28.4.12

LUGAR ONDE Nº 117 - UM MONUMENTO NACIONAL À NOSSA ESPERA



Página LUGAR ONDE / versão PDF


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                                          GRUTA CALCOLÍTICA DA ERMEGEIRA

                    UM MONUMENTO NACIONAL À NOSSA ESPERA

A Associação do Património de Torres Vedras, inspirada no lema deste ano do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios – ver texto nesta página – decidiu realizar um programa de divulgação e sensibilização para este Monumento Nacional, tão pouco conhecido dos torrienses, a decorrer neste mês de Abril no Maxial, freguesia do Município de Torres Vedras com numerosos vestígios de ocupação humana desde a Pré-História. O mais significativo é a Gruta Calcolítica da Ermegeira – aldeia próxima da sede de freguesia – descoberta e explorada no final dos anos 30 do século passado. Do espólio existente avulta um par de pendentes (brincos?) e parte de um colar, de ouro, guardados no Museu Leite de Vasconcelos, em Belém, cuja valia e raridade explicam a classificação daquela estação arqueológica como Monumento Nacional.
Da gruta resta apenas uma parte da calote, o que se explica pela ação do tempo e algum vandalismo. Mas aquele é um vestígio importante a preservar e que está em risco de ser desclassificado devido ao estado de abandono.

PROGRAMA – mês de ABRIL:
Dias 17 a 23
               No Auditório da Junta de Freguesia do Maxial:
              - Pequena exposição alusiva ao período calcolítico, com peças do Museu Leonel  
                Trindade, de Torres Vedras             
      - Sessões com alunos das Escolas do Maxial, em horas a definir

Dia 21 (sábado)
             15H30: Autocarro da Câmara Municipal de Torres Vedras, junto ao Tribunal, para quem 
             quiser deslocar-se ao Maxial
             16H00 – Auditório da Junta de Freguesia: Sessão evocativa e documental sobre a Gruta da 
       Ermegeira     
             17H30 – Visita ao local da Gruta Calcolítica da Ermegeira
Dia 22
            09H00:Caminhada com passagem pelo local da gruta. Partida frente à Junta de Freguesia do
           Maxial. Percurso com cerca de 10 km, de nível fácil, aberto ao público em geral.

Este programa foi organizado com a colaboração da Junta de Freguesia do Maxial, do Município de Torres Vedras e dos técnicos do Museu Municipal Leonel Trindade, de Torres Vedras. Assinala-se, igualmente, a participação do prof. Jorge Ferreira da Silva que executou réplicas perfeitas do valioso espólio  da Gruta, em exposição na Junta de Freguesia do Maxial. | MD


Aspeto atual da gruta calcolítica da Ermegeira




Reconstituição da gruta, de acordo com o relatório de Manuel Heleno, seu investigador.
Desenho de José Pedro Sobreiro, exposto na Junta de Freguesia do Maxial.



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DIA INTERNACIONAL DOS MONUMENTOS E SÍTIOS

Mais uma vez a ADDPCTV assinala o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, 18 de Abril, com um conjunto de iniciativas que estão integradas no Programa Nacional coordenado pelo IGESPAR – Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico.
Este Dia Internacional foi criado pelo ICOMOS (Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios) a 18 de Abril de 1982 e aprovado pela UNESCO no ano seguinte, com o objetivo de sensibilizar o público para a diversidade e vulnerabilidade do património, bem como para o esforço envolvido na sua proteção e preservação.
Os temas anualmente sugeridos pelo ICOMOS pretendem promover o estabelecimento de uma ligação efetiva entre as realidades locais, regionais, nacionais e internacionais. Assim, através desta data comemorativa, pretende-se celebrar o património nacional, mas, também, a solidariedade internacional em torno da salvaguarda e da valorização do património de todo o mundo. O tema deste ano é: «Do Património Mundial ao Património Local: proteger e gerir a mudança»


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Pendentes de ouro encontrados na gruta(expostos no Museu Nacional de Arqueologia, em Belém)



Réplicas em latão (pendentes e contas tubulares), executadas por Jorge Ferreira da Silva



