19.3.12

PRÉMIO LITERÁRIO MARIA AMÁLIA VAZ DE CARVALHO



Instituído pelo Município de Loures, este ano foi atribuído a Luís Filipe Rodrigues, poeta que reside há muitos anos em Torres Vedras, já distinguido em 1982 com o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores.
A entrega do Prémio será feita no próximo dia 21 de Março na Biblioteca José Saramago.
Ver mais: AQUI e AQUI.

10.3.12

O FANTASMA DE AGUSTINA


É um bocado estranho: o marido e a filha de Agustina Bessa-Luís falam dela como se já tivesse morrido.
Mas depois referem que ela vive tranquila, lúcida em relação ao seu estado atual.
Esta reportagem - fascinante! - passa-se na casa de Agustina, entre os seus móveis, os seus papéis, mas ela não aparece nunca.
Na revista LER deste mês - que pode ser lida como complemento a esta reportagem em vídeo - o marido diz que ela passou a detestar os livros, e isso resultou de um AVC que, não alterando o seu estado físico, perturbou irreversivelmente o seu estado mental

Percebo: há um pudor, uma reserva, uma opção. E percebo melhor o texto de Maria Velho da Costa, quando a visitou ( retirado daqui ):



Não tem fito, não tem medo.
Vem em direcção ao olhar que a revê.
Pequena, cantarolante e abanando a saia, debaixo das estrelas que esmorecem. A lua desmaia, o alfange comido pelos rubores da aurora. Ela pára, aponta, abre a boca para dizer lua e vêem-se os dentes de rato, o riso de todas as palavras.
Tem quatro palmos de tamanhinha e vem só.
O vestido está desabotoado nas costas, os sapatos de verniz de presilha, os preferidos, vão soltas chancas a brilhar no relento da manhã. Atrapalham, mas não impedem. Os olhos apertados de botão-azeviche são só sorriso ufano, a quatro palmos do chão na cara cor de rosa-chá.
Tem três anos de idade e fugiu de casa.
Não é amuo, é o desconchavo do mundo o que a faz vir.
Diz ao sol subinte, esmerei-me, esmerei-me, ó medronho, ninguém me viu sair. Nem criada, nem ama, nem mãe.
Lá vem ela, no carreiro ermo, no plaino pedregoso, a que não terá contemporâneos.
Move-a o amor frio, a cabeça quente do poderio da terra. Não traz cuecas. Abre as pernas, ainda de roscas roliças, para uma pocinha escura. Triunfa, menina total e raciocinante.
Vibra e caminha, humaníssima.
Diz ao céu que se acende: amaldiçoa-me, mas deixa-me ser livre. E assim foi.

Costa, Maria Velho da, in, «Egoísta n.º especial», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Fevereiro 2007

7.3.12

LER


A capa não está à altura do valioso conteúdo, é feia pr'a caramba!
O que vale é que, depois de abrir a revista, já não vejo esta chinfalhada gráfica e encontro páginas de boa leitura. Sobre Agustina Bessa-Luís - que, transtornada pela doença, detesta livros, ela que escreveu tantos; ou sobre Wislawa Szyborska, a poetisa que ganhou o Nobel em 1996 e de quem quase nada sabia.
E há muito mais, sobre livros, crónicas, comentários, fotografia.
Vale a pena os cinco aéreos, han?

26.2.12

CORRENTES DE ESCRITA 2012




Com a devida vénia, um texto que recolhi no blogue Bibliotecário de Babel, texto que foi lido numa sessão do Correntes de Escrita:


Eis um dos textos mais interessantes (e certamente o mais divertido) de entre os que foram lidos até agora nas Correntes d’Escritas. Foi trazido pelo poeta João Luís Barreto Guimarães para a mesa 3, com o tema “A poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras”:
«O tema que nos é imposto hoje, confere-me uma certa insegurança ensaística, vamos dizer assim, em primeiro lugar porque entendo muito pouco de economia e ainda menos em tempos de escassez como estes pelos quais passamos; em segundo lugar, e talvez resida aqui uma verdade insofismável, porque tanto quanto me vou conseguindo aperceber pelo que vou ouvindo e lendo, a palavra «perfeita» e a palavra «economia» não se costumam entender a dançar juntas, qual casal de namorados que a cada passo pisa o dedo grande do pé um do outro. Com a diferença de que à «economia» nunca ninguém a ouvirá pedir desculpa.
Há, porém, neste mote provocador, duas palavras que me agradam sobremaneira e que têm o bom hábito de conviver entre si: «poesia» e «palavras». A «poesia», como se sabe, pode ser feita de «palavras», embora num sentido igualmente belo, também o possa ser de acordes musicais, ou de imagens fotográficas ou cinematográficas, por exemplo; e as «palavras», até prova em contrário, também têm a sua «poesia». Até mesmo a palavra «dinheiro», escreveu Pedro Paixão.
A poesia actual é uma arte de poucas palavras. Pode mesmo ser austera. É verdade que ainda existe quem, epicamente, insista em espalhar palavras e mais palavras por longos lençóis de papel, com o fito de fazer «grandes poemas». Mas se me perguntam, – e eu queria agradecer à Manuela Ribeiro e ao Francisco Guedes por uma vez mais se terem lembrado de me perguntar, – a poesia que me parece maior é, de facto, a mais pequena. Em tamanho e emtom. É essa, de facto, que me interessa actualmente.
Uma poesia que não fale muito. Acima de tudo, que não fale de mais. Que diga o que tem a dizer de forma concentrada, alusiva, sintética, compacta, elíptica, e depois se cale. Sobre o assunto que a toma desde o princípio a página, que tenha a amabilidade de o sugerir ao alto da página e depois, chegada esta ao fim, diga mais nada.
Pode até voltar à fala na página seguinte. Mas, também aí, o mais provável é que se alongue pouco, descendo pelo poema abaixo, degrau a degrau, surpreendendo-se ela própria por alguns lanços serem mais curtos, outros um pouco mais longos, mas de uma forma ou de outra sempre com um final à vista. Uma «escultura de som», escreveu António Barahona.
Suspeito que esses poemas extensos a que atrás aludi, se estendem por lençóis e lençóis de palavras por falharem em apreender o essencial, atirando em todas as direcções numa interminável verborreia, esquecendo a lição da Arquitectura mais recente que mostra, à exaustão, que «nunca a quantidade se tornou qualidade» (J.M.F.J.).
Mas desculpem se me antecipo com genuíno entusiasmo e me esqueço de que a maior parte dos presentes não está muito familiarizada com esse termo – como é mesmo que se diz? – «poesia». Senão, vejamos, quantos dos presentes terão no último ano adquirido algum desses objectos a que teimosamente insistimos em chamar, por resistência, «livro de poesia»?
Vou então tentar explicar, muito brevemente, o que é isso de um «livro de poemas» e, já agora, tentar perceber em que medida é que esse exótico objecto pode ser útil, digamos, nestes tempos de austeridade por que agora estamos a passar aqui no rectângulo.
Um livro de poesia é uma coisa, o mais das vezes, fina, em que as páginas vêm meio escritas, meio em branco. É verdade. Não há engano. Não se dá o caso de o autor não ter acabado de escrever a página até ao fim, por esquecimento ou acédia. Não. Um livro de poesia é mesmo assim.
Porque os poemas são feitos de coisas que se dizem e de coisas que não se dizem. Ou seja: uma página de um livro de poesia, habitualmente, é constituída por uma parte falada e uma parte muda. A parte falada tem palavras. A parte muda tem silêncios brancos.
Devo aliás referir que o silêncio que se segue ao final de um poema é parte integrante do poema sendo, aliás, a forma mais económica de fazer poesia. O silêncio encerra em si a mais perfeita forma de economia das palavras.
Alguns editores têm até algum pudor em editar livros de poesia, não porque lhes pareça que os livros de poesia não vendem o suficiente para justificar a edição, não, nada disso, mas porque sentem verdadeiro pudor em propor uma coisa que só está escrita pela metade.
Não se sentem bem a vender o silêncio, parece-me a mim, porque isso seria como, por exemplo, tentar vender o buraco do meio do pão-de-ló. A outra parte do poema, a do miolo gráfico, ainda vá, mas a parte em branco, realmente, custa-lhes. É por isso, e só por isso, que optam por não publicar mais poesia.
Devo confessar que não tenho razão de queixa. Fui recentemente adoptado por uma excelente editora, a Quetzal, que acaba de publicar os meus sete livros de poesia num só volume de 326 páginas. Intitula-se «Poesia Reunida» e está à venda lá fora.
Por uma questão de honestidade intelectual, devo desde já prevenir aqueles se possam sentir tentados a adquirir o referido livro que das 326 páginas que constituem o volume, só 228 contêm, de facto, poesia. O restante são cortinas, fichas técnicas, vinhetas, dedicatórias e epígrafes, – ah, as epigrafes, – essas frases em língua estrangeira que os poetas colocam no início dos livros, ou como incipit a alguns poemas para parecerem mais inteligentes que o leitor.
Alguns de nós chegam mesmo a colocar epigrafes em latim ou em grego, ou pior que isso, em alemão, – embora nunca, nestes tempos conturbados, em grego e em alemão no mesmo poema, – epigrafes essas que, convenhamos, em termos práticos têm um efeito muito semelhante a pedir Carne de Porco à Alentejana e aquilo ser servido com amêijoa vietnamita, a gente vê que a amêijoa está lá, sim senhor, em epigrafe à carne, mas não lhe chega a provar o sabor.
Duzentas e vinte e oito páginas em 326 parecem ser poucas páginas escritas, dirão os leitores de ficção presentes no auditório. Que mau negócio de leitura! Então aguardem pela verdade nua e crua: essas 228 páginas só estão escritas pela metade.
Era para falarmos de economia? Então continuemos: se estivéssemos a falar de prosa, essas 228 páginas corresponderiam somente a 114 páginas de ficção, o que significa que apenas 1/3 da área total disponível em papel no livro é que traz poesia. Os outros 2/3 são vasilhame.
Claro que isso pode revelar-se providencial em tempos de crise. Não é de mais chamar a atenção para o facto de que, por essa mesma razão, pelos espaços em branco que contém, um livro de poesia que fique esquecido lá por casa, pode vir a revelar-se um excelente bloco de notas, exactamente porque cada página tem ainda um pedacito de área em branco onde se pode escrever, digamos, uma lista de compras anotada à pressa, de pé, junto à copa, mesmo ao sair de casa, como aliás terá feito certa pessoa junto à sua escrivaninha favorita.
Reciclar é economizar. Numa página de Camões escolhida à pressa, quiçá mesmo aquela que começa com «Alma minha gentil que te partiste», a Dona Alzira, – que Deus a conserve por muitos e muitos anos, – pode sempre acrescentar, aproveitando aquele espacinho em branco que ainda sobra: «uma dúzia de ovos de galinha pica no chão»; «dois litros de leite magro, marca branca»; «400 gramas de maminha de vaca para grelhar», três singelas linhas que são, já por si, um poema.
E cá está! Aqui temos o argumento que faltava para esbater a barreira que os puristas insistem em traçar entre literatura e gastronomia, que a meus olhos sempre foi tão ténue como aquela linha oscilante que confunde a areia seca da areia molhada numa praia de inverno. Exactamente onde o mar costuma depositar «conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos».
Um soneto de Camões, um rol de séculos depois, a condicionar de forma implícita a ementa do jantar dos senhores doutores de Leça. Maminha de vaca. Quem sabe até, se essa página arrancada ao azar, – sem desprimor por outras do nosso maior poeta, – abandonada depois ao acaso na grade de um carrinho de hipermercado e colhida pelo cliente seguinte, não poderia vir a tornar-se um importante objecto de estudo universitário de literatura comparada, numa tese peregrina que versasse o tema «Camões, precursor do hiper-realismo – o pergaminho perdido».
Mas nestas questões de economia, os mais poupados com as palavras sempre foram os Orientais. São assim na vida e nos negócios, como o são na poesia. Chegaram mesmo a desenvolver um tipo de poesia, digamos, low-cost, denominada «haiku», – na verdade um modelo derivado da poesia japonesa, – constituído apenas por 3 linhas com um número fixo de sílabas: 5 no primeiro verso, 7 no segundo (e, antes que o poeta se entusiasmasse a esbanjar 9 sílabas no terceiro:), outra vez 5 no derradeiro verso.
Esta fórmula tornou-se, aliás, um género literário muito apreciado nestes dias conturbados e há até um Ministro do nosso Governo, de seu nome Vítor Gaspar, que adoptou o «haiku» como forma de comunicação ao país, embora com maior largueza de sílabas como é habitual nas derrapagens à portuguesa.
Senão recordemos dois dos seus mais recentes poemas, tal e qual como apareceram publicados nesse curioso hebdomadário de poesia a que chamam «Diário da República»:

O sol brilha na manhã
de mais um dia feriado:
«Saiam para o trabalho!»

Ou estoutro:

A borboleta tem nome:
«Décimo-terceiro mês».
A borboleta voa.

É realmente verdade que a poesia é pessoa de poucas palavras. A melhor poesia não deve poupar nos leitores, não deve poupar os leitores, mas deve, de facto, poupar nas palavras.
Num bom poema tudo conta, cada palavra conta. Em verdade, um bom poeta não precisa de fazer um grande esforço para economizar nas palavras porque à partida já não está na sua natureza gastar de mais. Para um poeta, cada palavra é valiosa demais na sua denotação e nas suas conotações, para ser gasta ao desbarato.
A poesia, esse grande enigma: «o que se perde na tradução».
Ou, como escreveu Juan José Almagro Iglésias no prefácio a uma tradução castelhana da poesia do norte-americano Billy Collins: «a única história documentada que possuímos do sentimento humano».
Ou ainda, como dizia outro poeta, «as palavras certas na ordem certa».
Texto e contexto. A poesia que mais me interessa atende a ambos. Tomemos como último exemplo a palavra «maçã» em diferentes contextos. Não é a mesma coisa aludir num poema à maçã de Newton, ou à maçã de Adão. Já tive oportunidade de escrever sobre ambas.
No episódio de Newton, quem cai é a maçã. No episódio com Eva, como é sabido, quem caiu foi mesmo Adão.»

