26.2.07

Um filme comovente







Entrei pela madrugada com «Diários de Che Guevara». Não tenho palavras. Pedi-as emprestadas a quem tão bem (d) escreveu este filme belísssimo:








DIÁRIOS DE CHE GUEVARA


Deixa o mundo mudar-te, e podes mudar o mundo!


«Diários de Che Guevara», que teve a sua estreia mundial em 2004, no Festival de Sundance, onde foi recebido com uma ovação em pé por parte dos espectadores, segue duas pessoas quando estas descobrem a rica e complexa topografia social e humana do continente americano latino. Em 1952, dois jovens argentinos, Ernesto Guevara (Gael García Bernal) e Alberto Granado (Rodrigo de la Serna), partiram numa viagem de estrada para descobrir a verdadeira América Latina. Ernesto é jovem de 23 anos estudante de medicina especialista em leprologia, e Alberto, de 29 anos, é bio-químico. Com um romântico sentido de aventura, os dois amigos deixam os seus confortáveis ambientes familiares em Buenos Aires em cima da motocicleta de Alberto, uma 1939 Norton 500, que recebe a alcunha "La Poderosa". Embora a motocicleta se avarie durante a sua jornada, eles continuam com recurso à boleia. À medida que se afastam cada vez mais da familiar e confortável Buenos Aires, os dois amigos tornam-se próximos como irmãos, unidos pela crença no progresso e no que a ciência e a medicina podem fazer pela região. Começam a conhecer uma diferente América Latina, através das pessoas que encontram na estrada, ao mesmo tempo que a variada geografia que encontram, de montanhas a desertos, de complacentes ricos a pessoas de pobreza extrema, começa a reflectir as suas próprias perspectivas em mudança. De mineiros sem casa a prostitutas de barco, de vítimas de lepra a pessoas prósperas, Ernesto e Alberto descobrem uma afinidade para a humanidade neles, e uma determinação para mudar o mundo. Durante a viagem de 8 meses e 8 mil quilómetros, partindo da Argentina, seguindo através dos Andes para o Chile, passando pelo deserto de Atacama para o Peru, em direcção a uma colónia de leprosos, até chegar à Venezuela, eles sobem às alturas de Machu Picchu, onde as majestosas ruínas e o extraordinário significado da herança Inca, destruída pelos invasores espanhóis, lhes causa um profundo impacto. Quando chegam à colónia de lepra de San Pablo, localizada nas profundezas da Amazónia peruana, os dois jovens começam a questionar o valor do progresso que é definido por sistemas económicos que deixam tantas pessoas na pobreza extrema e as oprime. As suas experiências na colónia despertam neles os homens que eles irão tornar-se mais tarde, ao definir a jornada política e ética que vão seguir nas suas vidas.





«OS DIÁRIOS DE CHE GUEVARA»

Belíssimo exemplo da viagem iniciática que deixa uma marca indelével na alma dos viajantes. Contornando o comercialmente aproveitador e erróneo título português, chegamos a um filme que conta a odisseia de Alberto e Ernesto através da América do Sul, maioritariamente feita na motocicleta que de poderosa só a ironia tinha. Contada com enorme sensibilidade humana (o desenvolvimento da amizade entre os dois e a consciência social larvar) e cromática (excelente a fotografia de Eric Gautier - e que paisagens recorta), esta história revela o estado das coisas numa América Latina artificialmente dividida pela política e pelos estratos sociais. São muito injustas algumas leituras do filme à luz de preconceitos políticos alicerçados na figura que se viria a tornar o Ernesto Guevara deste filme (o Che); leituras essas que, na minha opinião, turvam a visão daquilo que esta fita tem de essencial e que não é nada de panfletário. Mas ao contrário de muitas opiniões, considero este um filme altamente político. Não o serão todos os verdadeiros grandes filmes? Que outra forma igualmente potente existe de ser político do que ir ao âmago da consciência humana? Os actores têm um óptimo desempenho: se Garcia Bernal se cimenta como estrela latina maior da Meca do cinema, Rodrigo de la Serna é uma deliciosa revelação como o amigo Alberto Granado (de quem vislumbramos o rosto real na actualidade no final do filme - e os olhos que misturam desencanto com uma réstea de utopia). Referência final para o extraordinário epílogo a preto e branco condensando os retratos humanos daquela América sofredora, nitidamente influenciado pelo trabalho fotográfico de Sebastião Salgado.

Jorge Silva avidanaoeumsonho.blogspot.com




24.2.07

Vítor-Luís Grilo: novo livro






Intitula-se MEMÓRIA DE AGOSTO. Lançamento na Cooperativa de Comunicação e Cultura, hoje, às 17.30 H. Livrinho pequeno no formato mas com poemas intensos. Vítor dedica-o à memória de Ana Maria, sua mulher, que morreu repentinamente em Agosto de 2005.



TU FOSTE O INÍCIO

Ao sentir
penso em ti
e nas limpas madrugadas.
Tu foste o início.
Em ti se concentraram
palavras urgentes,
como trabalho ou vida.
A murta e o orégão
perfumam a casa.
Em sons de afecto escuto o vento.
À noite.


Acordar com um poema na cabeça...

Acontece! Abrir os olhos, de manhã e correr a procurar o poema que um dia se leu e ficou num desvão da memória. Com a Sophia este fenómeno é recorrente. Encontrei:

BRISA

Que branca mão na brisa se despede?
Que palavra de amor
A noite de Maio em si recebe e perde?

Desenha-te o luar como uma estátua
Que no tempo não fica

Quem poderá deter
O instante que não pára de morrer?








Vermeer conseguiu captar esse instante...

23.2.07

Zeca Afonso - Memórias de um artista cidadão

A minha pequena homenagem ao Zeca.

Zeca Afonso morreu há vinte anos.




Já passaram 20 anos! Recordo o funeral, em Setúbal, com uma enorme multidão e a nossa certeza de que o mundo iria ficar mais frio, mais pobre.

Com a devida vénia, transcrevo ( e subscrevo! ) as palavras de "O Jumento", sobre José Afonso:

Pelos seu sonhos e utopias porque vivemos tempos em que deixou de haver espaço para sonhar, as ideologias implodiram e a grandeza dos projectos políticos é medida pela reacção do PSI20. Talvez os tempos sejam outros, talvez a esquerda do Zeca tenha dado lugar a uma outra que é tanto melhor quanto mais eficaz for a aplicar o que a direita não conseguiria implementar, talvez o mundo já não seja o do Zeca Afonso, mas esse mesmo mundo está carente da generosidade, da ética, do desinteresse de muitos homens do tempo do Zeca, de muitos que estavam ao seu lado e de outros tantos que partilhando muitos dos seus valores estariam do outro lado.

Concorde-se ou não com as suas utopias, Zeca Afonso deixou-nos um legado de grandeza humana, de generosidade e de ética política que à medida que o país se dissolve na pequenez de muitos dos que se diz serem a classe política se agiganta cada vez mais. Para além de um grande poeta cantor, Zeca Afonso foi um dos grandes homens do seu tempo, um tempo em que havia homens grandes.

Tenho saudades do Zeca Afonso, da liberdade de sonhar, do prazer de se poder ter utopias, dum país onde os valores eram mais importantes que a percentagem do PIB que viaja no avião do primeiro-ministro e onde havia mais igualdade por maiores que fossem as desigualdades.

21.2.07

Vale mais tarde...

Pela primeira vez: Praia do Castelejo, no concelho de Vila do Bispo (Algarve), já na costa vicentina, litoral oeste. A foto não diz o quão belo é o lugar.

E o peixe fresco no restaurantezinho lá do sítio?
E os amigos que lá me levaram?


15.2.07

SOPAS DE PEDRA




É uma iniciativa do Arquivo Municipal e do Museu Municipal Leonel Trindade. A ideia é reunir à volta de um jantar nos Claustros do Convento da Graça pessoas interessadas nos assuntos que se anunciam:

Dia 9 de Março: «Águas limpas...Águas sujas»

Dia 16 de Março: «A simbologia monumental da água»

Dia 23 de Março: «O chafariz dos Canos»

Em cada dia estará presente um convidado que fará uma exposição inicial.

Inscrições no Arquivo Municipal. 10 € / refeição. Inscrição para os três jantares: 25 €.

