17.6.10

UM GRANDE POETA DA LÍNGUA PORTUGUESA






FERREIRA GULLAR, PRÉMIO CAMÕES 2010

Brasil, 1950. José Ribamar Ferreira, 20 anos, locutor da Rádio Timbira, vê a polícia matar um operário num comício e nega-se a ler um comunicado oficial do governo estadual que atribuía o crime aos comunistas. É demitido. Acontecimento decisivo na vida de um dos maiores criadores literários da língua portuguesa. Que passou a assinar-se Ferreira Gullar e foi distinguido com o Prémio Camões 2010.

Nasceu em 1930, em S. Luís do Maranhão, nordeste brasileiro, de fortes tradições populares radicadas no tempo dos coronéis e sertanejos, dos escravos negros e camponeses pobres e onde são ainda bem visíveis as marcas da presença portuguesa. Revelou muito cedo qualidades invulgares no domínio da escrita, reconhecidas em prémios literários, o que lhe moldou o traçado da vida futura. Inconformado, tentou novas vias de expressão poética, no chamado movimento de poesia concretista. Haveria mais tarde de tentar ligar a escrita poética às artes de expressão visual, em permanente inquietação criadora. Praticou pintura e escreveu livros de reflexão sobre cultura, arte e vanguarda. Virou-se também para o teatro e as suas peças marcaram uma época. Com a vida política no Brasil, entre 1964 e 1985, manchada pelo regime militar anti-democrático,  Ferreira Gullar aprofunda o seu empenhamento social e político, aderindo ao Partido Comunista, o que lhe valeu alguns anos na clandestinidade e no exílio. “Poema Sujo”, longa composição poética escrita na Argentina em 1975, circula às escondidas e certifica Gullar como o grande poeta da resistência, do povo, dos mal-amados da vida. No final dos anos 70 regressa à pátria. Pouco a pouco retoma a actividade de jornalista e homem de cultura, escrevendo, traduzindo, intervindo. Com o restabelecimento da democracia, é-lhe reconhecido o estatuto de cidadão exemplar, intelectual e criador literário, sendo mesmo indicado, em 2002, como candidato ao Nobel da Literatura, por subscrição de nove professores de universidades do Brasil, Portugal e Estados Unidos.
O Prémio Camões, atribuído a Ferreira Gullar em 2010, é o público reconhecimento de uma obra de elevada qualidade artística e indiscutível mérito sócio-cultural.


* * *


Cantiga para não morrerQuando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento. Dentro da Noite Veloz (1962-1975)

Os mortosos mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
       certas sinfonias
                 algum bater de portas,
       ventanias

           Ausentes
           de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
           se de fato
           quando vivos
           acharam a mesma graça
 Muitas Vozes (1999)
* * *

PRÉMIO CAMÕES
É o mais importante galardão literário da Língua Portuguesa. Foi instituído em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil, para distinguir autores de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra. É atribuído anualmente, alternadamente no território de cada um destes Estados, por decisão de um júri constituído para o efeito e o prémio consiste numa quantia pecuniária resultante das contribuições dos dois Estados, fixada anualmente de comum acordo. O primeiro autor premiado foi Miguel Torga, em 1989. O mais recente, 2010, foi o brasileiro Ferreira Gullar. Autores portugueses já distinguidos para além do já mencionado: Virgílio Ferreira (1992); José Saramago ( 1995); Eduardo Lourenço ( 1996); Sophia de Mello Breyner (1999); Eugénio de Andrade ( 2001); Maria Velho da Costa ( 2002); Agustina Bessa-Luís (2004); Luandino Vieira ( 2006); António Lobo Antunes (2007).
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CITAÇÕES
«Há poetas que se notabilizam pela pesquisa formal, pela experimentação da linguagem em busca de novas formas de expressão. Outros cultivam diálogo com as formas consolidadas e consagradas. Existem os que consideram a poesia como veículo das alegrias, naufrágios e perplexidades de sua própria experiência individual. Alguns vinculam a poesia à dimensão épica e colectiva de um povo perante a História.
"A obra de Ferreira Gullar, de modo ímpar, efectua um amálgama de todas essas tendências, revelando um compromisso ético e uma relevância estética que a situam, consensualmente, no mais alto patamar da criação artística contemporânea.» (António Carlos Secchin, jornal Público, Supl. Mil-Folhas)
                                                                                            *
«"Poema Sujo", um dos mais longos poemas da literatura contemporânea no Ocidente, e talvez o mais conhecido e traduzido do autor, foi lançado no Rio de Janeiro em 1976, um ano antes do seu regresso ao Brasil. Na altura, Vinicius de Moraes gravou o poema e registou que "Gullar [acabava] de escrever um dos mais importantes poemas [do século XX]". E acrescentava que com poetas como Gullar, Drummond ou João Cabral de Mello Neto, a poesia brasileira contemporânea ombreava com a melhor poesia do mundo. » (Página da WOOK, sobre a edição QUASI, publicada em 2003 e entretanto esgotada.)

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BUMBA MEU-BOI

É a designação bem brasileira de uma festa popular de S. Luís do Maranhão, terra natal de Ferreira Gullar. A origem do auto do “bumba-meu-boi” remonta ao Ciclo do Gado, no século XVIII, resultante das relações desiguais entre os escravos e os senhores nas Casas Grandes e Senzalas, reflectindo as condições sociais vividas pelos negros e índios. Contado e recontado através dos tempos, na tradição oral nordestina, e depois espalhada pelo Brasil, a lenda adquire contornos de sátira, comédia, tragédia e drama, conforme o lugar em que se inscreve, mas sempre levando em consideração a história de um homem e um boi...Estas festas, que atraem milhares de turistas têm lugar em Junho e podem ser integradas na grande tradição das festas pagãs do solstício de Verão.

10.6.10

PORQUE COLAPSAM AS CIVILIZAÇÕES?


Nos meus tempos de estudante de História, não fui capaz de ler na íntegra os famosos livros de Toynbee e de Spengler, aconselhados para a cadeira de "Teoria da História", respectivamente UM ESTUDO DE HISTÓRIA e O DECLÍNIO DO OCIDENTE.
Li resumos, excertos, referências, que me impressionaram profundamente. Para quem estudava a civilização egípcia antiga, esse imenso cadáver histórico de um corpo social que durara milhares de anos, era crucial tentar perceber porque é que morrera.
Ficaram-me resposta parcelares, demonstrações polémicas, hipóteses cuja ousadia eu era incapaz de avaliar. Um dia haveria de voltar a eles, pensava eu. Mas não voltei. Passaram de moda, tornaram-se ítem de bibliografia vasta para especialistas, deixaram de ser reeditados.

