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16.10.12

OLÁ, AGUSTINA




90 anos! Bonito!
Posso dar-lhe os PARABÉNS?
Bem sei que já cá não está o seu espírito traquina e labiríntico. Resta a pobre carcaça do corpinho velho, decrépito. Mas permanece a obra enorme que nos legou.
Obrigado, Agustina!

«Povo.
Um povo faz-se com muitas lágrimas; elas são a experiência dos seus erros e a espécie de sabedoria que se acumula sem ser nos livros. Um povo não é um poema épico, nem um homem, nem mesmo uma forma de poder. É uma súplica melancólica através dos tempos, e que custa muito esforço; uma súplica digna de res­peito porque se dirige, não à internacionalização da vida, não aos planos de exportação e de produção, mas a um imperativo que ponha fim ao egoísmo de todos. Um povo não verte lágrimas pací­ficas; elas são sempre revoltadas. E inútil dizer-lhe que pode nego­ciar melhor se se converter em massa humana; um povo tem uma personalidade mítica que é indiferente à natureza das massas.»
Agustina Bessa-Luís - DICIONÁRIO IMPERFEITO, Guimarães Editores, Lisboa, 2008

Para conhecer Agustina: documentário NASCI ADULTA, MORREREI CRIANÇA. Aqui:
http://vimeo.com/50423905

10.3.12

O FANTASMA DE AGUSTINA


É um bocado estranho: o marido e a filha de Agustina Bessa-Luís falam dela como se já tivesse morrido.
Mas depois referem que ela vive tranquila, lúcida em relação ao seu estado atual.
Esta reportagem - fascinante! - passa-se na casa de Agustina, entre os seus móveis, os seus papéis, mas ela não aparece nunca.
Na revista LER deste mês - que pode ser lida como complemento a esta reportagem em vídeo - o marido diz que ela passou a detestar os livros, e isso resultou de um AVC que, não alterando o seu estado físico, perturbou irreversivelmente o seu estado mental

Percebo: há um pudor, uma reserva, uma opção. E percebo melhor o texto de Maria Velho da Costa, quando a visitou ( retirado daqui ):



Não tem fito, não tem medo.
Vem em direcção ao olhar que a revê.
Pequena, cantarolante e abanando a saia, debaixo das estrelas que esmorecem. A lua desmaia, o alfange comido pelos rubores da aurora. Ela pára, aponta, abre a boca para dizer lua e vêem-se os dentes de rato, o riso de todas as palavras.
Tem quatro palmos de tamanhinha e vem só.
O vestido está desabotoado nas costas, os sapatos de verniz de presilha, os preferidos, vão soltas chancas a brilhar no relento da manhã. Atrapalham, mas não impedem. Os olhos apertados de botão-azeviche são só sorriso ufano, a quatro palmos do chão na cara cor de rosa-chá.
Tem três anos de idade e fugiu de casa.
Não é amuo, é o desconchavo do mundo o que a faz vir.
Diz ao sol subinte, esmerei-me, esmerei-me, ó medronho, ninguém me viu sair. Nem criada, nem ama, nem mãe.
Lá vem ela, no carreiro ermo, no plaino pedregoso, a que não terá contemporâneos.
Move-a o amor frio, a cabeça quente do poderio da terra. Não traz cuecas. Abre as pernas, ainda de roscas roliças, para uma pocinha escura. Triunfa, menina total e raciocinante.
Vibra e caminha, humaníssima.
Diz ao céu que se acende: amaldiçoa-me, mas deixa-me ser livre. E assim foi.

Costa, Maria Velho da, in, «Egoísta n.º especial», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Fevereiro 2007