Ninguém me encomendou a publicidade. Mas como acho que vale a pena...

OS MENINOS DA AVÓ

É o título de um blogue que tem a paixão da divulgação de boa literatura. Sediado em Sintra, organiza encontros sobre autores e textos literários.
Um dia destes faço-me convidado.

Transcrevo um belo texto de Vinícius de Morais, que dedico aos amigos que por aqui passam:


Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicious de Moraes

OS GUARDADORES DO TEMPO







António Augusto Sales escreveu uma magnífica crónica sobre a vida cultural de uma pequena cidade de província ao longo do séculos XIX e XX, Torres Vedras. Propunha-se abordar apenas a história do teatro amador mas a consulta exaustiva da imprensa local e documentação avulsa fê-lo alargar o horizonte. O resultado é este livro que é o oposto dos ( por vezes...) enfadonhos ensaios históricos para especialistas. A.A. Sales escreve como um repórter de rua que dá conta de uma fantástica viagem no tempo. Ele esteve lá e narra o que viu!

A edição, lançada em Janeiro de 2007, é da Câmara Municipal de Torres Vedras e faz parte da colectânea "H - Linhas de Torres", constituída por estudos sobre a História torriense. Este já é o número 8 da colecção, a não perder por quem gosta de História Local. E que belo título: OS GUARDADORES DO TEMPO.

14.2.07

AINDA O MARCELO ... salvo seja.

Houve quem não gostasse do que escrevi há tempos sobre o Conselheiro de Estado Marcelo Rebelo de Sousa.
Então leia este pedaço de prosa que saíu há dias no jornal «Público», da autoria da Helena Matos. Parece que há mais gente a ficar farta daquela "banha da cobra" que ele vende semanalmente na televisão pública...


«Depois de termos sobrevivido à desilusão de percebermos que a saudade não é um exclusivo nacional, que não existem linces na Malcata e que já nem somos os únicos a cozinhar bacalhau, consola-nos descobrir que temos um novo ícone da singularidade lusa: o professor Marcelo. Como bem se percebe, o professor Marcelo nada tem a ver com o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa. O professor Marcelo não é uma pessoa. É um posto. Os romanos, povo de sentido indiscutivelmente prático - quem senão eles poderia chamar Primeiro, Segundo ou Terceiro aos filhos? -, acharam por bem criar um cargo que, à falta de mais pacífica designação, adquiriu o nome de quem o ocupava. Falo obviamente dos césares. Portugal não é o Império Romano, logo não falamos de césares e pretorianos mas sim do que disse o professor Marcelo, essa espécie de holograma que ora nos narra tudo o que fez nos últimos sete dias - e esse tudo implica pelo menos um concerto na Baviera e uma palestra em terras de Basto, uma aula sobre Direito em Luanda, três pareceres, duas apresentações de livros e um jogo de futebol - ora nos enreda nas voltas e contravoltas do seu raciocínio tão narcísico quanto hiperactivo. Nas palavras do professor Marcelo os crimes não têm pena e o "não" passa a "sim". Mas nada disto importa porque o professor Marcelo usa as palavras como outros deitam cartas. Mais do que o explicador de Portugal ao povo e às crianças, ele é o grande ilusionista da nação.» [Público]

12.2.07

A TASCA DO VENCESLAU




A começar pelo nome: era uma tasca a sério.Cheirava a óleo de fritar, tinha balcão corrido, barris com o preço do vinho marcado a giz. Vinha sempre alguém lá de dentro a enxugar as mãos ao avental. Havia pratinhos sobre o balcão com petiscos caseiros.
Noutra fase mais adiantada chegou a vender fruta, que sabia a quintal regado com água de poço velho.
Tinha cartões para perfurar, o último furo dava direito a bola de futebol ou garrafa de brandy manhoso. Pelo caminho iam saindo espelhos de bolso, canivetes, lapiseiras...
O tinto era bom mas o branco era sempre "especial". Puro ou traçadinho de gasosa, empurrão ideal para sandes de coiratos ou jaquinzinho com molho à espanhola.

Estava fechada há anos. Mas a construção lembrava ainda como era aquela rua no início do século: casa térrea, telhado já abaulado pelas vigas empenadas, ervas entre as telhas, cantarias grossas.
Ainda tínhamos a vaga esperança de que alguém pegasse naquilo - nem nos importávamos que pusesse balcões novos de alumínio e fórmica.

Mas foi abaixo. Uma manhã destas corropiavam por lá uns camiões pesados que levavam o que uma feia máquina escavadora lhes despejava no dorso. A tasca do Venceslau desaparecia às carradas.

Há-de nascer ali mais um hino à construção civil, o "Venceslau Building", por exemplo, para irmanar com o "Serpa Pinto Plaza" e o "Edifício Twins", tudo made in Torres Vedras, perdão, Old Towers City...



- Ó Alzira, sai uma elegia com molho de escabeche!!!


ELEGIA POR UMA TASCA

Mágoas curtiste muitas
E desalentos tamanhos
afogados em penaltes de tinto
Ali à beira dos passantes
tão fácil entrar e pedir
- “um copo de três!”

Tanta vez consolaste
Tristezas insolúveis
Porém dissolvidas nos taninos
Oportunamente emborcados
Em desespero de causa.

Tasca taberna
santuário de dor
e de euforia

Muito mais eu diria
Se pudesse ainda
Entrar-te,
ó tasca do Venceslau !

11.2.07

O BARRETE

Está na rua.
Pode-se perguntar: que tem a ver a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras com estas brincadeiras?

Tem muito a ver. O Carnaval é uma tradição antiga - e saudável! - em Torres Vedras. E um dos aspectos mais significativos é a participação de TODOS nessa festa. A ideia é não haver espectáculos encomendados, textos oficiais, brasileirices para chamar gente. Há que defender os espaços alternativos e a criatividade vinda de todos os lados e tendências. A ideia de criar uma revista de humor como O BARRETE foi a de oferecer a tal alternativa à revista "oficial" da Comissão de Carnaval. Onde fosse possível criticar, brincar com...,sobretudo com os autarcas. Claro, respeitamos o seu trabalho numa perspectiva de cidadania, mas não o sacralizamos. E achamos saudável criticar.

(Queria colocar a imagem da capa mas os "donos" do servidor andam distraídos. Talvez amanhã...)

Já percebi porque não aparecia a imagem: parece que tem "megas" a mais.
Sai imagem a preto e branco!!


RECORDAR FERNANDO ASSIS PACHECO

Na Casa Fernando Pessoa, a Campo de Ourique. Francisco José Viegas, seu director, organizou um ciclo de encontros sobre F. Assis Pacheco. Justificou:

«Não poderíamos esquecê-lo porque era uma das nossas vozes. Sobretudo neste mês em que se festejaria o seu 70º aniversário. Por isso a Casa Fernando Pessoa reúne os seus amigos e leitores para assinalar a data - justamente Campo de Ourique, o bairro onde viveu e um dos lugares da sua poesia.Não se trata de uma comemoração, porque F. A.Pacheco havia de detestá-la. Coisa mais informal, mais a gosto de quem gosta de falar, de ouvir - e de ler a sua poesia ou de recordar a s suas histórias.»





A imagem, irreverente, vem publicada no livro póstumo editado pela Assírio & Alvim RESPIRAÇÃO ASSISTIDA,Lisboa,, 2003 - cinco anos depois da morte do poeta.

Mas lembrar o poeta é, sobretudo, ler a sua poesia.

SONETOS
2.

Os trabalhos de amor são os mais leves
de quantos algum dia pratiquei
na cama as alegrias fazem lei
e se me queixo é só de serem breves

eu vivo atado às tuas mãos suaves
num nó de que este corpo já não sai
ferve o arco do sol a tarde cai
ardem voando pelo céu as aves

mágoas outrora muitas fabriquei
e em países salobros jornadeei
ao dorso das tristezas almocreves

a vez em que te amei um outro fui
comigo fiz a paz nada mais dói
e os trabalhos de amor nunca são graves

Fernando Assis Pacheco


O ciclo prossegue no dia 15 de Fevereiro, 21h30, com a presença de Fernando J.B. Martinho, Abel Barros Baptista e Pedro Tamen. A 26 de Fevereiro estarão presentes José Carlos de Vasconcelos e Rogério Rodrigues. A leitura de poemas será regra em todos os encontros.
No fim - oh! simpatia - bebe-se um tinto especial. F. Assis Pacheco era um homem de copos demorados e solidários.

