13.4.13

PARA LER


Nuno Júdice, na LER deste mês,  parece responder ao que aqui se disse no post anterior. O escritor (também)deve escrever sobre o seu tempo.
A revista tem muito mais. Um bom trabalho intitulado "Nemésio por descobrir" e muitas recensões sobre novidades literárias. E não falta a "Pastoral Portuguesa" de Rogério Casanova, desta vez com um texto ignóbil intitulado "História paquidermicamente incorrecta da literatura universal". Não se pode gostar de tudo...


24.3.13

LUGAR ONDE - Jornal BADALADAS - nº 128 - 22 MARÇO 2013




DOR E DESESPERANÇA

ONDE ESTÃO OS ESCRITORES DO MEU PAÍS?

O poeta e ensaísta Eduardo Pitta interrogava há dias o que pensam e o que fazem os nossos escritores contemporâneos em relação ao momento político que vivemos. "Que pensam da falácia europeia, do desemprego sem freio, do empobrecimento geral..."? - Lançava ele na revista LER de Março 2013. Estranhava o alheamento de tantos nomes conhecidos das Letras, nossos contemporâneos, e recordava os das gerações precedentes que deram testemunho de insubmissão: Aquilino Ribeiro, José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues, muitos outros ( Daniel Filipe, Carlos de Oliveira, Manuel Alegre, Alexandre O’Neill...) Escritores que, antes de 1974, davam a cara, tomavam posição, tinham lugar na luta pela dignificação do homem. E eram presos, respondiam em tribunais políticos.

Perguntas pertinentes. Parece que os autores, agora, preferem resguardar-se, não se comprometem. Procuram safar-se, vender. Aparecem nos Encontros de escritores e cultivam a glória do texto mais original que marque posição no campeonato dos famosos. Há que aparecer, escrever no Jornal de Letras, na Ler e na Actual, fazer parte de júris. Narcisos literários, alheados do sentir colectivo.

Já no final, Eduardo Pitta,  prevendo dias negros em que os desempregados virão finalmente para a rua, concluía: "Nesse dia ninguém vai querer saber do sexo dos anjos para nada".

Hoje, tempo de dor sem esperança, regressemos aos poetas que não calam.




Roga por nós, ó pátria, ó sonho sem fronteira!
por nós a quem recusam a alegria,
a liberdade, o pão de cada dia,
a vida verdadeira!

Ó pátria, canta! Do teu presepe imaginário
ergue a voz dulcíssima, magoada,
e estilhaça de -esperança as paredes do aquário,
ó pacífica pomba engaiolada!

Contigo iremos pela noite fora,
cantando «Erguendo rútilas bandeiras
por sobre aldeias, campos, sementeiras,
como os arcanjos portadores da aurora».
Daniel Filipe,
Pátria, Lugar de Exílio, 4ª Canção


*

SONETO

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza de um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira


*

URNA ÁUREA


Ó Pátria amada minha misteriosa
que da Europa és a esfinge! És o rebate
de uma última pedra preciosa
ou és cedo demais num tempo acre?

Sempre em tua estação de desditosa
deste mirtos em campos de vinagre.
Dá-nos consolação ó nebulosa!
sepultada no ovo do milagre.

Serás morte? serás a comovente
despedida do Anjo do Ocidente
que a flor perdeu anunciando balas?

Nas quinas és a urna de um segredo:
guardas a noite? o dia? és tarde? és cedo?
Louca e triste, ó Mãe, porque te calas?

Natália Correia
Epístola aos iamitas, Urna Áurea


* * *

A CORAGEM DE SOPHIA





“Não é possível distinguir a poeta da cidadã. Sophia de Mello Breyner foi exemplarmente as duas coisas. E a coragem foi uma das marcas do seu percurso humano” (Guilherme de Oliveira Martins).
Quando, nos convívios clandestinos, a resistência cantava “Vemos, ouvimos e lemos / não podemos ignorar” – eram de Sophia esses versos. A poesia não se refugiava na torre de marfim. 