Há uns meses, numa conversa de fim de jantar com o meu filho João, que são sempre momentos de intensa partilha de ideias e opiniões, ele falou-me do livro COLAPSO- Ascensão e Queda das Sociedades Humana, de Jared Diamond ( Gradiva, 2008 ; original: "How Societies Choose to Fail or Succed", 2005)
O autor é investigador nas áreas da fisiologia, biologia evolutiva e biogeografia, e é professor de Geografia na Universidade da Califórnia em Los Angeles.
Li de imediato uma parte e fiquei preso. Há que ler o resto. Mas estes livros não são para ler como romance, de enfiada. Podem ser lidos em prestações, aliás o autor incita a isso, na forma como o organizou. Foi natural o salto para as conclusões finais.
Porque colapsam as civilizações? "O que provocou a hecatombe das grandes civilizações do passado e o que podemos aprender com o seu destino trágico? O que leva algumas sociedades a cometerem erros até se autodestruírem? Que escolhas económicas, sociais e políticas devemos fazer para não conhecermos o mesmo fim?" (contra-capa)

São 605 páginas de leitura apaixonante.
Fico a imaginar que numa sociedade do conhecimento este livro seria objecto de intensos debates, tal como o teria sido o profético "Apelo aos Vivos" de Garaudy, há trinta anos atrás, um imenso sinal de alerta que - vemos hoje! - estava cheio de avisos aos vivos, que o ignoraram e se debatem agora com os grandes problemas por ele enunciados.

A que conclusões chega o autor de  "COLAPSO"?
A ver num dos próximos capítulos...

20.5.10

LEITURAS : "MYRA" de Maria Velho da Costa






Retiro do blogue O BIBLIOTECÁRIO DE BABEL:

«O Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, distingue este ano a escritora Maria Velho da Costa pelo romance Myra (Assírio & Alvim). A decisão do júri, composto por Patrícia Reis, Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J.B. Martinho e Vergílio Alberto Vieira, foi anunciada durante a Sessão Oficial de Abertura das Correntes d’Escritas, no Casino da Póvoa de Varzim, esta manhã.
Os restantes nove finalistas eram:
A Eternidade e o Desejo, de Inês Pedrosa (Dom Quixote); A Mão Esquerda de Deus, de Pedro Almeida Vieira (Dom Quixote); A Sala Magenta, de Mário de Carvalho (Caminho); o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe (QuidNovi); O Cónego, de A. M. Pires Cabral (Cotovia); O Mundo, de Juan José Millás (Planeta); O verão selvagem dos teus olhos, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água); Rakushisha, de Adriana Lisboa (Quetzal) e Três Lindas Cubanas, de Gonzalo Celorio (Quetzal).
Em 2009, ganhou Gastão Cruz, com
A Moeda do Tempo (Assírio & Alvim).»


De Maria Velho de Costa tentei ler há anos: Missa in Albis, Maina Mendes e Casas Pardas
Não me agarraram. Não tenho paciência para a nouvelle prose portuguaise, é o que é… Achei-os uns pastelões indigestos e deixei-os pelo caminho. Que diabo, tal como defende Penac, também temos o direito de não ler.
Agora, ao saber que Maria Velho tinha sido premiada com esta obra, e que ela era objecto de análise da comunidade de leitores da Biblioteca Municipal de Torres Vedras, resolvi-me a tentar de novo. Fui à biblioteca, emprestaram-me o livro que achei maneirinho e trouxe-o para casa.
Que direi dele?
Primeiro: gostei da prosa, que chega a ser deslumbrante. Pela propriedade, o rigor, a riqueza vocabular, a relação que estabelece com os ambientes e personagens. E porque não é prolixa nem enxundiosa, como nos livros acima citados.
Segundo: o tema não me interessou, pareceu-me um pretexto para a escrita. Tal como diz o artigo da LER, é a história de uma rapariga com um cão. Mas tudo aquilo ou é fortuito ou altamente metafórico. Num caso e noutro, e como o meu critério pessoal é “ter ou não paciência…”, eu só levei o livro até ao fim porque era pequeno, cerca de 160 páginas…
Mais logo, lá irei à reunião mensal da comunidade de leitores, para ouvir os outros ledores de MYRA.
Vou tentar ser humilde, não falar muito, tentar aprender. Porque admito muito sinceramente que o problema que tenho com a Maria Velho da Costa seja de incapacidade minha.


18.5.10

ALEXANDRE HERCULANO: A ESCRITA E AS ARMAS EM DEFESA DA LIBERDADE



evocando O BICENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO
Em raros homens a actividade intelectual e a intensa acção política conviveram tão intensamente como em Alexandre Herculano. Dos 67 anos da sua existência ficou uma obra imensa no campo da historiografia, do romance histórico, da poesia, do jornalismo e da intervenção cívica como doutrinário e polemista. Evocamos hoje o bicentenário do seu nascimento.
Foi no ano de 1810, em Março, meses antes da terceira invasão francesa, que nasceu em Lisboa Alexandre Herculano de Carvalho Araújo. Difícil conjuntura familiar impediu-o de realizar estudos universitários mas não lhe coarctou a vontade de se firmar nas Letras e na Política. Viveu os mais conturbados anos do nosso século XIX: revolução liberal, violenta reacção absolutista, guerra civil. Sofreu o exílio mas aproveitou-o para realizar estudos e fazer leituras decisivas para o seu futuro, em França. Juntou-se aos liberais de D. Pedro IV na Ilha Terceira, e empunhou armas no Porto, ao mesmo tempo que organizava os arquivos públicos da cidade, já apaixonado pelo que viria a ser a sua grande missão: coligir e publicar documentos até aí sepultados em obscuros cartórios de paróquias e conventos. A partir deles impôs uma nova concepção de historiografia, baseada na investigação e análise rigorosas das fontes originais.
Defensor da liberdade individual como fundamento de progresso social, reabilitou a época medieval portuguesa, aquela em que o povo tivera voz perante o Rei e a Igreja, e que os séculos posteriores desvirtuaram, com o absolutismo na organização política e com as imposições do concílio de Trento na vida religiosa. Daí o embate com as visões retrógradas, na política e na religião, expressas em polémicas públicas e em estudos de História, de que o exemplo mais citado é o da desmistificação da batalha de Ourique.
De energia inesgotável, ao mesmo tempo que era arrendatário agrícola perto de Palmela, escreveu quatro volumes da História de Portugal; milhares de páginas de doutrina, pensamento e crítica, reunidas nos Opúsculos; estudos historiográficos diversos; romances históricos, de que o mais conhecido é Eurico, o Presbítero; poesia (A Harpa do Crente). Ganhou a vida como arquivista mas conciliou ainda essa actividade com a vida política, quer como deputado quer como criador de opinião, o que lhe valeu o reconhecimento geral pela elevada forma de abordar as questões e a seriedade das suas análises. No entanto, acabou por se desiludir com a evolução da vida pública e retirou-se para Vale de Lobos, uma quinta nos arredores de Santarém, onde deu largas ao seu gosto pela vida agrícola. E também aqui foi exemplar, ao renovar a olivicultura e a oleicultura, numa quinta modelo baseada nas mais modernas práticas agrícolas. Onze anos depois da sua morte foi trasladado para o Mosteiro dos Jerónimos onde repousa num imponente túmulo na Casa do Capítulo.



ETERNO RECONHECIMENTO DA PÁTRIA


Alexandre Herculano foi uma das grandes figuras do século XIX português. De origem modesta, elevou-se pelo trabalho e probidade intelectual à condição indiscutível de referência ética e cívica. Lutou de armas na mão pela defesa do que considerava o maior valor cívico: «A liberdade humana, sei o que é: uma verdade de consciência como Deus. Por ela chego facilmente ao Direito absoluto; por ela sei apreciar as instituições sociais.»
Marcou os grandes momentos culturais e políticos da sua época. Foi reconhecido por príncipes e reis. Mas manteve sempre uma atitude de intransigente independência face aos poderes instituídos, patenteada por exemplo na recusa em receber a condecoração da Torres e Espada.
 Herculano tinha, no dizer de Teófilo Braga, um verdadeiro poder espiritual nacional, bem visível nas cerimónias da trasladação dos seus restos mortais, em 1888, onze anos depois da sua morte, da aldeia de Azóia, perto de Santarém, para o Mosteiro dos Jerónimos. Ali repousa, tal como Camões.