19.1.11

LUGAR ONDE - Semanário BADALADAS de 21 JANEIRO







Foto EXPRESSO on-line


AGUSTINA BESSA-LUÍS:
O ESCRITOR DESPERTA AS COISAS DO SILÊNCIO
EM QUE FORAM CRIADAS

Os grandes escritores desencadeiam sentimentos extremos. Amor ou ódio, nunca indiferença. Agustina é dessa estirpe. Mas até os que a detestam lhe reconhecem a grandeza. Ela é a grande prosadora portuguesa, a maior de sempre, criadora de um território linguístico imenso que vale a pena percorrer.
Criadora na ficção, interventora nas crónicas, não receou expor-se, fosse na direcção de um jornal e do Teatro D. Maria II, ou no apoio político a candidatos de direita. Ouvi a Alexandre Babo, escritor comunista: “Escreve maravilhosamente bem, é pena ser tão reaccionária…” Mas seria redutor acusar a sua escrita de carga ideológica agressiva. Ela afirma-se sobretudo pela análise profunda da interioridade humana, um território onde não há rótulos fáceis e exprime o que observa através de uma escrita sumptuosa, num caudal narrativo de enorme talento. E tudo ao serviço de uma inteligência sagaz, de grande perspicácia, desvendando aspectos desconcertantes do ser humano. Tem predilecção pela escrita de aforismos: frases em que resume de forma lapidar uma observação, uma reflexão, às vezes um paradoxo. Não se considera uma autora perfeita, não faz planos de escrita, não se preocupa muito com a depuração estilística, o que considera ser uma característica muito portuguesa, “não se valorizar demasiado, é um dos nossos defeitos e, ao mesmo tempo, uma qualidade, porque, na verdade, é tudo transitório” (Jornal de Letras, Junho, 2004).
Desilude-se quem procura nos seus livros um enredo trepidante ou uma intriga muito elaborada. Agustina não gasta lugares comuns nem histórias inesperadas. Prefere a sondagem dos abismos e leva como máquina de perfuração apenas a curiosidade e a capacidade para ver e compreender.
Agustina deixou de escrever desde que foi vítima de um AVC em 2006 e vive recolhida na sua casa no Porto, na companhia de Alberto Luís, seu marido, que juntamente com dois investigadores, trabalha na fixação dos seus textos. O primeiro livro desta “opera omnia” é o “Dicionário Imperfeito” que, juntamente com o livro “Contemplação Carinhosa da Angústia”, é a melhor iniciação aos viajantes que decidam percorrer este território. Ambos editados pela Guimarães Editores. De referir também o nº 12 da revista literária Textos e Pretextos, co-editada em 2009 pela LivrodoDia de Torres Vedras, totalmente dedicado a Agustina Bessa-Luís. | MD

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VIDA E OBRA


Agustina Bessa-Luís, Vila Meã, Amarante, 1922. Infância e adolescência passadas nesta região, cuja ambiência marcará a sua obra. Estreou-se em 1948, com a novela Mundo Fechado. Desde aí manteve um elevado ritmo de publicação, contando com mais de meia centena de títulos.
Entre 1986 e 1987 foi Directora do diário O Primeiro de Janeiro (Porto). Entre 1990 e 1993 assumiu a direcção do Teatro Nacional de D. Maria II (Lisboa) e foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social.
Em 1954, com o romance A Sibila, Agustina Bessa-Luís  impõe-se  como uma das vozes mais importantes da ficção portuguesa contemporânea.
Vários dos seus romances foram adaptados ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira:  Fanny Owen ("Francisca"), Vale Abraão e As Terras do Risco ("O Convento"), para além de "Party", cujos diálogos foram igualmente escritos pela escritora. Autora de peças de teatro e guiões para televisão, tendo o seu romance As Fúrias sido adaptado para teatro e encenado por Filipe La Féria (Teatro Nacional D. Maria II, 1995).
Várias vezes apresentada como candidata ao Nobel, Agustina Bessa-Luís é pela segunda vez contemplada com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), relativo a 2001, com a obra "O Princípio da Incerteza - Jóia de Família", obra que Manoel de Oliveira adaptou ao cinema com o título "O Princípio da Incerteza". Entre muitos outros, recebeu os prémios Vergílio Ferreira 2004, atribuído pela Universidade de Évora, pela sua carreira como ficcionista, e o Prémio Camões 2004, o mais alto galardão das letras em português.

