13.4.13
PARA LER
Nuno Júdice, na LER deste mês, parece responder ao que aqui se disse no post anterior. O escritor (também)deve escrever sobre o seu tempo.
A revista tem muito mais. Um bom trabalho intitulado "Nemésio por descobrir" e muitas recensões sobre novidades literárias. E não falta a "Pastoral Portuguesa" de Rogério Casanova, desta vez com um texto ignóbil intitulado "História paquidermicamente incorrecta da literatura universal". Não se pode gostar de tudo...
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LER de Abril 2013
24.3.13
LUGAR ONDE - Jornal BADALADAS - nº 128 - 22 MARÇO 2013
DOR E DESESPERANÇA
ONDE ESTÃO OS ESCRITORES DO MEU PAÍS?
O poeta e ensaísta Eduardo Pitta interrogava há dias o que
pensam e o que fazem os nossos escritores contemporâneos em relação ao momento
político que vivemos. "Que pensam da falácia europeia, do desemprego sem
freio, do empobrecimento geral..."? - Lançava ele na revista LER de Março
2013. Estranhava o alheamento de tantos nomes conhecidos das Letras, nossos
contemporâneos, e recordava os das gerações precedentes que deram testemunho de
insubmissão: Aquilino
Ribeiro, José Gomes Ferreira, Miguel Torga,
Sophia de Mello Breyner, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues, muitos
outros ( Daniel Filipe, Carlos de Oliveira, Manuel Alegre, Alexandre O’Neill...)
Escritores que, antes de 1974, davam a cara, tomavam posição, tinham lugar na
luta pela dignificação do homem. E eram presos, respondiam em tribunais
políticos.
Perguntas pertinentes. Parece que os autores,
agora, preferem resguardar-se, não se comprometem. Procuram safar-se, vender.
Aparecem nos Encontros de escritores e cultivam a glória do texto mais original
que marque posição no campeonato dos famosos. Há que aparecer, escrever no Jornal de Letras, na Ler
e na Actual, fazer parte de júris. Narcisos
literários, alheados do sentir colectivo.
Já no final, Eduardo Pitta, prevendo dias negros em que os desempregados virão
finalmente para a rua, concluía: "Nesse dia ninguém vai querer saber do
sexo dos anjos para nada".
Hoje, tempo de dor sem esperança, regressemos aos poetas que
não calam.
Roga por
nós, ó pátria, ó sonho sem fronteira!
por nós a
quem recusam a alegria,
a liberdade,
o pão de cada dia,
a vida
verdadeira!
Ó pátria,
canta! Do teu presepe imaginário
ergue a voz
dulcíssima, magoada,
e estilhaça
de -esperança as paredes do aquário,
ó pacífica
pomba engaiolada!
Contigo iremos pela noite fora,
cantando «Erguendo rútilas bandeiras
por sobre aldeias, campos, sementeiras,
como os arcanjos portadores da aurora».
Daniel Filipe,
Pátria, Lugar de Exílio, 4ª Canção
*
SONETO
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de
cantar-vos a beleza de um dia,
quando a luz
que não nego abrir o escuro
da noite que
nos cerca como um muro,
e chegares a
teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz
de morte é a voz da luta:
se quem
confia a própria dor perscruta,
maior glória
tem em ter esperança.
Carlos de Oliveira
*
URNA ÁUREA
Ó Pátria amada minha misteriosa
que da Europa és a esfinge! És o
rebate
de uma última pedra preciosa
ou és cedo demais num tempo acre?
Sempre em tua estação de desditosa
deste mirtos em campos de vinagre.
Dá-nos consolação ó nebulosa!
sepultada no ovo do milagre.
Serás morte? serás a comovente
despedida do Anjo do Ocidente
que a flor perdeu anunciando balas?
Nas quinas és a urna de um segredo:
guardas a noite? o dia? és tarde? és
cedo?
Louca e triste, ó Mãe, porque te
calas?
Natália Correia
Epístola aos iamitas, Urna
Áurea
A CORAGEM DE
SOPHIA
“Não é
possível distinguir a poeta da cidadã. Sophia de Mello Breyner foi
exemplarmente as duas coisas. E a coragem foi uma das marcas do seu percurso
humano” (Guilherme de Oliveira Martins).