21.2.12

LUGAR ONDE - Jornal BADALADAS 17 fevereiro 2012


AS MÁSCARAS DA INCULTURA 

Quando chegou ao gabinete já levava a decisão tomada: não haveria terça-feira de carnaval. Chamou o assessor e deu-lhe ordem para fazer o comunicado. Depois telefonou a pedir a bica da manhã e abriu os dossiês da governação. Sentia-se bem, Portugal estava a entrar nos eixos e isso devia-se à sua orientação firme e determinada. Quando os amigos da troika viessem conferir as contas, encontrariam um país ordeiramente agarrado às máquinas nas fábricas ou às enxadas nos campos, numa produtividade nunca vista.
Vinte e tal anos depois de Cavaco, Passos repetia a rábula carnavalesca. Por trás desta miopia política há uma espantosa incultura. Espantosa porque não se entende em pessoas que chegaram aos mais altos cargos políticos. E incultura porque significa ignorância da História: o tempo e a memória, a coesão social daí decorrentes, os laços que seguram as comunidades a partir de indivíduos dispersos. Pode-se não gostar do Carnaval, é um direito. Mas não se pode ignorá-lo, pelas múltiplas implicações sócio-económicas que a ele se ligam. Recordo o belíssimo texto de Venerando de Matos, do seu blogue “Pedras Rolantes”:
«Não deixa de ser significativo, aliás, que um “não-feriado” como a terça-feira de Carnaval, que ninguém ainda teve coragem para transformar em feriado oficial, seja um daqueles que mais dinâmicas provoca na sociedade civil e que mais adesões conhece por parte desta, fazendo “inveja” à mobilização de outros feriados oficiais, ao mesmo tempo que tem sido a maior vítima de governantes com laivos autoritários que, desrespeitando tudo e todos, procuram, com uma regularidade irritante, aboli-lo do calendário. O autoritarismo e cinzentismo dos poderes deste país nunca se deram bem como carácter libertário e transgressor dessa data.»

   
É aqui que bate o ponto: o caráter libertário e transgressor do Carnaval, expresso na arte e na literatura europeias desde a Idade Média, imagem da eterna oposição entre espírito dionisíaco e apolíneo, equilíbrio e excesso. Imagem do Homem, imagem da vida. Ignorar isto é pôr-se à margem da compreensão do mundo, tentando moldá-lo de forma autoritária. Não por acaso, os tiranos sempre detestaram o Carnaval.

 Peter Breughel, o Jovem, 1559: "O Carnaval contra a Quaresma"

* * *  
Torres Vedras, Carnaval de 1931

HUMOR E SÁTIRA NO CARNAVAL TORRIENSE
A obra de Jaime Umbelino está compilada em diversos volumes, publicados ainda em vida do autor. Num desses livros (A Literatura nos Carnavais de Torres, ed. Câmara  Municipal de TV, 2005) encontramos a sua vasta colaboração nas festas do Carnaval torriense, em versos de recorte satírico e humorístico que não perderam a frescura.
Recordemos um trecho do discurso ao Rei do Carnaval, em 1940:
Estava a linda Inês posta em sossego
(Aonde não se sabe nem interessa)
Na margem do Sizandro ou do Mondego
- Era aí o teatro da tal peça –
Quando o Adamastor, irado e cego,
Se alevantou, sentado na tripeça,
E, calmo, disse assim, por entre as pedras:
Carnaval só há um: - em Torres Vedras!
E as ninfas e os faunos e as sereias,
Soprando na trombeta a alta Fama,
Trataram de secar ao sol as meias,
Dormiram... levantaram-se da cama,
E vieram calçando mil areias,
Sem medo ao sol, à chuva ao vento, à lama
Atravessando o mar e os oceanos ...
Só para ver o Chafariz dos Canos!...
* * *
 Há 16 anos que se publica em Torres Vedras esta revista de humor e sátira, O BARRETE, ao jeito do velho Entrudo chocarreiro e folgazão, como se vê por aqui:
CENTRO DE FERMENTAÇÃO DE AUTARCAS
Há para aí um Instituto
chamado” da vinha e do vinho”
que o Município comprou
como se fosse novinho.
 Mas por falta de ideias
para lhe dar utilidade
pediram-me sugestões
e eu vou falar à vontade.
Porque não fazer ali
- é a minha opinião -
um belo Centro de Dia
para meter os autarcas
a fazerem Formação?
 Fechados no vasilhame
dos tintos em seus odores,
com os anos a passarem,
talvez ficassem melhores…

Manuel da Fonseca e o romance “Seara de Vento” :: Aldeia da Trindade

Manuel da Fonseca e o romance “Seara de Vento” :: Aldeia da Trindade

Ando a reler algumas obras do neo-realismo português, como este magnífico Seara de Vento.
Um sopro de tragédia e de dignidade humanas, a recordar nesta época em que os mais desmemoriados falam do tempo de Salazar como de uma época de paz e de segurança, em contra-ponto com os tempos de hoje.
Tão fraca, a memória coletiva!

