa, toda ela, deverá deslocar-se para o Sul, a fim de, em desconto dos seus abusos colonialistas antigos e modernos, ajudar a equilibrar o mundo. Isto é, Europa finalmente como ética. As personagens da Jangada de Pedra - duas mulheres, três homens e um cão - viajam incansavelmente através da península enquanto ela vai sulcando o oceano. O mundo está a mudar e eles sabem que devem procurar em si mesmos as pessoas novas em que irão tornar-se (sem esquecer o cão, que não é um cão como os outros...). Isso lhes basta.
Lembrou-se então o aprendiz de que em tempos da sua vida havia feito algumas revisões de provas de livros e que se na Jangada de Pedra tinha, por assim dizer, revisado o futuro, não estaria mal que revisasse agora o passado, inventando um romance que se chamaria História do Cerco de Lisboa, no qual um revisor, revendo um livro do mesmo título, mas de História, e cansado de ver como a dita História cada vez é menos capaz de surpreender, decide pôr no lugar de um "sim" um "não", subvertendo a autoridade das"verdades históricas". Raimundo Silva, assim se chama o revisor, é um homem simples, vulgar, que só se distingue da maioria por acreditar que todas as coisas têm o seu lado visível e o seu lado invisível e que não saberemos nada delas enquanto não lhes tivermos dado a volta completa. De isso precisamente se trata numa conversa que ele tem com o historiador. Assim: "Recordo-lhe que os revisores já viram muito de literatura e vida, O meu livro, recordo-lho eu, é de história, Não sendo propósito meu apontar outras contradições, senhor doutor, em minha opinião tudo quanto não for vida é literatura, A história também. A história sobretudo, sem querer ofender, E a pintura, e a música, A música anda a resistir desde que nasceu, ora vai, ora vem, quer livrar-se da palavra, suponho que por inveja, mas regressa sempre à obediência, E a pintura, Ora, a pintura não é mais do que literatura feita com pincéis, Espero que não esteja esquecido de que a humanidade começou a pintar muito antes de saber escrever, Conhece o rifão, se não tens cão caça com o gato, ou, por outras palavras, quem não pode escrever, pinta, ou desenha, é o que fazem as crianças, O que você quer dizer, por outras palavras, é que a literatura já existia antes de ter nascido, Sim senhor, como o homem, por outras palavras, antes de o ser já o era, Quer-me parecer que você errou a vocação, devia era ser historiador, Falta-me o preparo, senhor doutor, que pode um simples homem fazer sem o preparo, muita sorte já foi ter vindo ao mundo com a genética arrumada, mas, por assim dizer, em estado bruto, e depois não mais polimento que primeiras letras que ficaram únicas, Podia apresentar-se como autodidacta, produto do seu próprio e digno esforço, não é vergonha nenhuma, antigamente a sociedade tinha orgulho nos seus autodidactas, isso acabou, veio o desenvolvimento e acabou, os autodidactas são vistos com maus olhos, só os que escrevem versos e histórias para distrair é que estão autorizados a ser autodidactas, mas eu para a criação literária nunca tive jeito, Então, meta-se a filósofo, O senhor doutor é um humorista, cultiva a ironia, chego a perguntar-me como se dedicou à história, sendo ela tão grave e profunda ciência, Sou irónico apenas na vida real, Bem me queria a mim parecer que a história não é a vida real, literatura, sim, e nada mais, Mas a história foi vida real no tempo em que ainda não se lhe poderia chamar história, Então o senhor doutor acha que a história e a vida real, Acho, sim, Que a história foi vida real, quero dizer, Não tenho a menor dúvida, Que seria de nós se o deleatur que tudo apaga não existisse, suspirou o revisor". Escusado será acrescentar que o aprendiz aprendeu com Raimundo Silva a lição da dúvida. Já não era sem tempo.