Quando, nos convívios clandestinos, a resistência cantava “Vemos, ouvimos e lemos / não podemos ignorar” – eram de Sophia esses versos. A poesia não se refugiava na torre de marfim.
(O Nome das Coisas, 1972):
Quando, nos convívios clandestinos, a resistência cantava “Vemos, ouvimos e lemos / não podemos ignorar” – eram de Sophia esses versos. A poesia não se refugiava na torre de marfim.
(O Nome das Coisas, 1972):
(…)
Sei que seria possível construir
a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar
a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta
para a reconstrução do mundo
A voz de
Sophia prolonga a de Camões na denúncia do “vil interesse e sede imiga / do
dinheiro que a tudo nos obriga” (VIII,96) e dos que não hesitam “Por contentar
o Rei no ofício novo / a despir e roubar o pobre povo”(VII, 85). Voz que ressoa
nestes versos bem explícitos:
Nestes
últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos
confusões praticou injustiças
Mas que
diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação
das coisas que a direita pratica?
Que diremos
do lixo do seu luxo — de seu
Viscoso gozo
da nata da vida — que diremos
De sua feroz
ganância e fria possessão?
Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?
Que diremos
de suas máscaras álibis e pretextos
De suas
fintas labirintos e contextos?
Nestes
últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou
as linhas do seu rosto
Mas que
diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação
da vida que a direita pratica?
Julho de 1976
***
1968: Sophia
visita a prisão política de Caxias e disso deixou testemunho:
CAXIAS 68
Luz
recortada nesta manhã fria
Muros e
portões chave a pós chave
O meu amor
por ti é fundo e grave
Confirmado
nas grades deste dia
***
Os poetas, os escritores do meu país, calam a desgraça,
já não semeiam "trovas no vento que passa", já não dizem NÃO!
Porquê?
[Fotos da net]
23.3.13
ADEUS A ÓSCAR LOPES
Aprendi Literatura Portuguesa nos seus escritos, nomeadamente na HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA (que escreveu em co-autoria com António José Saraiva e que já vai em 20 edições), ainda hoje de consulta imprescindível.
Ver aqui:
http://portugaldospequeninos.blogs.sapo.pt/3372492.html
Uma entrevista muito interessante, para melhor se conhecer quem era Óascar Lopes:
http://www.publico.pt/cultura/noticia/testemunhas-do-seculo-portugues-o-comunista-que-continua-a-acreditar-na-revolucao-1588782
Depoimento de Carlos Reis:
http://www.publico.pt/cultura/noticia/sobre-oscar-lopes-1588789
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Óscar Lopes
16.3.13
Foto J Moedas Duarte, Castelo de Vide, 2012
CROMO
Esta janela dá
para coisa nenhuma.
Não é janela, é vago
orifício na bruma.
Orifício por onde
se alicerça de espuma
a líquida vereda
que vai a parte alguma.
E onde aflora a paisagem
certa voz matutina,
que se quebra de espanto
feita coisa, dor fina.
E como dor resvala
e, dócil, se insinua
entre a camisa leve
e a pele do Poeta, nua.
Pátria, Lugar de Exílio,
Ed. Presença
Vila da Feira, 1974
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Daniel Filipe,
Lugar de Exílio,
Pátria
13.3.13
LIÇÃO DO "C"
O meu quarto de miúdo, em Alpiarça, era interior. A luz vinha de uma fresta no forro do tecto, por baixo de uma telha de vidro. Entende-se pois o fascínio desta gravura do livro de leitura da 1ª Classe. Eu não podia ver o nascer do sol, nem os galos que ouvia cantar nos quintais vizinhos.
Acordava e só via paredes e um pouco acima o pequeno rasgão de luz frouxa por onde nunca passava o sol.
Que inveja eu tinha de ti, ó Cândido!
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livro da primeira classe,
Quarto da infância
11.3.13
SEXO, ANJOS E NARCISOS: PERGUNTAS PERTINENTES.
