31.7.15

O "irmão corpo" da minha tia Ana


A tia Ana era irmã de meu pai. Camponesa, olhadeira da igreja paroquial de S. Vicente do Paul (Santarém), não tendo casado optou por consagrar a sua vida ao ideal franciscano. Pertencia à Ordem Terceira.
Uma manhã, em Alpiarça, onde por vezes nos visitava e se demorava alguns dias, respondeu-me assim, quando lhe perguntei se tinha dormido bem:
- Custou-me muito a adormecer, estranhei a cama. Mas quando isto me acontece eu digo assim:"Olha, irmão corpo, pus-te em posição horizontal, estás numa boa cama, tens roupa... se não dormes eu não tenho a culpa..."
- E depois, se não vem o sono, o que é que a tia faz?
- Eu fico à espera e vou rezando...- e o seu rosto abriu-se num sorriso de bondade.

Anos depois contei esta história à minha amiga Maria Laura Madeira. Mulher de  prosas e versos saborosos, passados dias ofereceu-me este soneto:


"IRMÃO CORPO" (dedicado à autora desta expressão)

Irmão corpo dorido e insubmisso
Já não sei se te quero se te aguento
O que tens por viver é pensamento
Debandas, e eu às vezes dou por isso

Está minada a raiz do compromisso
Se te deito tens medo do momento
Em que o sono te leve ao esquecimento
E não saibas voltar ao teu serviço

Que medo é esse à Fé que não renegas
Irmão corpo, se aos poucos tudo entregas
Do espólio tão terreno que tiveste

Leva-me duma vez ao meu destino
Tu foste só um pobre peregrino
Deixa sem pena as penas que me deste


Isto foi em 1997. Revi agora o poema na pequena edição que a Maria Laura distribui pelos amigos com o riso límpido com que  sublinha as suas dádivas.
Obrigado, Maria Laura.


27.7.15

NO LIMIAR DO MUNDO DE MARIA GABRIELA LLANSOL





Página a publicar no semanário BADALADAS no próximo dia 31 de Julho 2015.





“Sobre a sua ligação a Maria Gabriela Llansol e ao seu texto escreveu um dia José Augusto Mourão (e lembro-me de ter ouvido essas palavras da sua boca, num dos nossos encontros):
«Sou um legente que escreve desde há uns anos já sobre Maria Gabriela Llansol com o sentimento de ter sempre vagueado por uma inextricável linha de costa, portanto sem ter a presunção de alguma vez ter chegado a um terminal de mundos, sabendo que das ruínas da biografia não se pode erguer uma estátua, temendo ademais, e como Témia, a impostura da língua, fiado apenas na 'cordialidade' do sentido (Tauler), no puro amor do 'há', na equivalência entre estética e ética, nada sabendo em definitivo, apenas entrevendo. Sabe-se que se é legente quando o júbilo de existir e o ler se tocam.» | João Barrento “

Foto: J Moedas Duarte




Autógrafo de Maria Gabriela Llansol: "Para Virgílio Ferreira - meu companheiro na geometria da terra prometida". (in: http://espacollansol.blogspot.pt/ - post de 7/6/15.


..........................................................................

______________ nada é mais rápido do que a melancolia; é traiçoeira no ataque, inopinadamente ressurge diante dos olhos, e o turbilhão é tal que se extingue sem linhas precisas. O facto principal, determinante, é que a nossa forma, a forma com que somos receptivos ou agimos, é um corpo, todo o afecto nasce, perdura e se extingue nessa forma; a separação física dos corpos pode ser, por vezes, o facto mais notável: aquele contra o qual o conceito perde força e paciência. De nada me vale querer ser razoável. Quando me dou à nostalgia, é triste de morrer. A realidade da dor, até desejar a morte, não está na separação física (de que é feita a maior parte da vida senão de ausências presentes?) mas no simples efeito de imagens que não se sobrepõem. Não vou perguntar: “quem falta?” Sou eu que falto, o fragmento por que suspiro, e que está suspenso fora de mim. Eu queria ser ele, sem poder, como ____ como um resto de frase que se esquece | 

Maria Gabriela Llansol, Inquérito às Quatro Confidências. Lisboa: Relógio d´Água, 1996.



3.1.15



NÃO TE ESCREVAS
entre os mundos,

ergue-te contra
a variedade de sentidos,

confia no rasto das lágrimas
e aprende a viver.

Paul Celan,
A MORTE É UMA FLOR,
Livros Cotovia, 1998

Foto J. Moedas Duarte


29.9.13

ELEIÇÕES , HOJE

«Só há três maneiras de viver neste mundo: ou bêbado, ou apaixonado ou poeta» (Cit. por M. Cesariny, A Phala, 1, 2007)

Eleições quando estamos atascados no Euro! 
Farsa inútil e perigosa.


19.9.13

LUGAR ONDE


... me sentar. Como um príncipe destronado.

É ali em cima, no Senhor do Calvário (Matacães, Torres Vedras). Um lugar a visitar nas Jornadas Europeias do Património, Domingo, 22 de Setembro.

16.9.13

FULGOR




Fogo, fulgor
das veias fatigadas
subindo à pedra; à luz;
a neve
pode cair;
estrutura imóvel refractando
que chama interior?
petrificando que mineral humano
apenas esboçado?
nenhuma eternidade
se concebe melhor;
nenhuma estrela;
nenhum fulgor perseverante
como o deste cristal.