DESCOBERTA DA GRUTA DA ERMEGEIRA

«(…) Em 1939 descobriu-se casualmente na Ermegeira, freguesia do Maxial, concelho de Torres Vedras, na Quinta de Entrecampos, a cerca de 50 metros da residência existente na mesma, uma gruta artificial.
O aparecimento de um par de brincos de ouro e quatro tubinhos de folha enrolada do mesmo metal, ocasionaram a destruição de parte do monumento e das ossadas e abundante cerâmica que possuia.
Foi o Museu Etnológico, que, apesar da doença que nesse ano sofreu o seu director, se esforçou por salvar algo do que restava, se inteirou do destino dos objectos de ouro, comunicou ao Instituto de Arqueologia (Vid. A Voz, de 19 de Dezembro de 1939) e à sub-secção de Antiguidades da Junta Nacional de Educação o valor do achado e os prejuízos sofridos com o seu remeximento.
Não ficou por aqui a acção do mesmo Museu. Obteve do Sr. Lopes da Silva, gerente da agência do Banco Ultramarino em Torres Vedras, a cedência dos brincos que adquirira numa ourivesaria local e de cinco  tubinhos, já que os outros quatro foram derretidos, e promoveu a limpeza da mesma gruta e a crivagem da terra tirada para fora. (…)
(…) A gruta artificial da Ermegeira está aberta nas camadas cretáceas, vulgarmente designadas «grés de Torres» (neocomiano e aptiano). Apresenta hoje só câmara, com a abóbada e a parte lateral norte des­truídas pelos violadores e com diâmetros que oscilam entre 4m,30 e 4m,5o. A altura do fundo à superfície mede 3m,20, não podendo por isso a abóbada ir acima de 2m,50. Não se pode já precisar o seu meio de comunicação com o exterior: Corredor, se o houve, foi destruído por um corte feito para abertura de um caminho; e a clarabóia, se existiu, foi demolida com a abóbada. Contudo, o encontro de uma laje, ao meio do fundo da câmara, auto­riza a presunção da existência de clarabóia, mas só a presunção, porque não longe, na freguesia de Monte Redondo, na Quinta das Lapas (…), há grutas da mesma época (…)»

in: Manuel Heleno, GRUTA ARTIFICIAL DA ERMEGEIRA, Separata do vol. II de ETHNOS, revista do Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia, Lisboa, 1942



18.4.12

HOMENAGEM A ANTERO

Estátua de Antero, na praia de Santa Cruz, Torres Vedras


Deixei AQUI uma homenagem ao grande poeta cuja data de nascimento hoje se comemora.
E recordo o que já aqui se escreveu, com fotos do monumento a Antero, na praia de Santa Cruz- TVedras.

6.4.12

FERNANDO JORGE FABIÃO



Encontrámo-nos há dias numa tertúlia no centro histórico de Torres Vedras.
Fernando J F faz-me recordar um velho amigo que nunca me deixava vir de casa dele sem me oferecer laranjas ou ameixas, ou melão... conforme a época.


Obrigado por mais esta dádiva, caro amigo! Os teus poemas têm o sabor dos frutos.


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 A LINGUAGEM É UMA PELE


Aprendemos a vocação das aves
porque nem sempre voar é assunto de ave

as coisas mudam de cada vez que olhamos
para elas

basta alguém querer regressar à inocência
a essa parte intocável do texto
para que outro olor         outro alvoroço
ilumine o olhar.

Escrevemos na parede interior dos pulsos
a linguagem é uma pele.

                   *  *  *

FOI COM AS MÃOS QUE VI


É na pele que o pensamento
inscreve a íntima caligrafia
e rejubila ante o inaudito de um nome
é nela que se refletem os espelhos
e o mar acede às minas do corpo
todo o meu cantar fala do deflagar do branco
no mapa da pele
foi com as mãos que vi
foi com elas que desatei a sombra
e resguardei a casa.

25.3.12

LUÍS FILIPE RODRIGUES: O PRÉMIO





Luís Filipe Rodrigues foi o grande vencedor, no Dia Mundial da Poesia, do Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho com a obra Lugares de Passagem, uma coletânea de 41 poemas. Instituído pela Câmara Municipal de Loures, e patrocinado pela empresa GelPeixe, o galardão tem como objetivo premiar obras de ficção literária inéditas de autores portugueses nas categorias de prosa ou poesia.

A Biblioteca Municipal José Saramago, em Loures, encheu, no dia 21 de março, para assistir à entrega do Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, este ano na modalidade de poesia.