Eduardo Pitta é poeta e ensaísta. Escreve em jornais e revistas. Tem o blogue DA LITERATURA
Da LER deste mês anoto as interrogações que deixou no seu espaço HETERODOXIAS: o que pensam e o que fazem os nossos escritores contemporâneos em relação ao momento político que vivemos? "Que pensam da falácia europeia, do desemprego sem freio, do empobrecimento geral..."?
Nomes como Rui Cardoso Martins, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo, José Luís Peixoto, muitos outros: qual o seu lugar como cidadãos?
Eduardo Pitta recorda José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Virgílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues, muitos outros. Escritores que, antes de 1974, davam a cara, tomavam posição, tinham lugar na luta pela dignificação do homem. E eram presos, respondiam em tribunais políticos.
Perguntas pertinentes, sim. Actualmente os autores refugiam-se, resguardam-se. Procuram safar-se, vender. Aparecem nos Encontros de escritores e a sua preocupação é encontrar o texto original que marque posição no campeonato dos mais famosos.
Aparecer, escrever no JL, na Ler e na Actual, fazer parte de júris literários. Narcisos literários, alheados do sentir colectivo.
Eduardo Pitta prevê dias negros em que os desempregados venham finalmente para a rua. E conclui: "Nesse dia ninguém vai querer saber do sexo dos anjos para nada".
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Eduardo Pitta,
os escritores e a cidadania.
10.3.13
MALANDRAGENS
Helder Macedo é tema de capa da LER de Março 2013.
Ler de fio a pavio, é claro.
H. Macedo gosta de malandrices. Para além de fumar que nem um cavalo ( dos que fumam...)acha que Camões é "o malandro maior da literatura portuguesa" - está na capa e vem lá dentro, na entrevista feita pela Ana Sousa Dias.
Concordo em parte - acho que o Bocage era ainda mais..
Já nos meus idos do Liceu de Santarém o professor Brás ( Reis Brasil, pseudónimo literário) esfalfava-se a explicar que era uma patetice falar em amor platónico em Camões. "Qual platónico! Ele era pelo amor puro, isto é, amor inteiro, o que supõe também a carne!"
E lembrava que Camões o diz no episódio da morte de Inês de Castro:
" Tu, só tu, puro Amor, com força crua
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua, "
O puro Amor de Inês dera-lhe três filhos de Pedro, como bem lembrava o bom do dr. Brás.
Volto ao Helder Macedo. Diz ele que há versos de Camões que roçam a obscenidade:
“O Camões é
o malandro maior da literatura portuguesa. Basta ler aquilo que até há pouco
tempo - e eu escrevi bastante sobre isso - as pessoas rejeitavam como sendo o
Camões que não interessa, as Cartas que são de
uma hilariante obscenidade e perfeitamente extraordinárias. A maneira como ele
descreve a vida de Lisboa, com uma crítica social acérrima, e não apenas quando
fala da vida boémia dos prostíbulos que ele frequentava ativamente, chamando aliás às prostitutas,
porque estavam à janela, as
«ninfas de água doce». E muita da poesia lírica, mesmo nos sonetos mas
sobretudo nas redondilhas, há poemas que, se descodificamos, são profundamente
obscenos. Há um exemplo extraordinário que parece a coisa mais inocente do
mundo. Orgulho-me de ter sido
a primeira pessoa que entendeu o significado da redondilha: o mote é «Quem
disser que a barca pende, dir-lhe-ei, mana, que mente». E as voltas - «esta
barca é de carreira, tem seus aparelhos novos, boa de leme e veleira». Quando
descodificamos, a barca é fálica e a água é a coisa feminina. É um poema de alta
propaganda da sua virilidade. Traduzindo isto em linguagem corrente, é obsceno
em extremo e, assim, é lindo.
(…)
Num poema feito por ele, é uma obscenidade radiosa e nada negativa.
Traduzido em linguagem de rua, aí os pudicos e as pudicas ofendiam-se muito. Assim, dizem «cena misteriosa à
beira de um rio». São aqueles exegetas tradicionais do Camões (…)”
Ops! Interessante!
Que versos são esses?
Mote
Quem
disser que a barca pende
Dir-lhe-ei,
mana, que mente.
Voltas
Se vos
quereis embarcar
— E pera
isso estais no cais —
Entrai logo.
Que tardais?