Foto J. Moedas Duarte, Serra de Montejunto
Poema: Carlos de Oliveira, in ENTRE DUAS MEMÓRIAS


10.8.13

REQUIEM POR URBANO TAVARES RODRIGUES


Nos finais dos anos 80, em data que não sei precisar, Urbano T Rodrigues veio a Torres Vedras, para apresentação de um livro, numa iniciativa da Cooperativa de Comunicação e Cultura de cuja Direcção eu fazia parte. Nesta foto ele está junto da nossa saudosa Amélia Antunes - falecida em 1994 - e apresta-se a receber mais um livro para autografar.
No dia do falecimento do grande escritor - 9 de Agosto corrente - lembrei-me desta foto que tinha guardada num livro. Com ela veio a recordação desse dia, marcado pela afabilidade de Urbano. Era um homem doce, sorriso de menino, voz serena, sem pose nem atavios. Aquele era o grande e amado professor universitário,  da Fac. de Letras de Lisboa. Que foi proibido de dar aulas pelos esbirros do regime. Que se inscreveu no Partido Comunista Português por uma questão de Humanismo e de eficácia na luta contra a ditadura de Salazar. Que foi preso político e perseguido como mal-feitor. 
Aquele era o autor de livros que líamos às escondidas: A Porta dos Limites, Bastardos do Sol, Os Insubmissos, Uma Pedrada no Charco...
Nós sabemos, Urbano, já não eras novo. Fazias parte de uma geração de ouro da nossa Literatura de que eras o último sobrevivente: David Mourão-Ferreira, Augusto Abelaira, Judite de Carvalho, Manuel da Fonseca... Deixas uma obra vastíssima, traduzida em muitas línguas, mas deixaste de ser lembrado pela república portuguesa das Letras, sempre pronta a erigir novos talentos. Ficaste para trás, não por seres escritor menor mas porque foste fiel aos princípios: que coisa mais fora de moda, um escritor comunista! Talvez por isso te passou ao lado o Prémio Camões, que bem merecias.




Contudo, não estavas esquecido. O livro "50 anos de vida literária", publicado pela ASA em 2003, traça o teu percurso brilhante e recorda-te em fotos que já são da nossa História comum. Relei-o agora, devagar, homenagem à tua memória.




Este último livro que publicaste, no ano passado, pareceu-me uma premonição do fim. A última página:
«Mas a sua partida, só a concebia em glória, ainda não descobrira como.Veio a chuva doce de abril, com o arco-íris enlouquecendo de cor cerros e vales.
Octávio apelou então a todas as energias que lhe restavam e apanhou um táxi, que o deixou, como ele queria, junto ao Pireu.
Aí, no alto da rocha, olhou para a baía em baixo, o mar pro­fundo, onde haveria ainda restos da estatuária helénica.Despiu-se e atirou-se em voo para a morte.
Desceu muito, muito fundo, mas ainda vislumbrava, à sua volta, grutas, peixes, cintilações misteriosas.
Não queria voltar à tona de água.Os seus pulmões encheram-se de morte.
E Octávio descansou.»
in: Escutando o Rumor da Vida, Ed. D. Quixote, Alfragide, 2012

Guardarei sempre o teu testemunho nestas palavras tão simples e tão intensas:

«Comecei a escrever para me encontrar, me procurar a mim próprio, e aos outros, e à vida, e ao destino. Fi-lo por inquietação, inquietação que tinha tanto a ver com a literatura como com a metafísica e com o social. Tomei, desde muito cedo, consciência da injustiça social que via à minha volta no Alentejo, para onde fui viver em criança, e depois no País e no mundo.»

Entrevista a Fernando Dacosta, in "Visão", 21 Novembro 2002



6.8.13

«Saíram todos, fiquei só em casa»



Quando o silêncio me chamar
Que eu ouça
Que onde ele me levar
Eu entre
Que se puder falar
Alguém responda

Ninguém será o último
A chorar
E a vida é como o mar
Refaz-se em cada onda

Maria Laura Madeira


Foto: J. Moedas Duarte, Porto Novo

27.7.13

RELEITURAS E RECORDAÇÕES



Há livros que só entendemos muitos anos depois da primeira leitura. Era eu rapazito e frequentava mensalmente a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian em Alpiarça. Os senhores que nos recebiam eram afáveis e davam-nos conselhos de leitura. 
-Leva este que é muito interessante. Conta a história de um velho pescador...
Levei-o e li-o. Quando o devolvi perguntaram-me:
-Então, gostaste?
Tive vergonha de dizer a verdade e respondi que sim. Mas os meus 12 ou 13 anos acharam o livro muito chato. Um velho que vai para a pesca e ali anda até apanhar um grande peixe que os tubarões comem e ele regressa ao porto apenas com a grande espinha presa ao casco do barquito... Aquela escrita seca que descrevia os pensamentos do velho e as falas dele com o miúdo ou consigo próprio no mar - bah! achei-as uma grande chumbada! Aquilo nada tinha a ver com as aventuras do Emílio Salgari ou de Júlio Verne.
Realmente, para que um livro seja bom são precisas várias coisas. Uma delas é um leitor disponível e capaz de entender, o que não era o meu caso.

Muitos anos depois peguei no livro. A medo, não fosse repetir-se a cena. Ah! Mas eu já não era o mesmo. E o livro encontrou o leitor. Era Hemingway e Cuba e os pescadores que eu aprendera a apreciar com os avieiros do Tejo ou em Peniche, nas companhas das traineiras que saíam para o mar ao fim da tarde e regressavam ao meio da noite. Eram os peixes com nomes e cheiros e paladares. E era aquela escrita luminosa, sem artifícios, directa ao osso do texto.