(O Nome das Coisas, 1972):

 (…)
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar
a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta
para a reconstrução do mundo

A voz de Sophia prolonga a de Camões na denúncia do “vil interesse e sede imiga / do dinheiro que a tudo nos obriga” (VIII,96) e dos que não hesitam “Por contentar o Rei no ofício novo / a despir e roubar o pobre povo”(VII, 85). Voz que ressoa nestes versos bem explícitos:


Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo — de seu
Viscoso gozo da nata da vida — que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
             Julho de 1976


 ***

1968: Sophia visita a prisão política de Caxias e disso deixou testemunho:


CAXIAS 68

Luz recortada nesta manhã fria
Muros e portões chave a pós chave
O meu amor por ti é fundo e grave
Confirmado nas grades deste dia


***

Os poetas, os escritores do meu país, calam a desgraça, 
já não semeiam "trovas no vento que passa", já não dizem NÃO!
Porquê?

[Fotos da net]


23.3.13

ADEUS A ÓSCAR LOPES






Aprendi Literatura Portuguesa nos seus escritos, nomeadamente na HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA (que escreveu em co-autoria com António José Saraiva e que já vai em 20 edições), ainda hoje de consulta imprescindível.

Ver aqui:
http://portugaldospequeninos.blogs.sapo.pt/3372492.html

Uma entrevista muito interessante, para melhor se conhecer quem era Óascar Lopes:
http://www.publico.pt/cultura/noticia/testemunhas-do-seculo-portugues-o-comunista-que-continua-a-acreditar-na-revolucao-1588782

Depoimento de Carlos Reis:
http://www.publico.pt/cultura/noticia/sobre-oscar-lopes-1588789




16.3.13


Foto J Moedas Duarte, Castelo de Vide, 2012


CROMO

Esta janela dá
para coisa nenhuma.
Não é janela, é vago
orifício na bruma.

Orifício por onde
se alicerça de espuma
a líquida vereda
que vai a parte alguma.

E onde aflora a paisagem
certa voz matutina,
que se quebra de espanto
feita coisa, dor fina.

E como dor resvala
e, dócil, se insinua
entre a camisa leve
e a pele do Poeta, nua.

Daniel Filipe
Pátria, Lugar de Exílio,
Ed. Presença
Vila da Feira, 1974

13.3.13

LIÇÃO DO "C"



O meu quarto de miúdo, em Alpiarça, era interior. A luz vinha de uma fresta no forro do tecto, por baixo de uma telha de vidro. Entende-se pois o fascínio desta gravura do livro de leitura da 1ª Classe. Eu não podia ver o nascer do sol, nem os galos que ouvia cantar nos quintais vizinhos.
Acordava e só via paredes e um pouco acima o pequeno rasgão de luz frouxa por onde nunca passava o sol.
Que inveja eu tinha de ti, ó Cândido!

11.3.13

SEXO, ANJOS E NARCISOS: PERGUNTAS PERTINENTES.


                                       


Eduardo Pitta é poeta e ensaísta. Escreve em jornais e revistas. Tem o blogue DA LITERATURA
Da LER deste mês anoto as interrogações que deixou no seu espaço HETERODOXIAS: o que pensam e o que fazem os nossos escritores contemporâneos em relação ao momento político que vivemos? "Que pensam da falácia europeia, do desemprego sem freio, do empobrecimento geral..."?

Nomes como Rui Cardoso Martins, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo, José Luís Peixoto, muitos outros: qual o seu lugar como cidadãos?

Eduardo Pitta recorda José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Virgílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues, muitos outros. Escritores que, antes de 1974, davam a cara, tomavam posição, tinham lugar na luta pela dignificação do homem. E eram presos, respondiam em tribunais políticos.

Perguntas pertinentes, sim. Actualmente os autores refugiam-se, resguardam-se. Procuram safar-se, vender. Aparecem nos Encontros de escritores e a sua preocupação é encontrar o texto original que marque posição no campeonato dos mais famosos.
Aparecer, escrever no JL, na Ler e na Actual, fazer parte de júris literários. Narcisos literários, alheados do sentir colectivo.

Eduardo Pitta prevê dias negros em que os desempregados venham finalmente para a rua. E conclui: "Nesse dia ninguém vai querer saber do sexo dos anjos para nada".

