20.12.12

UM DESASSOSSEGO DE LIVRO



Tenho cá por casa estas quatro edições do "Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa, aliás Bernardo Soares, ou ainda Vicente Guedes/Bernardo Soares.
E ainda faltam aqui as edições brasileiras, para além da publicada por Jerónimo Pizarro em edição crítica na Imprensa Nacional - Casa da Moeda, em 2010.

À primeira vista e aos leitores desprevenidos, apetece largar da mão esta amálgama de edições. Mas depois há que perguntar por que razão o livro teve tanta aceitação e acaba por ser um dos mais conhecidos no estrangeiro através das múltiplas traduções já feitas.


 A verdade é que os mais de 500 fragmentos dispersos na célebre arca de Pessoa, misturados com outros de obras diferentes, são textos de uma actualidade e profundidade psicológica que os tornam incrivelmente sedutores para o homem contemporâneo. É a angústia de viver, o desassossego de não saber para quê e como viver, as grandes interrogações sobre a vida e a morte, as reflexões com tema ou simplesmente banais mas carregadas de sinceridade desarmante - é tudo isto que encontramos nestas páginas muitas vezes arrebatadoras.

"Se penso, é porque divago; se sonho, é porque estou desperto. Tudo em mim se embrulha comigo, e não tem forma de saber, de ser." 

"Escrevo com uma grande intensidade de expressão; o que sinto nem sei o que é. Sou metade sonâmbulo e a outra parte nada."


Livro que não é livro, como diz J. Pizarro no seu recente "PESSOA EXISTE?" (Ática /Babel, 2012).
Pessoa tinha em mente escrever um livro com aquele título mas nunca passou da fase de escrever fragmentos. Foi amontoando papéis a esmo, nos mais diversos suportes - subscritos, apontamentos, notas soltas misturadas com assuntos totalmente diferentes, folhas inteiras ou rasgadas, papel de embrulho... Muitas vezes deixava a indicação abreviada "L D ", outras vezes nem isso. Sem numeração nem indicações de precedência.

Cada LIVRO DO DESASSOSSEGO  é o resultado de um conjunto de critérios definidos pelos estudiosos e editores que meteram ombros à tarefa ciclópica de compor o puzle. O que faz a diferença de umas edições para outras é a definição e a hierarquização dos critérios de organização, definidos a partir  
                                                            de pressupostos diversos.


Daí que seja possível ler diversas versões do livro, na certeza de que todas são aceitáveis pois foram feitas por experimentados pessoanos que nelas trabalharam. Como diz Pizarro, " a sua forma depende de uma idealização", estas edições "não existem senão como imitações de um Livro inexistente" - passe o paradoxo, que afinal corresponde ao que o próprio F. Pessoa escreveu sobre o projecto deste livro, em 1914, em carta a Armando Côrtes-Rodrigues: " Tudo fragmentos, fragmentos, fragmentos".

Fernando Pessoa morreu em 1935 e deixou uma arca com mais de trinta mil papéis, a maioria amontoados e sem articulação organizativa, cujo conteúdo está na Biblioteca Nacional e tem vindo a ser digitalizada, tarefa ainda longe de concluída.
Dezenas de investigadores já remexeram, reviraram, leram, organizaram e desorganizaram aquela papelada toda.

Um desassossego de livro, este Livro. Mas, curiosamente, é o seu carácter fragmentário e descontínuo que lhe confere inegável contemporaneidade, num tempo marcado pelos ritmos sincopados e pela desconstrução dos géneros literários.
Eu diria que este LIVRO DO DESASSOSSEGO é como uma sinfonia de jazz que todas as noites fosse tocada por músicos diferentes.

18.12.12

VOZES DO ALENTEJO EM TORRES VEDRAS


Maria de Lurdes Santos foi professora de Literatura Portuguesa e de Latim durante mais de trinta anos numa Escola Secundária de Torres Vedras.



Acaba de publicar um livro muito interessante que chegou até nós no passado Sábado, em sessão pública: VOZES DO ALENTEJO, edição da autora.

Neste livro propõe uma visita guiada à produção poética de autores populares do Alentejo, muitos deles analfabetos, cruzando os seus poemas com os de autores ditos eruditos ( letrados, reconhecidos como tal), verificando que as temáticas são frequentemente comuns e a forma usada pelos poetas populares não desmerece em nada da dos outros mais cultos.