Luís Filipe Rodrigues, de 66 anos, foi o vencedor com a obra Lugares de Passagem. A concurso, 135 coletâneas de poemas originais apreciadas por um júri de reconhecido mérito, no âmbito da escrita/crítica literária ou do ensino de literatura, composto por António Carlos Cortez, José Correia de Jesus Tavares e Amélia Vieira. (Notícia transcrita DAQUI)
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Alguns poemas do livro premiado



NA BIBLIOTECA

1.

Entrou na biblioteca e disse quero o livro

maior, um livro

que cresça dentro de mim. Tinha doze anos

e preparava-se para ler não sei o quê.



Ao sair quando o abriu e folheou encontrou

um outro, o grande mundo.


2.

O livro que lhe chegou às mãos trazia um olho

na capa, lugar donde partiu para.

O êxito da travessia dependia da luz que torna diferente o que é igual.

Ao folheá-lo notou por todo o lado coisa feita

de visões, vida intensa. Por algum tempo procurou

um fio que o unisse até que um

rosto brotou a toda a largura das duas páginas centrais. Era um rosto par

tido, incendiado em cada margem.

Quando fixava as páginas e por momentos uma ficava a prumo,

um olho olhava o outro

olho,

como bons vizinhos. Mal as fechava

ambos os olhos entravam um no outro obstinadamente,

cegando-se.  Por muito tempo nos olhos passaram sombras,

como lâmpadas fundidas mergulhando na noite.


Que fazer do terceiro olho que vê o que

não vemos? O que fazer desse olho que jamais nos viu

entrar no livro?



3

Não basta ouvir, é preciso ler

em voz alta,

ver como se faz um livro, uma leira,

se tira água de um poço.



É preciso roer um osso,

sair à rua, sentir no peito a nona sinfonia,

pois quem mais vive mais sabe

e quem não lê é como quem não vê.



4.

A língua. O lápis. O ouvido. O dedo

ao entrar no livro lança raízes por onde passa

despertando os sentidos logo pela manhã.

As palavras crescem ao longo do dia,

razão para cada um ver o que o rodeia

sempre de outra maneira.

Ao folhear cada página cai por vezes uma estrela

naqueles olhos de criança.

O seu olho esquerdo dá-nos um ângulo imaginário,

próprio da idade. O direito criando fastio e sonolência.

Por isso tal criança costuma ler o mundo ouvindo,

sem disfarce nem olhar de terceiros.



Como é bom ser um ouvido pequenino, de manhã à noite.


5.

Arrumados numa estante os livros emudecem.

Precisam de uma voz que lhes grite.

O livro assim é um pássaro sem pio.

Se não lhe dermos asa não voa nem canta,



jaz ao comprido.




19.3.12

PRÉMIO LITERÁRIO MARIA AMÁLIA VAZ DE CARVALHO



Instituído pelo Município de Loures, este ano foi atribuído a Luís Filipe Rodrigues, poeta que reside há muitos anos em Torres Vedras, já distinguido em 1982 com o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores.
A entrega do Prémio será feita no próximo dia 21 de Março na Biblioteca José Saramago.
Ver mais: AQUI e AQUI.

10.3.12

O FANTASMA DE AGUSTINA


É um bocado estranho: o marido e a filha de Agustina Bessa-Luís falam dela como se já tivesse morrido.
Mas depois referem que ela vive tranquila, lúcida em relação ao seu estado atual.
Esta reportagem - fascinante! - passa-se na casa de Agustina, entre os seus móveis, os seus papéis, mas ela não aparece nunca.
Na revista LER deste mês - que pode ser lida como complemento a esta reportagem em vídeo - o marido diz que ela passou a detestar os livros, e isso resultou de um AVC que, não alterando o seu estado físico, perturbou irreversivelmente o seu estado mental

Percebo: há um pudor, uma reserva, uma opção. E percebo melhor o texto de Maria Velho da Costa, quando a visitou ( retirado daqui ):