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ESCRITAS DE AGUSTINA

O que a leva a escrever? – perguntou-lhe um jornalista francês. Agustina respondeu: “Escrevo para incomodar o maior nú­mero possível de pessoas, com o máximo de inteligên­cia. Por narcisismo, que é um facto civilizador. Para ganhar a vida (...). Escrever é isto: comover para des­convocar a angústia e aligeirar o medo (…) Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas».
                                                                                  
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«Carta a Eugénio de Andrade, (25.06.2005)

Querido Eugénio

O melhor não são os sentimentos nobres das pessoas, mas o ácido prazer de amar seja o que for. Uma longa viagem nos une e nos separa. Nunca trocámos cartas porque essa débil força da confidência esteve sempre para nós fora de moda. Nunca deixámos que as palavras nos dessem lições. As palavras são como caminhos, umas vão dar a qualquer sítio que não nos importa conhecer; outras não servem para nada, e são as melhores.
A poesia não é feita de palavras, mas da cólera de não sermos deuses.
A Grécia, como a conhecemos, isso é que é poesia. O vento no fim da tarde em Delfos, o olival até ao mar, duma cor que já não me lembro. Nós não éramos profanos, mas argonautas em terra. Tenho ainda o medalhão de ouro, com Atena esculpida e a coruja ao lado. Tanta formosura para tão poucos iniciados!
Estou aqui a pensar que vou construir uma casa numa árvore do jardim, para navegar ao largo como o capitão Slocum, num iole de 12,70 toneladas de peso bruto. Daqui ao cabo Horn é um pulo. E sempre nos acenam os que ficam em terra, os lenços agitados pelo bom vento da costa. Somos navegadores solitários tentando não embirrar com o presidente do Transval que acredita que o mundo é plano e que não pode haver a volta ao mundo.
Um bom sorriso, e está bem assim.
Agustina Bessa-Luís» [ Retirada do blogue SAL DA LÍNGUA ( http://saldalingua.wordpress.com/2009/12/29/o-lugar-dos-amigos-agustina-bessa-luis/#comment-149), acedido em 16 /01/2011.]

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«Também eu assisti a um congresso de mulheres capacitada dos seus direitos e ouvi esse argumento da solidão como mal necessário da independência feminina. Mas a solidão é sobretudo motivada pela rápida transição da vida familiar à vida profissional e à perda das reacções parentais mal substituídas por outras. Depressa se abandona o lar paterno, se têm filhos, se casa outra vez e se reconhece uma coisa assustadora: as pessoas são dispensáveis como uma chaleira cuja resistência ardeu. E mais fácil adquirir outra do que remediar os estragos para os quais não basta um bocado de fio eléctrico e de habilidade. É preciso piedade e boa dose de alegria amorosa. As mulheres, em geral desviadas da procriação por razões económicas e factores frustrantes, estão muito recalcadas quanto ao estado de alegria amorosa que é a de ver os filhos pequenos à sua volta. Antes que ela se adapte a uma sociedade laboriosa e secreta, onde a criança não tem sentido messiânico mas sim sentido decorativo, passará muito tempo. Ser mulher foi uma invenção maravilhosa; terá de ser uma descoberta ilustre.» (In: Dicionário Imperfeito, Guimarães Editores, Lisboa, 2008)

                                                                                        

16.1.11

A ESCRITA SUMPTUOSA DE AGUSTINA BESSA-LUÍS



«E, contudo, auspiciosos dias os da matança! Vinham de longe os parentes, os homens com os varapaus de marmeleiro dourado pelo tempo e pelo fumo, as mulheres com as saias pretas em cuja fímbria secara a lama. Eram muitos, com suíças e cabeleiras duma cor parda ou ardente, e possuíam todos aquele sorriso áspero e fechado, como se permanentemente enfrentassem o vento, não com desagrado, mas com uma espécie de desdenhosa beatitude. Acampavam praticamente na cozinha, debicando azeitonas, pão doce, figos, e adivinhava-se neles uma sobriedade que não era desprezo da fartura, mas antes um fastio benevolente de quem nunca conheceu privação nem fomes. Constituíam, assim de pele clara, independentes e administradores magistrais das suas paixões, um verdadeiro clã, difícil de penetrar e de subornar. Mesmo alguém como Maria Delfina, ligada a essa gente pelo casa¬mento e entregando-se com boa-fé a toda a classe de subserviências de coração, não podia jamais pertencer à família e nunca obtivera senão uma estima tolerante da parte das suas jovens cunhadas; a pró¬pria sogra tratava-a sempre como a uma visita acidental, punha-lhe na cama os melhores lençóis, seguia-a com um olhar afável e preocupado cada vez que Delfina se deslocava dum lugar para o outro da casa; e, se a adivinhava grávida, prestava-lhe os cuidados mais comoventes, sem deixar de exprimir esse fiozinho de desdém com que se brinda toda a inexperiência. Fora preciso muito tempo para Maria Delfina compreender que um temperamento não obriga a laços profundos; e essa tribo, com as suas sobrancelhas loiras e os seus pequenos olhos vigiadores, com o seu ar onde pairava sempre uma ligeira e intrigante expectativa, possuía um temperamento, mas não amava senão duma forma episódica e imparcial aqueles que não nasciam nas suas fron¬teiras e no seu sangue. Era inútil servi-los, endividar-se por eles, per¬der a alma em nome dos seus vícios e dos seus dons; nunca o reco¬nheciam, sacudiam da pele os favores e as simpatias, com essa grosseria que se pressente nas autênticas solidões.