Hoje, ao reler mais uma vez o pequeno grande texto, senti de novo a maresia nos pensamentos de Santiago, o velho, e de Manoulin, seu jovem amigo, revi as luzes do pequeno porto de pesca e fui confortado pelas palavras imorredoiras ( p. 109):

«- Mas o homem não foi feito para a derrota - disse. - Um homem pode ser destruído mas não derrotado. Tenho pena de ter morto o peixe. Agora vem o pior e nem sequer me resta o arpão. O dentuso é feroz e hábil e forte e inteligente. Mas eu fui mais inteligente do que ele. Talvez não. Talvez só estivesse mais bem armado.»

Uma última recordação desses anos 60 do século passado: os senhores afáveis que nos aconselhavam livros na carrinha da Biblioteca Itinerante, eram - só vim a sabê-lo anos depois - Herberto Helder e António José Forte. Nem mais!



Pacheco Pereira não é personalidade que me provoque admiração ou simpatia. Tenho um preconceito assumido em relação a pessoas da minha geração que foram de extrema-esquerda no período revolucionário e que se passaram de armas e bagagens para a direita. Esse foi o caso de PP. Na altura eu era militante do PCP e ficava sumamente irritado com os ataques destes intelectuais que nos acusavam de "revisionistas". 

26.7.13

UM GESTO ... E O DIA ILUMINA-SE.





Fernando Fabião tem gestos  que chegam até aqui com a imprevisibilidade das chuvas de Verão.
Desta vez encontrei esta folha dentro do envelope que veio pelo correio.
E um pequeno cartão, mensagem artesanal com palavras luminosas.

Obrigado, querido poeta e amigo!

24.7.13

UMAS RICAS FÉRIAS - Página LUGAR ONDE no jornal BADALADAS de 26 de Julho

PDF da página do jornal

UMAS FÉRIAS BEM PASSADAS!

Há alturas da vida em que é preciso parar e pensar. Jacinto e Francisco Filipe, irmãos de Santo Isidoro (Mafra), tinham acabado de perder o pai. Estavam na meia-idade, a entrar na fase em que alguns se interrogam sobre o que andam cá a fazer. Homens de profunda Fé cristã e, por isso mesmo, inquietos, sentiram que era preciso passar das palavras aos actos, da “oração” à “hora de acção”. Jacinto explica:
«Isto foi no princípio de 1990. Surgiu a ideia de umas férias diferentes, em que, pelo voluntariado e pela solidariedade, pudéssemos conhecer outros povos, as suas tradições, tomar contacto com as suas dificuldades e, na medida do possível, contribuir com o nosso trabalho para a sua superação.»
Falaram com amigos, pesaram hipóteses e decidiram: Guiné-Bissau! Alguns tinham lá estado na guerra colonial, sabiam que era um dos países mais pobres do mundo, onde se fala Português. E não era longe, a 4 horas de avião de Lisboa.
«Como não conhecíamos ninguém daquelas paragens, foi através dos Padres Franciscanos portugueses que iniciámos os primeiros contactos em Lisboa, que viriam a permitir a concretização deste sonho de "Férias Solidárias"», diz Francisco Filipe.
E de 3 a 18 de Dezembro desse ano passaram férias em Bissau. «O nosso primeiro trabalho em terras africanas foi reparar as varandas, as cozinhas e as instalações sanitárias das doze casas pertencentes à Conferência de S. Vicente de Paulo, da paróquia de Nossa Senhora da Candelária, de Bissau. Essas casas eram habitadas por pessoas muito carenciadas.»
Nunca mais pararam. A partir daí, praticamente todos os anos há um grupo de pessoas que se integra nesta prática de “Férias solidárias”. Gente maioritariamente do Oeste mas também de todos os pontos do país. Rui Fiúza é um dos amigos que já lá foi diversas vezes. Electricista, sabe que o seu trabalho é precioso num país em que falta tudo: «O mais importante é não irmos para lá com a ideia de que nós é que sabemos. O nosso trabalho é fazer o que as pessoas dizem ser mais necessário para a vida delas. Não impomos nada. Perguntamos aos chefes das aldeias e eles é que dizem o que precisam.»
Construção de um pavilhão numa escola, reparação de poços, construção do Centro Social de Ondame, reorganização e gestão de um Centro Materno-infantil (que os nativos baptizaram de Bom Samaritano), Cursos de Formação em diversas áreas de Desenvolvimento Rural, montagem de uma Rádio Local e de um Centro Cultural, instalação de um bloco operatório na Clínica, campanha de consultas de oftalmologia e operações às cataratas – estes são alguns resultados destas “Férias Solidárias”.


                                                     Construção de um poço em Santa Luzia                                                                    
                                                                         * * *

FUNDAÇÃO JOÃO XXIII – CASA DO OESTE

Uma colaboração casual com esta instituição valeu-nos a oferta deste belíssimo livro que é um testemunho impressionante do que podem a Fé esclarecida e a prática da Fraternidade.
Folheámo-lo com avidez e encontrámos os sinais que identificam os homens de boa vontade: sentido da solidariedade, humanismo, cooperação, apelo a favor dos povos mais empobrecidos.