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O POETA

Os poemas de A. Herculano foram coligidos no livro “A Harpa do Crente”. Integram-se na corrente do romantismo, pelos temas e pela forma. Destacam-se as composições meditativas, em torno da ideia de Deus e da Natureza como criação divina, em ambientes nocturnos ou de paisagens majestosas.

DEUS

Nas horas de silêncio, à meia-noite,
Eu louvarei o Eterno!
Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,
E os abismos do Inferno.
Pela amplidão dos céus meus cantos soem,
E a Lua resplendente
Pare em seu giro, ao ressoar nest'harpa
O hino do Omnipotente.
(…)
Teu nome ousei cantar! Perdoa, ó Nume;
Perdoa ao teu cantor!
Dignos de ti não são meus frouxos hinos,
Mas são hinos de amor.
Embora vis hipócritas te pintem
Qual bárbaro tirano:
Mentem, por dominar com férreo ceptro
O vulgo cego e insano.
Quem os crê é um ímpio! Recear-te
É maldizer-te, ó Deus;
É o trono dos déspotas da Terra
Ir colocar nos Céus.
Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
Dos males da existência
Tranquilo, e sem temor, à sombra posto
Da Tua Providência.




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LER A NOSSA HISTÓRIA



Inspirando-se nos historiadores franceses do seu tempo, Herculano foi o introdutor em Portugal da História científica. Entre diversas obras historiográficas – de que ressalta a História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, escreveu a História de Portugal até ao rei D. Afonso III, em quatro volumes, uma obra inovadora pela forma de abordagem: denunciando a História tradicional das grandes figuras, privilegiou a História das instituições, completada com a dos factos políticos. Sendo uma obra que não pode ser ignorada, é claramente insuficiente para os padrões actuais.
Imaginemos que os nossos leitores perguntam: onde é que podemos ler, actualmente, uma boa História de Portugal, de abordagem prática e fiável? Ousamos responder apontando para uma obra publicada em 2009 pela editora Esfera dos Livros: História de Portugal, de Rui Ramos (coordenador), Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro. José Mattoso, um dos nossos mais destacados historiadores, definiu-a assim (Ípsilon, jornal PÚBLICO 12 de Março de 2010): «Clara, fundamentada, muito completa, bem escrita, de boas dimensões para ser lida do princípio ao fim, a “História de Portugal” de Rui Ramos deixa para trás qualquer congénere anteriormente publicada. Uma obra perfeita, quase.»
Os autores são professores universitários da nova geração de historiadores. Rui Ramos explica no prólogo: «Este livro é uma proposta de síntese interpretativa da História de Portugal desde a Idade Média até aos nossos dias. Está construído como uma narrativa que combina a História política, económica, social e cultural, de modo a dar uma visão integrada de cada época e momento histórico, ao mesmo tempo que integra Portugal no contexto da História da Europa e do mundo.»

23.4.10

23 ABRIL - DIA MUNDIAL DA LEITURA / BADALADAS DE 23 ABRIL 2010


23 DE ABRIL: DIA MUNDIAL DA LEITURA

LEMOS PARA COMPREENDER





A chamada Holland House,em Londres, foi bombardeada em 22 de Outubro de 1940. A fotografia, tirada por um desconhecido, captou o momento em que três homens escolhem e lêem alguns livros que milagrosamente escaparam a mais uma noite de bombardeamento.
Albert Manguel, no magnífico livro Uma História da Leitura ( Ed. Presença, Lisboa, 1998), parte desta fotografia para algumas linhas de intensa luminosidade analítica acerca do acto de ler:

«Mas o que é afinal esta emoção?» pergunta Rebecca West depois de ler o Rei Lear. «Qual é o impacte de obras de arte de alta qualidade na minha vida, que me faz sentir tão feliz?» Não o sabemos: lemos com ignorância. Lemos em movimentos lentos e longos, como se andássemos à deriva no espaço, sem peso. Lemos cheios de preconceito e malevolência. Lemos com generosidade, procurando desculpas para o texto, preenchendo lacunas, remediando erros. E por vezes, quando temos sorte, lemos com a respiração sustida, com um estremecimento, como numa assombração, como se de súbito a memória tivesse sido resgatada de um lugar fundo dentro de nós — o reconhecimento de algo que não sabíamos existir em nós ou de algo que vagamente sentíramos como uma chama bruxuleante ou uma sombra, cuja forma fantasmagórica se configura e regressa a nós antes de podermos ver do que se trata, deixando-nos mais velhos e mais sábios.
Esta leitura tem uma imagem. Uma fotografia tirada em 1940, durante um bombardeamento de Londres na Segunda Guerra Mundial, mostra os restos de uma biblioteca destruída. Através do telhado desfeito podem avistar-se edifícios fantasmagóricos e no centro da biblioteca encontra-se um monte de traves e mobiliário estragado. Mas as estantes mantiveram-se firmes e os livros que nelas se alinham parecem incólumes. Encontram-se três homens entre os destroços: um deles, como se hesitando que livro escolher, aparenta estar a ler os títulos nas lombadas; um outro, de óculos, está a pegar num livro; o terceiro está a ler um livro aberto nas mãos. Não estão a voltar as costas à guerra nem a ignorar a destruição que ela provoca. Não estão a escolher livros em vez da vida lá fora. Estão a tentar persistir contra todas as expectativas; estão a afirmar o direito comum de fazer perguntas; estão a tentar encontrar mais uma vez — por entre as ruínas, no reconhecimento surpreendente que a leitura por vezes proporciona — uma compreensão.»


OS LIVROS VÃO ACABAR?

Perguntaram a Umberto Eco se os livros iriam desaparecer com a invenção da internet. Impaciente com a frequência com que a questão lhe tem sido posta, fez algumas observações pertinentes. “ O livro é como a colher, o martelo, a roda ou o cinzel. Uma vez inventados não se pode fazer melhor.” E explicou que nada substitui a flexibilidade e a simplicidade de um livro: não depende da electricidade nem de pilhas; podemos lê-lo na banheira ou deitados de lado na cama; não agride os olhos como os ecrãs luminosos; não precisamos de decorar sequências de toques para o folhear. Sem dúvida que as máquinas electrónicas - os chamados e-books – vão ser muito úteis para quem tem de manusear milhares de páginas nos tribunais, por exemplo, ou transportar muitos livros em viagem. Verifica-se é que esses instrumentos procuram imitar o mais possível a tal simplicidade e flexibilidade do livro. Mas Eco duvida se será a mesma coisa ler Guerra e Paz num livro ou num ecrã electrónico. (A Obsessão do Fogo, Difel, 2009).