Lurdes Santos analisa essas formas e destaca o domínio técnico destes autores populares que têm como base de registo unicamente a memória, chamando a atenção para o ritmo, as rimas e a fidelidade aos padrões clássicos da versificação, em linhas de continuidade que remontam à época medieval.

Este é um estudo feito a partir do contacto directo com os poetas populares e com a preocupação de contextualizar as suas produções com a vida quotidiana, articulando-a com o aspecto mais geral do país. Os textos surgem-nos assim em contexto social e político, o que lhes dá uma dimensão que ultrapassa as fronteiras do Alentejo. 
Veja-se esta sextilha de um dos grandes poetas populares alentejanos, Manuel José Santinhos:

O fadinho trabalhista
Cantado por um fadista
Aldeão ou camponês
Ao transmitir a poesia
Vem fornecer ousadia
Ao povo português

Ressalta também dos muitos versos transcritos pela autora o cunho ingénuo mas genuíno destes escritos. Neles se reflecte o reconhecimento do autor de que sabe que está a fazer algo que é muito especial (versos!) e, não raro, a sua surpresa por superar as suas limitações

Saboreemos estas décimas, a partir da quadra que serve de mote:

Mote

"Cada parvo com sua mania"
Lá diz o velho ditado
A minha é fazer poesia
Que espero ser do vosso agrado

Um dia estando a pensar
Na minha mente se fez luz
E para o papel transpus
As palavras a rimar;
Comecei assim a analisar
Tudo aquilo que eu sentia;
Com grande gosto o fazia;
Inda hoje isso me alegra
Pois eu cá não fujo à regra
"Cada parvo com sua mania".

É de noite principalmente
Que me dão estas parvidades
Umas mentiras, outras verdades
Vêm à minha ideia de repente;
Aparecem naturalmente
Sem muito me ter esforçado;
Acho isto muito engraçado;
"Quem não pode como quer
Que faça como puder"
Lá diz o velho ditado.


Eu gosto muito de ler;
A leitura me alimenta
Porque minha alma sedenta
Precisa de se rejuvenescer;
Mas há quem mais goste de saber
Se ganhou na lotaria
Corta de noite e de dia
Na casaca até mais não;
Têm a mania da perfeição
A minha é fazer poesia.

Eu já não tenho é a alegria
De quando era moça nova
Mas às vezes ainda renova
Um pouco dessa magia;
Talvez seja da euforia
De ter este gosto apanhado;
A poesia é um trinado
Mas melhor eu não sei fazer
Esta quadra estou a escrever
Que espero ser do vosso agrado.

Beatriz G. C. Nunes in: Cancioneiro Popular Terras de Santiago


Um agradecimento muito especial à nossa colega Mª Lurdes Santos por esta prendinha de Natal.



17.12.12

CÂMARA CLARA



É como a saúde: só apreciamos quando a perdemos.
Confesso: muitas vezes não vi este programa, outras mais vi-o enquanto fazia outras coisas no computador. Mas sabia que ele estava lá, via-o em diferido na net ou gravava-o para o ver mais tarde. Confortava-me saber que num canal público de televisão um grupo de pessoas divulgava Cultura. Ali era o único sítio onde sabíamos que encontraríamos pessoas que nunca aparecem ou só aparecem quando morrem.
Hoje acabou o CÂMARA CLARA. Nem me apetece dizer mais nada. Como quando, no velório de um amigo, impera o silêncio.

Felizmente, os autores do programa terminaram-no com uma demolidora sátira aos filisteus que nos governam: a última cena da VIDA DE BRIAN, dos Monty Python



Monty Python - Always Look on the Bright Side of Life



Mesmo que esteja na porcaria, cante! Veja o lado positivo da coisa...

14.12.12

RICHARD ZENITH, Prémio Pessoa 2012

(Foto retirada da notícia referenciada)

Richard Zenith:
Conhecemo-lo pelas traduções de autores portugueses e pela dedicação à obra de Fernando Pessoa.
O LIVRO DO DESASSOSSEGO ganhou dimensão com a organização que Zenith dele fez, e a sua tradução para o Inglês, - pese embora a posterior desautorização que lhe foi feita por Teresa Sobral Cunha na edição desse LIVRO na Relógio d'Água.
Fernando Pessoa tornou-se-nos mais conhecido com a fotobiografia que R Z publicou no Círculo de Leitores em 2008 e que gosto muito de revisitar, livro que a Companhia das Letras (Brasil) também já publicou.