Não tem fito, não tem medo.
Vem em direcção ao olhar que a revê.
Pequena, cantarolante e abanando a saia, debaixo das estrelas que esmorecem. A lua desmaia, o alfange comido pelos rubores da aurora. Ela pára, aponta, abre a boca para dizer lua e vêem-se os dentes de rato, o riso de todas as palavras.
Tem quatro palmos de tamanhinha e vem só.
O vestido está desabotoado nas costas, os sapatos de verniz de presilha, os preferidos, vão soltas chancas a brilhar no relento da manhã. Atrapalham, mas não impedem. Os olhos apertados de botão-azeviche são só sorriso ufano, a quatro palmos do chão na cara cor de rosa-chá.
Tem três anos de idade e fugiu de casa.
Não é amuo, é o desconchavo do mundo o que a faz vir.
Diz ao sol subinte, esmerei-me, esmerei-me, ó medronho, ninguém me viu sair. Nem criada, nem ama, nem mãe.
Lá vem ela, no carreiro ermo, no plaino pedregoso, a que não terá contemporâneos.
Move-a o amor frio, a cabeça quente do poderio da terra. Não traz cuecas. Abre as pernas, ainda de roscas roliças, para uma pocinha escura. Triunfa, menina total e raciocinante.
Vibra e caminha, humaníssima.
Diz ao céu que se acende: amaldiçoa-me, mas deixa-me ser livre. E assim foi.

Costa, Maria Velho da, in, «Egoísta n.º especial», Estoril: Estoril-Sol (III) — Turismo, Animação e Jogo, S.A., Fevereiro 2007

7.3.12

LER


A capa não está à altura do valioso conteúdo, é feia pr'a caramba!
O que vale é que, depois de abrir a revista, já não vejo esta chinfalhada gráfica e encontro páginas de boa leitura. Sobre Agustina Bessa-Luís - que, transtornada pela doença, detesta livros, ela que escreveu tantos; ou sobre Wislawa Szyborska, a poetisa que ganhou o Nobel em 1996 e de quem quase nada sabia.
E há muito mais, sobre livros, crónicas, comentários, fotografia.
Vale a pena os cinco aéreos, han?

26.2.12

CORRENTES DE ESCRITA 2012




Com a devida vénia, um texto que recolhi no blogue Bibliotecário de Babel, texto que foi lido numa sessão do Correntes de Escrita:


Eis um dos textos mais interessantes (e certamente o mais divertido) de entre os que foram lidos até agora nas Correntes d’Escritas. Foi trazido pelo poeta João Luís Barreto Guimarães para a mesa 3, com o tema “A poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras”:
«O tema que nos é imposto hoje, confere-me uma certa insegurança ensaística, vamos dizer assim, em primeiro lugar porque entendo muito pouco de economia e ainda menos em tempos de escassez como estes pelos quais passamos; em segundo lugar, e talvez resida aqui uma verdade insofismável, porque tanto quanto me vou conseguindo aperceber pelo que vou ouvindo e lendo, a palavra «perfeita» e a palavra «economia» não se costumam entender a dançar juntas, qual casal de namorados que a cada passo pisa o dedo grande do pé um do outro. Com a diferença de que à «economia» nunca ninguém a ouvirá pedir desculpa.
Há, porém, neste mote provocador, duas palavras que me agradam sobremaneira e que têm o bom hábito de conviver entre si: «poesia» e «palavras». A «poesia», como se sabe, pode ser feita de «palavras», embora num sentido igualmente belo, também o possa ser de acordes musicais, ou de imagens fotográficas ou cinematográficas, por exemplo; e as «palavras», até prova em contrário, também têm a sua «poesia». Até mesmo a palavra «dinheiro», escreveu Pedro Paixão.
A poesia actual é uma arte de poucas palavras. Pode mesmo ser austera. É verdade que ainda existe quem, epicamente, insista em espalhar palavras e mais palavras por longos lençóis de papel, com o fito de fazer «grandes poemas». Mas se me perguntam, – e eu queria agradecer à Manuela Ribeiro e ao Francisco Guedes por uma vez mais se terem lembrado de me perguntar, – a poesia que me parece maior é, de facto, a mais pequena. Em tamanho e emtom. É essa, de facto, que me interessa actualmente.