Estive lá, com alguns bons amigos.Nunca tinha entrado na Casa Fernando Pessoa. Agradabilíssima surpresa. Foi toda recosnstruída, mantendo-se apenas o espaço onde era o quarto de F. P. e onde se guarda ainda a sua máquina de escrever e a célebre cómoda onde escreveu "O Guardador de Rebanhos". O resto é um conjunto de espaços amplos com biblioteca, sala de conferências e salas de exposições. Na Rua Coelho da Rocha, nº 16.

6.2.07

ABBÉ PIERRE

O Dº Notícias publicou um artigo sobre o Abbé Pierre que vale a pena ler. Autor: O P. Anselmo Borges.

Numa época de radicalismos catolicistas acantonados no movimento NÃO (referendo sobre a despenalização do aborto ), ler este artigo é uma lufada de ar fresco e a garantia de que a inteligência está viva entre os crentes.
Não resisto a transcrever uma parte:


O abbé Pierre era há muito a figura mais popular entre os franceses. A França pôs luto pela sua morte. A missa do funeral foi transmitida pela televisão e à última homenagem compareceram o Presidente, o primeiro-ministro e praticamente todo o Governo.

Nasceu em 1912 em Lyon. Aos 19 anos, entrou nos Franciscanos Capuchinhos. Durante a ocupação nazi, viveu na clandestinidade, ajudando judeus e resistentes. Foi deputado de 1945 a 1950. Criou em 1949 a primeira comunidade Emaús, ao serviço dos sem-abrigo e dos mais desfavorecidos - o termo faz alusão ao passo do Evangelho que narra a aparição de Cristo ressuscitado aos dois peregrinos de Emaús, que o acolheram em casa. A partir de 1971, o movimento alcançou dimensão planetária - os Companheiros de Emaús actuam em 40 países.

Com a guerra, a França ficou devastada. Se a partir de 1952 o crescimento económico se acelerou extraordinariamente, as desigualdades eram profundas no plano social e notórias sobretudo ao nível do alojamento. O Inverno de 1954 foi particularmente duro, tendo sido nesse contexto que o abbé Pierre lançou o famoso apelo radiofónico de 1 de Fevereiro a favor dos sem-abrigo, que desencadearia o que chamou uma "insurreição da bondade". Nos centros de acolhimento, lia-se: "Tu que sofres, sejas quem fores, entra, dorme, come, retoma a esperança, aqui, és amado."

Era um padre de oração e de acção a favor dos pobres e da dignidade. Dele disse o Presidente francês: "Representará sempre o espírito de revolta contra a miséria, o sofrimento, a injustiça, e a força da solidariedade."

Era um homem de espírito livre e crítico, mesmo no domínio da fé. No seu último livro, Meu Deus, Porquê?, ousa perguntar a Deus até quando vai durar esta tragédia do incrível sofrimento humano. Declara que a concepção expiatória da morte de Cristo é "horrível", pois levou também ao dolorismo, "uma abominação e uma caricatura da vida cristã". Depois de confessar que teve relações sexuais com mulheres, embora "de forma passageira", coloca "a questão crucial para a Igreja do casamento dos padres e da ordenação de homens casados", esperando que Bento XVI permita a comunhão aos católicos divorciados recasados. Porque não utilizar a palavra "aliança" para os casais homossexuais, que "viveram frequentemente o seu amor na exclusão e na clandestinidade"? A ordenação das mulheres é "muito provável" e "desejável".

Considerava "absurdo" que Deus apenas se revelasse e salvasse a pequeníssima parte da humanidade constituída pelos baptizados. Nada permite afirmar que o inferno existe. Defensor da laicidade, opunha-se ao regime de "cristandade" e pensava que "o papado reflecte ainda o rosto do papa-imperador", sendo necessário "libertar a Igreja da tutela romana sobre todas as Igrejas locais". Lembrando as "cruzadas" e os seus efeitos, alertou para o perigo de "responder à terrível provocação dos terroristas da Al-Qaeda com uma nova cruzada".

Admirador de Teilhard de Chardin, que soube reconciliar a visão cristã com a teoria evolucionista, sonhava com a capacidade da Teologia para reler e reinterpretar, por exemplo, a doutrina do "pecado original" ou a "transubstanciação" - palavra "um pouco bárbara" -, a substituir por "Presença". Afinal, "as coisas últimas só em linguagem poética se podem dizer".

Tinha como lema: "Viver é aprender a amar", punha a compaixão "no cume das virtudes" e definia a morte como "o encontro com o Absoluto, o Eterno". Para ele, foi em 22 de Janeiro de 2007, aos 94 anos.

5.2.07

CAMINHAR

Um amigo desconhecido levou-me até algumas memórias longínquas. Caminhei através do labirinto e encontrei outros vestígios. Como esta canção que tentei juntar ao blogue. Consegui apenas uma ponte, para quem quiser atravessar.

Caminhando, vou aprendendo a comunicar...

YouTube - Georges Moustaki et Barbara - La dame brune

YouTube - Georges Moustaki et Barbara - La dame brune

4.2.07

HOMENAGEM

O meu dia começou da melhor maneira: alguém fez um comentário e eu corri a ler. Vinha de um blogue que recomendo vivamente: «http://fliscorno.blogspot.com/»

Lá encontrei o velho Georges Moustaki e duas das suas imortais criações.
Visitem e deliciem-se. Nos links para outros blogues encontrarão o ANTEROIZÓIDE" do "nosso" Antero Valério.
Como aperitivo aqui fica "Ma solitude".

Obrigado "Raposa Velha"!

PS. E já agora: não desista de alimentar o seu blogue. Pode não alterar o pobre país em que vivemos mas altera sua relação com ele; isto é: mantém-no vivo, atento, crítico. E a pouco e pouco isto vai mudando.
Veja o referendo: a campanha do "Não" parece uma coisa fossilizada, de outras eras. E há vinte anos não era assim...



MA SOLITUDE

Pour avoir si souvent dormi
Avec ma solitude
Je m'en suis fait presqu'une amie
Une douce habitude
Elle ne me quitte pas d'un pas
Fidèle comme une ombre
Elle m'a suivi ça et là
Aux quatre coins du monde

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude

Quand elle est au creux de mon lit
Elle prend toute la place
Et nous passons de longues nuits
Tous les deux face à face
Je ne sais vraiment pas jusqu'où
Ira cette complice
Faudra-t-il que j'y prenne goût
Ou que je réagisse?

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude

Par elle, j'ai autant appris
Que j'ai versé des larmes
Si parfois je la répudie
Jamais elle ne désarme
Et si je préfère l'amour
D'une autre courtisane
Elle sera à mon dernier jour
Ma dernière compagne

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude

31.1.07

A NOVA TERMINOLOGIA ...

Vasco Graça Moura publicou hoje no Diário de Notícias mais um artigo sobre a famigerada "TLEBS" (a nova terminologia gramatical proposta para o Ensino) . Aqui fica. Pela oportunidade e, também, porque me parece útil ampliar o seu raio de acção - por muito pequena que seja esta contribuição.




Caro professor de Português



Vasco Graça Moura
Escritor

Se perguntar alguma coisa ao Ministério da Educação quanto à vigência ou não vigência da TLEBS, de certeza que ninguém lhe dará uma resposta concreta... Está-se perante uma perniciosa pescadinha de rabo na boca. A TLEBS está em vigor, não estando. Ou não está em vigor, estando. Ontem, ia ser suspensa. Hoje, parece que só vai ser suspensa para o próximo ano lectivo e se pretende aplicá-la no que resta do ano corrente, não obstante as suas muitas e reconhecidas deficiências.

Simplesmente, esta aplicação, intercalar e provisória, não faz qualquer sentido, uma vez que não se trata apenas das falhas científicas de que a TLEBS enferma, mas também da impossibilidade prática de ensinar com base nela, mesmo com a melhor das boas vontades.