Veja-se:
http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/lazer/cultura/de-tudo-na-vida-ele-fazia-literatura
Prémio merecido!

12.12.12

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA



Maria do Rosário Pedreira é uma profissional da edição mas é também escritora. Em 1996 estreou-se com A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS e neste título está a essência da sua poesia: a casa onde tudo acontece, casa como espaço de vida e como metáfora de vida interior; e os livros, espaço onde se escreve a vida e a interioridade poética.
Em Setembro deste ano a Quetzal publicou a sua poesia reunida.

                                                        




Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes da viagem, para que nele 
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos - tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos - nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.

O CANTO DO VENTO NOS CIPRESTES
Maria do Rosário Pedreira



9.12.12

LER - para ler! Dezembro 2012



Sophia é chamariz, tá bem. Mas a revista tem muito mais do que isso. O espólio da grande escritora está na Biblioteca Nacional e, como diz a filha Maria Andersen, também escritora, o essencial já foi publicado. Restam os diários, pouco sistemáticos ( ainda bem!) mas ainda assim, pelo que se transcreve na revista, com a marca dela.



Para mim o mais interessante é a entrevista a Vitor Silva Tavares, um marginal da edição - é ele que o diz! - responsável pela editora &ETC.
Esta editora tem títulos que não encontramos em mais lado nenhum e recusa-se a reeditar os que estão esgotados. Feitios! Melhor: é o feitio do Vitor S. Tavares, um tipo à moda antiga, que vive no tempo intemporal ( eia!) que está para além do nosso tempo (confuso, não?). Olho para as fotos dele num escritório/loja/buraco (ele é que diz...) e parece-me ver um tempo antigo que já não há.


                                                                Foto scanizada da revista

Provocador, o Vitor, é assim que se sente bem. E ainda bem. Ali não há compromissos.
A entrevista é de Carlos Vaz Marques, que tem assinado outros belos trabalhos do género.
Leia-se o texto de arranque da conversa com o tal Tavares:


" Vítor Silva Tavares já cá anda há muito: fez muitos livros, conheceu muita gente, foi amigo de muitos e desamigo de ainda mais. Gosta de pôr tudo em causa. Mesmo tudo. Com 75 anos, reclama para si o direito a escolher os seus «albaneses», ódios de estimação determinados não apenas pelo sentido de justiça, como reconhece, deixando transparecer um certo gosto antigo pelo «terrorismo cultural». Faz em janeiro quatro décadas que deu início à aventura chamada &ETC .Começou por ser um magazine e transformou-se na editora que se recusa a ceder ao mercado: nunca reimprimiu um livro, nunca ninguém ali ganhou um tostão. Quarenta anos é um bonito número redondo para celebrar. O editor que não quer que lhe chamem editor garante, no entanto, que não vai comemorar nada. Talvez surja um volume de homenagem mas Vítor Silva Tavares está fora da jogada. Acha até bizarro que já haja quem esteja a preparar uma tese de doutoramento sobre a &ETC. Ele, com aquela figura de duplo de César Monteiro, descendo todos os dias ao «subterrâneo 3» da Rua da Emenda, ao Bairro Alto, continua a preferir dar sentido à máxima do amigo: «Vai e dá-lhes trabalho.»"


Esta LER, como já é costume, tem muito para ler: crónicas, recensões, notícias. Um texto sobre George Steiner, por exemplo, a propósito de mais um livro seu publicado pela Relógio d'Água com tradução de Miguel Serras Pereira ( uma garantia), A POESIA DO PENSAMENTO, mais um livro para a fila dos trezentos e trinta mil que gostava de ler...

Tanto para ler! O que vale é que só sai uma por mês...


7.12.12

ADEUS, JOAQUIM















Homem de teatro. Homem de resistência, Homem da velha guarda.
Homem com H grande!