21.2.12

LUGAR ONDE - Jornal BADALADAS 17 fevereiro 2012


AS MÁSCARAS DA INCULTURA 

Quando chegou ao gabinete já levava a decisão tomada: não haveria terça-feira de carnaval. Chamou o assessor e deu-lhe ordem para fazer o comunicado. Depois telefonou a pedir a bica da manhã e abriu os dossiês da governação. Sentia-se bem, Portugal estava a entrar nos eixos e isso devia-se à sua orientação firme e determinada. Quando os amigos da troika viessem conferir as contas, encontrariam um país ordeiramente agarrado às máquinas nas fábricas ou às enxadas nos campos, numa produtividade nunca vista.
Vinte e tal anos depois de Cavaco, Passos repetia a rábula carnavalesca. Por trás desta miopia política há uma espantosa incultura. Espantosa porque não se entende em pessoas que chegaram aos mais altos cargos políticos. E incultura porque significa ignorância da História: o tempo e a memória, a coesão social daí decorrentes, os laços que seguram as comunidades a partir de indivíduos dispersos. Pode-se não gostar do Carnaval, é um direito. Mas não se pode ignorá-lo, pelas múltiplas implicações sócio-económicas que a ele se ligam. Recordo o belíssimo texto de Venerando de Matos, do seu blogue “Pedras Rolantes”:
«Não deixa de ser significativo, aliás, que um “não-feriado” como a terça-feira de Carnaval, que ninguém ainda teve coragem para transformar em feriado oficial, seja um daqueles que mais dinâmicas provoca na sociedade civil e que mais adesões conhece por parte desta, fazendo “inveja” à mobilização de outros feriados oficiais, ao mesmo tempo que tem sido a maior vítima de governantes com laivos autoritários que, desrespeitando tudo e todos, procuram, com uma regularidade irritante, aboli-lo do calendário. O autoritarismo e cinzentismo dos poderes deste país nunca se deram bem como carácter libertário e transgressor dessa data.»

   
É aqui que bate o ponto: o caráter libertário e transgressor do Carnaval, expresso na arte e na literatura europeias desde a Idade Média, imagem da eterna oposição entre espírito dionisíaco e apolíneo, equilíbrio e excesso. Imagem do Homem, imagem da vida. Ignorar isto é pôr-se à margem da compreensão do mundo, tentando moldá-lo de forma autoritária. Não por acaso, os tiranos sempre detestaram o Carnaval.

 Peter Breughel, o Jovem, 1559: "O Carnaval contra a Quaresma"

* * *  
Torres Vedras, Carnaval de 1931

HUMOR E SÁTIRA NO CARNAVAL TORRIENSE
A obra de Jaime Umbelino está compilada em diversos volumes, publicados ainda em vida do autor. Num desses livros (A Literatura nos Carnavais de Torres, ed. Câmara  Municipal de TV, 2005) encontramos a sua vasta colaboração nas festas do Carnaval torriense, em versos de recorte satírico e humorístico que não perderam a frescura.
Recordemos um trecho do discurso ao Rei do Carnaval, em 1940:
Estava a linda Inês posta em sossego
(Aonde não se sabe nem interessa)
Na margem do Sizandro ou do Mondego
- Era aí o teatro da tal peça –
Quando o Adamastor, irado e cego,
Se alevantou, sentado na tripeça,
E, calmo, disse assim, por entre as pedras:
Carnaval só há um: - em Torres Vedras!
E as ninfas e os faunos e as sereias,
Soprando na trombeta a alta Fama,
Trataram de secar ao sol as meias,
Dormiram... levantaram-se da cama,
E vieram calçando mil areias,
Sem medo ao sol, à chuva ao vento, à lama
Atravessando o mar e os oceanos ...
Só para ver o Chafariz dos Canos!...
* * *
 Há 16 anos que se publica em Torres Vedras esta revista de humor e sátira, O BARRETE, ao jeito do velho Entrudo chocarreiro e folgazão, como se vê por aqui:
CENTRO DE FERMENTAÇÃO DE AUTARCAS
Há para aí um Instituto
chamado” da vinha e do vinho”
que o Município comprou
como se fosse novinho.
 Mas por falta de ideias
para lhe dar utilidade
pediram-me sugestões
e eu vou falar à vontade.
Porque não fazer ali
- é a minha opinião -
um belo Centro de Dia
para meter os autarcas
a fazerem Formação?
 Fechados no vasilhame
dos tintos em seus odores,
com os anos a passarem,
talvez ficassem melhores…

Manuel da Fonseca e o romance “Seara de Vento” :: Aldeia da Trindade

Manuel da Fonseca e o romance “Seara de Vento” :: Aldeia da Trindade

Ando a reler algumas obras do neo-realismo português, como este magnífico Seara de Vento.
Um sopro de tragédia e de dignidade humanas, a recordar nesta época em que os mais desmemoriados falam do tempo de Salazar como de uma época de paz e de segurança, em contra-ponto com os tempos de hoje.
Tão fraca, a memória coletiva!