Por isso, é impossível considerar que exista uma obrigação de aplicá-la. O próprio ministério o reconhece, uma vez que já a suspendeu quanto aos manuais do 8.º ano, anuncia a intenção de suspendê-la globalmente para 2007/2008 e pretende seja efectuada uma revisão científica.

Mas... de que revisão estaremos a falar? No seu já célebre texto da Internet (http/jperes.no.sapo.pt), João de Andrade Peres escreve que "a discussão em torno da TLEBS só terá a ganhar se for claro e pacífico que é em primeiro lugar aos fonólogos, aos morfólogos, aos sintaxistas (...), aos semânticos, aos dialectólogos, aos historiadores da língua e a outros profissionais da Língua academicamente credenciados (...) que cabe a tarefa de analisar e discutir a validade científica de um produto que é eminentemente linguístico e, mais concretamente, gramatical", para além das questões emergentes de outros planos de análise, que requererão outros contributos.

Ora o ministério, que ainda não se apercebeu da extensão e da profundidade deste problema, limitou-se a incumbir duas pessoas desse trabalho, sendo altamente discutível e deontologicamente inaceitável a intervenção de uma delas por previsível conflito de interesses (marido de uma das autoras da TLEBS e consultor científico de uma gramática para o 3.º ciclo do básico e secundário, conforme à terminologia e publicada por uma editora comercial, a Lisboa Editora).

De tudo isto resulta que a TLEBS não está, nem estará tão cedo, em condições de ser utilizada: citando ainda o artigo referido, ela não conta com uma boa gramática de Português em que possa apoiar-se, é insensata pela sua extensão, apresenta um número impressionante de deficiências metodológicas, de erros de formulação e de erros conceptuais, pretendendo-se introduzi-la abruptamente e com total desprezo pela coesão intergeracional. Sem contar as discrepâncias e descoordenações entre o elenco terminológico constante da Portaria 1488/2004 e o material fornecido pela base de dados (esta, não fazendo parte da portaria, não tem aliás qualquer valor cominativo...).

Ora o meu caro professor não pode ser obrigado a ensinar o erro. E ainda menos pode ser obrigado a ensinar aquilo que não consegue entender, apesar da sua qualificação académica, de ter recebido formação para ser professor, de não ser intelectualmente destituído e de ter com certeza uma válida experiência do seu trabalho. O ministério, aliás, tem conhecimento da sua justificadíssima reacção negativa por um relatório de Setembro de 2006, em que se conclui pela rejeição generalizada da terminologia por parte dos docentes.

Por isso, venho apelar ao seu sentido de responsabilidade cívica, cultural e profissional. Recuse-se a aplicar a TLEBS! Nem sequer se tratará de desobediência civil que, aliás, sempre se justificaria, atentos o imperativo de defesa da nossa língua e as demais circunstâncias.

E também não se pode falar aqui de respeito da legalidade: Andrade Peres já demonstrou que os programas são ilegais porque violaram legislação vigente à data da sua homologação, atribuindo valor legal a um simples documento de trabalho, além de que a homologação dos programas do secundário não está publicada no jornal oficial.

No vazio instaurado, a si, caro professor, o que lhe resta é ir ensinando, provisoriamente, com base na Nomenclatura Gramatical Portuguesa de 1967 e na Gramática de Celso Cunha e Lindley-Cintra. Não serão perfeitas nem inteiramente satisfatórias, mas pelo menos não bloqueiam as suas possibilidades de se assumir a sério como professor de Português.

Até a TLEBS ser objecto de uma revisão decente, só resta um caminho: se o ministério se obstina em não repor a vigência da Nomenclatura, reponhamo-la nós!

24.1.07

O BARRETE 2007




A edição deste ano da revista O BARRETE está em preparação.
Trata-se de uma revista anual de humor, editada desde há 11 anos, na época do Carnaval, pela Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras.

Vale a pena! Um barrete dos antigos que não chateia ninguém. Antes pelo contrário...
Onde se vende?
Nas principais livrarias de Torres Vedras.

22.1.07

A MINHA PÁTRIA É...





Andava há tempos à procura deste célebre texto de

Fernando Pessoa. Encontrei-o agora:

A minha pátria é a língua portuguesa
Fernando Pessoa


Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, "Fabricou Salomão um palacio..." E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes — tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é — não — a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d´aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m´a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.
Texto publicado originariamente em "Descobrimento", revista de Cultura n.º 3, 1931, pp. 409-410, transcrito do "Livro do Desassossego", por Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa), numa recolha de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha; ed. de Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática, 1982 vol. I, p. 16-17. Respeitou-se a ortografia da época de Fernando Pessoa. — 25/02/2005
Sobre o Autor
1888-1935. Poeta português, nascido em Lisboa, considerado a maior figura literária do século XX, teve grande influência no chamado movimento futurista ou modernista. Colaborou em prosa e verso em várias publicações e dirigiu as revistas "Orfeu" e "Atena". Autor de "Mensagem", usou ainda heterónimos para várias obras suas: "Poesias" (Álvaro de Campos), "Poemas" (Alberto Caeiro) e "Odes" ( Ricardo Reis), além do "Livro do Desassossego" (Bernardo Soares).




21.1.07

ESTE PAPAGAIO NUNCA MAIS SE CALA




Não consigo levar a sério este homem. Foi líder político e não conseguiu mudar nada de substancial. Mas sabe falar de tudo. Tem opinião sobre tudo a mais umas botas. Analisa, critica, propõe, destrói, desconstrói... enfim... instrói que se farta.
Será legítimo um Conselheiro de Estado ( que ele é) usar a TV pública para se auto-promover e, de caminho, se for preciso, despromover todos aqueles com que não concorda?

19.1.07

Recordar o autor de "APARIÇÃO"





A Página deste mês no BADALADAS é sobre o grande escritor


VIRGÍLIO FERREIRA: interrogação sobre o destino humano

Em 1 de Abril de 1981 Virgílio Ferreira esteve em Torres Vedras, no Cine-Teatro Ferreira da Silva, para assistir à projecção e comentar o filme de Lauro António, Manhã Submersa, baseado no seu romance com o mesmo nome publicado em 1953. Quem lá esteve recorda o perfil austero, a frase rigorosa, o olhar penetrante. Recordamos um dos grandes escritores portugueses do século XX.

Nasceu em Melo (Serra da Estrela) em 1916 e faleceu na sua casa de Lisboa em 1996, de ataque cardíaco quando estava a escrever. Teve a morte que desejava, ele que em todos os seus livros assumiu como tema central o enigma da existência humana, o destino da humanidade, a solidão e o lugar do homem no mundo.
O seu livro mais conhecido é, talvez, Aparição, publicado em 1959. Sendo uma das obras de leitura aconselhada para os estudantes do E. Secundário, continua a despertar nestes um vivo interesse. É que a “aparição” refere-se a esse momento único da vida de todos os homens, quando tomam consciência de si-próprios e de que cada ser humano é “um fenómeno único que não se repete”. O acto de existir e a verificação de que essa existência é efémera motiva a angústia existencial e a interrogação. Virgílio Ferreira optou por se distanciar do romance neo-realista que se centrava na condição social do “homem explorado pelo homem” e afirmou o primado da individualidade e do destino humano face à desmedida dimensão do universo. Ler Virgílio Ferreira é procurar, com ele, as respostas ao enigma da existência humana. Por isso a sua obra continua tão actual.



OBRA VASTÍSSIMA

Virgílio Ferreira foi distinguido com os mais importantes prémios literários: da Associação Portuguesa de Escritores para o romance Até ao Fim (1988); Prémio Fémina para a tradução francesa de Manhã Submersa; do Pen Club, que o propôs para o Prémio Nobel; da Associação Internacional de Críticos Literários; do Município de Lisboa; Prémio D. Dinis da Casa de Mateus. E ainda Prémio Europália, em 1991 e o maior de todos: Prémio Camões, para o conjunto da obra.
Tem 22 obras de ficção. Num crescendo impressionante, publicou na parte final da sua vida aqueles que alguns consideram os seus romances mais tocantes: Para Sempre (1983); Até ao Fim ( 1987); Em Nome da Terra (1990); Na Tua Face ( 1993).
Escreveu mais de uma dezena de Ensaios de carácter filosófico, dentro da perspectiva da chamada “filosofia existencialista”. Destacamos: Invocação ao Meu Corpo ((1969); Espaço do Invisível (quatro tomos, de 1965 a 1987).
De 1980 a 1994 publicou 9 volumes do seu diário, em duas séries, o célebre conjunto com o título de “Conta-Corrente”. Em 2001 foi publicado Escrever, reflexões soltas sobre os mais diversos temas e que faziam parte do seu vasto espólio.