Cid Simões homenageia-o aqui, com uma imagem sinistra das nossas piores memórias, a censura prévia.

http://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2012/12/blog-post.html

Adeus Joaquim! Obrigado pelo muito que me deste. Obrigado pelo teu magnífico Teatro de Almada onde vi alguns dos teus trabalhos memoráveis.

* * *


TEXTO LIDO ONTEM À TARDE, NO SEU FUNERAL

Morreu o Joaquim. Morreu o nosso Mestre e o nosso Amigo.
Morreu a fazer teatro, que era o que ele melhor fazia: e fez teatro até ao fim. Dirigiu-nos até já não ter fôlego para puxar a fumaça dos cigarros que ia desfiando, um após o outro, nos ensaios (nas últimas semanas, resignado a ter de deixar de fumar, trazia para a sala um cigarro electrónico que alguém baptizou de Robocop).
Joaquim Benite foi e será o que se dirá agora dele: um intelectual de acção, um artista generoso, um Homem perseverante, com um aguçado olhar poético sobre o Mundo e uma grande intolerância contra a injustiça – que nalguns momentos da sua vida terá tentado beliscá-lo, mas que ele ignorou como quem dá um piparote numa beata pela janela do carro fora, como ele tinha o mau hábito de fazer.
Joaquim Benite foi e será muitas coisas. Para nós, os que temos vivido e aprendido com ele – para as várias gerações de actores, técnicos, encenadores, directores de teatros… – o Joaquim foi o Homem que nos revelou o segredo de que o teatro é um vício (quem lá entra, nunca mais de lá sai), mas é também um bálsamo (nós, os que temos esta profissão, somos uns privilegiados, porque nos momentos de dor imensa, como este, podemos sempre fugir para o palco: e lá a dor é outra).
Ficámos com uma peça nas mãos: o «Timão de Atenas», que de Atenas fala pouco, mas fala muito sobre a hipocrisia e a falsidade dos homens. O nosso “patrão”, como o Joaquim lhe chamou nos primeiros ensaios, tinha a mania de escrever para nós, e para “os que vierem depois de nós” – e os que vierem depois deles.
E agora chega de “palavras, palavras, palavras…” e vamos mas é trabalhar, que era talvez o que ele diria neste momento, se pudesse. Vamos cuidar dos vivos. Confortar a sua família – as suas irmãs, os seus filhos, os seus netos – e trazer a Teresa «Coragem» de volta às tábuas.
“E já que estamos em Shakespeare” (como tu próprio podias ter dito, meu querido Amigo…), citemos as palavras que o nosso “patrão” põe na boca daquele que, desiludido do caminho que a sociedade ia tomando, se afastou dos homens para morrer sozinho:
“Sol, esconde os teus raios: o Joaquim chegou ao fim do seu destino”
Companhia de Teatro de Almada
texto lido pelo actor Luís Vicente, esta tarde, no funeral
PUBLICADO NO BOLETIM Nº 213 DO TEATRO MUNICIPAL DE ALMADA
.

28.11.12

LUGAR ONDE - Novembro 2012 - BADALADAS





JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

DISTÂNCIA E RECOLHIMENTO ENTRE OS RUÍDOS DO MUNDO

A poesia é, por definição, território de diversidade e densidade. E se, como dizia Novalis, “quanto mais poético mais verdadeiro”, então a diversidade da poesia explica as múltiplas faces da verdade, isto é, a diversidade dos mundos - o exterior e o interior- e a vida do Homem joga-se na tensão entre os dois. Esta é, parece-me, a essência da construção poética de José Tolentino Mendonça (JTM).
Quando ele se refugia numa mansarda da Baixa de Lisboa para escrever o livro “O Viajante Sem Sono” ( v. revista LER, Novembro 2008), percebemos que o gesto tem algo de Simão Estilita: distância e recolhimento, sem deixar de estar atento aos ruídos do mundo que sobem até ele. A metáfora do eremita não é casual. JTM além de poeta, professor universitário, biblista, ensaísta e tradutor, também é padre. Mas nada de paternalista transparece na sua escrita, antes a humildade genuína de quem procura: “A minha poesia é o mapa da minha procura. É o testemunho de que eu busquei. Nem sempre diz o que busco mas diz sempre que eu busquei”(v. revista LER, Dezembro 2009). JTM sugere que  “as palavras que expressam o poético são as mesmas que expressam a indagação crente” e é esta sobreposição que lhe garante a universalidade de leitura de crentes e não crentes. O universo poético de JNT oferece-nos um percurso de busca e salvamento, sem nomear ruas nem lugares de destino. A salvação de cada um depende do silêncio que souber criar e da noite em que aceite viver – estes os códigos de acesso para a travessia do mundo.
A poesia de José Tolentino Mendonça nada me impõe, antes propõe: um olhar inocente porque “o mistério está todo na infância”. | JMD

