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18.4.12

HOMENAGEM A ANTERO

Estátua de Antero, na praia de Santa Cruz, Torres Vedras


Deixei AQUI uma homenagem ao grande poeta cuja data de nascimento hoje se comemora.
E recordo o que já aqui se escreveu, com fotos do monumento a Antero, na praia de Santa Cruz- TVedras.

19.9.10

Jornal BADALADAS - 24 de SETEMBRO DE 2010



MEMÓRIAS DE SANTA CRUZ
AS PINTURAS DE MESTRE PERES NA CASA DOS MOTAS

 Agosto de 1993, férias em Santa Cruz. Alguém me falou de pinturas antigas existentes na casa do senhor Joaquim Alberto Mota, que teriam sido feitas no tempo em que Antero de Quental esteve naquela praia, convidado de Jaime Batalha Reis. E logo se combinou uma visita à casa.

O senhor Mota recebeu-me muito bem e desatou a desfiar memórias dos seus 85 anos. “Meu pai comprou aqui uma casa que tinha sido convento de freiras e fez a Pensão Mira-Mar que depois vendeu à Maria Sabe-Tudo.” A casa em que estávamos a ter esta conversa “foi construída por João Pinto Mendes, que teve um estabelecimento onde hoje é a casa das bicicletas, no Largo do Grilo, em Torres Vedras. Deixou esta casa às primas, uma delas era minha avó.” Joaquim Mota ia contando mas eu já estava absorvido na contemplação das tais pinturas, de que já me recordava por ter lido um trabalho de Andrade Santos na revista “Torres Cultural” de Novembro de 1991. Eram três círculos com cerca de dois metros de diâmetro cada um, pintados sobre o estuque, na sala de fora, que ocupavam os espaços de duas paredes entre as portas de ligação com as outras dependências da casa. O que eu estava ali a ver era um precioso documento iconográfico da Santa Cruz dos anos 70 do século XIX.
Olhei melhor o nosso anfitrião. Homem de palavra fácil, culto, muito conhecido em Torres Vedras. Funcionário da Caixa Geral de Depósitos durante mais de trinta anos, Presidente da direcção da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo, mesário da Misericórdia. “Sempre ouvi dizer que Antero de Quental assistiu à feitura destas pinturas por Mestre Peres. Ele falou disto a Jaime Batalha Reis numa carta. Esse pintor também esteve na Igreja da Ponte do Rol. Ainda hoje tem família em Torres Vedras, a Cesária Hipólito, o Alberto Peres Alves…”
Nessa visita não tirei fotografias, apenas alguns apontamentos. Dois anos depois o senhor Mota morreu. Não voltei a ver as pinturas mas pensava nelas amiúde e na necessidade de guardar um registo fotográfico de qualidade para o Arquivo Municipal. A oportunidade surgiu agora, em conversa com amigos em Santa Cruz, e logo me foi dada a ligação com a filha do Sr. Mota, dona Maria Manuela. De novo fui bem recebido, desta vez com um amigo munido de máquina para o necessário registo. E o encanto renovou-se. Apesar da ingenuidade da composição, o conjunto tem um poderoso efeito evocativo. Santa Cruz, há 140 anos, era assim. | JMD



«A povoação reduzia-se então a poucas casas espalhadas sobre as arribas, como se sabe muito pito­rescas, altas e de estratos viva­mente coloridos, donde, para no­roeste, se avista Peniche, ao lar­go a Berlenga.» (Jaime Batalha Reis, Gazeta de Torres, 5/5/1929.)
 




Penedo do Guincho

Casa actual da família Mota, em Santa Cruz

Pela observação da pintura principal, podemos identificar a ermida de Santa Helena, com a cruz na empena, fachada diferente da actual. Identifica-se também a casa da família Mota, na parte esquerda da pintura, que na altura tinha uma porta ao meio e três janelas de cada lado.

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ANTERO EM SANTA CRUZ
(Jaime Batalha Reis na “Gazeta de Torres”,  5/5/1929, excertos *)

«Em 1870, Antero de Quental e eu vivíamos juntos em Lisboa. No mês de Agosto fomos, por al­guns dias, para casa de meu Pai no Turcifal, e, em seguida pas­sar dois meses à Praia, então quase desconhecida, de Santa Cruz.» (…)

«Morávamos numa casinhola térrea, das últimas habitações, ao sul, que voltava as costas a todas as outras, de telha vã e adobes rebocados, porta sempre aberta para um campo valado por pitei­ras, à beira duma quebrada pro­funda, por onde, de inverno a água corria em torrente. O pe­quenino prédio pertencia ao Fran­cisco Banheiro que, com a Ma­dalena, sua mulher, nos tratava dos quartos, da cozinha e da roupa.»

«São de Santa Cruz al­guns dos Sonetos filosóficos, en­tre eles me parece o Justitia ma­ter em que se cita o mar:
No espaço constelado passa o vulto / Do inominado Alguém que os sois aviva: / No mar ouve-se a voz grave e aflitiva / Dum Deus que luta, poderoso e inculto.»

«(…) Tinha em Torres Vedras um antigo companheiro de Uni­versidade, — o Dr. Philemon da Silva Avelino, que às vezes nos aparecia em Santa Cruz, e gos­tava muito o Antero de conversar com o Francisco Banheiro, a quem contava casos das Ilhas dos Açores, que este, interessado, es­cutava e comentava com gestos vagos e misteriosos para o mar.»