No tempo da matança, sem que fosse preciso distribuir convites, toda a família se reunia na casa-mãe, com os seus pequenos rebentos que perseguiam às varadas os patos até aos tanques e que disputavam velhos botões e piões e fundas. As mulheres eram bem feitas, o ventre um tanto salientei pelo estrangular da cintura, os pés bonitos e calçados com perfeição; vestiam-se com uma elegância sensual, gostavam das cores belas, da seda e do oiro, mas, ainda que atrevidas de palavras, pareciam ignorar os homens e esquivar-se, com algo de intencional, à sua categoria de fêmeas. Através duma prudência cheia de avisos e ausências, havia uma forma audaciosa, uma vontade manifesta da escolha, um decidir sem nunca chegar a oferecer condições — e Del¬fina achava tudo isso atroz, ainda que, de certo modo, apaixonante.»

in: A Brusca, Contos, 1971

20.7.10

NÃO ESQUECER OS NOSSOS CLÁSSICOS

Página LUGAR ONDE, semanário BADALADAS, Torres Vedras, 23 JULHO 2010




LEITURAS PARA O VERÃO: os nossos clássicos
CAMILO CASTELO BRANCO

Um grande livro do nosso século XIX tem por título «Memórias do Cárcere». Não é um romance,  é um conjunto de recordações, magnificamente escritas por um homem preso durante um ano numa enxovia da Relação do Porto e que aproveitou o tempo para conhecer e relatar as vidas de outros presos. Falo de Camilo Castelo Branco, que ali conheceu José do Telhado – o salteador que já recebera a Torre e Espada -, de quem relata a história. Camilo que teve a suprema distinção de ali ser visitado pelo Rei D. Pedro V, em 23 de Novembro de 1860.
A propósito, recordo o professor Reis Brasil, que lia «O Amor de Perdição» nas aulas e chorava sempre na última página, quando Mariana salta para o mar e se afunda abraçada ao cadáver de Simão. E também Aquilino Ribeiro e o seu «O Romance de Camilo», escrito em 1957. Com ele redescobri o caminho para o escritor/personagem que em si próprio escavava a matéria das suas histórias. Mas foi com Teixeira de Pascoaes, em «O Penitente», publicado em 1959, - páginas comoventes e impressivas sobre a tragédia e a farsa de um homem que ousou viver da escrita depois de desafiar as hipocrisias de uma sociedade empalhada – que melhor me apercebi da espantosa envergadura de Camilo. Longe de ser um homem eticamente exemplar, é a sua humanidade contraditória que, ali, toda se revela e nos fascina.
Quem lê hoje Camilo Castelo Branco? E Aquilino? E Pascoaes? Aflige-me a indiferença pelos nossos clássicos, que a Escola mal consegue enfrentar. E, no entanto, Camilo é um dos mais prodigiosos criadores da nossa Língua, como ainda há pouco confirmei com a leitura de um dos seus livros menos conhecidos, «Coração, Cabeça e Estômago», (nº 240 dos Livro de Bolso Europa-América).
Vale a pena voltar aos nossos clássicos. Camilo, por exemplo. Ou Aquilino e Pascoaes, igualmente dois vastíssimos e inesgotáveis continentes da escrita. Eles são, além do mais, a casa-forte do nosso maior tesouro cultural: a Língua Portuguesa. | MD