A chancela do livro revelou-nos que este projecto de “Solidariedade com a Guiné” está enquadrado na missão da Casa do Oeste, sita em Ribamar, concelho da Lourinhã – um lugar de encontro, formação e convívio da Diocese de Lisboa. Mais informações podem ser vistas aqui: http://casadooeste.no.sapo.pt/









* * * 


     VALORES DE OUTRA GRANDEZA

                                                                     
         Rui Fiúza, Francisco Filipe e Jacinto Filipe relataram com entusiasmo o que têm sido estas “Férias Solidárias”. Mas eles não se querem vedetas. Sublinham que pertencem a um grande grupo de muitas dezenas de pessoas que aderiram ao projecto desde 1990 até agora e que congregam vontades e recursos a partir da generosidade das pessoas e das empresas. Nada pedem ao Estado e todos os voluntários fazem questão de pagar as suas deslocações e despesas pessoais. Alugam um contentor que estacionam na zona de Mafra e ali vão guardando as dádivas: roupas, material escolar, ferramentas, materiais de construção e eléctricos, alimentos de longa duração, material clínico e, até, veículos usados. O contentor segue por via marítima e quando chega à Guiné já lá estão alguns voluntários que organizam a distribuição.

«Sabemos que os nossos gestos de solidariedade não salvam o mundo…, mas ajudar um povo a crescer, salvar uma criança que entrou em coma por falta de um simples anti-palúdico, ou limpar as cataratas dos olhos duma pessoa, são gestos, são momentos únicos na vida, que não têm preço, porque eles são valores de outra grandeza!...»
Ouvir a fala destes amigos leva-nos a olhar o mundo com mais optimismo s confiança. 


                                                                                  * * *

COMO COLABORAR

Se ficou sensibilizado e deseja colaborar nestas acções de apoio à Guiné-Bissau pode fazê-lo através da Fundação João XXIII – Casa do Oeste que organiza campanhas de angariação de materiais diversos. Ajudas financeiras podem ser depositadas em conta bancária, basta pedir número à Fundação. Dos donativos serão passados recibos. Informações no Secretariado da Fundação: telefone/fax 261 422 790.Mail: casadooeste@sapo.pt


22.7.13

QUE É FEITO DELE?













António Ramos Rosa, em 2011, com Filipe Nobre Gomes e Paulo Borges.



António Ramos Rosa foi um poeta muito publicado, sobretudo entre os anos 70 e 90. Houve anos em que publicou vários livros: três livros em 1974, dois em 75, três em 77...
Voz poética inconfundível pela volúpia das palavras. Em muitos poemas não encontramos "um tema" - o amor, a solidão, a natureza, o abandono, a morte... - porque o cerne da sua poética é a relação que se estabelece entre as palavras em redor de um conceito. Veja-se o poema "Nudez":

O ar circula mais leve em toda a parte
Os sinais transmitem o silêncio habitável

É um sonho é um logro e é a presença viva
Brilha o brilho animal do ar imóvel

Cálida substância nova une a linguagem e a vida
varandas varandas sobre a água sobre o céu

Uma infinita plenitude uma infinita ligeireza
a beleza nua sem exaltação e incandescente
o lugar transparente uma clareira indevisa

Torre de pássaros e de barro e de ervas
torre fresquíssima obscura e clara
torre na margem extrema do mistério
tudo se compreende e tudo é incognoscível
Tudo passa tudo deriva e tudo é imóvel
Somos e não somos somos sempre mais

Aceita aceita a terra breve a única
que os deuses povoam na transparência breve
Aqui a terra revelou-se um horizonte aberto
e as palavras antigas reacendem-se

De novo é a primeira vez e a única
Luz primeira luz da terra primeiros lábios
sopro de fibras mais intensas mais ligeiras
e nomes mais simples mais animais mais nus

Do livro GRAVITAÇÕES, Litexa Portugal, 1983





Esta escrita interroga-me e deixa-me perplexo. Obriga-me a fechar os olhos e a pensá-la sem recurso aos sentidos. Mas quando os reabro encontro imagens sugeridas em claro escuro, como em certas fotos experimentais.



                                                                                                                                                                                                                              Foto: Carlos Savasini

Fecho este GRAVITAÇÕES e interrogo-me: que é feito deste poeta, homem com 89 anos, autor de tantos livros de poesia e de dois livros de ensaios sobre poesia que se tornaram clássicos: A poesia moderna e a interrogação do real, vol.s I e II, publicados em 1979?

Nas minhas buscas encontrei um rasto luminoso. Vale a pena folhear esta revista ENTRE CULTURAS.




14.7.13

CADA MINUTO






Cada minuto à tua beira
me recompensa da sorte azeda,
da chuva pesada, do frio nos ossos.
Cada minuto à tua beira
é todo o tempo à beira-mar.

Longe de ti recordo ainda
cada minuto à tua beira
e enlouquecido bebo a noite
cada minuto à tua beira,

tu que te chamas guitarra, poço,
brancura de lençol, brisa, domingo,

tu que me dás serenamente
(a mim que sempre o espero doidamente)
cada minuto à tua beira.


in: CUIDAR DOS VIVOS, Fernando Assis Pacheco
Foto: J Moedas Duarte, Foz do Lizandro, a sul da Ericeira

3.7.13

NASCEU HÁ 130 ANOS


Kafka com a irmã, em Praga (foto da net)

Franz Kafka nasceu em 3 de Julho de 1883 e morreu no dia 3 de junho de 1924, vítima da tuberculose, em Viena. Pediu a Max Brod que seus textos fossem queimados após sua morte. Contrariando o desejo do autor, Brod publicou romances, prosas, correspondências e diários, enriquecendo a Literatura universal com obras que se tornaram textos clássicos, caso de "A Metamorfose", O Processo" ou "O Castelo".