Olhai que
está praia-mar:
E se outrem,
por vos fretar,
Vos disser
que esta que pende,
Dir-lhe-ei,
mana, que mente.
Esta barca é
de carreira,
Tem seus
aparelhos novos;
Não há como
ela outra em povos,
Boa de leme
e veleira.
Mas se, por
ser a primeira,
Vos disser
alguém que pende,
Dir-lhe-ei,
mana, que mente.
Luís de
Camões
OBRA
COMPLETA, Redondilhas
Quem sou eu para contestar Helder Macedo, professor catedrático de Estudos Portugueses durante 33 anos no King's Colledge?
Sempre a aprender!
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a barca pende,
Helder Macedo,
Luís de Camões,
Revista LER
23.2.13
Zeca Afonso - Quanto é doce
Saudades de Zeca Afonso. Hoje, 26 anos depois da sua morte ( 23 Fev 1987).
Imortal nas baladas que nos deixou.
21.2.13
Correntes de Escrita levam à Póvoa de Varzim 60 escritores
Correntes de Escrita levam à Póvoa de Varzim 60 escritores
Boa iniciativa, num país onde se fala demais de futebol e ronaldos e menos de escritores.
A seguir com atenção.
Mais pormenores:
http://www.cm-pvarzim.pt/go/correntesdescritas/2013/
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Correntes de escrita
16.2.13
AQUILINO, ESSA GRANDE CASA LITERÁRIA
Revisitar Aquilino, sempre! Nem que seja sob pretexto - e é o caso, duas datas redondas para lembrar: 50 anos da sua morte, 100 anos do primeiro livro.
Lucinda Canelas, no PÚBLICO de ontem, ajuda-nos a lembrar:
«Conferências, jantares e tertúlias
marcam os 50 anos da morte de Aquilino Ribeiro. Um escritor gourmet que só
sabia ser livre
Lucinda Canelas
La Closerie des Lilas era ponto de
paragem obrigatória para artistas e poetas. Era neste café de Montparnasse que
estabelecera a sua reputação com Émile Zola, Paul Cézanne e Théophile Gautier
no final do século XIX que Aquilino Ribeiro parava muitas vezes no seu primeiro
exílio parisiense. Tinha 23 anos e, como não era ainda casado, "o seu
coração podia pertencer a muitas mulheres", diz Luís Machado, o escritor
que coordena o programa que marca os 50 anos da morte do autor de Terras do
Demo e d"O Malhadinhas. "Ao lado do café havia um espaço
de bailes populares, os artistas andavam por ali, Lenine jogava lá xadrez e é
até possível que Aquilino o tenha conhecido. Mas não sabemos ao certo."
Conferências, tertúlias e percursos inspirados na vida e nos livros de Aquilino Ribeiro (1885-1963) é o que propõe a Associação Portuguesa de Escritores (APE) para que este aniversário - que coincide com o centenário do seu primeiro título publicado, Jardim das Tormentas - se transforme numa oportunidade para divulgar a obra deste homem livre.
"Aquilino está injustamente esquecido, apesar das reedições a conta-gotas", garantiu ontem Luís Machado, na conferência de apresentação do programa, referindo-se a uma extensa bibliografia (mais de 100 títulos, 69 editados em vida) que abrange vários géneros, do romance ao ensaio, passando pela novela, o teatro e a narrativa histórica. "Conhecê-la é acompanhar um republicano, revolucionário e amante da liberdade. É conhecer um homem profundamente independente que combateu todas as ditaduras" - a de João Franco na monarquia, a de Sidónio Pais na I República e, claro, a de Salazar com o Estado Novo - e que, por causa disso, foi perseguido, preso e exilado.
São precisamente os exílios do escritor que Alfredo Caldeira, Fernando Rosas, José Manuel Mendes e Mário Cláudio vão explorar a 19 de Março, na Assembleia da República, em Lisboa, no segundo momento de uma homenagem que começa a 25 de Fevereiro com Aquilino - O Homem e o Escritor, encontro que leva ao Panteão Nacional, onde está sepultado, vários especialistas na sua obra.