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SOBRE CAMILO
«Os seus livros são hoje mais do que os seus anos; os seus lanços romanescos, mais do que os seus cabelos brancos. Raro escritor numa língua terá atingido, nos lavores do estilo, a contextura sóbria, mágica e resistente que ele tem conseguido, sabendo amoldar a palavra a todas as exigências do assunto, forçando-a, naturalmente, a todos os brinquedos da imaginação, podendo à vontade ser quinhentista por convicção, ou realista por troça, para se divertir com a indignação literária dos outros e ter ensejo de se medir depois com eles em combate singular.»
(Guilherme de Azevedo, Álbum das Glórias, Ed. Frenesi, Lisboa, 2003)
«Camilo, para mim, é um autor sagrado. Amo-o com todos os seus defeitos e virtudes. Não distingo as suas páginas, roubadas à Bíblia, de outras plagiadas ao lugar-comum da literatura romântica. Não sou dos que blasfemam de Deus, por ele ter criado as moscas.
Amo-o porque se entregou todo à sua obra, como as crianças se entregam aos seus brinquedos. E, por isso, os bonecos vivem nas suas mãos.» (Teixeira de Pascoaes, O Penitente, Assírio & Alvim, 2002)


«Nasceu Camilo com um extraordinário talento de narrador. Assim geralmente começa o seu romance por ser uma narrativa empolgante, que até por isso mesmo compartilha, não há que negá-lo, do que preferimos hoje chamar de novela, e por outro lado se aparenta ao que chamamos folhetim. O bom êxito do romance camiliano vem em muito desse seu carácter de narrativa apaixonante, folhetinesca, espectacular e viva.» (José Régio, Ensaios de Interpretação Crítica)


«Para suportar Camilo Castelo Branco como cidadão e como escritor, usou-se tudo que está em iminência no coração e na inte­ligência: usou-se a piedade, o humor e a razão prática. Mas ele resiste a tudo. É um homem livre e fantasioso. Pessoas assim aca­bam mal e deixam às vezes uma obra que se pode imitar, mas que não serve senão para o recordar mais ainda naquilo que se não copia: o génio.»
(Agustina Bessa-Luís, Camilo, génio e figura)

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UMA PÁGINA DE CAMILO

“- O meu amigo Faustino Xavier de Novais conheceu perfeitamente aquele nosso amigo Silvestre da Silva…
- Ora, se conheci!... Como está ele?
- Está bem: está enterrado há seis meses.
- Morreu?!
- Não morreu, meu caro Novais. Um filósofo não deve aceitar no seu vocabulário a palavra morte, se não convencionalmente. Não há morte. O que há é metamorfose, transformação, mudança de feitio. Pergunta tu ao doutíssimo poeta José Feliciano de Castilho o destino que tem a matéria. Dir-te-á a teu respeito o que disse de Ovídio, sujeito que não era mais material que tu e que o nosso amigo Silvestre da Silva. «Ovídio cadáver», pergunta o sábio, «onde é que pára? Tudo isso corre fados misteriosos, como Adão, como Noé, como Rómulo, como nossos pais, como nós, como nossos filhos, rolando pelos oceanos, flutuando nos ares, manando nas fontes, correndo nos rios, agregado nas pedras, sumido nas minas, misturado nos solos, viçando nas ervas, rindo nas flores, recendendo nos frutos, cantando nos bosques, rugindo nas matas, rojando dos vulcões, etc. »Isto, a meu ver, é exacto e, sobretudo, consolador. O nosso amigo Silvestre da Silva, a esta hora, anda repartido em partículas. Aqui faz parte da garganta dum rouxinol; além, é pétala duma tulipa; acolá, está consubstanciado num olho de alface; pode ser até que eu o esteja bebendo neste copo de água que tenho à minha beira e que tu o encontres nos sertões da América, alguma vez, transfigurado em cobra-cascavel, disposto a comer-te, meu Faustino.” (“Coração, Cabeça e Estômago”, Camilo C Branco)



A CASA DE CAMILO
Em S. Miguel de Ceide, a meia dúzia de quilómetros de Famalicão, a casa amarela não é mais uma residência senhorial de antigos fidalgos semelhante a tantas outras do país rural. Hoje, é um espaço obrigatório de visita, lugar de recordações e de conhecimento da vida e obra de Camilo, autor de “O Amor de Perdição” e de outros romances capazes de resgatar uma literatura como “A queda de um anjo” (1866), “A bruxa do Monte Córdova” (1867) ou, ainda, “Memórias do cárcere”.
(in: http://www.camilocastelobranco.org/