Em simultâneo com as alterações técnicas de suporte à leitura, aponta-se como um dos grandes problemas culturais do nosso tempo a perda de hábitos de leitura pela juventude, questão que foi recentemente objecto de análise em jornais de referência. Muita gente, preocupada com a iliteracia dos jovens, atira os braços ao ar. “Uma calamidade!” E repetem: “O abandono dos livros está entre as principais causas para a degradação da escrita e da oralidade”. Como causa maior deste flagelo apontam a internet. Mas é ainda Umberto Eco quem observa: “Se alguma vez julgámos ter penetrado na civilização das imagens, eis que o computador nos reintroduz na galáxia de Gutemberg e toda a gente se vê de ora em diante obrigada a ler.”
Concordo com isto. Veja-se a moda dos blogues na internet,  que pôs milhares de pessoas a escreverem e a serem lidas por esse mundo fora!

Também eu tenho os meus blogues. Um dia destes, e fazendo coro com o vulgo, lamentei num deles o desprezo da gente nova pelos livros. Mas um jovem leitor respondeu-me de forma pertinente, obrigando-me a rever juízos apressados. Dizia ele:
Penso que seria um disparate obrigar as pessoas a estudarem à maneira antiga. Houve uma altura que se estudava com tábuas de pedra. Depois veio o papiro, o papel… Agora é o tempo dos ecrãs de computador. O problema não está na forma como se aprende. Isso tem mudado ao longo da história e continuamos a aprender.
Penso que o primeiro passo para resolver o problema é aceitar com naturalidade que o paradigma muda. Esta situação deve-se ter repetido muitas vezes ao longo da história, com o avanço da tecnologia, da roda ao computador…
Dei-lhe razão e senti necessidade de aprofundar a análise, até porque há muito que uso as novas tecnologias e estou à espera do e-book barato e prático que me permita armazenar melhor os livros e levá-los para onde quiser.
De facto, o problema não está no avanço tecnológico mas sim na competência individual para lidar com a informação, seja qual for o veículo em que ela repouse - um livro ou um ecrã de computador -  problema que se tornou mais visível com a massificação do ensino.
As sociedades actuais caracterizam-se por um excesso de informação e pela rapidez e generalização da difusão de conhecimentos. Isto exige uma crescente capacidade para seleccionar e avaliar a sua oportunidade, pertinência e relevância. Como este excesso resulta dos avanços tecnológicos, somos levados a culpá-los por isso, sem vermos que a questão não é bem essa… Está, talvez, na dificuldade do ensino – um sistema social pesado, com milhares de intervenientes - em se adaptar às novas realidades sociais e tecnológicas.
Tal como não podemos prescindir da roda, os livros continuarão a fazer parte das nossas vidas. A complexidade tecnológica não diminui, antes aumenta os instrumentos ao serviço do homem. A verdadeira questão será sempre a da capacidade para saber utilizá-los. | MD





PROGRESSO E CIDADANIA


Receio bem que a massificação do ensino e esta onda gigantesca de tecnologia informativa não signifiquem aumento proporcional da capacidade cultural e da consciência de cidadania.
E que essas características sociais continuem a ser pertença de elites, constituídas agora por aqueles que têm genuína vontade de estudar e capacidade para lidar de forma inteligente com a inovação tecnológica posta ao serviço da circulação intensiva do conhecimento.
Parece que sempre foi assim: em todas as sociedades há as elites que caminham na vanguarda e há as massas humanas dos que não podem ou não querem aceder a patamares superiores de consciência cívica.
A política é a expressão desta realidade. Se as elites estiverem ao serviço do resto da população, teremos sociedades que evoluem em sentido correcto. Se, pelo contrário, só agirem pelos seus interesses, teremos sociedades desequilibradas, onde campeia a desigualdade, a exploração e a injustiça.
Um bom critério para avaliar um político pode ser este: que ideia é que ele tem do papel das elites na sociedade? | MD


18.4.10

DIA MUNDIAL DO LIVRO

O livro-árvore, Salvador Dali

Em 23 de Abril comemora-se o DIA MUNDIAL DO LIVRO.
Podemos ver AQUI o programa da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.
Neste dia sairá mais uma página LUGAR ONDE, no BADALADAS, dedicada ao livro.

16.4.10

TEXTOS INESQUECÍVEIS - O ALCAIDE DO CASTELO DE FARIA

Alexandre Herculano é o autor do LUGAR ONDE de Maio.
Este é um dos seus textos de que eu gosto muito.
O castelo de Faria já não existe, como Herculano informa no texto.
A foto é do Castelo de Montalegre, que retirei do "OLHARES - fotografia Online", da autoria de Rui Ramos. É um castelo medieval, da época do de Faria.


O CASTELO DE FARIA(1373)


Alexandre Herculano (Lendas e Narrativas)



A breve distância da vila de Barcelos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longe um convento de Franciscanos. Aprazível é o sítio, sombreado de velhas árvores. Sentem-se ali o murmurar das águas e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza, que quebra o silêncio daquela solidão, a qual, para nos servirmos de uma expressão de Fr. Bernardo de Brito, com a saudade de seus horizontes parece encaminhar e chamar o espírito à contemplação das coisas celestes.

O monte que se alevanta ao pé do humilde convento é formoso, mas áspero e severo, como quase todos os montes do Minho. Da sua coroa descobre-se ao longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na face da terra. O espectador colocado no cimo daquela eminência volta-se para um e outro lado, e as povoações e os rios, os prados e as fragas, os soutos e os pinhais apresentam-lhe o panorama variadíssimo que se descobre de qualquer ponto elevado da província de Entre-Douro-e-Minho.

Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue: já sobre ele se ouviram gritos de combatentes, ânsias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas e estrondo de máquinas de guerra. Claros sinais de que ali viveram homens: porque é com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os sítios que escolheram para habitar na terra.

O castelo de Faria, com suas torres e ameias, com a sua barbacã e fosso, com seus postigos e alçapões ferrados, campeou aí como dominador dos vales vizinhos. Castelo real da Idade Média, a sua origem some-se nas trevas dos tempos que já lá vão há muito: mas a febre lenta que costuma devorar os gigantes de mármore e de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o antigo alcácer das eras dos reis de Leão desmoronou-se e caiu. Ainda no século dezessete parte da sua ossada estava dispersa por aquelas encostas: no século seguinte já nenhuns vestígios dele restavam, segundo o testemunho de um historiador nosso. Um eremitério, fundado pelo célebre Egas Moniz, era o único eco do passado que aí restava. Na ermida servia de altar uma pedra trazida de Ceuta pelo primeiro Duque de Bragança, D. Afonso. Era esta lájea a mesa em que costumava comer Salat-ibn-Salat, último senhor de Ceuta. D. Afonso, que seguira seu pai D. João I na conquista daquela cidade, trouxe esta pedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a consigo para a vila de Barcelos, cujo conde era. De mesa de banquetes mouriscos converteu-se essa pedra em ara do cristianismo. Se ainda existe, quem sabe qual será o seu futuro destino?

Serviram os fragmentos do castelo de Faria para se construir o convento edificado ao sopé do monte. Assim se converteram em dormitórios as salas de armas, as ameias das torres em bordas de sepulturas, os umbrais das balhesteiras e postigos em janelas claustrais. O ruído dos combates calou no alto do monte, e nas faldas dele alevantaram-se a harmonia dos salmos e o sussurro das orações.