1.2.12

Saíu a LER de Fevereiro


Tema de capa: o humor em debate, com o inevitável Ricardo Araújo Pereira, jornalista e Abel Barros Baptista, professor catedrático.
Mas há muito mais: o aniversário que Fernando Assis Pacheco faria se fosse vivo (75 anos), pretexto para nova abordagem da sua obra; Eduardo Lourenço e dois inéditos inesperados;  os 200 anos de Charles Dickens; crónicas, recensões, notícias, participação dos leitores, etc.
Vale bem os 5 €!

28.1.12

EÇA DE QUEIRÓS - Badaladas, 27 janeiro 2012


EÇA DE QUEIRÓS
Mestre de cena da comédia portuguesa

Ler Eça de Queirós é como descerrar a cortina de um palco e ficar perante o grande teatro do século XIX português, tão surpreendentemente próximo do que somos ainda hoje. Os seus romances marcaram a nossa literatura porque são povoados por personagens inesquecíveis que representam tipos e tiques de gente que todos conheciam na época e reconhecemos hoje ainda nos seus descendentes. Destaco três grandes romances: O Crime do Padre Amaro, em que Eça descreve uma vila de província e a hipocrisia moral e social de um clero boçal e videirinho; O Primo Basílio, em que fustiga a ociosidade e a futilidade  da pequena burguesia urbana, enredada em falsas virtudes; e essa obra maior, Os Maias, retrato impressivo das elites sociais e políticas de Lisboa que vivem no brilho do pechisbeque, ignorantes e decadentes. A abordagem destes temas correspondia em Eça de Queirós ao projeto de regenerar a vida social e política portuguesa. Cria ele que, mostrando os males, denunciando os erros, satirizando os costumes, talvez se transformassem os caracteres e se moralizasse a vida social. Esse era também o desígnio dos homens do “Cenáculo” e das suas Conferências no Casino Lisbonense. Mas a dura e espessa realidade acabou por se interpor como um muro. Anos mais tarde veremos esses homens filosofarem à volta de uma mesa de jantar, sossegadamente vencidos. Transformados, como Eça dizia de si mesmo, em “vagos anarquistas entristecidos”.
Todavia, abalaram Portugal com as suas ideias plasmadas em obras imorredoiras. Entre elas avultam as de Eça. Para além do espírito de observação, da sátira arrasadora e da ironia inimitável, o seu génio revelou-se na extraordinária capacidade para moldar a Língua Portuguesa numa nova roupagem: libertou-a do formalismo e da imobilidade e arejou-a com novos processos de escrita. Fazendo desabar os antigos preceitos estilísticos, recriou a Língua e fê-la capaz de entrar no mundo contemporâneo. |JMD