10.3.13

MALANDRAGENS



Helder Macedo é tema de capa da LER de Março 2013.
Ler de fio a pavio, é claro.

H. Macedo gosta de malandrices. Para além de fumar que nem um cavalo ( dos que fumam...)acha que Camões é "o malandro maior da literatura portuguesa" - está na capa e vem lá dentro, na entrevista feita pela Ana Sousa Dias.

Concordo em parte - acho que o Bocage era ainda mais..
Já nos meus idos do Liceu de Santarém o professor Brás ( Reis Brasil, pseudónimo literário) esfalfava-se a explicar que era uma patetice falar em amor platónico em Camões. "Qual platónico! Ele era pelo amor puro, isto é, amor inteiro, o que supõe também a carne!"
E lembrava que Camões o diz no episódio da morte de Inês de Castro:

" Tu, só tu, puro Amor, com força crua
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua, "

O puro Amor de Inês dera-lhe três filhos de Pedro, como bem lembrava o bom do dr. Brás.

Volto ao Helder Macedo. Diz ele que há versos de Camões que roçam a obscenidade:


“O Ca­mões é o malandro maior da literatura portuguesa. Basta ler aquilo que até há pouco tempo - e eu escre­vi bastante sobre isso - as pessoas rejeitavam como sendo o Camões que não interessa, as Cartas que são de uma hilariante obscenidade e perfeitamente ex­traordinárias. A maneira como ele descreve a vida de Lisboa, com uma crítica social acérrima, e não apenas quando fala da vida boémia dos prostíbulos que ele frequentava ativamente, chamando aliás às prostitu­tas, porque estavam à janela, as «ninfas de água doce». E muita da poesia lírica, mesmo nos sonetos mas sobretudo nas redondilhas, há poemas que, se des­codificamos, são profundamente obscenos. Há um exemplo extraordinário que parece a coisa mais inocente do mundo. Orgulho-me de ter sido a primei­ra pessoa que entendeu o significado da redondilha: o mote é «Quem disser que a barca pende, dir-lhe-ei, mana, que mente». E as voltas - «esta barca é de car­reira, tem seus aparelhos novos, boa de leme e veleira». Quando descodificamos, a barca é fálica e a água é a coisa feminina. É um poema de alta propaganda da sua virilidade. Traduzindo isto em linguagem corren­te, é obsceno em extremo e, assim, é lindo.
(…)
Num poema feito por ele, é uma obscenidade radiosa e nada negativa. Traduzido em linguagem de rua, aí os pudicos e as pudicas ofendiam-se muito. Assim, dizem «cena misteriosa à beira de um rio». São aqueles exe­getas tradicionais do Camões (…)”


Ops! Interessante!
Que versos são esses?



Mote
Quem disser que a barca pende
Dir-lhe-ei, mana, que mente.

Voltas

Se vos quereis embarcar
— E pera isso estais no cais —
Entrai logo. Que tardais?
Olhai que está praia-mar:
E se outrem, por vos fretar,
Vos disser que esta que pende,
Dir-lhe-ei, mana, que mente.

Esta barca é de carreira,
Tem seus aparelhos novos;
Não há como ela outra em povos,
Boa de leme e veleira.
Mas se, por ser a primeira,
Vos disser alguém que pende,
Dir-lhe-ei, mana, que mente.

Luís de Camões
OBRA COMPLETA, Redondilhas



Quem sou eu para contestar Helder Macedo, professor catedrático de Estudos Portugueses durante 33 anos no King's Colledge?
Sempre a aprender!

23.2.13

Zeca Afonso - Quanto é doce



Saudades de Zeca Afonso. Hoje, 26 anos depois da sua morte ( 23 Fev 1987).
Imortal nas baladas que nos deixou.