Este antigo castelo tinha recordações de glória. Os nossos maiores, porém, curavam mais de praticar façanhas do que de conservar os monumentos delas. Deixaram, por isso, sem remorsos, sumir nas paredes de um claustro pedras que foram testemunhas de um dos mais heróicos feitos de corações portugueses.

Reinava entre nós D. Fernando. Este príncipe, que tanto degenerava de seus antepassados em valor e prudência, fora obrigado a fazer paz com os castelhanos, depois de uma guerra infeliz, intentada sem justificados motivos, e em que se esgotaram inteiramente os tesouros do Estado. A condição principal, com que se pôs termo a esta luta desastrosa, foi que D. Fernando casasse com a filha del-rei de Castela: mas, brevemente, a guerra se acendeu de novo; porque D. Fernando, namorado de D. Leonor Teles, sem lhe importar o contrato de que dependia o repouso dos seus vassalos, a recebeu por mulher, com afronta da princesa castelhana. Resolveu-se o pai a tomar vingança da injúria, ao que o aconselhavam ainda outros motivos. Entrou em Portugal com um exército e, recusando D. Fernando aceitar-lhe batalha, veio sobre Lisboa e cercou-a. Não sendo o nosso propósito narrar os sucessos deste sítio, volveremos o fio do discurso para o que sucedeu no Minho.

O Adiantado de Galiza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela província de Entre-Douro-e-Minho com um grosso corpo de gente de pé e de cavalo, enquanto a maior parte do pequeno exército português trabalhava inutilmente ou por defender ou por descercar Lisboa. Prendendo, matando e saqueando, veio o Adiantado até as imediações de Barcelos, sem achar quem lhe atalhasse o passo; aqui, porém, saiu-lhe ao encontro D. Henrique Manuel, conde de Ceia e tio del-rei D. Fernando, com a gente que pôde ajuntar. Foi terrível o conflito; mas, por fim, foram desbaratados os portugueses, caindo alguns nas mãos dos adversários.

Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mor do castelo de Faria, Nuno Gonçalves. Saíra este com alguns soldados para socorrer o conde de Ceia, vindo, assim, a ser companheiro na comum desgraça. Cativo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castelo del-rei seu senhor das mãos dos inimigos. Governava-o em sua ausência, um seu filho, e era de crer que, vendo o pai em ferros, de bom grado desse a fortaleza para o libertar, muito mais quando os meios de defensão escasseavam. Estas considerações sugeriram um ardil a Nuno Gonçalves. Pediu ao Adiantado que o mandasse conduzir ao pé dos muros do castelo, porque ele, com as suas exortações, faria com que o filho o entregasse, sem derramamento de sangue.

Um troço de besteiros e de homens d'armas subiu a encosta do monte da Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gonçalves. O Adiantado de Galiza seguia atrás com o grosso da hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por João Rodrigues de Viedma, estendia-se, rodeando os muros pelo outro lado. O exército vitorioso ia tomar posse do castelo de Faria, que lhe prometera dar nas mãos o seu cativo alcaide.

De roda da barbacã alvejavam as casinhas da pequena povoação de Faria: mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoaçavam soltas ao vento, e viram o refulgir cintilante das armas inimigas, abandonando os seus lares, foram acolher-se no terreiro que se estendia entre os muros negros do castelo e a cerca exterior ou barbacã.

Nas torres, os atalaias vigiavam atentamente a campanha, e os almocadens corriam com a rolda 1 pelas quadrelas do muro e subiam aos cubelos colocados nos ângulos das muralhas.

O terreiro onde se haviam acolhido os habitantes da povoação estava coberto de choupanas colmadas, nas quais se abrigava a turba dos velhos, das mulheres e das crianças, que ali se julgavam seguros da violência de inimigos desapiedados.

Quando o troço dos homens d'armas que levavam preso Nuno Gonçalves vinha já a pouca distância da barbacã, os besteiros que coroavam as ameias encurvaram as bestas, e os homens dos engenhos prepararam-se para arrojar sobre os contrários as suas quadrelas e virotões, enquanto o clamor e o choro se alevantavam no terreiro, onde o povo inerme estava apinhado.

Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a barbacã, todas as bestas se inclinaram para o chão, e o ranger das máquinas converteu-se num silêncio profundo.

- "Moço alcaide, moço alcaide! - bradou o arauto - teu pai, cativo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, Adiantado de Galiza pelo mui excelente e temido D. Henrique de Castela, deseja falar contigo, de fora do teu castelo."

Gonçalo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou então o terreiro e, chegando à barbacã, disse ao arauto - "A Virgem proteja meu pai: dizei-lhe que eu o espero."

O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gonçalves, e depois de breve demora, o tropel aproximou-se da barbacã. Chegados ao pé dela, o velho guerreiro saiu dentre os seus guardadores, e falou com o filho:

"Sabes tu, Gonçalo Nunes, de quem é esse castelo, que, segundo o regimento de guerra, entreguei à tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esforçado conde de Ceia?"

- "É - respondeu Gonçalo Nunes - de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem por ele fizeste preito e menagem."

- "Sabes tu, Gonçalo Nunes, que o dever de um alcaide é de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ruínas dele?"

- "Sei, oh meu pai! - prosseguiu Gonçalo Nunes em voz baixa, para não ser ouvido dos castelhanos, que começavam a murmurar. - Mas não vês que a tua morte é certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resistência?"

Nuno Gonçalves, como se não tivera ouvido as reflexões do filho, clamou então: - "Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo, sem tropeçarem no teu cadáver."

- "Morra! - gritou o almocadem castelhano - morra o que nos atraiçoou." - E Nuno Gonçalves caiu no chão atravessado de muitas espadas e lanças.

- "Defende-te, alcaide!" - foram as últimas palavras que ele murmurou.

Gonçalo Nunes corria como louco ao redor da barbacã, clamando vingança. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; grande porção dos assassinos de Nuno Gonçalves misturaram o próprio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.

Os castelhanos acometeram o castelo; no primeiro dia de combate o terreiro da barbacã ficou alastrado de cadáveres tisnados e de colmos e ramos reduzidos a cinzas. Um soldado de Pedro Rodriguez Sarmento tinha sacudido com a ponta da sua longa chuça um colmeiro incendiado para dentro da cerca; o vento suão soprava nesse dia com violência, e em breve os habitantes da povoação, que haviam buscado o amparo do castelo, pereceram juntamente com as suas frágeis moradas.

Mas Gonçalo Nunes lembrava-se da maldição de seu pai: lembrava-se de que o vira moribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos os momentos o último grito do bom Nuno Gonçalves - "Defende-te, alcaide!"

O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do castelo de Faria. O moço alcaide defendia-se como um leão, e o exército castelhano foi constrangido a levantar o cerco.

Gonçalo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu brioso procedimento e pelas façanhas que obrara na defensão da fortaleza cuja guarda lhe fora encomendada por seu pai no último trance da vida. Mas a lembrança do horrível sucesso estava sempre presente no espírito do moço alcaide. Pedindo a el-rei o desonerasse do cargo que tão bem desempenhara, foi depor ao pé dos altares a cervilheira e o saio de cavaleiro, para se cobrir com as vestes pacificas do sacerdócio. Ministro do santuário, era com lágrimas e preces que ele podia pagar a seu pai o ter coberto de perpétua glória o nome dos alcaides de Faria.

Mas esta glória, não há hoje ai uma única pedra que a ateste. As relações dos historiadores foram mais duradouras que o mármore.

