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13.12.10

CHEGÁMOS A 100!



A página LUGAR ONDE no BADALADAS atingiu o número 100 em Novembro passado.
Teve início em Julho de 2002 e sai mensalmente.
É um espaço de livros, leituras, autores e, por vezes, de alguns comentários na área cultural.
Um pequeno contra-peso para compensar algum excesso de páginas dedicadas ao desporto...
Realço a autonomia absoluta que sempre me foi dada pela Direcção do jornal.
Não tenho retorno dos leitores, é um facto. As pessoas lêem e deitam fora, jornal é assim mesmo. Mas sei de algumas pessoas que gostam,  e isso sabe-me bem...

29.3.09

MIA COUTO




[Página LUGAR ONDE, jornal Badaladas, 20 de Março de 2009)

ESCREVIVÊNCIAS NA FRONTEIRA DE DOIS MUNDOS


O que se nota numa primeira leitura de Mia Couto é a capacidade para inventar ou adaptar palavras. Efeito de surpresa que é depois suplantado pela descoberta da sua mestria em contar histórias. Contudo, estas impressões iniciais não explicam, só por si, a extraordinária projecção de Mia Couto como escritor.
O que o torna um grande escritor da Língua Portuguesa, para além das características apontadas, é o que poderemos chamar a sua “escrevivência”: Mia Couto exprime admiravelmente pela palavra a situação original de um branco, filho de portugueses, que nasceu em África e fez dela seu berço, sua pátria e seu destino. Para o bem e para o mal. Primeiro como militante da Frelimo quando havia PIDE e guerra colonial; depois como construtor da independência na Cultura e na Ciência. Na escrita percebeu desde cedo que o caminho teria de ser o da inovação, na rota do que já faziam grandes escritores brasileiros como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos ou Luandino Vieira em Angola. Inovação que significa “necessidade de desarranjar aquela norma gramatical, para deixar passar aquilo que era a luz de Moçambique, uma cultura de raiz africana” (entrevista à revista brasileira ISTOÉ, 2007).
Noutra ocasião Mia Couto afirmou:”A escrita que eu faço está na fronteira entre a prosa e a poesia. A poesia, mais do que uma técnica da escrita, mais do que um género literário, é uma visão do mundo, para mim é uma filosofia.” (Revista LER, Verão 2002). Ora, a poesia - sabemo-lo bem - transgride e supera, transforma e recria, é veículo privilegiado para o novo e o indizível. É na superação destas fronteiras – Europa / África; prosa / poesia - que se plasma a sua obra. Tão importante como o que se diz, é o modo de o dizer, pelo que não se pode usar o Português clássico como veículo de culturas tão diferentes. Há que o recriar e nisso a Língua de Camões mostra uma versatilidade espantosa. A comprová-lo, mais ma vez, aí está a obra fulgurante de Mia Couto.



PERCURSO

Filho de pais portugueses que fizeram vida em Moçambique, Mia Couto nasceu, vive e trabalha naquele território, sua pátria na luta que partilhou pela libertação e na construção do novo país independente. Foi jornalista. Formado em Biologia, dedica-se a projectos de defesa ecológica e preservação dos últimos santuários naturais daquele país. Escritor, está traduzido em diversas línguas. Entre outros prémios e distinções, foi galardoado, pelo conjunto da sua obra, com o Prémio Virgílio Ferreira; e com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas, em 2007. Ainda nesse ano recebeu o Prémio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura. Foi escolhido para ocupar, como Sócio Correspondente, a Cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Letras.
Mia Couto tem 22 títulos publicados, abarcando poesia, crónica, contos e romance. Terra Sonâmbula, 9ª ed. em 2008, é considerada um dos 12 melhores livros africanos do século XX. Outros títulos conhecidos: Vozes Anoitecidas; Cada Homem é uma Raça; Estórias Abensonhadas; A Varanda do Frangipani; Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra; O Outro Pé da Sereia;Raiz de Orvalho e Outros Poemas; Venenos de Deus, Remédios do Diabo.

MIA COUTO POR ELE MESMO

«Não sou niilista, acredito que as respostas para os assuntos sérios podem ser encontradas também naquilo que faço nos meus livros, nesta brincriação, neste desafio aos sistemas de pensamento que até agora usámos e pelos quais fomos usados. Temos que inventar outros sistemas de pensar, autorizarmo-nos a pensar em poesia. Aquilo que faço é também a experimentação do próprio pensamento, dos modelos de pensamento, é uma ligação a esses universos para os quais não existe idioma. Para dar expressão a esses universos invisíveis é preciso criar mais do que palavras, é preciso criar um outro idioma.» [Entrevista ao jornal PÚBLICO, 15 Junho 1996]

SONO COLOQUIAL


Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.

Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço

Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.

