13.2.11

TEXTOS INESQUECÍVEIS


Antoine de Saint-Exupéry não é só O PRINCEPEZINHO.
Deixou obras magníficas que iluminaram o meado do século XX: CIDADELA, PILOTO DE GUERRA,
TERRA DOS HOMENS, UM SENTIDO PARA A VIDA.
Livros de intenso e luminoso humanismo, escritos entre duas guerras, por um homem que olhou o mundo com compaixão e compreensão profundas.
De vez em quando é bom conversar com ele.

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"Porque, tal como acontece com a árvore, não podes saber seja o que for do homem se o desdobras pela sua duração e o destribuis pelas suas diferenças. A árvore não é semente, depois caule, depois tronco flexível, depois madeira morta. Para a conhecer é bom não a dividir. Á árvore é essa força que desposa a pouco e pouco o céu."
(...)
Antoine de Saint-Exupéry, in CIDADELA, ed. Aster, Lisboa, s/d

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[ NUMA VIAGEM DE COMBOIO ATRAVÉS DA POLÓNIA ]

E prossegui minha viagem entre esse povo cujo sono era turvo como um local de má fama. Flutuava um ru-mor vago, feito de roncos surdos, de obscuros lamentos, do raspar das botas no chão, quando eles, corpo dorido de um lado, experimentavam o outro...

E sempre, em surdina, esse inesgotável acompanhamento de seixos rolados pelo mar.
Sentei-me defronte de um casal. Entre o homem e a mulher, a criança, mal ou bem, conseguira anichar-se e dormia. Virou-se, no sono, e enxerguei seu rosto, sob a lamparina. Ah, que rosto adorável! Um fruto dourado havia nascido desse casal. Desses lerdos farrapos, nascera uma obra-prima de encanto e graça! Curvei-me para a sua fronte lisa e, vendo o doce trejeito da boca, disse para comigo: "Eis aqui um rosto de músico, eis aqui Mozart menino, eis aqui uma bela promessa de vida!" Os principezinhos das fábulas não seriam diferentes dele. Protegido, rodeado de carinho, educado, o que não poderia ele vir a ser? Quando por mutação nasce num jardim uma rosa nova, todos os jardineiros se emocionam. Isola-se a rosa, cultiva-se a rosa, conferem-se-lhe privilégios... Não existem, porém, jardineiros de homens. Mozart menino será marcado, como os outros, pela máquina trituradora. Mozart. Mozart quem sabe? frequentará os cafés-concertos e, desse fedor e dessa música apodrecida, fará uma das suas maiores alegrias. Mozart está condenado...

Voltei para o meu vagão. Disse para comigo: "Esta gente não sofre com o destino que tem. E não é caridade o que me está atormentando. Não se trata de me enternecer sobre uma chaga eternamente sangrando. Os que a sofrem não mais a sentem. E a espécie humana que aqui está ferida, lesada, e não o indivíduo. Não acredito na compaixão. Nesta noite, o que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me está atormentando não é esta miséria, na qual, afinal de contas, é possível as pessoas instalarem-se tão bem quanto na preguiça. Gerações e gerações de orientais têm vivido na sujeira com prazer. O que me atormenta não é remediável com as sopas dos pobres. O que me atormenta não são estas corcundas nem esta fealdade. É que, em cada um destes homens, existe um pouco de um Mozart assassinado."

A. Saint-Exupéry, in UM SENTIDO PARA A VIDA, editORA Nova Fronteira, rIO DE jANEIRO, 1983

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