30.6.13

GRANDE ESCOLA!





Nas minhas viagens pela net encontrei esta referência recentíssima à Revista recentemente publicada pela Escola Secundária Henriques Nogueira de Torres Vedras. É do blogue DE RERUM NATURA, ele próprio uma referência no mundo bloguista:

http://dererummundi.blogspot.pt/2013/06/a-quimica-de-um-pastel-de-feijao.html

Claro que podemos depois ir à origem: http://www.eshn.net/

Vale a pena folhear a revista: http://issuu.com/eshn/docs/revista_2013_final_hq_2

15.6.13

FERNANDO PESSOA: O HOMEM E O LUGAR







Anteontem, 13 de Junho, foi dia de aniversário do escritor. Nasceu há 125 anos. Apeteceu-me visitá-lo. Gosto de conhecer os lugares por onde andou. Para os fanáticos da obra-objecto-de-estudo, esta é uma frivolidade dispensável. Discordo. Há lá melhor passeio do que o de livro na mão, a mirar lugares, sítios e circunstâncias? Ainda hoje não entenderia metade da obra de Pessoa se não conhecesse a fase da vida dele em que dormiu no sobrado de uma leitaria, por caridade de um amigo - segundo o relato pungente de João Gaspar Simões na biografia do escritor. É certo que a leitaria já não existe mas a rua Almirante Barroso, a Picoas, ainda lá está,   com a sua envolvência urbanística.
Hoje, casualmente, encontrei este sítio onde se faz uma visita a dez lugares de Fernando Pessoa. Vamos lá:

http://www.saraivaconteudo.com.br/Materias/Post/51820

E se não ficarmos cansados, poderemos completar a viagem com as preciosas informações do sítio "Casa Fernando Pessoa":

http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/index.php?id=4286

6.6.13

USO DOS CLÁSSICOS



Com a devida vénia, retirei do blogue DE RERUM NATURA:

Numa altura em que o estudo das humanidades tem sofrido tratos de polé do nosso sistema educativo e andado arredada de políticos que levam metade do tempo a dizer-nos o que vai acontecer e outra metade a dizerem-nos por que não aconteceu (como li sobre a definição humorada de economista!), é como um bálsamo para a alma ler textos como este do ensaísta Eugénio Lisboa publicado no Jornal de Letras ( 29/05/2013), que se transcreve abaixo por amável envio do seu autor, presença sempre muito  grata neste blogue:


FAZER UM BOM USO DOS CLÁSSICOS

5.6.13

VIAGENS E OUTRAS VIAGENS António Tabucchi


Saiu há um mês na D. Quixote.
"Sou um viajante que nunca fez viagens para escrever sobre elas, o que sempre me pareceu estúpido. Seria como se alguém quisesse apaixonar-se para escrever um livro sobre o amor."
(A. Tabucchi)

Então, tá bem! Já agora: como apareceu este livro, ó meu italiano português?
Ele explica, na nota de abertura: foi escrevendo textos ao acaso dos papéis mais à mão ou, presume-se, a pedido para publicações de ocasião. Sem intuito de serem literatura de viagens.

Depois, vai-se a ler e percebemos que o tipo é mesmo bom a juntar letras. Além do que, para quem está condenado a ser sedentário, falar com um nómada é um fascínio. Tabucchi tem espírito e prática de nómada, e até encontrou um fundamento existencial para isso: "Visitei e vivi em muitos lugares. E sinto-o como um enorme privilégio, porque pousar os pés no mesmo chão durante toda a vida pode originar um perigosos equívoco, o de fazer-nos crer que essa terra nos pertence, como se a não tivéssemos por empréstimo, como por empréstimo temos tudo na vida."

Não são viagens turísticas, as de Tabucchi. São visitas a lugares habitados por memórias de onde emergem leituras prévias, ou reconhecimentos a posteriori de presenças prévias "por interposta pessoa" - título da última parte do livro.

Este livro chegou-me hoje às mãos, trazido por um gesto de ternura. Vou embarcar e já sei que vou fazer boa viagem.



28.5.13

PRÉMIO CAMÕES PARA MIA COUTO





Recordo o post de 29/03/2009:

http://lugaronde.blogspot.pt/2009/03/mia-couto.html

Parabéns, Mia Couto!

Lembro-me da impressão que me causou a leitura de  A VARANDA DO FRANGIPANI, há uns anos, e de como nunca mais deixei de ler este inventor de escritas, traço de união entre Portugal e Moçambique, homem de rara sensibilidade, cidadão atento ao mundo.

Mais tarde descobri a sua poesia
Curiosamente, sendo um criativo na prosa, Mia Couto faz uma poesia aparentemente banal, recusando os experimentalismos em que certa poesia portuguesa se atolou no final do séc. passado. Mas o sopro criativo também lá está. Sem códigos fechados nem metáforas rebuscadas, esta poesia é límpida, cristalina. Apetece partilhá-la.


