26.9.07

Página LUGAR ONDE - Setembro 2007


Falemos então de Camões

Neste começo de ano lectivo proponho uma visita a Luís de Camões.
Considerado o expoente máximo da nossa literatura, ele é posto sobre um pedestal e tão alto fica que mal lhe chegamos. Injustamente, muitos estudantes acham-no “uma seca”, porque são “obrigados” a ler o que lhes parece completamente fora de moda.
Mas e verdade é que Camões, que viveu no séc. XVI, mantém uma actualidade impressionante, quer nos temas quer nas formas de escrita.
Quantos de nós já leram a sua obra lírica, isto é, os versos que escreveu para além dos Lusíadas? E, no entanto, muitos autores consideram-na com valor igual, ou até superior, à epopeia. Pela primeira vez na nossa literatura alguém escreveu sobre os sentimentos e as emoções com as palavras e a verdade psicológica que caracterizam o homem novo do mundo moderno. Sem descurar as formas tradicionais, importou novos modos de escrita que abriram portas a toda a literatura actual. Mesmo a epopeia – OS LUSÍADAS – foi inovadora, tendo atingido um nível nunca mais igualado em nenhuma outra literatura universal.
Peguemos em Camões, sem complexos. Há edições escolares de muita qualidade, que nos ajudam a entender melhor. Vale a pena re-descobrir o grande poeta que ele é.


Camões: que vida?

Por escassez de documentos, pouco se sabe, com rigor, da sua vida – de que sobra espaço para muitas lendas. Nasceu em 1524 ou 25. Morreu em 1580. Da baixa nobreza, conheceu dificuldades económicas, que o seu feitio perdulário agravava. Homem culto e homem de acção, viajou pelo Império Português do Oriente, sempre entalado entre a miséria e a consciência altiva da sua grandeza poética. Sepultado numa pequena igreja que o terramoto de 1755 destruiu, o provável pó de seus ossos foi guardado nos Jerónimos já no séc. XIX. O grande poeta Eugénio de Andrade interpretou assim a vida de Camões:

Nalgumas linhas da sua poesia, e sobretudo nas poucas cartas que indubitavelmente são dele, pode ler-se que, como português, encarnou até à medula toda a nossa condição: pobreza, vagabundagem, cadeia, desterro. «Erros», «má fortuna» e «amor ardente» se conjugaram para fazer daquele alto espírito do Maneirismo europeu uma das figuras mais desgraçadas da via-sacra nacional. Por «erros» talvez se possa entender um cristianíssimo arrependimento daquele marialvismo da sua juventude; a «má fortuna» não pode ter sido senão a de ter vivido num tempo em que «Portugal era uma casa sem luz em matéria de instrução», e se preparava fatidicamente para abandonar todas as suas guitarras nos campos de Alcácer Quibir; quanto ao «amor ardente» – não foi o próprio Camões que se mostrou dividido entre o límpido apelo dos sentidos e toda uma platonizante teoria de amor bebida em Petrarca e Santo Agostinho?




Assim começam OS LUSÍADAS:

As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valorosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


SONETOS DE CAMÕES
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
*
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
*

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
*
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
*
Ao desconcerto do Mundo
Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

9.9.07