1.2.12

Saíu a LER de Fevereiro


Tema de capa: o humor em debate, com o inevitável Ricardo Araújo Pereira, jornalista e Abel Barros Baptista, professor catedrático.
Mas há muito mais: o aniversário que Fernando Assis Pacheco faria se fosse vivo (75 anos), pretexto para nova abordagem da sua obra; Eduardo Lourenço e dois inéditos inesperados;  os 200 anos de Charles Dickens; crónicas, recensões, notícias, participação dos leitores, etc.
Vale bem os 5 €!

28.1.12

EÇA DE QUEIRÓS - Badaladas, 27 janeiro 2012


EÇA DE QUEIRÓS
Mestre de cena da comédia portuguesa

Ler Eça de Queirós é como descerrar a cortina de um palco e ficar perante o grande teatro do século XIX português, tão surpreendentemente próximo do que somos ainda hoje. Os seus romances marcaram a nossa literatura porque são povoados por personagens inesquecíveis que representam tipos e tiques de gente que todos conheciam na época e reconhecemos hoje ainda nos seus descendentes. Destaco três grandes romances: O Crime do Padre Amaro, em que Eça descreve uma vila de província e a hipocrisia moral e social de um clero boçal e videirinho; O Primo Basílio, em que fustiga a ociosidade e a futilidade  da pequena burguesia urbana, enredada em falsas virtudes; e essa obra maior, Os Maias, retrato impressivo das elites sociais e políticas de Lisboa que vivem no brilho do pechisbeque, ignorantes e decadentes. A abordagem destes temas correspondia em Eça de Queirós ao projeto de regenerar a vida social e política portuguesa. Cria ele que, mostrando os males, denunciando os erros, satirizando os costumes, talvez se transformassem os caracteres e se moralizasse a vida social. Esse era também o desígnio dos homens do “Cenáculo” e das suas Conferências no Casino Lisbonense. Mas a dura e espessa realidade acabou por se interpor como um muro. Anos mais tarde veremos esses homens filosofarem à volta de uma mesa de jantar, sossegadamente vencidos. Transformados, como Eça dizia de si mesmo, em “vagos anarquistas entristecidos”.
Todavia, abalaram Portugal com as suas ideias plasmadas em obras imorredoiras. Entre elas avultam as de Eça. Para além do espírito de observação, da sátira arrasadora e da ironia inimitável, o seu génio revelou-se na extraordinária capacidade para moldar a Língua Portuguesa numa nova roupagem: libertou-a do formalismo e da imobilidade e arejou-a com novos processos de escrita. Fazendo desabar os antigos preceitos estilísticos, recriou a Língua e fê-la capaz de entrar no mundo contemporâneo. |JMD

* * *
NOTAS BIOGRÁFICAS
Eça de Queirós nasce em 1845, na Póvoa de Varzim. Conclui Direito, em Coimbra, e vem para Lisboa. Inicia atividade de cronista num jornal, em textos reunidos postumamente nas Prosas Bárbaras.  É diretor do Distrito de Évora, jornal da oposição, por um período de alguns meses. Em Lisboa, na casa de Jaime Batalha Reis, em 1867, integra o «Cenáculo», tertúlia intelectual que dará brado com a organização, quatro anos depois, das Conferências do Casino e que tem como figuras mais conhecidas, Eça, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, J. Batalha Reis e Oliveira Martins. Eça profere a quarta conferência intitulada «A Nova Literatura ou O Realismo como Expressão de Arte». Publicação em folhetins de O Mistério da Estrada de Sintra, em coautoria com Ramalho Ortigão, em 1870, ano em que foi nomeado administrador do concelho de Leiria. Em 1871 sai o primeiro número d'As Farpas dirigido por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão. Em 1872 entra na carreira diplomática. Foi cônsul em Havana, Newcastle e Paris. A primeira versão de O Crime do Padre Amaro é publicada em 1875, ano em que termina a escrita de O Primo Basílio, publicado três anos depois. Em 1879 escreve O Conde de Abranhos, publicado postumamente em 1925, tal como A Capital. A novela O Mandarim sai em folhetins em 1880. Um ano depois é publicada A Relíquia. Em 1888 publica a sua obra-prima Os Maias e integra o grupo Os Vencidos da Vida. Continua a colaboração em jornais e revistas e compõe vários Contos, além de traduzir As Minas de Salomão. A Ilustre Casa de Ramires começa a ser publicada em folhetins em 1897. Morre em Paris em 16 de Agosto de 1900. Em 1989 os seus restos mortais foram trasladados para Santa Cruz, nas serranias onde colocara a aldeia de Tormes do seu romance A Cidade e as Serras, que viria a ser publicado postumamente. Outros livros como Alves & Cª, Cartas de Inglaterra, Ecos de Paris, Notas Contemporâneas ou A Tragédia da Rua das Flores, só viriam a lume alguns anos depois da sua morte.
 * * *