21.3.10

ALICE NO PAÍS DA INFÂNCIA




                
 Desenho de John Tenniel

ALICE NO PAÍS DA INFÂNCIA

“As coisas simples são as que mais nos intrigam quando delas se fala de maneira complicada”
Na falta de alguém já ter dito esta frase, tive de a inventar agora mesmo. Estava-me a fazer falta para falar deste livrinho tão complicadamente simples que é “Alice no País das Maravilhas”.
Qualquer wikipédia nos dirá que ele foi escrito por Lewis Carrol- pseudónimo do matemático inglês Charles Dodgson, que viveu entre 1832 e 1898 – e que é a versão escrita e desenvolvida de uma história inicial que ele contou a três irmãs, uma delas chamada Alice Liddell, durante um passeio de barco no Tamisa.
Quem já contou histórias a crianças, inventando-as na altura, sabe como esse é um jogo cujo desenlace depende do estado de espírito com que se começou. E há dias em que tudo sai com naturalidade, sobretudo quando nos desprendemos da preocupação da verosimilhança e deixamos que a imaginação tome conta da história.
É aqui que entram os comentadores da complicação. Para eles, a história de Lewis Carroll é tão rica de pormenores imaginativos que se torna necessário um modelo teórico de interpretação. E então, uns dizem que ele é um surrealista antes do tempo. Outros, que só os conhecimentos matemáticos nos darão a chave para o entendimento de tão complexa construção. Outros, ainda, fazem análise psicanalítica, encontrando em cada personagem, em cada situação, um indício de trauma de infância do autor, ou uma manifestação da luta entre o consciente e o subconsciente.

Tanta teoria dá-me vontade de rir. Depois de conhecer o Chapeleiro Maluco, o Coelho apressado ou o Arganaz dorminhoco, apetece-me inventar outro personagem ainda mais improvável. O Tolinhas da Teoria, por exemplo.
É verdade que o período mais complicado da nossa vida foi a infância. Porque era preciso aprender tudo. Mas, simultaneamente, tudo era muito mais simples, pois ainda não tínhamos termos de comparação.
Lewis Carroll dedicou às crianças do seu tempo este “livro de disparates”- expressão dele. E completou a dedicatória assim: “Se eu escrevi alguma coisa que possa contribuir para o repositório da diversão saudável e inocente acumulada nos livros das crianças que tanto amo, isso será para mim uma coisa que espero recordar sem vergonha nem tristeza (…) quando chegar a minha vez de percorrer o vale das sombras”.
Posso ser muito básico mas apetece-me dizer que “Alice no Pais das Maravilhas” é simples como os olhos das crianças e complicado como os dos adultos.
Bem dizia Gil Vicente: “Uma coisa pensa o cavalo, outra quem está a montá-lo”. Nem mais. | MD



AS CRIANÇAS PRECISAM DE CONTOS DE FADAS

«Tanto os mitos como os contos de fadas respondem às eternas perguntas: «O que é o mundo verdadeiramente? Como vou eu viver a minha vida nele? Como ser verdadeiramente eu próprio?» As respostas dadas pelos mitos são definitivas, enquanto o conto de fadas é meramente sugestivo; as suas mensagens podem insinuar soluções sem nunca as relatar. Os contos de fadas deixam à fantasia da criança a decisão se deve (ou como deve) aplicar a si própria o que a história revela sobre a vida e a natureza humana.
O conto de fadas procede de uma forma que se conforma com a maneira de pensar da criança e com aquilo por que ela vive, e é por isso que o conto de fadas é para ela tão convincente. Ela pode obter muito mais conforto de um conto de fadas do que dos esforços intelectuais e racionais dos adultos para a tranquilizarem. A criança confia no que dizem os contos de fadas porque o mundo destes está de acordo com o seu.»
Bruno Bettelheim, Psicanálise dos Contos de Fadas, Bertrand Ed. 2006


Foto de Alice Liddell, tirada por Lewis Carroll

 
PRIMEIRA PÁGINA DE “ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS”

«Alice começava a aborrecer-se imenso de estar sentada à beira-rio com a irmã, sem nada para fazer: espreitara uma ou duas vezes para o livro que a irmã lia, mas não tinha gravuras nem diálogos. «E de que serve um livro», pensou Alice, «se não tem gravuras nem diálogos?»
Por isso cogitava de si para si (com certa dificuldade, porque o dia quente a fazia sentir estúpida e sonolen¬ta), se havia de dar-se ao trabalho de levantar-se e colher margaridas pelo prazer de fazer com elas um colar de flo¬res. Foi então que, de repente, um Coelho Branco com olhos cor-de-rosa passou a correr ao pé dela.
Não era coisa muito extraordinária; nem Alice pensou que fosse assim muito inusitado ouvir o Coelho dizendo:
— Credo! Credo! Vou chegar atrasadíssimo!
(Quando mais tarde pensou nisso, ocorreu-lhe que devia ter ficado espantada, mas naquela altura pareceu--Ihe tudo bastante natural.) Porém, quando o Coelho deu em puxar um relógio do bolso do colete, e olhou para ele e desatou a correr, Alice levantou-se imediatamente, porque lhe passou na ideia que nunca antes tinha visto um coelho com um bolso de colete, nem um relógio que tirasse de lá, e, ardendo de curiosidade, correu pelos campos atrás dele, mesmo a tempo de o ver enfiar-se por uma toca debaixo de uma sebe.»



ALICE NO CINEMA

Está nas salas, desde 4 de Março, a mais recente versão para cinema do imortal livro de Lewis Carrrol, do realizador Tim Burton. Excerto de uma entrevista ao realizador, no Jornal de Notícias:

Não sentiu uma pressão especial pelo facto de a história ser tão conhecida e de poder haver algum desapontamento entre os fãs?

Não, porque acho que nunca houve uma versão que fosse a definitiva. Esta história faz parte da nossa cultura, não só através dos livros e do cinema mas também da música e de tantas outras artes. Há tantas interpretações possíveis que para mim era como que um território aberto. E acabei o filme há uma semana, ainda não tive tempo para esse tipo de preocupações.

Qual a diferença entre Wonderland e Underland, como lhe chama no filme?

Bom, escreve-se de maneira diferente… É um estado de espírito. Não quisemos fazer uma versão literal da história. Pelo contrário, quisemos ser fiéis ao que sentimos ser o espírito das personagens e ao que Lewis Carroll nos transmitiu a todos.


20.3.10

MONUMENTO MEDIEVAL EM LIXEIRA URBANA



Um conselho: não passem perto do secular Chafariz dos Canos. A mágoa chega a ser insuportável. Um monumento medieval, único no país - pelo tipo e localização - metido na lixeira urbana de um pequeno e feio largo.
Passem ao largo deste largo! Voltem só quando souberem que o plano de recuperação daquele espaço foi, finalmente, concretizado.

15.2.10

O CONSPIRADOR CONTEMPLATIVO



NO 1º CENTENÁRIO DA REPÚBLICA


JOSÉ RELVAS, o conspirador contemplativo*

Lavrador, revolucionário, aristocrata, artista, político, diplomata. Quem olhasse apenas a sua envergadura física não acreditaria possível tamanha acção em vida e tal herança na morte. No entanto José Relvas marcou indelevelmente a sua geração e deixou um património valioso. Nos 100 anos da República Portuguesa, é oportuno e justo recordá-lo.