Homem de convicções fortes que deixou para trás o seminário para se tornar jornalista, Aquilino teve um vida cheia de aventuras, que incluiu guardar dinamite que viria a explodir no seu quarto, duas fugas da prisão, anos de exílio e temporadas na clandestinidade, escondido na Beira e no Minho, territórios que conhecia bem e cujas paisagens descreve demoradamente em muitos dos seus livros.
É pelas terras do autor de O Romance da Raposa e Quando os Lobos Uivam, cuja circulação foi proibida pelo Estado Novo, que passam dois dos itinerários que o programa da APE propõe a 20 e 21 de Abril. O primeiro, guiado pelo jornalista Henrique Monteiro, tem Terras do Demo por referência, o segundo, com o escritor Mário Cláudio, passa por um dos seus romances mais populares, A Casa Grande de Romarigães.
Conferências, tertúlias e percursos inspirados na vida e nos livros de Aquilino Ribeiro (1885-1963) é o que propõe a Associação Portuguesa de Escritores (APE) para que este aniversário - que coincide com o centenário do seu primeiro título publicado, Jardim das Tormentas - se transforme numa oportunidade para divulgar a obra deste homem livre.
"Aquilino está injustamente esquecido, apesar das reedições a conta-gotas", garantiu ontem Luís Machado, na conferência de apresentação do programa, referindo-se a uma extensa bibliografia (mais de 100 títulos, 69 editados em vida) que abrange vários géneros, do romance ao ensaio, passando pela novela, o teatro e a narrativa histórica. "Conhecê-la é acompanhar um republicano, revolucionário e amante da liberdade. É conhecer um homem profundamente independente que combateu todas as ditaduras" - a de João Franco na monarquia, a de Sidónio Pais na I República e, claro, a de Salazar com o Estado Novo - e que, por causa disso, foi perseguido, preso e exilado.
São precisamente os exílios do escritor que Alfredo Caldeira, Fernando Rosas, José Manuel Mendes e Mário Cláudio vão explorar a 19 de Março, na Assembleia da República, em Lisboa, no segundo momento de uma homenagem que começa a 25 de Fevereiro com Aquilino - O Homem e o Escritor, encontro que leva ao Panteão Nacional, onde está sepultado, vários especialistas na sua obra.
Homem de convicções fortes que deixou para trás o seminário para se tornar jornalista, Aquilino teve um vida cheia de aventuras, que incluiu guardar dinamite que viria a explodir no seu quarto, duas fugas da prisão, anos de exílio e temporadas na clandestinidade, escondido na Beira e no Minho, territórios que conhecia bem e cujas paisagens descreve demoradamente em muitos dos seus livros.
É pelas terras do autor de O Romance da Raposa e Quando os Lobos Uivam, cuja circulação foi proibida pelo Estado Novo, que passam dois dos itinerários que o programa da APE propõe a 20 e 21 de Abril. O primeiro, guiado pelo jornalista Henrique Monteiro, tem Terras do Demo por referência, o segundo, com o escritor Mário Cláudio, passa por um dos seus romances mais populares, A Casa Grande de Romarigães.
É neste livro, centrado no dia-a-dia de um solar do Minho e em todo o ambiente rural que o rodeia, que Aquilino faz algumas das suas mais pormenorizadas referências à gastronomia tradicional portuguesa. "Aquilino é um perfeito gourmet", diz Luís Machado. "N"A Casa Grande..., onde aliás ele viveu [pertencia ao antigo Presidente Bernardino Machado, cuja filha viria a casar com o escritor], ele fala muito de gastronomia, explica os pratos, diz como e quando se devem comer."
É o interesse por gastronomia que está por trás de outro dos momentos do programa: a 27 de Maio, no Café Martinho da Arcada, em Lisboa, António Valdemar e Luís Machado conduzem um jantar cuja ementa será inspirada na obra do escritor. "Ainda não decidimos o que vamos servir, mas haverá caldo verde e bolinhos de bacalhau. Aquilino era louco por bolinhos de bacalhau." E também por lebre, carne de porco em vinha-d"alhos e, claro, truta (são célebres as suas descrições de partos com este peixe de rio), explica o coordenador do programa, que a 24 de Maio fará em Paris uma evocação histórica dos cafés por onde Aquilino passou nos seus dois exílios. "Os cafés eram palco de discussão e de criação. Lugares ideais para quem como Aquilino gostava de olhar."»