CITAÇÕES
( do livro ESCREVER)

O universo é infinito mas o homem é finito. E no entanto a infinitude é que é a medida do homem.

Amas ou não uma mulher, mas não sabes porquê. Como hás-de poder saber a razão do bem e do mal?

Há duas vozes no homem e aí se equilibra a História. Uma delas diz: ama o teu semelhante porque ele é teu irmão. E a outra diz: esmaga o teu semelhante porque ele é teu rival. Esta voz é a mais forte porque a parte de animal no homem é a mais poderosa.

15.1.07

A VIDA É UMA PERPÉTUA DESPEDIDA











ANTOLOGIA Poemas de despedida



Meditação do Duque de Gandia
sobre a morte de Isabel de Portugal

Nunca mais
A tua face será pura e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para te não ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Este poema toma como referente a história ligada ao Duque de Gandia, futuro S. Francisco de Bórgia (1510-1572) que, depois de enviuvar de uma fidalga portuguesa, D. Leonor de Castro, se terá apaixonado pela esposa do rei de Espanha, a princesa D. Isabel de Portugal – que morreu muito nova.

==*==

Quando o último pássaro morrer
na última oliveira a ocidente
opõe o peito ao que acontecer
e levanta a cabeça dignamente

Despede-te da terra onde nascer
tu nascias enfim continuamente
repara no nascente e no poente
que muito em breve deixarás de ver

Não valem cinco pássaros apenas
dois asses e deus não os reconhece
no meio das demais coisas terrenas?

Levanta-te. Coragem coração
o espírito nas coisas comparece
aproxima-se a libertação
(Ruy Belo)

==*==

(...)
Chegou enfim o tempo do adeus
Oiço a canção efémera das coisas
despeço-me da terra da alegria
(...)
A despedida súbita do sol
despedida dos dias e estações
crepúsculo propício ao adeus
a esta vida frágil é que aspiro
triunfo sobre a vida fugitiva
ave entregada ao decisivo voo
pensamentos de terna nostalgia
jardim de harmoniosos pensamentos
dou-te de toda alma o nome da ausente
árvore em flor no bosque fonte no deserto
(Ruy Belo)

12.1.07








TEXTO OPORTUNO...

Estes gajos são uns macacões...

Não resisto a transcrever de "O JUMENTO" o texto que subscrevo por inteiro.
Falta vergonha a esta gente, de uma insensibilidade bruta, perante os milhares que diariamente vão para o desemprego...



BUSCA, BUSCA !!!

O mesmo ministro das Finanças que dia sim, dia não, inventa mais uma medida para tramar os funcionários públicos, desdobra-se em afirmações de que vai procurar uma solução para manter o ordenado do funcionário público mais bem pago da Europa. É uma pena que o ministro não gaste um único neurónio para procurar soluções para os que são mal pagos na Administração Pública. É caso para dizer-lhe "Busca, busca!".

Mas se o senhor ministro concorda que os sucessos do fisco se devem às manhas comunicacionais do Paulinho das Missas, que os aumentos das taxas do iva, ou a competência dos colaboradores que lhe dão as ideias e a quem ele nem tem a dignidade de agradecer, ou os vinte milhões de contos investidos por Ferreira Leite, ou a modernização implementada por Sousa Franco e o esforço e sentido de cidadania dos 13.000 funcionários da DGCI em nada contribuíram, então seja coerente, assuma que o dr. Macedo salvou o país, que é mais importante do que Cavaco e Sócrates juntos. Neste pressuposto a solução é fácil, basta ter a coragem de a assumir e propor, em vez de ser o vencimento do Paulinho das Feiras a estar indexado ao do primeiro-ministro deveria ser ao contrário, o vencimento de Sócrates é que não deve ser superior ao do apóstolo que a Opus Dei mandou para salvar o país, quanto ao vencimento do Presidente da República pouco importa, Cavaco Silva até já estava aposentado quando se candidatou.

É lamentável que Portugal tenha um ministro das Finanças que não saiba o que é um Estado laico e que depois de cortar os direitos a centenas de milhares de funcionários, muito dos quais tão competentes quanto o dr. Macedo, se preocupe tanto para manter um vencimento que nem o George Bush ganha! É lamentável que o ministro das Finanças não entenda quanto estas suas preocupações são ofensivas para a Função Pública e, em especial, para os 13.000 funcionários da DGCI.

9.1.07

O AUTOR DO MÊS NA BIBLIOTECA MUNICIPAL
Mircea Eliade (1907-1986)

Historiador e romancista Romeno, nasceu em Bucareste em 1907. Publicou extensivamente sobre a história das religiões. Depois da Segunda Guerra Mundial, passou a viver em Paris, e em 1958 aceitou a responsabilidade da cadeira de História das Religiões, na Universidade de Chicago, cargo que ocuparia até à sua morte, em 1986.Viveu em Portugal de 1940 a 1944. “Lisboa conquistou-me desde o primeiro dia…”
Um autor a re (ler), agora que as religiões estão de novo no cerne das questões políticas.




Um LUGAR ONDE...




Peniche, Ponta da Papoa: um lugar onde o vento sopra desabrido, as rochas navegam mar dentro e nós sentimos que Portugal ficou lá para trás.

Ali fui feliz pela integridade de SER com a Natureza.

Ali andei um dia com a minha filha, doente, amparando-a no desespero. Horas que deixaram marcas. Raízes do presente.

Um dia destes vou caminhar de novo na Papoa. Talvez ouça ainda os ecos de antigas horas. E o presente será mais intenso.

6.1.07

ATENÇÃO À BICA DO CHOUPAL !!!

Na leitura do Plano de Pormenor do Choupal, em discussão até final de Dezembro p.p., aapercebi-me de uma falha clamorosa: no Plano não se faz qualquer referência à "Bica do Choupal". No entanto trata-se de um chafariz antiquíssimo, medieval, que Madeira Torres refere claramente no seu "Descripção Histórica e Económica da Villa e Termo de Torres Vedras", pág. 73 da edição fac-simile da Misericórdia de Torres Vedras.

É uma falha grave, a denotar ignorância ou insensibilidade.

Há que ter isto em consideração. O que ali está é Património Histórico legítimo, memória de séculos. A sua não inclusão no Plano faz temer que, qualquer dia, quando se iniciarem as obras no Choupal, um qualquer maquinista de buldozer mete a máquina a direito, arrasa tudo e... o mal será irreparável. De nada valerão as desculpas posteriores, a fazerem lembrar o crime patrimonial que foi a destruição do Moinho do Gaio - nunca devidamente esclarecido, embora a opinião pública saiba bem quem foi o culpado e quem lhe deu cobertura...
Esta discussão do Plano do Choupal passou algo despercebida: é que a nossa Câmara Municipal entendeu que uma boa época para a fazer era, exactamente ... o Natal!
Há que estar atento. A Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras já tomou posição e enviou o seu parecer. Muito crítico àcerca da questão da "Bica".
Mas também àcerca da projectada Biblioteca Municipal que ficará dentro do Choupal!
Ideia grandiosa, sim sehor! Mas alguém conhece estudos, inquéritos, estatísticas que mostrem que a actual Biblioteca - em serviço há apenas cerca de 12 anos! - está ultrapassada?
E alguém sabe os custos de um equipamento deste género, só para o ter aberto?
E mais não digo, por hoje...

2.1.07

ANO NOVO, COISAS VELHAS...



- Estamos no ar: 2007 !!! Segura aí !!!

- A verdade é que o voo não condiz com a bagagem...

- Estamos em Portugal, animal !!


