5.9.06

FOI EM SETEMBRO ... 1965... Muitos de nós vivemos isto por dentro...

JOSÉ BAÇÃO LEAL: testemunha e mártir

O que dói na lembrança deste jovem que a guerra colonial roubou à vida em Setembro de 1965- faz agora 40 anos -, é a lucidez e a amargura com que caminha em direcção ao fim pressentido. José Bação Leal é hoje um símbolo de milhares de vidas cortadas à vida pela obstinação de uma política cega: aquela que inventou a ideia supremamente estúpida de “Portugal, um país que vai do Minho a Timor”.

Muitos fugiram à guerra emigrando. A maioria teve de suportá-la, na Guiné, em Moçambique ou em Angola. De 1961 a 1974 os jovens de Portugal eram recrutados para uma missão que a comunidade internacional condenava mas que Salazar e Marcelo Caetano defendiam “orgulhosamente sós”!
Um desses jovens chamava-se José Crisóstomo Gomes Bação Leal, nascido em Lisboa em 1-7-1942. Inteligente e de invulgar sensibilidade, escreveu poemas que chegaram até nós porque a mãe os recuperava carinhosamente do cesto dos papéis para onde ele os mandava, na impaciência dos vinte anos. Atento às ideias do seu tempo, lia os grandes autores e deles dava conta em muitas cartas aos amigos.
Não escapou ao recrutamento militar. Primeiro em Mafra, depois nos Rangers de Lamego, foi levado para o norte de Moçambique “para combater os terroristas” – na linguagem, essa sim terrorista, de Kaúlza de Arriaga. Insofrido com as injustiças do colonialismo e a arrogância dos senhores da guerra, enfrentou-os pela palavra e pelo gesto. Não lhe perdoaram. Atiraram-no para onde a guerra era mais acesa. Morreu numa emboscada perto de Nampula, em 1 de Setembro de 1965.
Em 1971 seu pai e um grupo de amigos publicaram um livro intitulado “POESIA E CARTAS”, com os textos de José Bação Leal. Um pequeno prefácio de Urbano Tavares Rodrigues salientava a sua extraordinária dimensão humana e literária.
Estes textos são hoje um impressionante libelo contra a guerra colonial, contra todas as guerras. Como diz Urbano T. Rodrigues:
«Além de nos fazer conviver humana e esteticamente com quem teria porventura vindo a ser – não lhe houvessem truncado a vida a crueldade e a insânia que ele denuncia – um dos maiores escritores da língua portuguesa do nosso tempo, este livro fica para sempre, no seu valor testemunhal, como um marco histórico, resumindo a agonia e o martírio de tantos e tantos jovens... O seu testamento – este maço de cartas, este punhado de versos – toma o valor de um legado escrito com sangue, de um eco que nenhum vento repressivo poderá apagar, senão que há-de ampliar-se, em sementeira de som, até ao triunfo do que foi para José Bação Leal razão de viver e morrer: a glória da paz e da justiça.»



Excertos de cartas
José B. Leal a vários amigos

«(...) Mas regressando ao Alto Molocué, trata-se duma espécie de povoação onde meia dúzia de brancos exploram muitas centenas de negros. De resto, talvez não saibas que se atribuíssemos a invenção da ternura ou da inocência a uma raça, só um cego voluntário não a atribuiria à raça negra. Esclareço: ainda não percebi, não constatei em nenhuma criança branca a ternura e a inocência que diariamente constato no doloroso, antigo olhar das crianças negras que se cruzam. Elas param à minha passagem (não minha de alferes ou senhor, mas de branco) e dizem usando uma voz que vem do coração dos séculos: «bom dia mêu alfé». Aprendo que nunca fui criança, vivi uma infância manchada de egoísmo.» (26/Novembro/1964)

(…) Não sei como enfrentar o cruel silêncio do mato. Vou “dar gritos à natureza”. Vou perder a infância, as manhãs verdes. Vou crescer inocente, forte, contra os muros do medo. Um dia, o inevitável encontro comigo mesmo, a tragédia numa rua da alma, não me reconhecerei. Reconhecer-me-ei? Talvez. Para isso… (indizível coerência) …vou passar em fúria pelas mesas, vou acordar no povo uma bandeira de trigo, à flor dos lábios. (…) (17/Abril/1965)

“Esta é a terceira carta que te escrevo num período temporal bastante curto. Ainda estou vivo, dentro desta morte, é claro.
“Desculpa o apelo. Mas aqui no Alto Molocué, só consigo, melhor: já consigo conversar com os cães. Os homens não sei onde estão. Minto: sei, mas não digo!
Aguentarei dois anos tão desesperadamente calmo? De quando em vez faço-me esta pergunta. Depois, instalo-me num canto, convido uma ou outra sombra que mereça a minha simpatia, e fico, por muito tempo, olhando nos olhos, sem espanto, a vida. Aconselho-te: como exercício é quase salutar. “ (30/Janeiro/1965)



Poemas de José B. Leal

Porque voam os pensamentos no ventre da solidão?

se a minha mão adormece numa chaga bêbeda…

Porquê? Pergunto-me na transparência do meu mundo.

As respostas batem na parede espelhada

que esclarece as cores do desespero


E caem

pesada inutilmente no tapete da consciência.


Por momentos sei que pensar não ajuda as coisas.

Gasta o tempo mudo

e coloca-nos na obliquidade da vida.



E como não sou uma parede com alma

que sangre em silêncio

fecho as portas da angústia e entro

como um príncipe bêbado na festa dos vivos.

*

Coragem mão
como coisa possessa
e fora de horas defronta o tempo
O rasgão está aberto
Basta um murmúrio de dedos
e a morte fará o resto

1 comentário:

Manuel Marques disse...

Um amigo emprestou-me o livro sobre José Bação Leal. Impressionou-me muito.
Já andei à procura mas dizem que está esgotado.