16.2.13

AQUILINO, ESSA GRANDE CASA LITERÁRIA


Revisitar Aquilino, sempre! Nem que seja sob pretexto - e é o caso, duas datas redondas para lembrar: 50 anos da sua morte, 100 anos do primeiro livro.
Lucinda Canelas, no PÚBLICO de ontem, ajuda-nos a lembrar: 

«Conferências, jantares e tertúlias marcam os 50 anos da morte de Aquilino Ribeiro. Um escritor gourmet que só sabia ser livre
Lucinda Canelas



La Closerie des Lilas era ponto de paragem obrigatória para artistas e poetas. Era neste café de Montparnasse que estabelecera a sua reputação com Émile Zola, Paul Cézanne e Théophile Gautier no final do século XIX que Aquilino Ribeiro parava muitas vezes no seu primeiro exílio parisiense. Tinha 23 anos e, como não era ainda casado, "o seu coração podia pertencer a muitas mulheres", diz Luís Machado, o escritor que coordena o programa que marca os 50 anos da morte do autor de Terras do Demo e d"O Malhadinhas. "Ao lado do café havia um espaço de bailes populares, os artistas andavam por ali, Lenine jogava lá xadrez e é até possível que Aquilino o tenha conhecido. Mas não sabemos ao certo."

Conferências, tertúlias e percursos inspirados na vida e nos livros de Aquilino Ribeiro (1885-1963) é o que propõe a Associação Portuguesa de Escritores (APE) para que este aniversário - que coincide com o centenário do seu primeiro título publicado, Jardim das Tormentas - se transforme numa oportunidade para divulgar a obra deste homem livre.

"Aquilino está injustamente esquecido, apesar das reedições a conta-gotas", garantiu ontem Luís Machado, na conferência de apresentação do programa, referindo-se a uma extensa bibliografia (mais de 100 títulos, 69 editados em vida) que abrange vários géneros, do romance ao ensaio, passando pela novela, o teatro e a narrativa histórica. "Conhecê-la é acompanhar um republicano, revolucionário e amante da liberdade. É conhecer um homem profundamente independente que combateu todas as ditaduras" - a de João Franco na monarquia, a de Sidónio Pais na I República e, claro, a de Salazar com o Estado Novo - e que, por causa disso, foi perseguido, preso e exilado.

São precisamente os exílios do escritor que Alfredo Caldeira, Fernando Rosas, José Manuel Mendes e Mário Cláudio vão explorar a 19 de Março, na Assembleia da República, em Lisboa, no segundo momento de uma homenagem que começa a 25 de Fevereiro com Aquilino - O Homem e o Escritor, encontro que leva ao Panteão Nacional, onde está sepultado, vários especialistas na sua obra.

Homem de convicções fortes que deixou para trás o seminário para se tornar jornalista, Aquilino teve um vida cheia de aventuras, que incluiu guardar dinamite que viria a explodir no seu quarto, duas fugas da prisão, anos de exílio e temporadas na clandestinidade, escondido na Beira e no Minho, territórios que conhecia bem e cujas paisagens descreve demoradamente em muitos dos seus livros.

É pelas terras do autor de O Romance da Raposa e Quando os Lobos Uivam, cuja circulação foi proibida pelo Estado Novo, que passam dois dos itinerários que o programa da APE propõe a 20 e 21 de Abril. O primeiro, guiado pelo jornalista Henrique Monteiro, tem Terras do Demo por referência, o segundo, com o escritor Mário Cláudio, passa por um dos seus romances mais populares, A Casa Grande de Romarigães.


É neste livro, centrado no dia-a-dia de um solar do Minho e em todo o ambiente rural que o rodeia, que Aquilino faz algumas das suas mais pormenorizadas referências à gastronomia tradicional portuguesa. "Aquilino é um perfeito gourmet", diz Luís Machado. "N"A Casa Grande..., onde aliás ele viveu [pertencia ao antigo Presidente Bernardino Machado, cuja filha viria a casar com o escritor], ele fala muito de gastronomia, explica os pratos, diz como e quando se devem comer."

É o interesse por gastronomia que está por trás de outro dos momentos do programa: a 27 de Maio, no Café Martinho da Arcada, em Lisboa, António Valdemar e Luís Machado conduzem um jantar cuja ementa será inspirada na obra do escritor. "Ainda não decidimos o que vamos servir, mas haverá caldo verde e bolinhos de bacalhau. Aquilino era louco por bolinhos de bacalhau." E também por lebre, carne de porco em vinha-d"alhos e, claro, truta (são célebres as suas descrições de partos com este peixe de rio), explica o coordenador do programa, que a 24 de Maio fará em Paris uma evocação histórica dos cafés por onde Aquilino passou nos seus dois exílios. "Os cafés eram palco de discussão e de criação. Lugares ideais para quem como Aquilino gostava de olhar."»