Para Ti


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

PORTUGAL VISTO PELOS ESTRANGEIROS


BADALADAS, 24 DE MAIO 2013


OUTROS OLHARES

PORTUGAL VISTO PELOS ESTRANGEIROS

Nos séculos XVIII e XIX Portugal foi destino turístico muito procurado pelos europeus em geral e ingleses em particular. O fausto da corte de D. João V e o terrível terramoto de 1755 atraíram os viajantes de Setecentos; os ecos da Guerra Peninsular bem como as crescentes facilidades de transportes trouxeram os turistas de Oitocentos. Para os ingleses acrescia a prosápia de se sentirem senhores em protectorado político e económico - daí os seus relatos não raro caluniosos e eivados de preconceito para com os bárbaros do sul. 
Chegaram até nós muitos registos dessas viagens, manancial de informação a ser lida com as reservas devidas à ligeireza dos escritos, e o cuidado de cruzar dados com outros de diferente proveniência. Se há uns anos tais testemunhos eram vistos com desconfiança pelos historiadores, hoje parece haver lugar próprio para eles, devido sobretudo ao estabelecimento de critérios mais rigorosos de leitura, aliados ao confronto com outras fontes.
 As impressões de viagem são, por natureza, carregadas de subjectividade e revelam mais sobre os autores do que sobre a realidade que descrevem. Por isso a abordagem destas obras tende actualmente a relativizar os juízos de valor e as apreciações pessoais e a focar-se sobre aspectos da vida quotidiana que as fontes primárias tradicionais muitas vezes descuram.

Vistos a esta luz, os relatos dos viajantes estrangeiros em Portugal são apaixonantes pois nos arrastam para dentro da vida dos contemporâneos com quem privaram e que nos surgem plenos de vida em toda a sua humanidade.



UM FORMOSO LIVRO

Ao contrário dos escritos da maioria dos ingleses que andaram por Portugal e que cederam ao erro tão comum de generalizar a toda a população uma impressão particular ou um acontecimento fortuito, o livro de Lady Jackson A FORMOSA LUSITÂNIA é um relato curiosíssimo de alguém que soube respeitar o país que visitou e que o olhou com sensibilidade e abertura de espírito. Sem deixar de ser crítica, soube enquadrar o que observou nas contingências de um país sem recursos e que mal saíra de um longo período de conflitos – a Guerra Peninsular e a Guerra Civil. Foi seu propósito expresso “combater a arrogante, desdenhosa e ignorante opinião que os ingleses tinham de Portugal como um país atrasado, retrógrado, inculto.”
Um dos aspectos mais atraentes da edição portuguesa, publicada em 1878, três anos depois da primeira edição em Inglaterra, é a tradução da autoria de Camilo Castelo Branco. O grande prosador censura alguns deslizes e excentricidades da autora, em notas bem-humoradas, por vezes no seu jeito sarcástico, mas reconhece e enaltece a validade e interesse da obra. A edição de que nos servimos, de 2007, respeita integralmente a primeira, incluindo as 21 gravuras da época, de que reproduzimos a que representa o Cais do Sodré naquela época
Para os interessados: A FORMOSA LUSITÂNIA – Portugal em 1873, Catherine Charlotte Jackson; tradução e notas de Camilo Castelo Branco, edição Caleidoscópio, Casal de Cambra, 2007

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UM SUECO EM PORTUGAL

Carl Israel Ruders foi capelão da Embaixada da Suécia em Lisboa entre 1798 e 1802. Durante a sua estada em Portugal, escreveu algumas dezenas de cartas para os amigos da pátria distante, respondendo assim ao pedido que eles lhe haviam feito para que fosse dando conta do que via por cá. 
Regressado à Suécia, perante o sucesso das cartas que circulavam entre amigos e curiosos, resolveu editá-las em livro, que logo seriam traduzidas para alemão. O diplomata e escritor António Feijó (1859 - 1917, que foi embaixador na Suécia) traduziu grande parte da obra do alemão para a nossa língua e publicou-a no Diário de Notícias . A Biblioteca Nacional viria a editar essa tradução em 1981. Na segunda edição de 2002, saiu um segundo vol. que inclui as partes que A. Feijó havia omitido, possivelmente por razões de espaço no jornal.
A obra de Ruders é considerada um dos melhores e mais fidedignos testemunhos escritos por estrangeiros nas suas viagens a Portugal, ao contrário de outros relatos manchados pela falta de rigor, pelo preconceito ou por generalizações abusivas. Vejamos alguns excertos do seu livro VIAGEM EM PORTUGAL – 1798-1802 (Biblioteca Nacional, Lisboa 2002)

A MULHER PORTUGUESA

«A fisionomia das mulheres portuguesas, falando em geral, não tem aquela delicadeza, de tão natural e perfeita inocência, de graça tão profundamente tocante, que se revela no rosto de tantas raparigas inglesas. É mais majestosa e imponente. Mas se este grande ar incute respeito as linhas voluptuosas da sua figura também despertam apetites sensuais. Os seus belos e eloquentes olhos negros, onde flameja uma labareda, que em vão elas se esforçam por esconder, os seus longos e formosíssimos cabelos, as suas grandes sobrancelhas pretas, o seu nariz bem talhado, os seus lábios frescos, onde paira um sorriso atraente, os seus dentes tão brancos que parecem polidos, e a sua pele branca e rosada, hão-de produzir sempre uma impressão lisongeira.
 (…)
Este conceito, é claro, refere-se às mulheres portuguesas tomadas em geral, quer dizer, no seu conjunto. As excepções são, de certo, muito numerosas. Vêem-se aqui figuras de mulheres feias até à náusea, e também não são raros, nesta grande cidade, os exemplos daquelas que se fazem notar pelos seus vícios e maus costumes. Mas a opinião geral e o tom reinante aqui faz destas últimas seres desprezíveis e quase sequestrados do meio social.»