CRONISTA EXEMPLAR
Eça de Queirós criou três romances fundamentais – Os Maias, O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio – que faziam parte da sua idealização de um grande retrato literário de Portugal com fins de crítica social. Mas a sua obra não se confinou à ficção. Em crónicas de jornais e revistas da época deixou páginas fulgurantes de análise social e política. Perspicácia, humor, ironia, – foram instrumentos ao serviço de uma inexcedível capacidade de observação aplicada a partir dos consulados diplomáticos em que passou grande parte da vida.
«Antes e depois de Coimbra, pela vida fora, livros como Egipto, Cartas de Inglaterra, Ecos de Paris, Corres­pondência de Fradique Mendes, No­tas Contemporâneas é todo um largo e animado filme de aspetos da vida do tempo, surpreendida em sua fe­bre de ação e pensamento renova­dores. Sempre vivo nele o interesse vital da experiência humana, tanto como o interesse intelectual pelas criações do espírito, tanto como o interesse pelas mais profundas ansie­dades da alma.» (Hernâni Cidade in Portugal Histórico-Cultural)
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OS MAIAS - EPISÓDIOS DA VIDA ROMÂNTICA
É um dos grandes romances da literatura portuguesa, a história de uma família ao longo de três gerações, num plano inclinado de decadência que se consuma num episódio de incesto, símbolo da dissolução dos costumes e do amolecimento dos carateres. Poderoso quadro descritivo de um país que Eça alcunhou de “uma choldra torpe”.
«- Enfim – exclamou Ega – se não aparecerem mulheres, importam-se que é em Portugal para tudo recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos da Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas… Nós julgamo-nos civilizados como os negros de São Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão… Isto é uma choldra torpe. Onde pus eu a charuteira?» (Ca. IV)
«E como Carlos lembrava a política, ocupação dos inúteis, Ega trovejou. A política! Isso tornara-se moralmente e fisicamente nojento, desde que o negócio atacara o constitucionalismo como uma filoxera! Os políticos hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhes puxavam pelos cordéis…Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas qual! Aí é que estava o horror. Não tinham feitio, não tinham maneiras, não se lavavam, não limpavam as unhas…» (Cap. XVIII)


 




24.1.12

Serra de Montejunto - Janeiro 2012 - Foto (C)Méon


Caminho este caminho,
saibro e neblina,
sabendo que mais adiante
não há destino.

S. Nidal 

13.1.12

Vitorino - "Rouxinol Repenica o Cante" [1]



A voz de Vitorino e uma flauta cantadora fizeram esta canção lindíssima.
A ouvir de novo...não cansa...

5.1.12

CAFÉ COM FILMES

 Ao jeito dos cine-clubes que durante tantos anos alimentaram a nossa cinefilia, o ATV - Académico de Torres Vedras volta ao CAFÉ COM FILMES. É uma oportunidade para ver filmes fora dos grandes circuitos comerciais.



2012 > Ano novo, vida nova.

Depois de dois anos de exibição, com intervenções diversas que antecediam os filmes, o Café com Filmes inaugura novo modelo de programação.
Os filmes passam a ser exibidos na sala principal, salvo situações pontuais que justifiquem o espaço do bar ou outros e apenas ocorrerá uma intervenção, em forma de espectáculo, no final da temporada, em Junho.

ENTRADA LIVRE. Exibição em DVD
Co-Produção com o Teatro-Cine de Torres Vedras
5ª feira, 21h30, Teatro-Cine Torres Vedras (quinzenalmente)


PRÓXIMOS FILMES:

A Nova Vida do Senhor O'Horten (12 de Janeiro)
Curtas Paragens - Sessões itinerantes de curtas portuguesas (26 de Janeiro)
Pater (9 de Fevereiro)

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A Nova Vida do Senhor O?Horten

Depois de 40 anos ao serviço dos Caminhos de Ferro, o pacato e solitário maquinista Odd Horten chegou finalmente à reforma e vai confrontar-se com toda uma nova vida...

*

 Curtas Paragens ? Sessões itinerantes de curtas portuguesas

Exibição de curtas-metragens portuguesas, entre ficção e animação, que raramente têm estreia nas salas de cinema.

