2.10.10

UM GRANDE, GRANDE POETA DA NOSSA LÍNGUA

Acabo de pôr um comentário no blogue dele, AQUI:

«Um amigo ensinou-me o caminho para si, caro Affonso. Não quero bajular. Por isso apenas digo que estou muito grato ao meu amigo e que você passou a fazer parte do meu tesouro literário. Já o pus no meu blogue e vou continuar. Gosto da sua escrita: mordente, trabalhada de palavras, surpreendente nas redescobertas de sentidos.

Bom dia senhor POETA da minha/nossa Língua comum!»

Esse amigo chama-se Cid Simões e é um garimpeiro de ouro literário. Na minha ignorância, por vezes enciclopédica!, nunca me tinha dado conta deste grande poeta da Língua Portuguesa. Chama-se Affonso Romano Sant'Anna e é brasileiro.
Nas minhas caturrices por vezes sou preconceituoso com os nomes. Já tinha lido algures e não tinha gostado da prosápia deste afonso com dois ff e santana com ' e dois nn. E passei adiante. Não sabia o que perdia. Vem o Cid e zás! - espeta-me com dois poemas à frente dos olhos que me deixaram abananado e... rendido. Grande poeta, caramba! Da estirpe do Ferreira Gullar, do prémio Camões deste ano.
Mas isto é poesia?
Claro, e da melhor!
Há verve, há trabalho de linguagem, há a veia satírica que tão arredada tem andado das nossas letras. Há uma voz que se agiganta nestes trocadilhos que nos arrastam pelos cabelos.
Exagero?

Então aqui vai, com mais um abraço de agradecimento ao meu caro amigo Cid!





A Coisa Pública e a Privada


Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.

Uns queriam privar
da coisa pública,
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente,
parecesse perfumada.

Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.



Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.

Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?

O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?

Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.

Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.
 Affonso Romano Sant’Anna
1987

 E agora a cara do poeta:


2 comentários:

José Augusto Nozes Pires disse...

Subscrevo o teu comentário judicioso sobre um poeta tão inusitado e inesperado.

Tais Luso disse...

Gosto demais dos poemas e crônicas de Affonso Romano. São realistas, vão de encontro ao absurdo e diz a que veio. Além de ser um excelente crítico de Arte.

bjs
tais luso