[ Lisboa antiga, Feira da Ladra na Rua da Alegria ]


MAUS HÁBITOS DE HIGIENE PÚBLICA

«Actualmente, a maior parte das ruas nunca são varridas, e as outras muito raras vezes.
Naquelas que são varridas, o lixo é deixado em montinhos, mas tanto tempo que se espalha de novo, antes que alguma parte dele chegue a ser retirado; e há sempre restos consideráveis que ficam.
É, certamente, de mau gosto exibir aos olhos do meu amigo o repugnante quadro duma rua que nunca foi limpa. E como seria esse quadro sabendo-se que, sem a menor infracção, pelas janelas — das melhores casas se lançam à rua — de manhã, todas as varreduras; à hora do jantar, todos os restos; e à noite toda a outra imundície acumulada!
Existem, aqui, algumas pretas, que, de tempos a tempos, se empregam no mesmo serviço de transporte dos despejos das casas, como certas mulheres em Estocolmo.
Mas, como são em pequeno número, não fazem uma centésima parte daquilo que era preciso. O lixo que não é retirado por essa forma vai aumentar a imundície das ruas, e lá fica até que os transeuntes o levem na roupa, em forma de poeira ou de lama, para outras casas.»





2.5.13

NOME DE GUERRA - Almada Negreiros





«A SOCIEDADE SÓ TEM QUE VER COM TODOS, 
NÃO TEM NADA QUE CHEIRAR COM CADA UM

Cada um tem o destino universal de fazer consigo mesmo o modelo de mais uma estátua humana. E esta fabrica-se apenas com íntimo pessoal.
O nosso íntimo pessoal é inatingível por outrem. E é este o fundamento de toda a humanidade, de toda a Arte e de toda a Religião. O nosso íntimo pessoal é de ordem humana, estética e sagrada. Serve apenas o próprio. E o seu único caminho. O me­lhor que se pode fazer em favor de qualquer é ajudá-lo a entre­gar-se a si mesmo. Com o seu íntimo pessoal cada um poderá estar em toda a parte, sejam quais forem as condições sociais, as mais favoráveis e as mais adversas. Sem ele, nem para fazer número se aproveita ninguém.
A individualidade e a personalidade são florescências desse invisível do nosso ser a que chamamos o nosso íntimo. Tudo quanto de bom ou de mau, de óptimo ou de péssimo exista em cada qual nasceu com ele e formou-se secretamente, intima­mente, a despeito de todo o aspecto que lhe venha do exterior, de toda a educação e acção alheias.
O papel da sociedade é imediatamente mais evidente sobre cada pessoa do que o atropelado movimento das gerações que a antecederam e lhe determinaram o seu sangue, mas aquela não vale esta. Que uma pessoa tome a seu cargo dirigir o próprio des­tino que lhe coube, é com ela. Que seja a sociedade quem se pro­ponha dirigi-lo, é ingenuidade. O mais que neste caso poderá a sociedade é eliminar esse destino pessoal. A sociedade só tem que ver com todos, não tem nada que cheirar com cada um!
Cada um nasce já bem ou mal educado. E depois de nascido bem ou mal educado, tudo quanto se faça pode pouco para ime­diatamente. Vereis gentes humildes, analfabetos, simples e per­feitamente bem educados, sabendo medir as distâncias entre pessoas, sem se atrapalharem com as escalas sociais, e perfeita­mente uníssonos com o seu próprio caso pessoal. Vereis, por outra, gentes de opinião, passados superiormente por cursos, e, uma vez na altura oficial, não saberem distinguir pessoas de formigas, e outras vertigens dos sítios altos, e, o que é pior, de costas voltadas para si mesmos como para o diabo. Isto é, aqui­lo em que eles poderiam merecer o nosso interesse é precisa­mente ao que eles voltaram as costas!
O autor destas páginas também desenha e não sabe expressar por palavras a extraordinária impressão que recebe sempre que copia o perfil de qualquer pessoa. A natureza chega tão com­plexa às feições de cada um, que somos forçados a não poder aceitar cada qual resumido ao lugar em que a sociedade o põe. Através dos séculos, uma linha única e incessantemente seguida acabou por tornar inimitável o perfil de cada um. Essa linha passa agora desde o alto da testa até por baixo do queixo, e às vezes lembra a de outros, mas é intransmissível.»
 (NOME DE GUERRA, Almada Negreiros)




"Nome de guerra" é nome de livro. Veja-se AQUI:


«Nome de guerra, romance de aprendizagem (Bildungsroman) de Almada Negreiros, foi escrito em 1925 e publicado em 1938. Para Eduardo Prado Coelho, inaugura “na nossa literatura um modelo de ficção-reflexão” (1970: 35) que só na segunda parte do século terá continuidade. 

Em termos de construção narrativa, o romance representa a luta entre a personalidade do indivíduo e as normas da sociedade por adquirir uma certa autonomia. Antunes, o neófito, rebela-se contra os padrões sociais: "amava a verdade acima de tudo", "quem pensa sozinho não quer senão a verdade, as justificações são por causa dos outros". 