* Transcrito em fac-simile na revista “TORRES CULTURAL”, nº 4, Nov. 1991
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Outras imagens:



18.9.09

ANTERO DE QUENTAL: HOJE E SEMPRE


UM TEXTO FUNDADOR DA NOSSA MODERNIDADE

A nova estátua de Antero de Quental, inaugurada há dias em Santa Cruz, além de recordar o Verão de 1870 que ele ali passou em companhia de Jaime Batalha Reis, vem lembrar-nos a obra de um autor que abalou até aos alicerces o velho edifício mental português e abriu perspectivas de modernidade que ainda hoje estão longe de completamente realizadas.
A obra de Antero é multifacetada, desdobrando-se por textos de intenção filosófica (de que se destacam as Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX); de intenção poética (Sonetos e Odes Modernas); e de cariz social. Neste último grupo destaca-se aquele que, no dizer de Eduardo Lourenço, é um dos grandes textos fundadores da modernidade portuguesa: as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Com ele, Antero participou nas chamadas Conferências do Casino, em 1871, que fizeram estremecer o velho e adormecido Portugal, ainda dominante apesar de politicamente constitucional. Ao lado de Antero estavam homens como Eça de Queirós, Oliveira Martins ou Batalha Reis, empenhados, todos eles, em rasgar horizontes e abater os estreitos limites da mentalidade portuguesa, emparedada entre mais de 80% de analfabetos e uma religião católica mal entendida e usurpada em proveito próprio por aristocratas e burgueses.
Logo pelo título Antero alarga o seu campo de análise à Península Ibérica, não a confundindo com essa forçada construção política chamada “Espanha” – de que Portugal, mais periférico, conseguira separar-se - fruto dos interesses dinásticos das monarquias que ignoravam a identidade e autonomia de povos tão diversos como os Bascos, os Galegos ou os Catalães.
E que Causas de Decadência são essas? Em janela à parte transcrevemos apenas o enunciado inicial, deixando ao leitor a descoberta do restante texto justificativo, belíssimo pela clareza e rigor, estimulante pela audácia da abordagem e desafio às ideias dominantes.



CAUSAS DA DECADÊNCIA DOS POVOS PENINSULARES

Em 1871 um grupo de escritores e pensadores promoveu uma série de dez conferências públicas nas quais se propunham debater as grandes questões sociais, filosóficas e políticas do seu tempo. Das dez, realizaram-se cinco. As restantes foram proibidas pelo Governo de então, presidido pelo Marquês de Ávila e Bolama.
O discurso de Antero de Quental, na noite de 27 de Maio de 1871, teve enorme repercussão e a sua influência chega aos dias de hoje através de múltiplas edições. Destacamos a mais recente pela Ed. Tinta da China, em Outubro de 2008, que tem a valorizá-la um prefácio de Eduardo Lourenço.
No Jornal de Letras de 3 de Dezembro de 2008, em crónica sobre esta edição, Guilherme de O. Martins refere-se assim ao texto de Antero: “ “O que está em causa na atitude do conferencista das CAUSAS é a apresentação de um caminho radicalmente novo, não para mudanças formais, mas para transformações capazes de compreender o género humano e a sua evolução. A um tempo, há a proposta de uma transformação radical e a procura de um fulcro pragmático para as mudanças sociais que se exigiam no sentido da justiça. E o que Antero verbera é o afastamento e a distância dos povos peninsulares relativamente a uma Europa «pensante e industriosa»

Dois excertos do discurso de Antero de Quental:

«Meus Senhores:A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido acto de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também, diante do espírito de verdade, o acto de contrição pelos nossos pecados históricos, porque só assim nos poderemos emendar e regenerar.

(…) é nesses novos fenómenos que se devem buscar e encontrar as causas da decadência da Península. (…) são três e de três espécies: um moral, outro político, outro económico. O primeiro é a transformação do catolicismo, pelo concílio de Trento. O segundo, o estabelecimento do absolutismo, pela ruína das liberdades locais. O terceiro, o desenvolvimento das conquistas longínquas. Estes fenómenos assim agrupados, compreendendo os três grandes aspectos da vida social, o pensamento, a política e o trabalho, indicam-nos claramente que uma profunda e universal revolução se operou, durante o século XVI, nas sociedades peninsulares. Essa revolução foi funesta, funestíssima. Se fosse necessária uma contraprova, bastava considerarmos um facto contemporâneo muito simples: esses três fenómenos eram exactamente o oposto dos três factos capitais, que se davam nas nações que lá fora cresciam, se moralizavam, se faziam inteligentes, ricas, poderosas, e tomavam a dianteira da civilização. Aqueles três factos civilizadores foram a liberdade moral, conquistada pela Reforma ou pela filosofia; a elevação da classe média, instrumento do progresso nas sociedades modernas, e directora dos reis, até ao dia em que os destronou; a indústria, finalmente, verdadeiro fundamento do mundo actual, que veio dar às nações uma concepção nova do Direito, substituindo a força pelo trabalho, e a guerra de conquista pelo comércio.»

ANTERO E O MAR

O mar é uma constante na poesia de Antero. Por isso a estátua dele em Santa Cruz está virada ao oceano...


Oceano Nox

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...


Redenção I

Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento...

Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; psalmo misterioso;
Não serás tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?

Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.

E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!



Antero de Quental, in "Sonetos"
Fotos © Méon: Estátua de Antero de Quental na Praia de Santa Cruz, inaugurada em Agosto de 2009