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PERFIL

Nasceu na ilha da Madeira em 1965. Ordenado padre em 1989. Editou o seu primeiro livro de poesia Os Dias Contados em 1990 e, desde então, tem diversificado a sua obra como poeta, ensaísta e tradutor. Em 1997: tradução do Cântico dos Cânticos. 1994: ensaio As Estratégias do Desejo: Um Discurso Bíblico Sobre a Sexualidade. 2010: publicação de toda a obra poética no livro A Noite Abre Meus Olhos. 2011: livro de reflexão Pai Nosso que Estais na Terra. 2012: Estação Central.
Professor na Universidade Católica, é também o Director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. Foi nomeado, no final de 2011, consultor do Conselho Pontifício de Cultura do Vaticano.
Em Julho de 2012 foi considerado pelo semanário Expresso “uma das 100 personalidades mais influentes de Portugal” pela  projecção religiosa e cultural da sua acção em que propõe ao homem contemporâneo “o caminho solitário e silencioso da espiritualidade”. 


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POEMA OFERECIDO AO PAPA BENTO XVI

 Poema de J Tolentino Mendonça presente em Roma na homenagem a Bento XVI pelo 60º aniversário da sua ordenação sacerdotal do Papa:

O MISTÉRIO ESTÁ TODO NA INFÂNCIA

E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder

Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente

Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore

O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

                  *

 OUTROS POEMAS


O ESTERCO DO MUNDO

Tenho amigos que rezam a Simone Weil
Há muitos anos reparo em Flannery O'Connor

Rezar deve ser como essas coisas
que dizemos a alguém que dorme
temos e não temos esperança alguma
só a beleza pode descer para salvar-nos
quando as barreiras levantadas
permitirem
às imagens, aos ruídos, aos espúrios sedimentos
integrar o magnífico
cortejo sobre os escombros

Os orantes são mendigos da última hora
remexem profundamente através do vazio
até que neles
o vazio deflagre

São Paulo explica-o na Primeira Carta aos Coríntios,
«até agora somos o esterco do mundo»,
citação que Flannery trazia à cabeceira


A MULHER DESCONHECIDA

É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome

eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece

e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor

José Tolentino Mendonça
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida", Assírio & Alvim)





18.11.12

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA







"A poesia ensina a cair" (Eduardo Prado Coelho)

Amparo-me nos versos de J T Mendonça. 
Corrimão à beira do precipício. 
Queda para cima, física desquântica, escuridão no fim da luz.

9.11.12

"LER" de Novembro

Já a tenho aqui.
O prato forte é o escritor Alberto Manguel, autor de uma belíssima HISTÓRIA DA LEITURA, entre outros títulos já publicados em Portugal como "No Bosque do Espelho" ou "Um Diário de Leituras".
Gosto de escritores que escrevem sobre livros, A. Manguel,  Enrique Vila-Matas ou Umberto Eco. Ajudam-me a orientar no meio da selva editorial.

A LER traz então uma belíssima entrevista a este escritor, feita por Carlos Vaz Marques. É uma viagem ao mundo da leitura com este homem fascinante que, na adolescência, lia em voz alta para Jorge Luís Borges, quando este cegou.

Mas, como sempre, a revista tem grande variedade de temas e textos, sempre à roda dos livros e dos escritores, onde nem faltam alguns traços de bom humor.

UM LIVRO PARA O OUTONO










Hoje L. chegou a casa com este livro debaixo do braço. Que bom! Também sou fã de Sándor Márai.
Há qualquer coisa de estranho na sua escrita. Uma corrente subterrânea que nos convoca para a seriedade da vida e da fidelidade ao essencial. Uma espécie de rio interior que circula pelas páginas, sem concessões ao que é superficial e transitório.