O problema começa com a tentativa dos pais, da sociedade e dos modelos culturais e psicológicos de exercer a sua influência sobre o destino do protagonista: "É sempre assim, temos sempre que perder o nosso tempo em desfazer o bem que os outros fizeram por nós". »



28.4.13

LUGAR ONDE no BADALADAS - 19 ABRIL 2013



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UMA AVENTURA NO ORIENTE



                                                                                A LORCHA* MACAU



(*lorcha: embarcação com casco ocidental e velame oriental)

Vive em Torres Vedras um antigo comandante da Marinha de Guerra Portuguesa que prestou serviço em Macau há uns vinte e tal anos. Em conversa casual contou-nos episódios muito interessantes da sua estada naquele território. Chega a ser comovente o relato das missões de diplomacia cultural que levou a cabo através da "lorcha Macau". Esta pequena embarcação – pouco maior que uma traineira - navegou durante três anos nos mares do Oriente, levando a presença de Portugal a vários portos do Japão, Malaca e Índia (Goa, Damão, Bombaim...).O mais curioso é que essas viagens eram requeridas e acolhidas com entusiasmo pelas autoridades e populações locais que viam neste barco português uma evocação histórica dum passado que não renegam e que gostam de transmitir aos mais jovens. O Comandante Rui Sá Leal – é dele que falamos - lamenta a indiferença das autoridades portuguesas que pouco fazem para responder às solicitações dos povos orientais que não esquecem a presença dos portugueses. Claro que houve D. Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque - com acções devastadoras para imporem a presença portuguesa - e isso também não esquecem. Mas no deve/haver da História guardam pelos portugueses um sentimento especial. «Se lhes perguntarmos "porquê", respondem que os que vieram depois dos portugueses eram muito piores. Os holandeses... os ingleses...» - comenta o nosso Comandante, já aposentado, que nos mostra fotos e outras recordações de um tempo luminoso.




PORTUGUESES, OS PRIMEIROS OCIDENTAIS NO JAPÃO

                                                            
                          

                                             

Foi em 1543 que os portugueses chegaram ao Japão, faz agora 470 anos. Não ligamos muito a isso mas os japoneses não esquecem. Todos os anos fazem uma festa em Tanegashima, uma cidade do sul que se enche de milhares de visitantes. Chamam-lhe o Festival da Espingarda. Aí se recorda o primeiro contacto dos japonese com uma arma de fogo, facto que Fernão Mendes Pinto relata no  célebre livro «Peregrinação» (1614). 


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PRIMEIROS TIROS NO JAPÃO


Fernão Mendes Pinto, na Peregrinação, conta como o seu companheiro, Diogo Zeimoto, fez uma demonstração de tiro que espantou o chefe japonês (nautaquim):
«O Zeimoto, vendo-os tão pasmados e o nautaquim tão con­tente, fez perante eles três tiros em que matou um milhano e duas rolas; e, por não gastar palavras no encarecimento deste negócio e por escusar de contar tudo o que se passou nele, porque é cousa para se não crer, não direi mais, senão que o nautaquim levou o Zeimoto nas ancas de um quartau em que ia, acompanhado de muita gente e quatro porteiros com bastões forrados nas mãos, os quais, bradando ao povo, que neste tempo era sem conto, deziam:
   O nautaquim, príncipe desta ilha Tanixumá, e senhor de nossas cabeças, manda e quer que todos vós outros, e assi os mais que habitam a terra dantre ambos mares, honrem e venerem este chenchigogim (nome dado aos portugueses) do cabo do mundo, porque, de hoje para diante, o faz seu parente, sô pena de perder a cabeça o que isto não fizer de boa vontade.» (Peregrinação, cap. CXXXIV)



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A «PEREGRINAÇÃO»

DE FERNÃO MENDES PINTO
                               
«Além dos roteiros e itinerários, cujo valor é sobretudo documen­tal, oferece-nos o século XVI uma narrativa de viagens, de feição muito diferente: a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, obra em que o autor nos dá conta da sua vida de extraordinárias aventuras pelos mares e terras do fabuloso Oriente.
Nascido em Montemor-o-Velho, cerca do ano 1510, Fernão Mendes Pinto veio muito cedo para Lisboa, servindo vários amos, até que, em 1537, consegue, após várias tentativas malogradas, embar­car para a índia. Percorre os mares e terras do Oriente, onde é pro­tagonista das mais fantásticas peripécias durante vinte e um anos, no decurso dos quais foi treze vezes cativo e dezassete vendido como escravo. O seu temperamento aventureiro adapta-se a todas as situa­ções: é comerciante, mas transforma-se, quando necessário, em pirata; é soldado e marinheiro, mas também embaixador; de repente, vemo-lo entrar como noviço para a Companhia de Jesus impressionado com a vida de S. Francisco Xavier, a quem entrega uma grande soma para as suas missões no Japão, mas não chega a receber os votos definitivos e de novo se lança na aventura, ganhando e perdendo sucessivamente grandes fortunas. Com dois companheiros, Diogo Zei-moto e Simão Borralho, é dos primeiros Portugueses que chegam ao Japão, e aí ocorre o famoso episódio das espingardas, que adiante se transcreve.
Finalmente, em 1558, cansado da vida aventurosa e violenta, regressa pobre a Portugal, e fixa-se em Almada, onde casou e veio a morrer em 1583. Aí escreve o seu empolgante e humaníssimo livro, obra ímpar na nossa literatura, só editado trinta e um anos após a sua morte, facto que talvez explique certas negligências formais na sua contextura, aliás servida por um estilo rico de colorido e pitoresco.»
(Selecta Literária, Didáctica Editora, Lisboa, 1969)