14.2.13

LUGAR ONDE - Pagina do BADALADAS - 15 Fev 2013





VASCO GRAÇA MOURA

A poesia ensina a perder o fôlego


Fica já dito: quem só gosta de quadras populares com rimas chochas não leva nada desta poesia. Porque ela é exigente. Não por ser difícil mas por exigir outra disponibilidade. Rica de referências culturais e de ironias subtis, a poesia de Vasco Graça Moura escora-se numa incomum técnica de fabricação de versos e rimas que chegam a lembrar os poetas do séc. XVII – o que ele logo desmente com uma temática actualíssima. Nem aqui faltam letras para Fados – mas que letras!
Agora que saiu a POESIA REUNIDA(Quetzal, vol 1, Lisboa, 2012), em que se juntam 50 anos de labor poético, é que é possível abarcar o imenso horizonte desta escrita, torrente caudalosa de milhares de versos que ensinam a perder o fôlego – porque só a leitura nos faculta o ar para a vida.
Tenho pena de não dispor de mais dez páginas do jornal…
De perder o fôlego, a leitura desta obra!


* * * 

CITAÇÕES

«Vasco Graça Moura (. 1942) que o grande público se habituou a identificar com o comentarismo ideológico. E, no entanto, desde Jorge de Sena, talvez seja ele – com a possível excepção de David Mourão-Ferreira – a personalidade literária mais completa. Ensaísta, tradutor laureado, ficcionista, dramaturgo, cronista, é como poeta que atinge maior conseguimento»

«Estudioso não-ortodoxo de Camões e tradu­tor celebrado de Shakespeare, Dante, Enzensberger e Gotfried Benn, (…) sempre fez da sua poesia «um lugar de cul­tura [...] e por outro lado transforma a escrita poética numa caixa de ressonância e reminiscências», como bem observou Clara Rocha. Nos seus versos, as reminiscências denunciam quase sempre uma vasta erudição»(Eduardo Pitta, in “Comenda de Fogo, Círculo de Leitores, Braga, 2001)

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POEMAS


nova meditação sobre a palavra

assim a palavra se prestasse
ao jade ao jogo  ao jugo de uma toda
arte poética e nunca ripostasse
em golpes repentinos de judoka

assim nunca o poema se traísse
na trama aleatória de uma aposta
perdida  seu hábil mecanismo
traria o juro ao artesão que o monta

mas por precisa que seja a utensilagem
e a mão que a usa  por grande a qualidade
que tenha o material severo da palavra
por completa que fique a engrenagem

porque é que a ultrapassam as palavras
e ficam sendo sempre mais do que isso?


medusa

é quando a musa às vezes é medusa
hipnótica na noite, a que nos ladra
se o sono que não temos não lhe quadra
e dos nossos destinos se descruza,

e nos converte então em pedra-pomes
de atroz inconsistência o coração,
e fica duro e calcinado e não
se acalmam sofrimentos, ânsias, fomes,

e nos gela o seu gélido desprezo
que fica a rodear-nos como um halo,
ou um silêncio vil só de escutá-lo,
ou um eco mais torpe que traz preso,

e a apagar tudo o mais que se recorde,
com os dentes em sangue, morde, morde.


ofélia

é no vaivém da lua que naufraga
uma rosa nocturna assim perdendo
o lume e o perfume em que se apaga
o despegar das pétalas na vaga
vagarosa em que voga estremecendo,
com as grinaldas frouxas que inda traga,
ofélia entre nenúfares descendo,
vestida de palavras e morrendo.


