23.12.10

LUGAR ONDE Nº 101 - Semanário BADALADAS de 24 DEZ 2010





NATAL
SAUDADE OU ESPERANÇA?

Natal, centro histórico da nossa infância. Fascínio da memória, saudade do lume antigo. E choramos as ruínas e os escombros dos anos, agora que não há luzes e as baladas se calaram. Quem pode falar de Natal a quem tem fome e sede de justiça? A quem perdeu um filho, um pai? Que Natal podemos convocar a quem tudo falta? Natal: saudade ou esperança?
Teixeira de Pascoaes: “Vemos somente recordações, memórias, da divina Esperança. Somos lembranças de Deus; e é por isso que temos a faculdade de o perceber ou inventar…”
Que resta de tantos natais de esperança para quem perdeu a esperança do Natal?
Que o lume se ateie! Que a luz ilumine! Que a esperança renasça!


                                                                                    *


HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação. 

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

MIGUEL TORGA 

*
NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

DAVID MOURÃO-FERREIRA

*
FALAVAM-ME DE AMOR

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

NATÁLIA CORREIA

*
NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado...
Só esse me pareceu Cristo.

VITORINO NEMÉSIO

*


OS PROFETAS

Assombra, esta verdade que trazemos.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém.

REINALDO FERREIRA

*



PRECE DE NATAL

Menino Jesus
De novo nascido,
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!

Vede que os humanos
Erros e cuidados
Nos são tão pesados
Como há dois mil anos.

A nossa ignorância
É um fardo que arde.
Como se faz tarde
Para a nossa ânsia!

Nós somos da Terra,
Coisa fria e dura.
Olhai a amargura
Que esse olhar encerra.

Colai o ouvido
À alma que sofre;
Abri esse cofre
Do sonho escondido.

Pegai nessa mão
Que treme de medo;
Sondai o segredo
Da minha oração.


Esta pobre gente
Que mal é que fez?
Nós somos, talvez,
Um povo «inocente»...

Menino Jesus
Que andais distraído
Baixai o sentido
Para a nossa cruz!
(…)

Carlos Queiroz (1907-1949)




Presépio de Machado de Castro - Basílica da Estrela, Lisboa


                                                                                    *


CEM LUGARES! ONDE?

Foi em Julho de 2002 que teve início esta página mensal LUGAR ONDE que atingiu em Novembro o número 100. Espaço de outras leituras, literaturas, escritas e dizeres das nossas vivências culturais. Intenção de aqui trazer contrapontos, outros pontos de vista, as intuições dos poetas, a expressão da arte escrita, ou outras artes. Um projecto a partir da verificação de que “a escuridão que cobre tantos recantos do nosso tempo se deve ao gasto excessivo das palavras, tornadas irrelevantes.” E a partir da ideia cada vez mais arreigada em nós de que a literatura é o LUGAR em que o homem encontra as palavras essenciais da vida, do mundo. E também da interrogação: ONDE?
LUGAR ONDE: venham mais cem!




 

1 comentário:

Lis disse...

Tenho lido muito poemas de poetas portugueses e gosto.
E a leitura é essencial na minha vida.
Belos poemas de Natal,Méon.
Quem nao lembra dos presentes ao pé da árvore ou do papai Noel( aqui) ou Pai natal ( aí)? rs
são inesquecíveis apesar de nao ser o sentido principal.
Vale pela ternura que fica.

deixo abraços