De maneira que é assim...
Entramos em 2007, olhamos em redor e... parece tudo na mesma.
Vamos continuar a aturar o Soba da Madeira...
Continuamos a ver e ouvir o inenarrável Pinto da Carolina, mais - o que é pior! - a adoração que por ele têm os fanáticos do FCPorto...
Veremos ainda mil vezes o insuportável Major de Gondomar...
e mais a Fátima de Felgueiras...
e mais o outro palerma de VNGaia...
e mais uma Ministra da Educação que é tudo menos uma pessoa educada...

e mais um Sócrates que vai dizer pela enésima vez que a economia está a recuperar, enquanto tudo aumenta, os bancos rebentam de lucros, as fábricas fecham e centenas vão para o olho da rua...
e mais o Marques Mendes, em bicos dos pés, sem credibilidade para os do partido dele quanto mais para nós que nada temos a ver...

e os outros do PSD a fazerem leituras políticas de tudo e mais umas botas...
e os do PS a agarrarem-se aos tachos e às panelas...
e os do PCP a fingirem que a URSS nunca existiu, nem o equívoco histórico em que chafurdaram mais de 50 anos, e mais as certezas que têm àcerca de tudo...
e mais o Louçã a pregar às massas, também a fingir que é tudo a sério, sabendo muito bem que fala assim porque nunca estará no poder...

Estamos fartos! FARTOS!

E vocês, aí, estarão também fartos destas tretas que vou escrevendo por aqui.
É ! Às vezes apetece entrar numa caverna e ficar lá até toda a gente se esquecer...

29.12.06

Mais uma página LUGAR ONDE

No Badaladas, semanário regional de Torres Vedras, 29 de Dezembro:


Desta vez foi o tema dos blogues. E uma pequena homenagem ao amigo poeta torriense Fernando Jorge Fabião, a propósito do seu belíssimo "Lamento da Artesã"



COISA RARA...

Hoje um amigo mandou-me alguns poemas, numa carta à antiga. Maneira de me dizer:"Ei, como vai isso por aí?" Receber uma carta na caixa do correio! Coisa rara, hoje.
Li e gostei. Trata-se de um pequeno conjunto de poemas intitulado “LAMENTO DA ARTESÔ, o qual recebeu em Setembro deste ano o 1º Prémio do Concurso Literário Irene Lisboa.
“Fala de um outro ritmo e, se calhar, de um tempo que está a acabar” – diz-me o autor, Fernando Fabião, torriense nosso bem conhecido desde a primeira página LUGAR ONDE. Que diz ainda: “Face aos tempos infaustos do presente é necessário, cada vez mais, o poder da literatura para abrir janelas, criar instrumentos de felicidade”. Concordo e subscrevo. E aqui deixo alguns poemas soltos deste belíssimo “Lamento da Artesã”.


Primeiro

I
Abro a porta
e a manhã veste-se de alvoroço
vou bordar ( a sépia ) o teu nome
aprendi que sob uma letra
há sempre outra letra
atavio uma frase:
- um retalho de mar no teu recato

I I
um talento irredimível
viajar pelo tacto
acariciar a pele do céu


Último

I
Fecho a oficina:
o irreparável de uma vida
aprendi que o corpo é o não rasurável
um incêndio
na ardósia da noite

I I
Outra lição
o lado táctil da luz:
- os pássaros.

Fernando Fabião

BLOGUES: A NOVA ORDEM SOCIAL

Uma nova realidade está a impor-se no mundo da escrita: a chamada blogosfera, o
mundo dos blogues. O que é isto?

“Fundamentalmente, os blogues servem para as pessoas comunicarem umas com as outros.” – escreve Paulo Querido, professor universitário especialista nesta área.
Como a maior parte das coisas ligadas aos computadores, trata-se de uma realidade que no princípio mete medo e repele mas depois atrai e é útil.
O que é um blogue? É uma forma de escrever na Internet em que se cria um espaço pessoal que funciona como um caderno de apontamentos. Mas com vantagens infinitamente superiores. O que se escreve pode ser facultado ao público, basta que o desejemos e que alguém saiba – ou descubra casualmente – o nosso endereço e tenha interesse em ler. Nesse espaço, cuja leitura pode ser pública mas em que só o autor pode escrever mediante a introdução de uma palavra-chave, vão ficando arquivados todos os textos e imagens que se forem publicando. A forma de cada um criar o seu blogue é muito simples, basta seguir as instruções que abundam em muitos lugares da Net, como o SAPO, por exemplo, ou o CLIX.
Num mundo em que a escrita estava a cair em desuso, a “blogomania” veio introduzir um novo fascínio nesta forma de comunicação. As pessoas deixaram de escrever cartas, bilhetes-postais, mensagens longas. Reduziram-se às mensagens dos telemóveis com seus textos mal ortografados e repletos de abreviaturas. Mas agora, com a generalização dos blogues, a escrita está de novo a reinar. Há textos longos e curtos. Intercalados de fotos, de vídeos ou de outros recursos mais complexos. Cada blogue cria um mundo próprio, personalizado e variado.
Esta realidade é de tal modo avassaladora que todos os jornais estão a aderir a ela, incorporando-a nas suas páginas e usando-a regularmente. Os cépticos alegam que este é mais um modo de agarrar as pessoas ao teclado, afastando-as do convívio com os outros. Seria mau se essa fosse uma realidade recente. Mas não é. Cada época tem os seus espaços de convívio e não adianta ficarmos presos a uma visão romântica do passado. Até porque estas novas tecnologias estão a criar novos laços de comunicação entre as pessoas, sem limites de tempo ou distância.
Não há que ter medo. Estas novidades são para nosso uso, gozo e comodidade. Fazer delas veículos de aproximação entre os homens, vias de diálogo e de enriquecimento interior, é um desafio para todos.

A página do BADALADAS que o leitor está a ler neste momento também já tem o seu blogue desde há alguns meses. Com uma marca pessoal do seu autor, como não podia deixar de ser, e contribuindo para evidenciar que os jornais e a Internet podem ser complementares.

CRIAR O SEU BLOGUE

Desde que tenha uma prática mínima de navegação na Internet qualquer pessoa pode criar o seu blogue. Um caminho pode ser este: aceder ao site www.blogger.com. Aberta esta página, basta fazer as opções pretendidas, numa base de tentativas que podem levar ao fim pretendido em mais ou menos tempo.
Há muitos blogues acessíveis a qualquer pessoa. Basta clicar nos endereços que aparecem frequentemente em blogues conhecidos. Se tiver o Google como motor de busca poderá digitar “O JUMENTO” e verá o que sucede: entra num dos blogues mais interessantes, com comentários à vida portuguesa actual, fotos, etc. Pode ir a outros, como o “Blog da Sabedoria”. Ou “O Sizandro”, blogue de crítica ao universo autárquico de Torres Vedras. Ou ao LUGAR ONDE, passe a publicidade em casa própria.
Divirta-se e actualize-se, caro leitor. E que o ano de 2007 lhe traga dias bons e bonitos.



23.12.06

FESTAS FELIZES?

Numa altura em que tantos vão para o desemprego e milhares de jovens procuram o primeiro trabalho sem o encontrarem, como desejar Festas Felizes?

Não! Não quero paz e alegria para mim, enquanto estes dias são negros e tristes para muitos.

Um abraço de solidariedade para quem não tem motivos para festejar.

22.12.06

EVIDÊNCIAS

Porque é que há evidências que custam tanto a ser vistas?

Pode ler-se hoje no "Diário Digital" esta página:


Portugueses mais ricos deviam pagar mais impostos


Portugal tem a distribuição de rendimento mais desigual na União Europeia. Mas há formas de alterar isso e uma delas «é a introdução de mais progressividade no imposto sobre rendimento», afirma Richard Eckaus, um professor do MIT que acompanha a economia portuguesa desde 1973.
Numa entrevista publicada esta sexta-feira no Diário de Notícias, a qual foi concedida à margem da conferência «Challenges Ahead for the Portuguese Economy», organizada pela Gulbenkian, FLAD e Banco de Portugal, o professor do MIT reconhece que o país enfrenta actualmente «escolhas muito difíceis».
Sistema fiscal mais progressivo, contenção salarial, reforma na educação e regulação mais amiga do investimento são alguns dos conselhos do economista que, na semana passada, foi condecorado pelo Presidente da República pelo papel de conselheiro que desempenhou a seguir à revolução.
A aplicação de uma taxa de imposto negativa que providencie fundos às pessoas situadas nos escalões mais baixos de rendimento é uma dos remédios que Eckaus prescreve e classifica como medida «muito importante porque para Portugal é fundamental garantir uma maior igualdade no sistema».
«Com mais igualdade, as pessoas estão mais disponíveis para aceitar os fardos do ajustamento. E esse ajustamento, de facto, é necessário em Portugal. Além disso, se houver mais progressividade nos impostos sobre o rendimento das pessoas e, com ela, vier também uma subida da receita, passaria a ser possível reduzir a carga ao nível dos impostos sobre a produção», e isso beneficiaria, por exemplo, as empresas que exportam.