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QUEM VAI À GUERRA…


Sou contrário à tese de que os escritores devem abster-se de tomar posições políticas públicas. O escritor é um cidadão como os outros, embora com a responsabilidade acrescida de dominar instrumentos de comunicação de que a escrita é o mais óbvio.
Vasco Graça Moura é figura destacada no panorama cultural português. Tem desempenhado variadíssimos cargos de gestão administrativo-cultural: Administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Comissário-geral para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses ou Director do Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Gulbenkian, entre outros. É, actualmente, Presidente da Fundação Centro Cultural de Belém. E foi Deputado no Parlamento Europeu durante 10 anos, eleito pelo PSD.
Escreve regularmente na imprensa e não se coíbe de defender opiniões polémicas, seja sobre a actualidade política, seja sobre questões culturais, caso do último Acordo Ortográfico de que se tem assumido opositor feroz.
É claro que o seu desassombro e truculência lhe têm valido reacções de sinal contrário. Na guerra de argumentos, tal como na outra, quem dá também leva.

A título de exemplo, há tempos VGM opinou sobre a CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa, com estas palavras:
«O Instituto Internacional da Língua Portuguesa não está em funcionamento porque nenhum dos países membros da CPLP lhe dá meios para o fazer», disse Vasco Graça Moura, a propósito da VIII Cimeira de chefes de Estado e de Governo da CPLP, que decorre sexta-feira, em Luanda. «Isto corresponde a uma coisa chamada CPLP, que é uma espécie de fantasma que não serve para rigorosamente nada, que só serve para empatar e ocupar gente desocupada».

«Engraçado ver o pomposo Vasquinho, ex-deputado do PSD, a dizer isto quando o Sr. (Cavaco) Silva tinha acabado de dar uma longa entrevista onde realçou a importância e a influência da CPLP, muito especialmente após o seu mandato como seu Presidente e do grande trabalho por ele realizado.
PS: Claro que isto não tem importância nenhuma, mas não gosto muito do Vasco Graça Moura, que me parece preconceituoso e elitista, mas na prática poucos ligam com o que diz. Talvez por isso poucas vezes lhe pude fazer aqui um boneco e …apeteceu-me.»
A mim, que preparo esta página em plena época de carnaval, também me apeteceu transcrever esta brincadeira… 




5.2.13

CHOVEU NA ILHA DA BOA VISTA...




Foto:
http://www.africanidade.com/content_images/africanidade_new.png


Ontem choveu na ilha da Boa Vista, Cabo Verde. Nada de parecido com as chuvas torrenciais de há dois ou três anos...
Comentário do Diogo, nas descobertas dos seus cinco aninhos:

«A chuva já estava com saudades da terra! »

4.2.13

LUGAR ONDE -- 18 Janeiro 2013 - jornal BADALADAS



A DOS CUNHADOS:
               QUE NÃO SE PERCA A MEMÓRIA

Quem esteve há dias em A dos Cunhados, numa iniciativa da Pró-Memória, Associação Cultural e Etnológica, decerto ficou encantado com o que viu. Partindo da compra das ruínas de uma antiquíssima azenha e juntando pecúlios vários – colectas, subsídios, PEDIP e patrocínios diversos – aquela Associação iniciou a reconstrução do equipamento de moagem bem como a da Casa do Moleiro, mesmo ao lado. Embora ainda incompleto, o projecto de fazer ali um espaço museológico de cariz etnográfico está muito adiantado. Por isso foi possível aos visitantes apreciarem a Casa do Moleiro com os objectos e mobílias do quotidiano rural de outrora e verem o primeiro casal de mós que já moem farinha. Nesse dia puderam também assistir a um concerto de música coral numa sala da azenha, que é usada para todo o tipo de iniciativas culturais e pedagógicas.
Tem 15 anos esta associação e o rol de actividades é impressionante, como pudemos comprovar no opúsculo “15 anos de História”. Sempre com o objectivo de preservar e divulgar o património local e de promover a cultura. Para que não se perca a Memória.


* * * 
EDIÇÕES

Uma das actividades mais assinaláveis da Associação Pró-Memória tem sido a edição de obras de estudo do Património edificado. Para além da monografia sobre a Azenha de Santa Cruz, em 2006, destacamos as que tratam de A dos Cunhados.





