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18.11.12

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA







"A poesia ensina a cair" (Eduardo Prado Coelho)

Amparo-me nos versos de J T Mendonça. 
Corrimão à beira do precipício. 
Queda para cima, física desquântica, escuridão no fim da luz.

16.9.12

CRISTOVAM PAVIA ( 1933 - 1968 )



EPÍGRAFE

Um barco sem velas
E sem rumo
Singrando um mar de de fumo,
Mas descobrindo estrelas...

Nisto me resumo.


***

POESIA

Tocado de Humildade,
Natural e esquecido,
Assim hei-de viver... E há-de
Ser doce e merecido
Todo o tempo vivido.


in: POESIA, 
Publicações Dom Quixote
Lisboa, 2010

23.8.11

LUGAR ONDE de 19 de Agosto de 2011 no BADALADAS



JOÃO RUI DE SOUSA: OS POETAS SÃO PONTES

Poesia nos tempos que correm? Para quê? Não mata a fome a ninguém…
Mas ainda hoje ecoa o brado de Natália Correia - “Ó subalimentados do sonho/ a poesia é para comer!” Incansavelmente, João Rui de Sousa faz há muitos anos o inventário das justificações da poesia. Leia-se “A utilidade dos poetas”, do livro Quarteto para as próximas chuvas (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2008):



Os poetas são pontes
para numerosos recados.

 Ora eles (construindo-se) constroem,
com o eclodir das suas imagens e metáforas
oásis e palácios reinventados; ora eles,
alimentando-se com a rudeza da pedra,
ou mesmo com caliça e enxofre,
abrem espaço para recintos calamitosos,
para o zimbro do sofrimento.

 Andava pelos meus 15 anos quando descobri a poesia contemporânea nas páginas de um suplemento literário, clareira de luz num jornal soturno – o Correio do Ribatejo - semanário regional publicado em Santarém e de que meu pai era assinante. Essa página era feita por João Rui de Sousa e despertou o meu amor pela Literatura. Habituei-me a recortar poemas e a copiar prosas, que guardava depois num álbum de capa preta. Muitos anos depois, num jantar em Torres Vedras, pude agradecer pessoalmente a João Rui de Sousa esse trabalho de divulgação. Esta página LUGAR ONDE tem sido um tributo a esse grande poeta que me iniciou e faço-a mensalmente na convicção, talvez ingénua, de que possa despertar alguns jovens de hoje para o gosto dos livros e para o texto poético.

Sim, a poesia é necessária. Como diz João Rui de Sousa no final do poema: “eles (os poetas) podem, com palavras de alvor / e de resistência, ajudar a erguer as traves / de uma cidade aberta, de uma pátria livre.” |JMD

                                                                                * * *
POESIA AO JANTAR





Foi entre Fevereiro e Abril de 1991, há 20 anos! A Cooperativa de Comunicação e Cultura convidou quatro poetas para quatro jantares, no Restaurante D. Fuas, no Centro Histórico de Torres Vedras. Em 23 de Fevereiro veio Pedro Támen; em 9 de Março, Eugénio de Melo e Castro; em 23 de Março foi a vez de João M. Fernandes Jorge; e em 6 de Abril encerrou-se o ciclo com João Rui de Sousa. No último dos quatro folhetos então publicados, com a belíssima marca gráfica de Aurelindo Ceia, escrevia-se: “Foi primeira preocupação na organização deste ciclo, não só divulgar poesia e possibilitar relações de proximidade entre o autor e seus leitores, como deles fazer um acto de comunicação e prazer partilhados. Para isso, decidiu-se servir poesia ao jantar.” Na foto, junto à parede do fundo: Andrade Santos, João Rui de Sousa e Manuela Gomes, que fez a apresentação do poeta.
                                                                                      * * *

O POETA E A SUA POESIA
Nascido em 1928, João R de Sousa revela-se como poeta, em livro, na década de 60 do século passado, com Circulação. De inicial formação técnica agrícola, passou às Letras com a Licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas. Trabalhou na Biblioteca Nacional como investigador de espólios literários. Foi um dos fundadores da revista literária Cassiopeia. A propósito da Obra Poética (1960-2000 ), publicada pela Dom Quixote em 2002 e que reúne toda a sua produção até essa altura, Joana M. Frias sublinhou que a poética de João Rui de Sousa se organiza em torno de duas ideias chave: visão existencialista, “dominada por uma expressão de angústia”; e um recorte clássico do discurso “assente em princípios como a harmonia, o equilíbrio e a regularidade, a nitidez e o rigor da construção” (Revista Relâmpago, nº12, Abril 2003). Lavra e pousio ( 2005) e Quarteto para as próximas chuvas(2008), são os títulos mais recentes da sua poesia, já muitas vezes distinguida com diversos prémios.
***

DEPOIS DE AMANHÃ A PRIMAVERA
 A dadivosa mãe que em tudo existe
para além do só remédio só palavra
um cobertor de esperanças para o medo
três girassóis lindíssimos desdobráveis
 A boca na boca e as lágrimas
mais azuis de brinquedos e de imensos
lençóis de inventar os dias límpidos
A dadivosa mãe as tardes quentes
 Florescer a noite de agasalhos
de corações em pé no destemor
alimentar as órbitas fraternas
de iluminar raízes dança pura
 Ó música sem tédio dos cabelos
do teu olhar do cheiro dos reflexos
desta razão solar! Em caule e rama
- ó dadivosa mãe - tudo desperta!