(Do livro
“Idades/cidades/divindades”, 2007)

[Entrevista à revista brasileira, 26 Julho 2007]

Revista ISTOÉ – Quando e por que começou a inventar palavras? Couto – É uma coisa que me acontece, meus pais sempre lembram disso, desde menino – uma certa desobediência em relação àquilo que era norma. Começa pelo meu próprio nome. Nasci António e, quando tinha dois anos e meio, decidi que queria me chamar Mia, pela relação de afecto que tinha com os gatos. Eu pensava que era um deles (risos). Mais tarde, a poesia foi uma escola de desobediência, de transgressão. E havia uma outra condição: o português de Moçambique, sendo o mesmo do de Portugal, não fala àquela cultura. Senti desde sempre a necessidade de desarranjar aquela norma gramatical, para deixar passar aquilo que era a luz de Moçambique, uma cultura de raiz africana. A descoberta dos escritores brasileiros foi uma felicidade imensa para mim, pois eles já estavam fazendo isso: usando a língua portuguesa, mas com uma outra marca cultural.


O FORASTEIRO

«Era um lugar que ficava para além de todas as viagens. Por ali só o vento passeava, aguamente. Naquele solitário chão há muito que o tempo envelhecera, avô de outroras.
Certa vez, porém, passou por ali um forasteiro. Era homem sem retrato nem versões. Se muito chegou, mais ficou. Todos receavam o medonhável intruso, o irreputado intromissionário. Nos olhos dele, em verdade, não aparecia nenhuma alma, parecia o cego espreitando fora das órbitas.
Quando as tardes se inclinavam, ele se aproximava da aldeia em busca de coisa que só ele sabia. Os aldeantes se perguntavam:
- Mas esse homem: de onde veio, quem é o nome dele?
Ninguém sabia. Ele aparecera sem notícia. Chegara em Fevereiro, disso se lembravam. O mês já se molhava, de água plantada. O estranho trazia um cão, seus passos se uniam um a dois. Homem e bicho multipingavam. Foram atravessando a terra matopada mas quando mais iam menos se afastavam. Quando desapareceram, além-árvores, a chuva parou, em súbito desmaio. Todos entenderam, todos se inquietaram.» (…)
[ Início do conto “A lenda da noiva e do forasteiro”, do livro Cada Homem é Uma Raça]

16.7.08

ADEUS A UM HOMEM BOM

ANTÓNIO CORDEIRO MELO



“Homem bom” – antiga designação daqueles que se distinguiam na vida cívica. Assim foi António Cordeiro Melo. Homem de ideais, de cultura, de estudo. Cultor das letras e das artes, foi um dos obreiros do já lendário SUPLEMENTO cultural do Badaladas, em 1961. Humanista íntegro, resistente da liberdade, solidário com os desprotegidos. Marcou a vida cultural e política do Oeste. Deixou-nos no passado 23 de Junho, tinha 82 anos.

Vinha muitas vezes a Torres Vedras mas residia na Merceana, concelho de Alenquer, onde desenvolveu uma vida dedicada ao ensino, à dinamização cultural e à participação política. Professor no antigo ensino primário, destacou-se como co-fundador e director da Tele-Escola da Merceana, e como pioneiro e dinamizador dos Centros de Apoio Pedagógico. Foi fundador, sócio nº 1 e o primeiro Presidente da Direcção do Clube Regional de Recreio e Cultura da Merceana, tendo também participado na Assembleia de Freguesia desta povoação. Fez parte da primeira Direcção do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa.
Em Alenquer, onde nasceu em 1925, deixou marcas profundas da sua acção. Foi membro da Assembleia Municipal desde as primeiras eleições livres até ao anterior mandato, eleito pela CDU como militante do Partido Comunista Português. Participou como Vogal na Comissão Administrativa de Alenquer após a revolução de Abril, onde criou e foi titular do primeiro pelouro municipal da Cultura. Colaborou activamente no “Jornal de Alenquer”que ajudou a fundar. Foi co-autor da monografia “O Concelho de Alenquer”, uma obra de referência para o estudo da etnografia e do património construído daquele concelho. Publicou diversos estudos sobre os usos e costumes, lendas e trabalhos agrícolas da região.
Detentor do Curso de Artes Decorativas do Instituto António Arroio, destacou-se como artista plástico, na pintura e na marcenaria, tendo sido profissional desta arte desde os 18 anos. Cursou Filosofia e Letras na Universidade de Lisboa, onde completou, já depois de reformado do Ensino, a Licenciatura em História.
No Voto de Pesar, aprovado pela Assembleia Municipal de Alenquer em 27 de Junho passado, a sua memória foi largamente documentada, recordando-se que a António Cordeiro Melo já havia sido atribuída a Medalha de Mérito Concelhio, Grau Prata e propondo-se a perpetuação do seu nome numa rua da Merceana.



