
Quando entrarmos no recinto da Feira de S. Pedro, no próximo dia 25 de Junho, estaremos a repetir o acto de ir à feira que vinte gerações de torrienses cumpriram ao longo de mais de 700 anos. E talvez nem lembremos que ela foi instituída em 1293 pelo rei D. Dinis, por Carta de Feira, para dinamizar as actividades económicas desta região, à semelhança do que fez com muitas outras em todo o país.
Um arco de 716 anos vem do passado e chega aos nossos dias, para nos lembrar que somos seres historicamente situados, cuja identidade se liga à vida desta comunidade em que vivemos.
Claro que Torres Vedras, no século XIII, estava bem longe da cidade de hoje, em tamanho e em habitantes. Era uma pequena urbe confinada ao espaço da actual “zona histórica”, derramada pela encosta sul do morro do castelo, e delimitada pela linha que passava pela Porta da Várzea, vinha ao actual Largo da Graça, seguia para a Corredoura junto ao Chafariz dos Canos e daqui inflectia em direcção ao Largo dos Pelomes e ponte sobre o Sizandro. Por isso é admirável que uma realização colectiva tão antiga como é a nossa feira medieval, trespasse os séculos e chegue aos nossos dias, com a mesma designação e idêntica finalidade.
Realizada em articulação com a festividade religiosa, a feira medieval, tal como agora, não se limitava à actividade de compra e venda de produtos. Era também espaço de folguedo e troca de notícias, numa época tão pobre de uns e outros no quotidiano duro dos camponeses e dos mesteirais. Os almocreves, com suas azémolas carregadas de peles secas, azeite, vinho, sal e muitas outras mercadorias, traziam e levavam novas e mandados, pois eram eles os meios de comunicação social destas recuadas épocas.
Ano a ano, por sete séculos, se vem repetindo este hábito de encontro, antigamente tão necessário à providência de bens de consumo e à circulação de notícias, como actualmente tão indicado para a mostra de serviços e de equipamentos, ou de lazer em volta de petiscos tradicionais.
Dos tempos medievos até ao pórtico do século XXI, as gentes torrienses continuam a fazer o que bem mandou El-rei D. Dinis. MD
Publicada em 1943, a obra de Virgínia Rau “Subsídios para o estudo das Feiras medievais Portuguesas” continua actual, tanto pela frescura do estilo como pelas informações rigorosamente escoradas em documentos da época estudada.
«As feiras são um dos aspectos mais importantes da organização económica da Idade Média [em Portugal: séculos XII a XV]. Nascidas da necessidade de promover a troca de produtos entre o homem do campo e o da cidade, elas representam o ponto de contacto entre produtor e consumidor.»
«D. Dinis mandou fazer feira anual na vila de Torres Vedras, de 1 de Maio a 1 de Junho de cada ano, por carta de 20 de Março de 1293.
Se o seu conteúdo é semelhante ao de tantas outras cartas de feira que conhecemos, ela constitui uma excepção pelo facto de ser a única, neste reinado, em que expressamente se consigna a alguém os rendimentos da portagem e direitos da feira, que usualmente revertiam em proveito da coroa. Ela prova-nos, portanto, que o monarca concedia a sua mãe, a Rainha D. Beatriz, os proventos da feira, que passava uma carta de feira a seu pedido, mas que da autorização régia dependia exclusivamente o direito de mandar fazer feira.
Em 1318, a 28 de Abril, D. Dinis deu nova carta de feira anual ao concelho de Torres Vedras, modificando a data da sua realização, que passava a ser de 1 de Junho a 1 de Julho.»
(Feiras Medievais Portuguesas – subsídios para o seu estudo, Virgínia Rau, editorial Presença, Lisboa, 1982)
Amadeo de Souza Cardoso, Procissão, 1913Tempo de feira, festas e círios.
Tempo de recordar os versos de António Lopes Ribeiro
que João Villaret e Paulo Renato tão bem declamavam…
Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.
Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.
Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.
Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!
Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.
Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!
Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.








