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NOTAS BIOGRÁFICAS
Eça de Queirós nasce em 1845, na Póvoa de Varzim. Conclui Direito, em Coimbra, e vem para Lisboa. Inicia atividade de cronista num jornal, em textos reunidos postumamente nas Prosas Bárbaras.  É diretor do Distrito de Évora, jornal da oposição, por um período de alguns meses. Em Lisboa, na casa de Jaime Batalha Reis, em 1867, integra o «Cenáculo», tertúlia intelectual que dará brado com a organização, quatro anos depois, das Conferências do Casino e que tem como figuras mais conhecidas, Eça, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, J. Batalha Reis e Oliveira Martins. Eça profere a quarta conferência intitulada «A Nova Literatura ou O Realismo como Expressão de Arte». Publicação em folhetins de O Mistério da Estrada de Sintra, em coautoria com Ramalho Ortigão, em 1870, ano em que foi nomeado administrador do concelho de Leiria. Em 1871 sai o primeiro número d'As Farpas dirigido por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão. Em 1872 entra na carreira diplomática. Foi cônsul em Havana, Newcastle e Paris. A primeira versão de O Crime do Padre Amaro é publicada em 1875, ano em que termina a escrita de O Primo Basílio, publicado três anos depois. Em 1879 escreve O Conde de Abranhos, publicado postumamente em 1925, tal como A Capital. A novela O Mandarim sai em folhetins em 1880. Um ano depois é publicada A Relíquia. Em 1888 publica a sua obra-prima Os Maias e integra o grupo Os Vencidos da Vida. Continua a colaboração em jornais e revistas e compõe vários Contos, além de traduzir As Minas de Salomão. A Ilustre Casa de Ramires começa a ser publicada em folhetins em 1897. Morre em Paris em 16 de Agosto de 1900. Em 1989 os seus restos mortais foram trasladados para Santa Cruz, nas serranias onde colocara a aldeia de Tormes do seu romance A Cidade e as Serras, que viria a ser publicado postumamente. Outros livros como Alves & Cª, Cartas de Inglaterra, Ecos de Paris, Notas Contemporâneas ou A Tragédia da Rua das Flores, só viriam a lume alguns anos depois da sua morte.
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CRONISTA EXEMPLAR
Eça de Queirós criou três romances fundamentais – Os Maias, O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio – que faziam parte da sua idealização de um grande retrato literário de Portugal com fins de crítica social. Mas a sua obra não se confinou à ficção. Em crónicas de jornais e revistas da época deixou páginas fulgurantes de análise social e política. Perspicácia, humor, ironia, – foram instrumentos ao serviço de uma inexcedível capacidade de observação aplicada a partir dos consulados diplomáticos em que passou grande parte da vida.
«Antes e depois de Coimbra, pela vida fora, livros como Egipto, Cartas de Inglaterra, Ecos de Paris, Corres­pondência de Fradique Mendes, No­tas Contemporâneas é todo um largo e animado filme de aspetos da vida do tempo, surpreendida em sua fe­bre de ação e pensamento renova­dores. Sempre vivo nele o interesse vital da experiência humana, tanto como o interesse intelectual pelas criações do espírito, tanto como o interesse pelas mais profundas ansie­dades da alma.» (Hernâni Cidade in Portugal Histórico-Cultural)
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OS MAIAS - EPISÓDIOS DA VIDA ROMÂNTICA
É um dos grandes romances da literatura portuguesa, a história de uma família ao longo de três gerações, num plano inclinado de decadência que se consuma num episódio de incesto, símbolo da dissolução dos costumes e do amolecimento dos carateres. Poderoso quadro descritivo de um país que Eça alcunhou de “uma choldra torpe”.
«- Enfim – exclamou Ega – se não aparecerem mulheres, importam-se que é em Portugal para tudo recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos da Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas… Nós julgamo-nos civilizados como os negros de São Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão… Isto é uma choldra torpe. Onde pus eu a charuteira?» (Ca. IV)
«E como Carlos lembrava a política, ocupação dos inúteis, Ega trovejou. A política! Isso tornara-se moralmente e fisicamente nojento, desde que o negócio atacara o constitucionalismo como uma filoxera! Os políticos hoje eram bonecos de engonços, que faziam gestos e tomavam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhes puxavam pelos cordéis…Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas qual! Aí é que estava o horror. Não tinham feitio, não tinham maneiras, não se lavavam, não limpavam as unhas…» (Cap. XVIII)


 




24.1.12

Serra de Montejunto - Janeiro 2012 - Foto (C)Méon


Caminho este caminho,
saibro e neblina,
sabendo que mais adiante
não há destino.

S. Nidal 

13.1.12

Vitorino - "Rouxinol Repenica o Cante" [1]



A voz de Vitorino e uma flauta cantadora fizeram esta canção lindíssima.
A ouvir de novo...não cansa...

5.1.12

CAFÉ COM FILMES

 Ao jeito dos cine-clubes que durante tantos anos alimentaram a nossa cinefilia, o ATV - Académico de Torres Vedras volta ao CAFÉ COM FILMES. É uma oportunidade para ver filmes fora dos grandes circuitos comerciais.



2012 > Ano novo, vida nova.

Depois de dois anos de exibição, com intervenções diversas que antecediam os filmes, o Café com Filmes inaugura novo modelo de programação.
Os filmes passam a ser exibidos na sala principal, salvo situações pontuais que justifiquem o espaço do bar ou outros e apenas ocorrerá uma intervenção, em forma de espectáculo, no final da temporada, em Junho.

ENTRADA LIVRE. Exibição em DVD
Co-Produção com o Teatro-Cine de Torres Vedras
5ª feira, 21h30, Teatro-Cine Torres Vedras (quinzenalmente)


PRÓXIMOS FILMES:

A Nova Vida do Senhor O'Horten (12 de Janeiro)
Curtas Paragens - Sessões itinerantes de curtas portuguesas (26 de Janeiro)
Pater (9 de Fevereiro)

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A Nova Vida do Senhor O?Horten

Depois de 40 anos ao serviço dos Caminhos de Ferro, o pacato e solitário maquinista Odd Horten chegou finalmente à reforma e vai confrontar-se com toda uma nova vida...