Natal?

Que os Governos façam o que devem! Este ou outro, sempre prontos a falar nos desprotegidos. Ainda ontem José Sócrates se pavoneava com o estado actual da nossa economia ( "Há confiança! Há bons resultados!), enquanto no telejornal se noticiava o fecho da fábrica da Azambuja ( 1 400 para o desemprego!), e uma outra fábrica no norte ia pelo mesmo caminho. J. Sócrates pode estar contente com alguns dados gerais da economia mas não pode deixar de falar, simultaneamente, no resto.


21.12.06

Terra que gira

Faz agora uma ano que um grupo de jovens iniciou um blogue de divulgação científica:

terraquegira.blogspot.com

Jovens cientistas, diga-se. Chegados ao mundo da investigação, olham a realidade que os cerca e ficam inquietos. O mundo não é, afinal, o paraíso dos passarinhos felizes que a infância lhes sugeriu. Mas sabem, também, que a Ciência é a porta do conhecimento.
Sabem também que há ignorantes que o são sem culpa. E que há outros cuja ignorância se deve ao comodismo, à cegueira voluntária, porque "o saber dói sempre".
Aos meus amigos sugiro a leitura do blogue destes jovens. É uma porta aberta para o conhecimento fundamentado, tão necessário para melhorar este desgraçado mundo em que vivemos e onde tantos morrem todos os dias devido à nossa ignorância.
Aqui transcrevo o seu mais recente "post", com a devida vénia:

Que a Terra gira sobre si mesmo e à volta do Sol, já todos nós sabemos. Mas nem sempre foi assim. Muitos foram aqueles que se questionaram, que em determinados momentos duvidaram e com paixão investigaram. Muitas descobertas foram feitas desde que a ciência se tornou uma estrutura sólida. Pelo caminho, muitos se calaram ou foram calados, muitos morreram no processo… numa batalha sem igual … Pela primeira vez, que se saiba, a matéria ganhou consciência de si própria… consciência que lhe deu a capacidade de duvidar, de questionar e assim aprender… ”e no entanto ela move-se”, desabafou Galileu no final de uma batalha perdida. Mas agora, mais do que nunca, novos desafios se levantam. Cientistas continuam a fazer novas descobertas todos os dias. Cientistas que têm a coragem de se questionar e de explorar o mundo em que todos vivemos, de ir mais além atravessando as fronteiras do mundo conhecido e partindo à procura de novas terras por esse universo fora.O interesse por estas questões alargou-se, e através daqueles que albergam um espírito crítico e científico, as notícias das novas descobertas chegam a um público cada vez maior, curioso, que as segue com entusiasmo.Os tempos são outros! Começa a desflorar uma nova consciência ambiental sem precedentes. Hoje as pessoas têm a noção de que os recursos da Terra não são inesgotáveis e de que há um risco real de sermos nós a destruir o sistema que nos permitiu chegar até aqui. É preciso fazer passar a mensagem, de uma forma clara.

Uma Terra Que Gira nasceu com esse objectivo, o de divulgar, o de dar a conhecer a Terra, aquilo que nos rodeia e as pessoas que vão fazendo a diferença, para que não assistamos com a indiferença habitual à vitória da ignorância sobre o conhecimento.Aqui faz-se divulgação científica e dá-se a conhecer quem o faça. Pelo menos tenta-se.
Para preservar, é preciso primeiro explorar, investigar e aprender, mas cabe também a nós, cientistas de alma ou profissão fazer chegar esse conhecimento a toda a sociedade, para que todos possamos viver de uma forma sustentável e responsável nesta Terra que gira.

Terra que gira, Dezembro 2006

MULAS...salvo seja







Na imprensa regional de Torres Vedras têm aparecido, desde há mais de um ano, denúncias diversas sobre aspectos negativos de actuação da Câmara Municipal.
Deixando de lado as queixas mal formuladas ou mal fundamentadas, recordo-me de outras que faziam pensar. Denúncias sérias, bem apresentadas, a exigir resposta cabal.
Qual a reacção da nossa Câmara? O silêncio.
A ideia subjacente é esta: «deixá-los falar que eles calarão-se-ão-se!!»- como dizia o Zé da Balbina . A nossa Câmara espera, assim, que a opinião pública esqueça rapidamente as denúncias.
Isto parece uma atitude inteligente, mas não é. Porque se aparenta demasiado com desprezo pelos cidadãos. Porque se confunde com sobranceria, arrogância. Porque parece dar razão à célebre frase que diz: « O poder corrompe; e o poder absoluto corrompe absolutamente!»
A nossa Câmara Municipal, do PS, tem uma maioria absoluta. E sabe-se como essa realidade pode ser perversa. Todos os partidos com poder absoluto têm reacções idênticas. As Câmaras CDU no Alentejo fazem o mesmo, os PSD no norte idem. E veja-se o caso extremo da Madeira.
Não se trata de atacar ninguém: a questão é de princípio democrático. E o PS que, com razão, foi o grande garante da democracia nos pós 25 de Abril, não pode esquecer isto e comportar-se como os outros. Quando os partidos se tornam barricadas de interesses particulares o caminho fica aberto aos ditadores.
Voltando ao Zé da Balbina. A quem se calava quando devia falar ele rosnava entre dentes: «parece que são Mulas !!!»

16.12.06

O ALEXANDRE 0' NIELL também sabia ...





TOMA LÁ CINCO

Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava são e agora não,
Um cabelo que ainda ontem preto era,
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração,
E na cara uma ruga que não espera, que não espera...

(...)

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...

Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau hálito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor das bonitas
( Como mulheres são mais fiéis, de resto...)

Saudação a Daniel Sant'Iago




Aliás, José António Gomes. Aliás: brincosdepalavra.blogspot.com
Um blogue dedicado à poesia "brincada": palavras viradas e reviradas do avesso - e do direito! - fotos / reproduções / pre - textos, percorridas com os olhos (in)brincados nas palavras, partilha com gente anónima que dá opinião e manda sempre beijinhos, respondidos sempre com "outro". Um mundo!
Agora em livro.
Evoéh, Zé António: já tinhas feito os filhos... já tinhas plantado árvore (s)...
Um abraço

12.12.06

Memória recentes

Num lago sereno toda a alegria da vida que diariamente se renova




Longe, em Timor, uma querida amiga enfrenta a dor de um amor destroçado. A mim chegam apenas os ecos da derrocada. Partilho essas horas com quem de mim fez seu confidente.

De longe, querida Isadora: o meu abraço.

Dias melhores virão.

11.12.06

Morreu...

Sim, esse. Morreu finalmente.
«Se fosse bom...já cá não estaria há muito tempo!» -dizia o Ti Augusto, quando morria algum canalha lá da terra. Razão tinha.
Este, que assombra a nossa memória desde que assaltou o poder democrático no Chile há trinta e tal anos - com ajuda e apoio dos EUA - só agora abalou. E, como quase todos os ditadores, morreu na sua cama.
Mas há gente a chorar por ele!!! Há quem se recolha diante do homem morto e faça o sinal da cruz!
Como dizia Wilhelm Reich nas "Psicologia de Massas do Fascismo": que haja poder fascista, explica-se facilmente: os poderosos não hesitam em recorrer à força para defender os seus privilégios; o que é preciso compreender é por que razão os fascistas conseguem arregimentar grandes faixas da população anónima para o seu lado.
Foi assim com Mussolini, com Franco, com Salazar... Gentinha do povo a gritar "vivas".
Eu vi-os! Ouvi-os! Uma semana antes do 25 de Abril de 1974 um estádio de futebol aplaudiu de pé Marcelo Caetano. Esses mesmos que, uma semana depois, gritavam que "o povo unido jamais será vencido"...
Que a sua alma - se a tinha..- pague a dívida que ninguém lhe cobrou!