Ora, foi provavelmente esta aprendizagem da dúvida que o levou, dois anos mais tarde, a escrever O Evangelho segundo Jesus Cristo. É certo, e ele tem-no dito, que as palavras do título lhe surgiram por efeito de uma ilusão de óptica, mas é legítimo interrogar-nos se não teria sido o sereno exemplo do revisor o que, nesse meio tempo, lhe andou a preparar o terreno de onde haveria de brotar o novo romance. Desta vez não se tratava de olhar por trás das páginas do Novo Testamento à procura de contrários, mas sim de iluminar com uma luz rasante a superfície delas, como se faz a uma pintura, de modo a fazer-lhe ressaltar os relevos, os sinais de passagem, a obscuridade das depressões. Foi assim que o aprendiz, agora rodeado de personagens evangélicas, leu, como se fosse a primeira vez, a descrição da matança dos Inocentes, e, tendo lido, não compreendeu. Não compreendeu que já pudesse haver mártires numa religião que ainda teria de esperar trinta anos para que o seu fundador pronunciasse a primeira palavra dela, não compreendeu que não tivesse salvado a vida das crianças de Belém precisamente a única pessoa que o poderia ter feito, não compreendeu a ausência, em José, de um sentimento mínimo de responsabilidade, de remorso, de culpa, ou sequer de curiosidade, depois de voltar do Egipto com a família. Nem se poderá argumentar, em defesa da causa, que foi necessário que as crianças de Belém morressem para que pudesse salvar-se a vida de Jesus: o simples senso comum, que a todas as coisas, tanto às humanas como às divinas, deveria presidir, aí está para nos recordar que Deus não enviaria o seu Filho à terra, de mais a mais com o encargo de redimir os pecados da humanidade, para que ele viesse a morrer aos dois anos de idade degolado por um soldado de Herodes... Nesse Evangelho, escrito pelo aprendiz com o respeito que merecem os grandes dramas, José será consciente da sua culpa, aceitará o remorso em castigo da falta que cometeu e deixar-se-á levar à morte quase sem resistência, como se isso lhe faltasse ainda para liquidar as suas contas com o mundo. O Evangelho do aprendiz não é, portanto, mais uma lenda edificante de bem-aventurados e de deuses, mas a história de uns quantos seres humanos sujeitos a um poder contra o qual lutam, mas que não podem vencer. Jesus, que herdará as sandálias com que o pai tinha pisado o pó dos caminhos da terra, também herdará dele o sentimento trágico da responsabilidade e da culpa que nunca mais o abandonará, nem mesmo quando levantar a voz do alto da cruz: " Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez", por certo referindo-se ao Deus que o levara até ali, mas quem sabe se recordando ainda, nessa agonia derradeira, o seu pai autêntico, aquele que, na carne e no sangue, humanamente o gerara. Como se vê, o aprendiz já tinha feito uma larga viagem quando no seu herético Evangelho escreveu as últimas palavras do diálogo no templo entre Jesus e o escriba: "A culpa é um lobo que come o filho depois de ter devorado o pai, disse o escriba, Esse lobo de que falas já comeu o meu pai, disse Jesus, Então só falta que te devore a ti, E tu, na tua vida, foste comido, ou devorado, Não apenas comido e devorado, mas vomitado, respondeu o escriba".
Se o Imperador Carlos Magno não tivesse estabelecido no Norte da Alemanha um mosteiro, se esse mosteiro não tivesse dado origem à cidade de Münster, se Münster não tivesse querido assinalar os mil e duzentos anos da sua fundação com uma ópera sobre a pavorosa guerra que enfrentou no século XVI protestantes anabaptistas e católicos, o aprendiz não teria escrito a peça de teatro a que chamou In Nomine Dei. Uma vez mais, sem outro auxílio que a pequena luz da sua razão, o aprendiz teve de penetrar no obscuro labirinto das crenças religiosas, essas que com tanta facilidade levam os seres humanos a matar e a deixar-se matar. E o que viu foi novamente a máscara horrenda da intolerância, uma intolerância que em Münster atingiu o paroxismo demencial, uma intolerância que insultava a própria causa que ambas as partes proclamavam defender. Porque não se tratava de uma guerra em nome de dois deuses inimigos, mas de uma guerra em nome de um mesmo deus. Cegos pelas suas próprias crenças, os anabaptistas e os católicos de Münster não foram capazes de compreender a mais clara de todas as evidências: no dia do Juízo Final, quando uns e outros se apresentarem a receber o prémio ou o castigo que mereceram as suas acções na terra, Deus, se em suas decisões se rege por algo parecido à lógica humana terá de receber no paraíso tanto a uns como aos outros, pela simples razão de que uns e outros nele crêem. A terrível carnificina de Münster ensinou ao aprendiz que, ao contrário do que prometeram, as religiões nunca serviram para aproximar os homens, e que a mais absurda de todas as guerras é uma guerra religiosa, tendo em consideração que Deus não pode, ainda que o quisesse, declarar guerra a si próprio...
Cegos. O aprendiz pensou: "Estamos cegos", e sentou-se a escrever o Ensaio sobre a Cegueira para recordar a quem o viesse a ler que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignidade do ser humano é todos os dias insultada pelos poderosos do nosso mundo, que a mentira universal tomou o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito que devia ao seu semelhante. Depois, aprendiz, como se tentasse exorcizar os monstros engendrados pela cegueira da razão, pôs-se a escrever a mais simples de todas as histórias: uma pessoa que vai à procura de outra pessoa apenas porque compreendeu que a vida não tem nada mais importante que pedir a um ser humano. O livro chama-se Todos os Nomes. Não escritos, todos os nossos nomes estão lá. Os nomes dos vivos e os nomes dos mortos.
Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiverem. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo
Marcadores:
José Saramago,
Nobel da Literatura 1998
Subscrever:
Mensagens (Atom)