Um livro para os dias de Outono. Para ler contigo.

27.10.12

CHAFARIZ - ENFIM RESTAURADO

Desta vez a página LUGAR ONDE no BADALADAS foi dedicada ao monumento emblemático de Torres Vedras.


Durante alguns meses vimo-lo entaipado e rodeado do estaleiro de obra.

Finalmente apareceu em todo o seu esplendor.




Passemos então à página:



Em letra corrida, para facilitar a leitura:




CHAFARIZ – ENFIM RESTAURADO

Com o recente restauro do Chafariz dos Canos o município torriense redime-se de um longo período de menosprezo por aquele que é, sem dúvida, o seu mais precioso monumento histórico.
São sete séculos a proporcionar um bem essencial – a água – configurados na melhor arquitectura medieval, que se oferecem ainda hoje ao nosso deslumbramento, perante esta obra pública de parceria régia e municipal do tempo em que a municipalidade se afirmava na construção de Portugal. Um monumento assim tão rico de implicações históricas e sociais e tão raro valor artístico só merecia ser dignificado.
Por isso deve merecer-nos a maior gratidão o empenho posto no seu restauro da histórica fonte gótica assim como a devolução do protagonismo que lhe era devido naquele espaço, retirando-lhe da frente todo o ruído que se interpunha à sua leitura integral.


NO ENTANTO…

No entanto, se o essencial foi feito e por todos deve ser reconhecido, alguns aspectos, certamente corrigíveis, se nos afiguram como menos conseguidos.
É provável que, por agora, estranhemos o ar de cara lavada ou o aspecto de “pó de talco” que parece envolver toda a construção, consequência da limpeza da pedra e do tratamento das argamassas. Mas o tempo se encarregará de lhe devolver uma “patine” mais familiar. Pena é que a solução final da pintura não mantivesse a cor amarelo ocre
na corda manuelina e no friso superior do muro, que longe de ser um devaneio popular, constitui característica da a”arte mudéjar” que inspira toda a parte superior do conjunto – o coroamento de merlões e coruchéus.
Quanto ao arranjo do largo, pesa um pouco a sensação de vazio, talvez devida à uniformidade do piso, que assim se amplia visualmente. Mas estranho mesmo é a opção por formas e materiais pouco conviventes com o monumento (embora saibamos que é essa a intenção) como é o caso do enorme banco de mármore branco e o candeeiro preto, a um dos cantos. Também aquela árvore ali plantada, frente ao passo, nos aparece como forçada, sem função nem contributo estético que se veja.
A ideia do espelho de água justifica-se, conjugando memória histórica do tanque e valorização cénica. Mas não precisava de ocupar todo o espaço do pequeno largo (e ninguém se lembrou dos pombos!).

E porque não reintegrar os pilares esculpidos com “golfinhos” que eram parte da estrutura do tanque e se encontram desterrados em frente à capela de S.João?




Embora se trate de pormenores, sempre remediáveis, são aspectos que não contribuem para a criação de uma atmosfera de intemporalidade que, quanto a nós, deve presidir a intervenções em espaços carregados de passado.

José Pedro Sobreiro




* * *


No princípio do século XX era o formoso tanque com seu gradeamento em ferro forjado apoiado em pilares esculpidos (golfinhos), que estendia ao gado muar a generosa dádiva do chafariz, onde a população se abastecia.





Depois, cerca dos anos 40, veio o progresso e a higiene, foram-se os burros e vieram os automóveis...! E o tanque foi à vida.




Nos anos setenta retirou-se o “stand” mas, para não ficar muito vazio, embelezou-se com um pequeno jardim, com bancos de costas voltadas para o monumento, que ficava lá atrás.





Hoje, finalmente, o monumento respira, restaurado, ocupando o seu lugar na praça, oferecendo-se na sua beleza à nossa admiração de monumento singular.