A dos Cunhados – Itinerários da Memória
Coordenação de João Luís Inglês Fontes
Edição Pró-Memória, A dos Cunhados, 2002

«A dos Cunhados - Itinerários da Memória é obra que se apresenta a si própria. Basta folheá-la com algum cuidado para reparar na amplidão do assunto, na sistematização da matéria, na qualidade das fontes...
O resultado aí está. A freguesia de A dos Cunhados, o concelho de Torres Vedras e a respectiva zona estremenha dispõem, a partir de agora, dum estudo de que muitas outras zonas importantes do país carecem ainda. »(D. Manuel Clemente, Bispo do Porto)
Produto do trabalho de uma equipa de 10 autores coordenada por João Luís Fontes, esta monografia de A dos Cunhados é exemplar e nada tem a ver com algumas de duvidosa qualidade que ultimamente têm aparecido por aí. 


* * *


Azenha de A dos Cunhados
5 séculos de História

Maria Natália da Silva
Maria da Graça Santa Cruz Lourenço
Ed. Câmara Municipal de Torres Vedras,
colaboração da Associação Pró Memória
de A dos Cunhados,
Torres Vedras, 2012

Notável trabalho de pesquisa histórica e etnológica. Reconstitui-se a História desta Azenha que recua até ao séc. XV. A posse da propriedade é acompanhada ao longo dos séculos até chegar ao séc. XX e ao último proprietário, Lino Fernandes, que em 1969 terminou a actividade da Azenha que caiu em ruinas. A Associação Pró Memória adquiriu-a com a finalidade de a reconstruir e transformar em Museu inter-activo, o que se explica na segunda parte em que texto, fotos e esquemas explicam em detalhe o funcionamento da azenha. Excelente apresentação gráfica de Olga Moreira.


* * *

MEMÓRIA COLECTIVA, CONDIÇÃO DE SOBREVIVÊNCIA

Se é verdade que ninguém esbanja uma herança, então a Defesa do Património deveria ser uma atitude natural. Porém, é com a maior das facilidades que nos desfazemos de coisas que julgamos sem utilidade ou valor.
O grande dilema do nosso tempo é que as coisas se alteram muito rapidamente — os cenários, os objectos, os costumes — não dando tempo para que o Tempo faça a sua selecção natural.
Normalmente tendemos a desvalorizar aquilo que nos é próximo ou fa­miliar e a valorizar o distante e o inacessível.
A questão parece residir em saber aquilo que tem ou não tem valor, e que tipo de valor. De outro modo, trata-se de saber o que se esconde por detrás de cada objecto, que história nos pode ele contar. Em resumo, de saber o que é o Património Cultural!
(…)
O património Cultural é como um gigantesco icebergue cuja face visível é apenas uma pe­quena parte do todo. À tona da água está aquilo a que qualquer pessoa reconhece inegável valor — pela sua quali­dade artística ou monumental, quer pela nobreza dos seus ma­teriais, quer pelo seu significado histórico preciso — como é o caso de uma catedral, de um casti­çal de prata, ou de uma carta de foral.
Mas submersa está uma in­finidade de outras peças, por­ventura menos brilhantes, mas que no seu todo são importantíssimas para o conhecimento da vida dos povos - tais como uma pedra facetada, um candeeiro a petróleo, uma azenha caída em desuso, uma fotografia antiga.
É graças a estes elementos "pobres" do nosso património que podemos hoje saber tantas coisas sobre vida dos que nos antecederam.





A Memória é a mais funda­mental das faculdades humanas. Foi por ela que evoluímos. Será com ela que sobreviveremos.
Se isto é válido para o indi­víduo, também o é para as so­ciedades, que têm no Património Cultural a sua memória colec­tiva.
Quer se trate da grande obra de arte ou da humilde ferramen­ta de trabalho, é o Homem que, através delas, se nos revela!»
                                                                                        (J. Pedro Sobreiro, in: Torres Cultural, Dezembro 1988)




NOTA

Os livros aqui referidos encontram-se à venda na sede da Pró-Memória, na Azenha de A dos Cunhados.
Mais informações podem ser encontradas em www.promemoria.pt


Fotos(C)J Moedas Duarte