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14.2.13
LUGAR ONDE - Pagina do BADALADAS - 15 Fev 2013
VASCO GRAÇA MOURA
A poesia ensina a perder o fôlego
Fica já dito: quem só gosta de quadras populares com rimas
chochas não leva nada desta poesia. Porque ela é exigente. Não por ser difícil
mas por exigir outra disponibilidade. Rica de referências culturais e de
ironias subtis, a poesia de Vasco Graça Moura escora-se numa incomum técnica de
fabricação de versos e rimas que chegam a lembrar os poetas do séc. XVII – o
que ele logo desmente com uma temática actualíssima. Nem aqui faltam letras
para Fados – mas que letras!
Agora que saiu a POESIA REUNIDA(Quetzal, vol 1, Lisboa,
2012), em que se juntam 50 anos de labor poético, é que é possível abarcar o
imenso horizonte desta escrita, torrente caudalosa de milhares de versos que
ensinam a perder o fôlego – porque só a leitura nos faculta o ar para a vida.
Tenho pena de não dispor de mais dez páginas do jornal…
De perder o fôlego, a leitura desta obra!
CITAÇÕES
«Vasco Graça Moura (. 1942) que o grande público se habituou a
identificar com o comentarismo ideológico. E, no entanto, desde Jorge de Sena,
talvez seja ele – com a possível excepção de David Mourão-Ferreira – a
personalidade literária mais completa. Ensaísta, tradutor laureado,
ficcionista, dramaturgo, cronista, é como poeta que atinge maior conseguimento»
«Estudioso não-ortodoxo de Camões e tradutor celebrado de
Shakespeare, Dante, Enzensberger e Gotfried Benn, (…) sempre fez da sua poesia
«um lugar de cultura [...] e por outro lado transforma a escrita poética numa
caixa de ressonância e reminiscências», como bem observou Clara Rocha. Nos seus
versos, as reminiscências denunciam quase sempre uma vasta erudição»(Eduardo
Pitta, in “Comenda de Fogo, Círculo de Leitores, Braga, 2001)
.............................................................
POEMAS
nova
meditação sobre a palavra
assim a
palavra se prestasse
ao jade ao jogo ao jugo de uma toda
arte poética e nunca ripostasse
em golpes repentinos de judoka
assim nunca
o poema se traísse
na trama
aleatória de uma aposta
perdida seu hábil mecanismo
traria o
juro ao artesão que o monta
mas por
precisa que seja a utensilagem
e a mão que
a usa por grande a qualidade
que tenha o
material severo da palavra
por completa
que fique a engrenagem
porque é que
a ultrapassam as palavras
e ficam
sendo sempre mais do que isso?
medusa
é quando a musa às vezes é medusa
hipnótica na noite, a que nos ladra
se o sono que não temos não lhe quadra
e dos nossos destinos se descruza,
e nos converte então em pedra-pomes
de atroz inconsistência o coração,
e fica duro e calcinado e não
se acalmam sofrimentos, ânsias, fomes,
e nos gela o seu gélido desprezo
que fica a rodear-nos como um halo,
ou um silêncio vil só de escutá-lo,
ou um eco mais torpe que traz preso,
e a apagar tudo o mais que se recorde,
com os dentes em sangue, morde, morde.
ofélia
é no vaivém
da lua que naufraga
uma rosa
nocturna assim perdendo
o lume e o
perfume em que se apaga
o despegar
das pétalas na vaga
vagarosa em
que voga estremecendo,
com as
grinaldas frouxas que inda traga,
ofélia entre
nenúfares descendo,
vestida de
palavras e morrendo.
....................................................................................
QUEM VAI À GUERRA…
Sou
contrário à tese de que os escritores devem abster-se de tomar posições
políticas públicas. O escritor é um cidadão como os outros, embora com a
responsabilidade acrescida de dominar instrumentos de comunicação de que a
escrita é o mais óbvio.
Vasco
Graça Moura é figura destacada no panorama cultural português. Tem desempenhado
variadíssimos cargos de gestão administrativo-cultural: Administrador da
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Comissário-geral para as Comemorações dos
Descobrimentos Portugueses ou Director do Serviço de Bibliotecas e Apoio à
Leitura da Fundação Gulbenkian, entre outros. É, actualmente, Presidente da
Fundação Centro Cultural de Belém. E foi Deputado no Parlamento Europeu durante
10 anos, eleito pelo PSD.