* * *

UM TRABALHO NOTÁVEL

Em 2 de Junho de 2006 o BADALADAS trazia na primeira página, em grandes destaque, uma fotografia do Chafariz dos Canos com o título “Chafariz perto da ruína”. Na pág. 3 a jornalista Ana Alcântara dava conta do alerta lançado pela Associação para a Defesa e Divulgação do Património de Torres Vedras - o tempo e a incúria dos homens estavam a arruinar, de modo quase irreversível, aquele monumento, de características únicas no país.
Seis anos passados, aquela Associação saúda calorosa e publicamente, o trabalho de restauro que acaba de ser realizado. E sublinha: ele resulta de uma escolha acertada da Câmara Municipal que o adjudicou a uma das melhores empresas do sector, com valiosos trabalhos realizados em Portugal e no estrangeiro, a empresa Nova Conservação, com sede em Lisboa (www.ncrestauro.pt).


24.10.12

Zorba The Greek




Um filme a recordar. Saiu há muito dos circuitos comerciais. Perdura a memória de Anthony Quinn e das suas gargalhadas perante os desastres...

23.10.12

AMOR EM TEMPO DE CRISE





O programa PRÓS E CONTRAS  de ontem, na RTP 1, passou-me despercebido. Valeu-me a gravação que pude ver hoje aqui: http://www.rtp.pt/play/p40/e96563/pros-e-contras/263860

Para além da vantagem enorme de ter passado ao lado da crise como tema - recorrente e gerador de tédio, tantas são as vezes que ali se fala dele - o programa de ontem atreveu-se a falar de Literatura e de Cultura. Durante duas horas! O que levou Daniel Sampaio a iniciar a intervenção lembrando justamente que a crise pode ser ultrapassada pelo lado da Cultura.
O pretexto foram os cento e cinquenta anos da edição do AMOR DE PERDIÇÃO, de Camilo C. Branco.
Duas horas de boa e substancial conversa em que também participaram alunos do Ensino Secundário - na segunda parte do programa.

Duas questões centrais estiveram presentes:
1 - Camilo ainda é um autor actual? Qual a sua importância na nossa Literatura?
2 - Como é que os jovens de hoje vêem Camilo? Lêem-no?

O painel de convidados era de primeiro plano: Ministro da Educação, Nuno Crato; Vasco Graça Moura, director do CCB; Fernando Pinto do Amaral, director do Plano Nacional de Leitura; Daniel Sampaio; Maria Helena Buescu e o director da Casa de Camilo, em S. Miguel de Seide.

Por último refira-se que Camilo e o Amor de Perdição estarão em destaque no Centro Cultural de Belém entre 22 e 27 de Outubro. Veja-se AQUI.

16.10.12

OLÁ, AGUSTINA




90 anos! Bonito!
Posso dar-lhe os PARABÉNS?
Bem sei que já cá não está o seu espírito traquina e labiríntico. Resta a pobre carcaça do corpinho velho, decrépito. Mas permanece a obra enorme que nos legou.
Obrigado, Agustina!

«Povo.
Um povo faz-se com muitas lágrimas; elas são a experiência dos seus erros e a espécie de sabedoria que se acumula sem ser nos livros. Um povo não é um poema épico, nem um homem, nem mesmo uma forma de poder. É uma súplica melancólica através dos tempos, e que custa muito esforço; uma súplica digna de res­peito porque se dirige, não à internacionalização da vida, não aos planos de exportação e de produção, mas a um imperativo que ponha fim ao egoísmo de todos. Um povo não verte lágrimas pací­ficas; elas são sempre revoltadas. E inútil dizer-lhe que pode nego­ciar melhor se se converter em massa humana; um povo tem uma personalidade mítica que é indiferente à natureza das massas.»
Agustina Bessa-Luís - DICIONÁRIO IMPERFEITO, Guimarães Editores, Lisboa, 2008

Para conhecer Agustina: documentário NASCI ADULTA, MORREREI CRIANÇA. Aqui:
http://vimeo.com/50423905

12.10.12

MO YAN - Nobel da Literatura 2012

Foto :
http://entertainment.time.com/2012/10/11/chinese-novelist-mo-yan-receives-nobel-prize-but-is-he-politically-correct/

É um nome que soa bem.
E mais uma vez o Prémio Nobel da Literatura cumpre a missão que lhe reconheço como mais apropriada: chama a atenção para um escritor pouco conhecido e com obra feita - reconhecida por especialistas que a recomendam.

Pormenores AQUI e AQUI.

