19.1.13

UM PRÉMIO PARA MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA





A Fundação Inês de Castro premiou a poetisa pela sua POESIA REUNIDA.



Deita-te aqui - esta noite, dentro de mim,
está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
beijos: talvez assim eu possa esquecer para
sempre quem me matou de amor, ou morrer
de uma vez sem me lembrar. Isso, abraça-me

também: onde os teus dedos tocarem há uma
ferida que o tempo não consegue transportar.
Mas fecho os olhos, se tu não te importares, e
finjo que essa dor é uma mentira. Claro, o que

quiseres está bem - tudo, ou qualquer coisa,
ou mesmo nada serve, desde que o frio fique
no laço das tuas mãos e não regresse ao corpo
que te deixo agora sepultar. Não sentes frio, tu,

dentro de mim? Nunca nevou de madrugada no
teu quarto? Que país é o teu? Que idade tens?
Não, prefiro não saber como te chamas.

( POESIA REUNIDA, pág. 159,Quetzal
Lisboa, 2012)



12.1.13

VOLTÁMOS AO TEMPO DA "CARIDADEZINHA"...


Ruy Belo fustigou a sociedade hipócrita do seu tempo. O que me desconsola é que, mais de trinta anos depois de ter morrido, os seus poemas continuam actuais. Dolorosamente actuais...

Soneto superdesenvolvido

E tão suave ter bons sentimentos
consola tanto a alma de quem os tem
que as boas acções são inesquecíveis momentos
e é um prazer fazer bem

Por isso se no verão se chega a uma esplanada
sabe melhor dar esmola que beber a laranjada
Consola mais viver assim no meio de muitos pobres
que conviver com gente a quem não falta nada

E ao fim de tantos anos a dar do que é seu
independentemente da maneira como se alcançou
ainda por cima se tem lugar garantido no céu
gozo acrescido ao muito que se gozou

Teria este (se não tivesse outro sentido)
ser natural de um país subdesenvolvido

Ruy Belo (1933 - 1978)

"Vamos brincar à caridadezinha" - José Barata Moura (gravação original d...