Escreve
regularmente na imprensa e não se coíbe de defender opiniões polémicas, seja
sobre a actualidade política, seja sobre questões culturais, caso do último
Acordo Ortográfico de que se tem assumido opositor feroz.
É
claro que o seu desassombro e truculência lhe têm valido reacções de sinal
contrário. Na guerra de argumentos, tal como na outra, quem dá também leva.
A
título de exemplo, há tempos VGM opinou sobre a CPLP – Comunidade de Países de
Língua Portuguesa, com estas palavras:
«O
Instituto Internacional da Língua Portuguesa não está em funcionamento porque
nenhum dos países membros da CPLP lhe dá meios para o fazer», disse Vasco Graça
Moura, a propósito da VIII Cimeira de chefes de Estado e de Governo da CPLP, que
decorre sexta-feira, em Luanda. «Isto corresponde a uma coisa chamada CPLP, que
é uma espécie de fantasma que não serve para rigorosamente nada, que só serve
para empatar e ocupar gente desocupada».
O
conhecido blogue http://wehavekaosinthegarden.wordpress.com/tag/vasco-graca-moura/
comentou e ilustrou:
«Engraçado
ver o pomposo Vasquinho, ex-deputado do PSD, a dizer isto quando o Sr. (Cavaco) Silva tinha acabado de dar uma longa entrevista onde
realçou a importância e a influência da CPLP, muito especialmente após o seu
mandato como seu Presidente e do grande trabalho por ele realizado.
PS: Claro que isto não tem importância
nenhuma, mas não gosto muito do Vasco Graça Moura, que me parece preconceituoso
e elitista, mas na prática poucos ligam com o que diz. Talvez por isso poucas
vezes lhe pude fazer aqui um boneco e …apeteceu-me.»
A mim, que preparo esta página em plena
época de carnaval, também me apeteceu transcrever esta brincadeira…
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Vasco Graça Moura
5.2.13
CHOVEU NA ILHA DA BOA VISTA...
Foto:
http://www.africanidade.com/content_images/africanidade_new.png
Ontem choveu na ilha da Boa Vista, Cabo Verde. Nada de parecido com as chuvas torrenciais de há dois ou três anos...
Comentário do Diogo, nas descobertas dos seus cinco aninhos:
«A chuva já estava com saudades da terra! »
4.2.13
LUGAR ONDE -- 18 Janeiro 2013 - jornal BADALADAS
A
DOS CUNHADOS:
QUE NÃO SE PERCA A MEMÓRIA
Quem
esteve há dias em A dos Cunhados, numa iniciativa da Pró-Memória,
Associação Cultural e Etnológica, decerto ficou encantado com o que viu. Partindo
da compra das ruínas de uma antiquíssima azenha e juntando pecúlios vários –
colectas, subsídios, PEDIP e patrocínios diversos – aquela Associação iniciou a
reconstrução do equipamento de moagem bem como a da Casa do Moleiro, mesmo ao
lado. Embora ainda incompleto, o projecto de fazer ali um espaço museológico de
cariz etnográfico está muito adiantado. Por isso foi possível aos visitantes
apreciarem a Casa do Moleiro com os objectos e mobílias do quotidiano rural de
outrora e verem o primeiro casal de mós que já moem farinha. Nesse dia puderam
também assistir a um concerto de música coral numa sala da azenha, que é usada
para todo o tipo de iniciativas culturais e pedagógicas.
Tem
15 anos esta associação e o rol de actividades é impressionante, como pudemos
comprovar no opúsculo “15 anos de História”. Sempre com o objectivo de
preservar e divulgar o património local e de promover a cultura. Para que não
se perca a Memória.
* * *
EDIÇÕES
Uma das actividades mais assinaláveis da Associação
Pró-Memória tem sido a edição de obras de estudo do Património edificado. Para
além da monografia sobre a Azenha de Santa Cruz, em 2006, destacamos as que tratam
de A dos Cunhados.