José Mascarenhas Relvas nasceu na Golegã a 5 de Março de 1858, numa família rica, de ascendência aristocrata. Seu pai, Carlos Relvas, artista culto, foi o célebre pioneiro da fotografia cujo estúdio ainda hoje se pode visitar na Golegã. José Relvas, depois de uma passagem breve pelo Curso de Direito da Universidade de Coimbra, matriculou-se no Curso Superior de Letras de Lisboa, que concluiu.

Grande proprietário agrícola, fixou-se em Alpiarça onde fez construir um solar que foi sua habitação, a Casa dos Patudos.

Estudioso e profundo conhecedor dos problemas agrícolas relacionados com a viticultura, distinguiu-se em 1907 nos protestos da lavoura ribatejana contra as medidas vitivinícolas, proteccionistas da lavoura duriense, adoptadas pelo governo de João Franco. Adere ao Partido Republicano Português, de que se torna um dos mais destacados e corajosos dirigentes. O jornal “Liberdade”, da 1ª República, refere-o assim: «Quando um homem com uma tal ascendência, uma tal fortuna, uma tal educação, uma tal cultura, um tal temperamento de artista, se destaca a bloco da alta burguesia e, calcando desdenhosamente aos pés certos preconceitos ainda então muito enraizados, exclama – EU SOU REPUBLICANO! - esse homem pratica um acto heróico, de coragem moral e de bravura cívica, que não pode deixar de impressionar o meio em que vive e de alentar os menos animosos».

Em 1908 dá-se o regicídio, facto crudelíssimo que os mais prudentes republicanos nunca aprovaram. Caso de J. Relvas que nas suas “Memórias Políticas” o atribui a circunstâncias particulares e inesperadas da vida política e que, segundo ele, chegou a pôr em causa os objectivos republicanos.

Em Abril de 1809, no Congresso de Setúbal, José Relvas foi eleito para o Directório do Partido Republicano, com a incumbência de preparar a insurreição contra o regime monárquico. Vemos então este homem – rico, com mulher e três filhos e uma casa de sonho – meter ombros à tarefa e desdobrar-se num trabalho hercúleo e perigoso em defesa do seu ideal político: um país renovado pela República, regime de homens responsavelmente livres. Não era um extremista, um fanático, antes se revelou um diplomata e um homem de enorme tacto, num período histórico tão conturbado como foi aquele em que viveu.

Meses antes do 5 de Outubro vai em missão secreta a Londres e a Paris, para garantir a não intervenção estrangeira no caso de uma acção revolucionária - e voltará às missões diplomáticas já depois da revolução, em defesa do novo regime.

No desenrolar da revolução de Outubro, desaparecidos os que deviam chefiá-la – Miguel Bombarda e Cândido dos Reis – foi José Relvas o líder de rua que garantiu a ligação entre os revolucionários dispersos. Não admira, pois, que tivesse sido ele quem, já na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, na manhã de 5 de Outubro de 1910, proclamou a República e anunciou a constituição do Governo Provisório, em que ele próprio, por recuo de última hora de Basílio Teles, foi compelido a aceitar a pasta de ministro das Finanças. Mais tarde foi designado para as difíceis funções de ministro de Portugal em Espanha (1911-1914), aí negociando o acordo entre os governos espanhol e português sobre a repressão dos emigrados monárquicos instalados em Espanha.

Porém, o seu espírito recto e carácter íntegro não se conformaram com as crescentes intrigas palacianas dos políticos que não estavam à altura dos elevados ideais dos fundadores da República. E Relvas retira-se para Alpiarça. É chamado ainda a formar governo em 1919, no contexto de uma gravíssima crise política que raiou a guerra civil, quando as forças monárquicas ensaiaram a vingança. Mas findo este breve interregno, regressa à quinta dos Patudos. Desgostos familiares devastadores – a morte dos três filhos – não vergaram o ânimo deste homem, que manteve até ao fim a actividade de grande proprietário agrícola e amante das artes. E que deixou páginas de enorme lucidez e alguma amargura nas suas Memórias Políticas, publicadas em 1977/78. Morreu em 31 de Outubro de 1929 e repousa no seu jazigo do cemitério de Alpiarça.
JMD

*Título da Exposição na Assembleia da República, em 2008, sobre José Relvas

 
 
 
 
CASA DOS PATUDOS – MUSEU DE ALPIARÇA


Situada à saída de Alpiarça à beira da estrada para Almeirim, integra-se hoje num conjunto paisagístico de grande beleza, perto de uma pequena barragem e de um parque de lazer.

Antiga residência familiar de José Relvas, foi construída entre 1905 e 1909, com projecto do arquitecto Raul Lino. O seu fundador legou-a por testamento ao município de Alpiarça, para que fosse aberta ao público como museu, o que aconteceu em 1960. E destinou a quase totalidade dos seus bens e rendimentos ao mesmo município, para a construção de um Lar de idosos pobres, e isso foi feito, do outro lado da estrada, frente à Casa-Museu dos Patudos.

Diz o Roteiro Turístico de Alpiarça: esta Casa-Museu “pode ser encarada em três perspectivas museológicas: a Casa em si, enquanto projecto de Raul Lino; as colecções de arte aqui reunidas, que englobam pintura, escultura, azulejariam, porcelana, faiança, tapeçaria e mobiliário; e a perspectiva monográfica da memória do seu fundador, José Relvas”.

Acredite, leitor: vale a pena lá ir. De Torres Vedras a Alpiarça, são cerca de 80 km, pela A8, A15 até Santarém e Alpiarça. E se tiver o dia por sua conta, pode seguir até à Golegã, vinte quilómetros mais adiante, para visitar o famoso chalé-museu da fotografia, de Carlos Relvas. Belo programa para um dia da próxima Primavera.



José Relvas proclamando a República, na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, em 5 de Outubro de 1910


«Para José Relvas, a existência tinha uma ética e uma estética. A ética cumpriu-a na acção associativa e política e no programa de mudança do regime e reforma das instituições – o conspirador. A estética cumpriu-a na reunião de um património artístico – o contemplativo.»
João B. Serra, na abertura da exposição na Assembleia da República, em 2008, intitulada “José Relvas, o conspirador contemplativo”

26.1.10

RECORDAR RAUL BRANDÃO



RAUL BRANDÃO - Terra e dor


Ao rever a obra de Raul Brandão (1867-1930) a partir da leitura do seu EL-REI JUNOT, dou-me conta da modernidade deste homem. Bebeu no pessimismo finissecular dos "nefelibatas" (à letra: “os que andam nas nuvens”), mais por rebeldia juvenil do que por desistência existencial, e entrou no novo século sob "o estandarte de seda branca da Arte Moderna". Amanuense militar por imposição familiar, foi nas Letras que terçou armas. Em 1910 saudou a República e reformou-se da tropa para escrever uma obra que chega até nós com inesperada actualidade. A participação na fundação da Seara Nova, no início dos anos 20, é expressão do seu sentido cívico de intervenção social e política.

A modernidade dos seus livros (“Húmus”, “A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore”, “A Farsa”, “Os Pobres”, “Pescadores”,entre outros) revela-se na desencantada visão da vida humana, “dividida entre o infinito e o vómito” – no dizer de Vítor Viçoso, especialista da sua obra.