7.10.12

PRÉMIO "MÁXIMA" PARA MARIA TERESA HORTA



De Diário Digital

Maria Teresa Horta, com «As Luzes de Leonor», editado pela Dom Quixote, foi a grande vencedora do Prémio Máxima de Literatura 2012, que tem como objectivo «destacar e divulgar a literatura portuguesa no feminino».

«Um romance sinfónico sobre a Marquesa de Alorna, Leonor de Almeida Portugal, neta dos Marqueses de Távora, uma figura feminina ímpar na história literária e política de Portugal. A grande escritora Maria Teresa Horta, persegue-a e vigia-a nos momentos mais íntimos, atraída pela desmesura de Leonor, no seu permanente conflito entre a razão e a emoção. Acompanha-a no voo de uma paixão, que seduz os espíritos mais cultos da época, o chamado "século das luzes", e abre as portas ao romantismo em Portugal. Um maravilhoso e apaixonante romance sobre a extraordinária e aventurosa vida da Marquesa de Alorna».
Esta é a sinopse de «As Luzes de Leonor», vencedor do Prémio Máxima de Literatura 2012, que, este ano, comemora a sua 20.ª edição. É a segunda vez que Maria Teresa Horta é distinguida, visto que, em 2010, recebeu o Prémio Máxima Vida Literária pela sua obra «Poesia Reunida».
O júri, constituído por Maria Helena Mira Mateus, Leonor Xavier, António Carvalho, Valter Hugo Mãe e Laura Luzes Torres (presidente), atribuiu ainda os seguintes prémios:
Prémio Ensaio
«A cada um o seu lugar – A política feminina do Estado Novo», de Irene Flunser Pimentel (Círculo de Leitores e Temas e Debates).
Prémio Especial do Júri
«Biografia de Lisboa», de Magda Pinheiro (Esfera dos Livros)

6.10.12

Revista LER - Outubro 2012




Aí está o número 117, de Outubro 2012.
Muito para ler, vejam-se os destaques da capa.

A figura do mês, Rubem Fonseca, Prémio Camões 2003. Pretexto: a publicação pela Sextante de JOSÉ, «novela» autobiográfica.

Com a devida vénia, transcrevo da pág. 39 um pedaço da prosa de Rubem F. Deliciosa.



O ENSINO DA GRAMÁTICA
Rubem Fonseca

Você está triste?
Não sei. Talvez.
Tristeza dá câncer, sabia?
Pensei que dava verruga no nariz.
Estou falando sério.
Ultimamente você vive falando sério.
Quando eu brincava você reclamava.
Nem tanto ao mar nem tanto à terra.
Você colocou vírgula depois de mar.
Estou falando, não estou escrevendo.
Mas na sua fala tinha uma vírgula depois de mar?
Não. Você está fazendo uma análise sintática e mor­fológica da frase?
Na frase há o uso da figura de sintaxe chamada elipse.
Chega. É por coisas assim que eu não quero mais vi­ver com você.
Porque eu sei gramática e você não?
Entre outras coisas.
Não gosta mais de foder comigo?
Usarei uma elipse aqui. Ou melhor, uma zeugma.
Zeugma é um substantivo masculino.
Um zeugma, então.
Significando?
Que é fácil subentender.
Subentender por que você não gosta mais de foder comigo?
Precisamente. Pensa.
Estou pensando e não consigo.
Pensa em nós dois na cama.
Você sempre se manifesta pomposamente na hora do orgasmo.
Pomposamente? Explica.
Exibição de magnificência sensual. Mímica.
Mímica?
Mímica. Muito bem-feita.
Vou fazer as malas. Diga: já vai tarde.
Já vai tarde. E esses olhos úmidos de lágrimas?
Mímica.
Acho que vou ficar mais um pouco.
Um pouco?
Uns dias.
Dias?
Pensando bem, uns meses. Mas você me ensina gramática durante esse tempo.
Então deixa de ficar triste.
Tenho uma razão. Já estou com câncer.
Jura?
Juro. Pulmão. O cigarro.
Meu amor, vou cuidar de você.
Mas antes me ensina gramática.

Texto extraído de Axilas & Outras Histórias Indecorosas, a mais recente coletânea de contos de Rubem Fonseca (n. 1925), que a Sextante publica este mês em simultâ­neo com José, repetindo assim a fórmula de lançamento utilizada pela Nova Fonteira no Brasil, em 2011.