*

 Pater

Vincent Lindon e Alain Cavalier são amigos. De vez em quando, vestem um fato e põe uma gravata. Ligam a câmara e filmam-se como homens de poder.

Para saber mais, VER AQUI.

3.1.12

NADA PARA LER!



Quem não sofreu já da "síndrome de Jacinto", aquela coisa que às vezes acontece antes de ir ler para a cama?

 (in: A CIDADE E AS SERRAS, Eça de Queirós, final do cap. VII)

«Suspirei, Jacinto preguiçava. E terminámos por remexer lan­guidamente os jornais que o mordomo trouxera, num monte facundo, sobre uma salva de prata — jornais de Paris, jornais de Londres, semanários, magazines, revistas, ilustrações... Jacinto desdobrava, arremessava: das revistas espreitava o sumário, logo farto; às ilustrações rasgava as folhas com o dedo indiferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais estirado para o lume:

— É uma seca... Não há que ler. — E de repente, revoltado contra este fastio opressor que o escravizava, saltou da pol­trona com um arranque de quem despedaça algemas, e ficou ereto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se intimasse aquele seu 202, tão abarrotado de Civilização, a que por um momento sequer fornecesse à sua alma um inte­resse vivo, à sua vida um fugitivo gosto! Mas o 202 permane­ceu insensível: nem uma luz, para o animar, avivou o seu brilho mudo: só as vidraças tremeram sob o embate mais rude de água e vento.

Então o meu Príncipe, sucumbido, arrastou os passos até ao seu gabinete, começou a percorrer todos os aparelhos completadores e facilitadores da Vida — o seu Telégrafo, o seu Telefone, o seu Fonógrafo, o seu Radiómetro, o seu Grafofone, o seu Microfone, a sua Máquina de Escrever, a sua Máquina de Contar, a sua Imprensa Elétrica, a outra Magnética, todos os seus utensílios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim um suplicante percorre altares donde espera socorro. E toda a sua sumptuosa Mecânica se conservou rígida, relu­zindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lâmina vibrasse, para entreter o seu Senhor.

Só o relógio monumental, que marcava a hora de todas as capitais e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, anunciando ao meu amigo que mais um dia partira levando o seu peso — diminuindo esse sombrio peso da Vida, sob que ele gemia, vergado. O Príncipe da Grã-Ventura, então, decidiu recolher para a cama — com um livro... E durante um momento, estacou no meio da Biblioteca, considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e majestade como Doutores num Concílio — depois as pilhas tumultuárias dos livros novos que esperavam pelos can­tos, sobre o tapete, o repouso e a consagração das estantes de ébano. Torcendo molemente o bigode caminhou por fim para a região dos Historiadores: espreitou séculos, farejou raças: pare­ceu atraído pelo esplendor do Império Bizantino: penetrou na Revolução Francesa donde se arredou desencantado: e palpou com mão indeliberada toda a vasta Grécia desde a criação de Atenas até à aniquilação de Corinto. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas, que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, nos títulos fortes ou lânguidos, o interior das suas almas. Não lhe apeteceu nenhuma dessas seis mil almas — e recuou, desconsolado, até aos Bió­logos... Tão maciça e cerrada era a estante de Biologia, que o meu pobre Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inaces­sível! Rolou a escada — e, fugindo, trepou até às alturas da Astronomia: destacou astros, recolocou mundos: todo um Sistema Solar desabou com fragor. Aturdido, desceu, começou a procurar por sobre as rimas das obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, arre­messava: para desentulhar um volume, demolia uma torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religiões: e relanceando uma linha, esgravatando além num índice, todos interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ânsia de encontrar um Livro! Parou então no meio da imensa nave, de cócoras, sem coragem, contemplando aqueles muros todos forrados, aquele chão todo alastrado, os seus setenta mil volumes — e, sem lhes provar a substância, já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua abundância. Findou por voltar ao montão de jornais amar­rotados, ergueu melancolicamente um velho «Diário de Notí­cias», e com ele debaixo do braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.»




26.12.11

ENTRE O NADA E A DOR




Palmeiras Bravas, de Wiliam Faulkner. Lisboa: Portugália Editora. s/d. (Colecção Livro de Bolso, 19/20): Tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena  - que considera este romance "um dos mais belos e audaciosos romances de amor que jamais se escreveram".
Capa de João da Câmara Leme. (Ed. original, The Wild Palms, 1939). William Faulkner (1987-1962), é um dos grandes nomes da literatura norte-americano e mundial do Séc. XX. Foi Prémio Nobel da Literatura em 1947.


Foi a minha primeira descoberta do romance contemporâneo, nos anos 70. O nuveau roman francês não me agarrou, ao contrário dos grandes autores americanos, como Faulkner e Hemingway.