Raul Brandão: a dor e o espanto de existir. A vida como farsa grotesca temperada de ternura quando se debruça sobre os pobres e abandonados. A consciência fulgurante da inevitabilidade da morte, convivendo com ela mas iludindo-a na partilha de um amor perene - a vivência com Maria Angelina, que perdura ainda nas páginas luminosas que lhe dedicou.

O seu olhar sobre a História, (EL-REI JUNOT e VIDA E MORTE DE GOMES FREIRE), respeita as fontes de informação mas mergulha nos subterrâneos da alma humana - como Dostoievski, cuja obra admirava - em busca do significado mais fundo dos acontecimentos. É uma visão impressionista da História, habitada por seres empurrados para o abismo da morte, movendo-se como títeres à mercê de forças desmedidas.
O Homem de Raul Brandão é um anjo manchado de terra e de dor que procura no sonho a plenitude de um paraíso perdido.
JMD


"EL-REI JUNOT"
Um livro que aborda a época da 1ª Invasão Francesa.


Começa assim:

«A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos. Eis a árvore: na árvore todo o trabalho obscuro se congrega para produzir a flor. Os homens debalde se agitam, desesperam, morrem; a Ideia leva-os, espicaçados pelo aguilhão da dor, para um destino natural de beleza. Não passam de títeres: pensam que resolvem, são impelidos, e essa mescla, que um momento se atropela em cena — gestos, bocas amargas, farrapos tolhidos de dor e impregnados de sonho, essa nuvem de espectros agitados, desfaz-se logo em pó: as órbitas das caveiras que alastram a crosta terráquea não se despegam porém, di-lo Emerson, das estrelas do céu. Fica uma ideia no ar — fica um rasto na terra: a dor transmite-se.
Todo o século XVIII resume-o na luta da Revolução contra fórmulas arcaicas. E isto é ainda uma aparência: mais fundo deparas sempre com a máscara impenetrável da dor.
O homem tem atrás de si uma infindável cadeia de mortos a impeli-lo, e todos os gritos que se soltaram no mundo desde tempos imemoriais se lhe repercutem na alma. — É essa a história: o que sofreste, o que sonhaste há milhares de anos, tacteou, veio, confundido no mistério, explodir nesta boca amarga, neste gesto de cólera... Não é inútil nem sofrer, nem fazer sofrer, e não há gri-to que se perca no mundo. Nem o mais ignorado, nem o mais humilde. Escusas de te rir... E todo o esforço humano é no fundo uma lenta aproximação de Deus, assim como tudo na vida se resolve segundo a forma por que cada um encara Deus...»







UM TEXTO DE “OS PESCADORES”


PORES DO SOL

Se eu fosse pintor, passava a minha vida a pintar o pôr-do-sol à beira-mar. Fazia cem telas, todas variadas, com tintas novas e imprevistas. É um espectáculo extraordinário. Há-os em farfalhos, com largas pinceladas verdes. Há-os trágicos, quando as nuvens tomam todo o horizonte mm um ar de ameaça, e outros doirados e verdes, com o crescente fino da Lua no alto e do lado oposto a montanha enegrecida e compacta. Tardes violetas, oeste ar tão carregado de salitre que toma a boca pegajosa e amarga, e o mar violeta e doirado a molhar a areia e os alicerces dos velhos fortes abandonados...

Um poente desgrenhado, com nuvens negras lá no fundo, e uma luz sinistra. Ventania. Estratos monstruosos correm do forte. Sobre o mar fica um laivo esquecido que bóia nas águas – e não quer morrer...

Há na areia uns charcos onde se reflecte o universo – o céu, a luz, o poente. Não bolem e a luz demora-se aí até ao anoitecer. E como o poente é oiro fundido sobre o mar inteiramente verde, que a noite vai empolgar não tarda, os charcos, entre a areia húmida e escura, teimam em guardar a luz concentrada e esquecida.

Em todo o dia, o mar não se viu nitidamente. Névoa esbranquiçada, grandes rolos de poeira e sol misturados, água de que se exala um hálito verde envolvido nas ondas. Por fim, o Sol desceu e um nevoeiro imprevisto entranhou poalha de oiro no mar esverdeado, fantasmagoria e sonho nesta frescura extraordinária. (…)

Esta tarde, o Sol põe-se sobre uma barra e aparece deformado, entre grandes manchas de nuvens acobreadas. Some-se, e ressurge por fim como um grande balão de fogo num oceano revolto, até que entra numa grande nuvem espessa com interstícios de fogo e explode, iluminando o espaço e a água cor de chumbo.

Este faz sobressaltar e sonhar. Três horas da tarde. Céu limpo, mar manso, e sobre o mar uma chapada de prata, sobre o verde, mil escamas a cintilar, que brilham, luzem e tornam a reluzir. O Sol desce pouco e pouco, majestoso e sereno, no céu todo doirado e a luz forma uma estrada que liga o areal ao infinito, uma estrada larga, de oiro vivo, que começa a meus pés, na espuma ensanguentada, e chega ao Sol. Ó meu amor, não acredites na vida mesquinha, não duvides: dá-me a tua mão e vamos partir por essa estrada fora direitos ao céu!

Raul Brandão, in Os Pescadores



Obras publicadas


• Impressões e Paisagens (1890)

• História de um Palhaço (1896)

• O Padre (1901)

• A Farsa (1903)

• Os Pobres (1906)

• El-Rei Junot (1912)

• A Conspiração de 1817 (1914)

• Húmus (1917)

• Memórias (vol. I), (1919)

• Teatro (1923)

• Os Pescadores (1923)

• Memórias (vol. II), (1925)

• As Ilhas Desconhecidas (1926)

• A Morte do Palhaço e o Mistério das Árvores (1926)

• Jesus Cristo em Lisboa, em colaboração com Teixeira de Pascoaes, (1927)

• O Avejão (1929) (teatro)

• Portugal Pequenino, em colaboração com Maria Angelina Brandão, (1930)

• O Pobre de Pedir (1931)

• Vale de Josafat (vol. III das Memórias), (1933).


UM MÊS, UM AUTOR


A Biblioteca Municipal de Torres Vedras elegeu Raul Brandão para autor em destaque neste mês de Janeiro. Ao mesmo tempo, EL-REI JUNOT será o livro em debate em mais uma sessão da Comunidade de Leitores, a realizar em 27 de Janeiro, pelas 21.30, em que os dinamizadores serão os professores de História Pedro Fiéis e Joaquim Moedas Duarte. Entrada livre.

10.1.10

RAUL BRANDÃO, AUTOR DO MÊS



É o autor do mês na Biblioteca Municipal de Torres Vedras.
O seu livro "El-Rei Junot" vai ser objecto de conversa na Comunidade de Leitores - de que qualquer pessoa pode fazer parte, basta lá aparecer - no dia 27 de Janeiro p. f. , às 21.30 h.
Trata-se de um livro especial. Sendo de temática histórica, é uma visão impressionista - e impressionante - de uma época dramática, sublinhada pela escrita torrencial de um grande autor.
O livro não é fácil de encontrar nas livrarias mas a Biblioteca tem alguns exemplares para empréstimo ao domicílio.

"A história é dor; a verdadeira história é a dos gritos." - Assim começa o livro...