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 Curtas Paragens ? Sessões itinerantes de curtas portuguesas

Exibição de curtas-metragens portuguesas, entre ficção e animação, que raramente têm estreia nas salas de cinema.

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 Pater

Vincent Lindon e Alain Cavalier são amigos. De vez em quando, vestem um fato e põe uma gravata. Ligam a câmara e filmam-se como homens de poder.

Para saber mais, VER AQUI.

3.1.12

NADA PARA LER!



Quem não sofreu já da "síndrome de Jacinto", aquela coisa que às vezes acontece antes de ir ler para a cama?

 (in: A CIDADE E AS SERRAS, Eça de Queirós, final do cap. VII)

«Suspirei, Jacinto preguiçava. E terminámos por remexer lan­guidamente os jornais que o mordomo trouxera, num monte facundo, sobre uma salva de prata — jornais de Paris, jornais de Londres, semanários, magazines, revistas, ilustrações... Jacinto desdobrava, arremessava: das revistas espreitava o sumário, logo farto; às ilustrações rasgava as folhas com o dedo indiferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais estirado para o lume:

— É uma seca... Não há que ler. — E de repente, revoltado contra este fastio opressor que o escravizava, saltou da pol­trona com um arranque de quem despedaça algemas, e ficou ereto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se intimasse aquele seu 202, tão abarrotado de Civilização, a que por um momento sequer fornecesse à sua alma um inte­resse vivo, à sua vida um fugitivo gosto! Mas o 202 permane­ceu insensível: nem uma luz, para o animar, avivou o seu brilho mudo: só as vidraças tremeram sob o embate mais rude de água e vento.

Então o meu Príncipe, sucumbido, arrastou os passos até ao seu gabinete, começou a percorrer todos os aparelhos completadores e facilitadores da Vida — o seu Telégrafo, o seu Telefone, o seu Fonógrafo, o seu Radiómetro, o seu Grafofone, o seu Microfone, a sua Máquina de Escrever, a sua Máquina de Contar, a sua Imprensa Elétrica, a outra Magnética, todos os seus utensílios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim um suplicante percorre altares donde espera socorro. E toda a sua sumptuosa Mecânica se conservou rígida, relu­zindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lâmina vibrasse, para entreter o seu Senhor.

Só o relógio monumental, que marcava a hora de todas as capitais e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, anunciando ao meu amigo que mais um dia partira levando o seu peso — diminuindo esse sombrio peso da Vida, sob que ele gemia, vergado. O Príncipe da Grã-Ventura, então, decidiu recolher para a cama — com um livro... E durante um momento, estacou no meio da Biblioteca, considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e majestade como Doutores num Concílio — depois as pilhas tumultuárias dos livros novos que esperavam pelos can­tos, sobre o tapete, o repouso e a consagração das estantes de ébano. Torcendo molemente o bigode caminhou por fim para a região dos Historiadores: espreitou séculos, farejou raças: pare­ceu atraído pelo esplendor do Império Bizantino: penetrou na Revolução Francesa donde se arredou desencantado: e palpou com mão indeliberada toda a vasta Grécia desde a criação de Atenas até à aniquilação de Corinto. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas, que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, nos títulos fortes ou lânguidos, o interior das suas almas. Não lhe apeteceu nenhuma dessas seis mil almas — e recuou, desconsolado, até aos Bió­logos... Tão maciça e cerrada era a estante de Biologia, que o meu pobre Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inaces­sível! Rolou a escada — e, fugindo, trepou até às alturas da Astronomia: destacou astros, recolocou mundos: todo um Sistema Solar desabou com fragor. Aturdido, desceu, começou a procurar por sobre as rimas das obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, arre­messava: para desentulhar um volume, demolia uma torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religiões: e relanceando uma linha, esgravatando além num índice, todos interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ânsia de encontrar um Livro! Parou então no meio da imensa nave, de cócoras, sem coragem, contemplando aqueles muros todos forrados, aquele chão todo alastrado, os seus setenta mil volumes — e, sem lhes provar a substância, já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua abundância. Findou por voltar ao montão de jornais amar­rotados, ergueu melancolicamente um velho «Diário de Notí­cias», e com ele debaixo do braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.»