Inesquecível,  a última página, a que volto de vez em quando:


«Pois não era só memória. Memória era só a metade disso, não era bastante. Mas deve estar algures, pensou. Há o desperdício. Não só eu. Pelo menos, eu acho que não penso só em mim. Espero não pensar apenas em mim. Seja qualquer pessoa, pensando, recor­dando, o corpo, as ancas largas e as mãos que gostavam de fazer porcarias e coisas. Parecia tão pouco, não era pedir muito, não era querer muito. Adiante do velho rastejar em direcção ao túmulo, o velho apegar-se, velho e enrugado, murcho, derrotado, ape­gar-se nem mesmo à derrota mas apenas a um velho hábito; aceitando mesmo a derrota para ser-se autorizado ao apego ao hábito — os pulmões ofegantes, as tripas incómodas, incapazes de prazer. Mas, afinal, a me­mória era capaz de viver nas velhas entra­nhas ofegantes; e agora, de facto, estava no alcance da sua mão, incontroverso e claro, sereno, a palmeira estralejando e murmu­rando seca e brava e tenuemente e dentro da noite, mas podia encarar. Podia, não. Hei-de. Quero. De modo que é afinal a velha carne, não importa quão velha. Porque se  a memória existe fora da carne, não será memória, porque não saberá o que lembra,  de modo que, quando ela se tornou nada, então metade da memória tornou-se nada, e, se eu me tornar nada, então todo o recordar deixará de ser. É... pensou ele, entre a dor e o nada, eu escolho a dor.»
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Sobre Palmeiras Bravas encontrei este apontamento:(http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2007_05_06_archive.html)


É a segunda vez que mergulho no estilo do Faulkner, gongórico, excessivo, por vezes delirante. Ele fala de Nova Orleans, dos escravos, da agricultura do Mississipi, do fim de uma aristocracia rural feita de elegâncias cavalheirescas que odeiam o pragmatismo dessa gente do Norte, que só pensa no dinheiro e no consumo. O amor de Charlotte Rittenmeyer e de Henry Wilbourne tem um nível e uma tragédia como a de Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta. Charlotte abandona o casamento e os filhos com o médico recém formado, Henry e vão viver um amor intenso, numa atmosfera de penúria e sensualidade. Arrastam-se em fuga por metade dos Estados Unidos, galvanizados pela força do seu amor. Charlotte morre num aborto mal sucedido e Henry aceita as penas da prisão, desprezando a oportunidade de suicídio por cianeto que lhe oferece o marido de Charlotte, exigindo que a memória da mulher amada permaneça imbuída na dor mais completa.


Mas é o fascínio do discurso narrativo que me prende do princípio ao fim. O médico, colega de Henry, que abre o romance quando é procurado quando Charlotte entra no seu calvário de sofrimento. A apresentação de Henry a Charlotte, e o conhecimento que ficamos a ter dos seus respetivos caracteres e de um casamento reduzido à podridão e meras conveniências; a fuga dos amorosos para Chicago, os trabalhos desqualificados, uma errância que em todas as linhas ainda nos recorda a crise de 1929; as condições de trabalho abomináveis numa mina que tanto pode estar no Árctico como noutro qualquer fim do mundo. A visita de Charlotte aos filhos e a intensidade do reencontro com o marido; a gravidez e o desejo do aborto; a retoma do discurso com o médico com que inicialmente abre o romance; os diálogos pungentes entre Charlotte e Henry; a deliberada entrega de Henry à Justiça, como se aquela sentença constituísse a única saída para a redenção.

Texto de Luís Graça professor na Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa, em Lisboa...

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23.12.11

NATAL 2011


PRESÉPIO?
Que esperança sobra de tantas promessas iludidas? Que estrelas se incendeiam no negrume das palavras vãs? Olho este povo mandado para a emigração, olho os meus filhos que já emigraram. Onde fazer o presépio?
Imóveis numa torre distante os sinos da infância. Em silêncio eterno os mortos amados. Frio de dezembro. Não fosse o Amor e nada mais restaria. É ele o meu menino Menino.
BOAS FESTAS  a todos!


NATAL
Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.
 (Miguel Torga, 1974)


PARTO
venham ver o presépio: há pouca luz.
a figura do pai desapareceu.
despedaçou-o há dia um obus.
a mãe secou o leite. não comeu

mais do que umas raízes e algum lixo.
já nem lágrimas tem para as desgraças.
não há vaca nem burro. nenhum bicho
na azinhaga apodrecem as carcaças.

não virão os reis magos. não se engana
 a agenda traficante que combina
o que pode valer a vida humana
em armamento e gramas de heroína.

no céu, mais um clarão de morte avança
de cauda tracejante que desponta.
nasceu estropiada uma criança.
e deus, se acaso existe, faz de conta.
(Vasco Graça Moura)


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