***

IR PELO MAIS LARGO

Eu sonho-me eu sobro-me eu excedo-me.
Jamais permitirei que me aparafusem
à parede das restrições. Jamais me coibirei
de colorir com as cores mais vivas os vidros
interiores. Jamais impedirei a explosão
contínua de mim mesmo (ou seja: de todo
o granito que aí se acoite).
 Irei pelo mais largo,
pela máxima amplitude de voz
e de palavras, pelos horizontes
mais fundos e verdejantes,
pelo sagrado voo e pelas pastagens
de uma excelsa ciência:
a de nada trair de essencial
à possível harmonia do mundo,
e à mais fraterna visão libertária.

***
LÍMPIDAS PALAVRAS
Eram límpidas palavras:
 eram insectos perfeitos
que não passavam por larvas;
 eram águas em corrente
fruídas logo à nascença
no entremeio das fragas;
 eram jovens diligentes
que sabiam como os lábios
ardiam antes da fala.

27.6.11

OS POETAS... A POESIA..

Aguarela de António Bártolo - Torres Vedras



«O que te atrai nos poetas?
Aquilo que me atrai nos poetas é a poesia. A poesia é como a água nas profundidades da terra. O poeta é semelhante ao vedor de águas, encontra a água também nos lugares mais áridos e a faz jorrar.
Mas tu falaste de alguns poetas como pessoas da maneira um pouco limitativa.
Os poetas são poetas somente na página, porque nas páginas já não estão sós. Existem eles e o seu demónio. Na vida estão sós, sem demónio, e então são homens como os outros.»
(Vida de Moravia, Ed Livros do Brasil, Lx, 1992. A partir da conversa do jornalista Alain Elkann com o escritor Alberto Moravia)

2.10.10

UM GRANDE, GRANDE POETA DA NOSSA LÍNGUA

Acabo de pôr um comentário no blogue dele, AQUI:

«Um amigo ensinou-me o caminho para si, caro Affonso. Não quero bajular. Por isso apenas digo que estou muito grato ao meu amigo e que você passou a fazer parte do meu tesouro literário. Já o pus no meu blogue e vou continuar. Gosto da sua escrita: mordente, trabalhada de palavras, surpreendente nas redescobertas de sentidos.

Bom dia senhor POETA da minha/nossa Língua comum!»

Esse amigo chama-se Cid Simões e é um garimpeiro de ouro literário. Na minha ignorância, por vezes enciclopédica!, nunca me tinha dado conta deste grande poeta da Língua Portuguesa. Chama-se Affonso Romano Sant'Anna e é brasileiro.
Nas minhas caturrices por vezes sou preconceituoso com os nomes. Já tinha lido algures e não tinha gostado da prosápia deste afonso com dois ff e santana com ' e dois nn. E passei adiante. Não sabia o que perdia. Vem o Cid e zás! - espeta-me com dois poemas à frente dos olhos que me deixaram abananado e... rendido. Grande poeta, caramba! Da estirpe do Ferreira Gullar, do prémio Camões deste ano.
Mas isto é poesia?
Claro, e da melhor!
Há verve, há trabalho de linguagem, há a veia satírica que tão arredada tem andado das nossas letras. Há uma voz que se agiganta nestes trocadilhos que nos arrastam pelos cabelos.
Exagero?

Então aqui vai, com mais um abraço de agradecimento ao meu caro amigo Cid!





A Coisa Pública e a Privada


Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.

Uns queriam privar
da coisa pública,
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente,
parecesse perfumada.

Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e já ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.



Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.

Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?

O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?

— Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.

Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.
 Affonso Romano Sant’Anna
1987

 E agora a cara do poeta:


21.6.07

OLHAR



Em teu macio olhar repousa o meu.
E na face polida assim formada
se reflecte e recria o próprio céu.
Daniel Filipe in: A INVENÇÃO DO AMOR E OUTROS POEMAS

13.6.07

AL BERTO





Faz hoje 10 anos que faleceu o poeta AL BERTO. Confesso que o conheço mal. Razão para o procurar na herança que nos legou, uma obra poética que se tem vindo a impor.
Hoje encontrei este poema:


dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos


Al Berto


(Foto in:http://nescritas.nletras.com/index.html

31.5.07

ETERNIDADE DO VENTO

Pintura de Sarah Anderson

Há poemas que trazem em si todas as paisagens do mundo e todos os abismos da alma humana.
Ruy Belo escreveu-os até morrer. Como este, de pormenorizado título, que se alonga por dez páginas:

«AO REGRESSAR EPISODICAMENTE A ESPANHA EM AGOSTO DE 1534 GARCILASO DE LA VEGA TEM CONHECIMENTO DA MORTE DE DONA ISABEL FREIRE»


(...)

procuro o teu mstério nos teus olhos

o teu rosto é tão vasto como um mundo

e quanto mais te olho mais pressinto

que é em vão que te procuro o fundo;

(...)

A minha eternidade é a do vento

que pelo movimento arrisca quanto é

e todo se resume no momento

(...)

17.4.07

Estou vivo e escrevo sol: António Ramos Rosa





Candidato ao Nobel da literatura, quase 50 anos de vida literária e perto de uma centena de livros publicados. É o maior poeta português vivo, na opinião de muitos críticos. «Estou Vivo e Escrevo Sol» expressa a essência da sua arte poética: a vida humana é uma partícula do universo e ao poeta cabe procurar na linguagem a forma artística de o dizer.

O APARATO SILENCIOSO DAS COISAS

As coisas surgem vivas
obscuras nuas secas e marinhas
mar e som desveladas
são paredes redondas
e palmas e jarros no silêncio vivos jorros

surdas surdas mar silêncio
teclas quase pungentes brancas na memória
mais que serenas temperadas
trémulas imóveis altas impenetráveis rudes

presenças intocáveis sem espanto assombro puro
ó terra modelada a pão e vinho ó gérmenes
de água

o sol é fibra e fome alimento do olhar
feliz repouso apaixonada mão contida
e o espaço que limpais
respira ó profundas

teclas
temperadas trémulas


Entre múltiplas distinções:Prémio Pessoa 1988; Grande Prémio de Poesia da AssociaçãoPortuguesa de Escritores 2006.
António Ramos Rosa será o autor do LUGAR ONDE de Abril - dia 20 - no BADALADAS ( semanário de Torres Vedras)

11.2.07

RECORDAR FERNANDO ASSIS PACHECO

Na Casa Fernando Pessoa, a Campo de Ourique. Francisco José Viegas, seu director, organizou um ciclo de encontros sobre F. Assis Pacheco. Justificou:

«Não poderíamos esquecê-lo porque era uma das nossas vozes. Sobretudo neste mês em que se festejaria o seu 70º aniversário. Por isso a Casa Fernando Pessoa reúne os seus amigos e leitores para assinalar a data - justamente Campo de Ourique, o bairro onde viveu e um dos lugares da sua poesia.Não se trata de uma comemoração, porque F. A.Pacheco havia de detestá-la. Coisa mais informal, mais a gosto de quem gosta de falar, de ouvir - e de ler a sua poesia ou de recordar a s suas histórias.»





A imagem, irreverente, vem publicada no livro póstumo editado pela Assírio & Alvim RESPIRAÇÃO ASSISTIDA,Lisboa,, 2003 - cinco anos depois da morte do poeta.

Mas lembrar o poeta é, sobretudo, ler a sua poesia.

SONETOS
2.

Os trabalhos de amor são os mais leves
de quantos algum dia pratiquei
na cama as alegrias fazem lei
e se me queixo é só de serem breves

eu vivo atado às tuas mãos suaves
num nó de que este corpo já não sai
ferve o arco do sol a tarde cai
ardem voando pelo céu as aves

mágoas outrora muitas fabriquei
e em países salobros jornadeei
ao dorso das tristezas almocreves

a vez em que te amei um outro fui
comigo fiz a paz nada mais dói
e os trabalhos de amor nunca são graves

Fernando Assis Pacheco


O ciclo prossegue no dia 15 de Fevereiro, 21h30, com a presença de Fernando J.B. Martinho, Abel Barros Baptista e Pedro Tamen. A 26 de Fevereiro estarão presentes José Carlos de Vasconcelos e Rogério Rodrigues. A leitura de poemas será regra em todos os encontros.
No fim - oh! simpatia - bebe-se um tinto especial. F. Assis Pacheco era um homem de copos demorados e solidários.

Estive lá, com alguns bons amigos.Nunca tinha entrado na Casa Fernando Pessoa. Agradabilíssima surpresa. Foi toda recosnstruída, mantendo-se apenas o espaço onde era o quarto de F. P. e onde se guarda ainda a sua máquina de escrever e a célebre cómoda onde escreveu "O Guardador de Rebanhos". O resto é um conjunto de espaços amplos com biblioteca, sala de conferências e salas de exposições. Na Rua Coelho da Rocha, nº 16.