A dos Cunhados – Itinerários da Memória
Coordenação de João Luís Inglês Fontes
Edição Pró-Memória, A dos Cunhados, 2002
«A dos Cunhados - Itinerários da Memória
é obra que se apresenta a si própria. Basta folheá-la com algum cuidado para
reparar na amplidão do assunto, na sistematização da matéria, na qualidade das
fontes...
O resultado aí está. A freguesia de A dos
Cunhados, o concelho de Torres Vedras e a respectiva zona estremenha dispõem, a
partir de agora, dum estudo de que muitas outras zonas importantes do país
carecem ainda. »(D. Manuel Clemente, Bispo do Porto)
Produto do trabalho de uma equipa de 10
autores coordenada por João Luís Fontes, esta monografia de A dos Cunhados é
exemplar e nada tem a ver com algumas de duvidosa qualidade que ultimamente têm
aparecido por aí.
* * *
Azenha de A dos
Cunhados
5 séculos de
História
Maria
Natália da Silva
Maria
da Graça Santa Cruz Lourenço
Ed.
Câmara Municipal de Torres Vedras,
colaboração
da Associação Pró Memória
de
A dos Cunhados,
Torres
Vedras, 2012
Notável
trabalho de pesquisa histórica e etnológica. Reconstitui-se a História desta Azenha
que recua até ao séc. XV. A posse da propriedade é acompanhada ao longo dos
séculos até chegar ao séc. XX e ao último proprietário, Lino Fernandes, que em
1969 terminou a actividade da Azenha que caiu em ruinas. A Associação Pró
Memória adquiriu-a com a finalidade de a reconstruir e transformar em Museu
inter-activo, o que se explica na segunda parte em que texto, fotos e esquemas
explicam em detalhe o funcionamento da azenha. Excelente apresentação gráfica de
Olga Moreira.
* * *
MEMÓRIA COLECTIVA, CONDIÇÃO DE SOBREVIVÊNCIA
Se é verdade que ninguém esbanja uma herança, então
a Defesa do Património deveria ser uma atitude natural. Porém, é com a maior
das facilidades que nos desfazemos de coisas que julgamos sem utilidade ou
valor.
O grande dilema do nosso tempo é que as coisas se
alteram muito rapidamente — os cenários, os objectos, os costumes — não dando
tempo para que o Tempo faça a sua selecção natural.
Normalmente tendemos a desvalorizar aquilo que nos
é próximo ou familiar e a valorizar o distante e o inacessível.
A questão parece residir em saber aquilo que tem ou
não tem valor, e que tipo de valor. De outro modo, trata-se de saber o que se esconde por
detrás de cada objecto, que história nos pode ele contar. Em resumo, de saber o
que é o Património Cultural!
(…)
O património Cultural é como um gigantesco icebergue
cuja face visível é apenas uma pequena parte do todo. À tona da água está
aquilo a que qualquer pessoa reconhece inegável valor — pela sua qualidade
artística ou monumental, quer pela nobreza dos seus materiais, quer pelo seu
significado histórico preciso — como é o caso de uma catedral, de um castiçal
de prata, ou de uma carta de foral.
Mas submersa está uma infinidade de outras peças, porventura
menos brilhantes, mas que no seu todo são importantíssimas para o conhecimento
da vida dos povos - tais como uma pedra facetada, um candeeiro a petróleo, uma
azenha caída em desuso, uma fotografia antiga.
É graças a estes elementos "pobres" do nosso
património que podemos hoje saber tantas coisas sobre vida dos que nos
antecederam.
A Memória é a mais fundamental das faculdades humanas.
Foi por ela que evoluímos. Será com ela que sobreviveremos.
Se isto é válido para o indivíduo, também o é para as
sociedades, que têm no Património Cultural a sua memória colectiva.
Quer
se trate da grande obra de arte ou da humilde ferramenta de trabalho, é o Homem que, através delas, se
nos revela!»
(J. Pedro Sobreiro, in: Torres
Cultural, Dezembro 1988)
NOTA
Os livros aqui referidos encontram-se à venda na sede da
Pró-Memória, na Azenha de A dos Cunhados.
Mais informações podem ser encontradas em www.promemoria.pt
Fotos(C)J Moedas Duarte
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