7.12.06

JÁ É TEMPO DE REGRESSAR À POESIA...




Sebastião da Gama


1924 - 1952




Meu País Desgraçado

Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anêmico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!



"A sua poesia romântica, singela, carregada de candura, traz-nos um culto do passado e da paisagem que o modernismo desacreditara, e desenvolve a imagem de um Paraíso Perdido Infantil, um local de pureza inicial que estaria para além da vida e da morte."

( in: Cem Poemas Portugueses sobre Portugal e o Mar, Selecção e organização de José Fanha e José Jorge Letria, ed. Terramar, 2003)


6.12.06

Ah! Bom! Haja quem diga em voz alta depois de governar em voz baixa...

UMA ENTREVISTA A LER






Joaquim Azevedo foi Secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário e é, actualmente, coordenador do debate nacional de Educação lançado pelo Conselho Nacional de Educação.
Numa entrevista no Público de 4 de Dezembro (e que foi transmitida dias antes pela Rádio Renascença) diz coisas interessantes. No fundamental defende o esvaziamento do Ministério de Educação e a "devolução da escola aos seus actores".


Frases em destaque:

"Em Portugal até saiu legislação sobre o formato dos cacifos nas escolas..."

"Estamos ao mesmo tempo a descredibilizar a escola e a mandatá-la para fazer tudo o que a sociedade e as famílias não fazem. É suicidário."

"Carregamos a escola com todos os fardos da educação e das debilidades sociais e depois deixamo-la sozinha a resolver todos os problemas."

Acrescento:

Dar voz e autonomia às escolas? Tudo bem, desde que haja acompanhamento regular da parte de um órgão central. Não uso propositadamente a palavra "inspecção" porque tem uma carga pejorativa.

O acompanhamento destina-se a dissuadir as perversões da autonomia. É que há por aí muitos Albertinhos Jardinzinhos disfarçados, que só esperam a oportunidade de poderem mandar em alguém. E eu não queria acabar a minha carreira profissional a aturar ditadores de trazer por casa...Mal por mal, antes a Dona Milu, que não preciso de ver todos os dias...

5.12.06

TROQUEMOS AS VOLTAS AO CALENDÁRIO

VIVÓ CARNAVANATAL !!!






Com a obcessão comercial e consumista pelo Natal, apetece mandar tudo ao ar, gozar esta treta até ao absurdo. "Abaixo os vendilhões!!!"

Qual menino jesus, qual quê! Vamos mas é vender tralhas, decorações, mesas de consoada, motivos natalícios - e outros panarícios! Tudo tão bonito, tão verde e rubro, tantas luzinhas, tanto espírito natalício - tanto mretrício!

Apetece ir já pró Carnaval! E vou mesmo! Caraças, estamos em Torres Vedras!







E para animar, aí vai o texto que o LUGAR ONDE escreveu para a revista O BARRETE, editada no Carnaval deste ano pela Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, revista que fez dez anos de publicação (« O BARRETE! Dez anos a metê-lo!» ).

TESTAMENTO DO CARNAVAL DE 2006

Saibam quantos esta lerem
Que me vou não tarda nada
Deste carnaval da vida
Mais pobrinho que à entrada.
Já me chamaram Entrudo
Mas agora, é como tudo:
Mais por vós do que por mim,
É mister chegar ao fim...

A vida que me foi dada
Está nas lonas podem crer
E para não me arrepender
Vou ditar o testamento
Que no derradeiro alento
Deixo a quem o quiser ler

Aos torrienses velhinhos
Deixo lares e seus santinhos
Orações e devoções
Para aconchegar as almas
Agora que já estão salvas
E não podem mais pecar.
No tempo da juventude
Foi brincar à fartazana
Comer, beber e fazer
Mil patifarias sem ver
Que o fim havia de vir,
Porque a última a rir
É a morte, grande sacana,
Que todos temos em sorte
Ninguém consegue fugir.

Aos torrienses mais novos
Deixo para consumir
Em todas as estações:
Boletins do euromilhões
Para terem a ilusão
De que vão enriquecer
Só com um euro na mão.
E como sou bué de roto
Também deixo o totoloto
P’ra se entreterem a pôr
cruzinhas nos quadradinhos
convencidos, coitadinhos,
que vão ser todos ricos.

A todos os professores
Vou deixar em testamento
Muitos alunos reguilas
Burrinhos e atrasados,
Meninos finos, mimados
E outros chamados “carentes”...
Deixo uma praga de calões
Muitos deles repetentes
E mais os paizinhos deles
P’ra se poder comprovar
Que eram piores do que os filhos
Quando andaram a estudar.

Aos médicos de Torres Vedras
Que nos tratam da saúde
A quem recorro amiúde
Para mal dos meus pecados,
Deixo os ossos empenados
Mais um grande panarício
Resultado do meu vício
De descascar rebuçados.
Deixo horas extraordinárias
Para mudarem de carro
E comprarem a última bomba...
O Zé Povinho é quem alomba
Quando vai para as urgências
E lá fica, horas mil,
Dando o corpo ao manifesto
Até esticar o pernil
À espera do senhor doutor
Que acabará com o resto...

Aos políticos locais
Deixo promessas fecundas:
Dinheiro para gastar
Em mais setenta rotundas;
Casitas para morarem
No mais rico loteamento
Que ajudaram a aprovar
Para o desenvolvimento.

Ó Torres Vedras! Ditosa
Terra que me viu nascer:
Prepara-te que eu vou morrer
Falta pouco, tarda nada...
Digo adeus ao belo vinho
De onde te vem a fama
Que bebia de manhã
Até à noite, ao ir p’rá cama.

Adeus, ó belas carcaças
A lancharem no Império...
Adeus velho Torriense
Que resiste por mistério...
Adeus, ó velhas indústrias
E quem nelas trabalhou...
Agora só dais rendimento
A quem de vós mais roubou!

Adeus ó Jardim da Graça
Cujo grande obelisco
Deu um enorme trabalho
A ser ali construído
E agora parece um paspalho
À espera de ser removido...

Adeus, ó Serra da Vila,
De encosta tão verdejante,
Retalhada de betão
Por causa da “Variante”...

Adeus, escritores locais,
De obras tão afamadas
Que eu tanto adorava ler
até as não publicadas...

Adeus,artistas da terra
Criadores tão geniais
Que ninguém consegue entender
As obras que vós obrais...

Adeus, mil vezes adeus,
Mas não o digo a chorar:
A vida foi divertida
Fartei-me aqui de brincar.

Foliões e matrafonas,
Deste nosso carnaval
Provaram mais uma vez
Que este é o mais português
Que se faz em Portugal.

A minhas viúvas já gritam
Aos quatro ventos a sorte
De se verem livres de mim
Por causa da minha morte.
A verdade é para ser dita:
Acabou-se o corropio
Agora estou por um fio,
Preciso de descansar,
Podem-me já enterrar...

Mas p´ró ano, queiram ou não,
Eu hei-de ressuscitar!



















4.12.06

Começa a semana...


Tenho trabalho, muito trabalho. Não me queixo. É bom ter (muito) trabalho - penso nos que se queixam do contrário.

E regresso à escola, com a alegria de re-encontrar amigos. Tenho uma turma difícil, é verdade. Mas cada dia é um desafio.








Este é o lugar onde me encontro todos os dias com os meus amigos: alunos, colegas...

"Um bom professor é o que mostra alegria por estar com os alunos" - escreveu um dia uma aluna numa avalição que lhe pedi.

Procuro não me esquecer disso, todos os dias.

27.11.06

Il est mort, le poète...








...mais uma razão para não perder a exposição que está na Galeria Perve, R. das Escolas Gerais, nº 17, Lisboa. Título: «Cesariny, Cruzeiro Seixas, fernando José Francisco e o passeio do cadáver-esquisito».

Mário Cesariny: por ele mesmo

Autografia

sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra
o meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!

os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
( antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa )
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente – tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris – já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião – não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais – também, já por cá passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnifica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha-férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
em franca ascensão para ti O Magnifico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais
nem lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu
partido de manhã encontrado perdido entre
lagos de incêndio e o teu retrato grande!


In “Pena Capital”, Assírio e Alvim