Cordeiro Melo no BADALADAS

Esteve entre os fundadores do “Suplemento” do BADALADAS, em 1961, juntamente com António Augusto Sales, Ruy Moura Guedes e outros. Para quem não se lembre, tratou-se de um suplemento cultural que teve enorme importância na época, pela audácia, inovação e até desafio ao obscurantismo reinante.
Em 1993, a Cooperativa de Comunicação e Cultura relançou uma nova série desse Suplemento, homenageando os fundadores. Cerca de trinta anos depois, Cordeiro Melo aceitou prontamente voltar a colaborar:

[…] Assim, e neste início dos anos 90, estamos perante outras formas de agir e pensar, novas linguagens, novos “campos experimentais de cultura”, em suma, estamos perante uma nova geração. Dele emerge, agora, um novo grupo para quem a vida, também, não faz sentido sem utopia, que vem dar o novo sinal de partida para a publicação deste novo Suplemento de Badaladas [...]

[...]Eu tive o privilégio de ser solicitado e a sorte de estar vivo para poder estabelecer o elo de ligação entre os dois actos inaugurais, com a convicção de que a questão de fundo e as razões fundamentais que deram origem ao primeiro, continuam actuais para este novo SUPLEMENTO, 30 anos depois…



AS VELHAS TORRES

Lá no alto, correm as cristas de Montejunto. Cá em baixo, no fundo da cova e ao centro daquelas abas da serra, ergue-se, imponente, o Santuário.
As torres do templo enchem os olhos a toda a gente. A seus pés, afunda-se e rasteja uma aldeia calafetada de vinhedos.
Por cima, uma nesga de céu dá passagem às agulhas dos cata-ventos em busca de infinitos…
- Ninguém pode perder as torres de vista – já diziam os antigos.
Vivências milenárias afloram aos gestos e às palavras em cada esquina.
Lobisomens, almas penadas e espíritos maus andam a monte noite e dia; mas à noite zurram, uivam, piam, batem asas sobre as almas adormecidas e fazem mal. Fazem muito mal. Bruxedos, presságios, forças ocultas eclipsam auroras de claridade nascente em terras sagradas do Boi Marciano.
- Ninguém pode perder as torres de vista – clamam os velhos convictos.
Os olivais, as rendas da casa dos Romeiros e algumas cobranças aos mercadores que vêm fazer a feira todos os meses no Terrado, lá vão equilibrando as posses da Casa Santa; as quotas dos irmãos, esmolas e quetes dominicais fazem crescer, ao fim do ano, um pão feito de migalhas.
- Ninguém poder perder as torres de vista – dizem os novos desalentados.
A alegria e a tristeza dobram e repicam no alto das torres. Ecoam lá longe nas gargantas da serra. Vozes de bronze, cavas e fundas, tenórias ou finas – vibram no ar: clamores, preces, aleluias, finados, rebates; boas novas também.
A voz do tempo é a voz dos campanários. É uma voz que governa, anuncia, chama, recreia e dita. Voz que acerta o passo; enrola cigarros com lentidão de cava a dois ferros em terra dura. Voz desejada ao sol-poente para endireitar a espinha; o repique ao dia e à hora de receber a féria.
- Ninguém pode perder as torres de vista – aprendem as crianças.
O electricista deixa a luz acesa até altas horas da noite, mas ela perde-se nos bancos da Praça sem viv’alma. Amortece na escuridão dos cerros e vales onde as almas do outro mundo conspiram e apagam faróis atrevidos…

*

Sereias, relógios, cimento, vidro e ferro gritam progresso por atalhos e caminhos em direcção aos quatro ventos das vinhas do Oeste. Porém, tudo se cala à voz do sino grande. O seu badalar é um badalar dos tempos. Voz de um passado medieval que anima e conduz o coração e as ideias dos povoados que branquejam entre retalhos verdes e castanhos-claros. Voz a quem se obedece de dentro para fora. É uma voz sagrada a falar dentro de um tempo e de um espaço sagrados. Não há ano de 365 dias; há quatro tempos sagrados: o Presépio, a Páscoa, a Procissão do Senhor dos Passos e a festa grande em honra do Santíssimo. É a festa da Casa. Estes quatro tempos não são quatro estações de três meses. Longe disso. O tempo de nascer é pelas searas de trigo ou de milho; casam-se pela azeitona ou vindima; morrem pelo tempo da «fruta do tarde». Este é o regimento da vida dos montes redondos, dos vales bem feitos, das rainhas milagreiras e misericordiosas. Quando a poda e a empa mais o sulfato e o enxofre correm de feição: há o S. Martinho regado e repiques canoros vibram o azul rutilante do céu. Luas más, lado suão, Berlenga contrária, o silvo do comboio galga para cá da serra: amanhos ruins, «provas» desapaladadas – os vinhos não valem. E o mercado de Outubro já não é a feira por excelência. Negócios fracos. Ninguém se chega a comprar.
- Quer alguma coisa freguês?

(Excertos do livro Contos Portugueses de que Cordeiro Melo foi co-autor)