11.10.06

A MORTE DA ÁGUA







Perante estas imagens da foz do Cávado, em Esposende, fui à procura de um texto de Ruy Belo de que me lembrava. Encontrei-o muito perto d'aqueloutro que a Avelaneira Florida me oferecera há poucos dias num dos seus atentos comentários. Este texto pertence ao belíssimo livro de Ruy Belo, HOMEM DE PALAVRA(S).

Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a esposende ver desaguar o cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore genealógica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.

2 comentários:

avelaneiraflorida disse...

o jardim brilha nas águas
dos lagos pelo sol iluminadas
e o esplendor do céu só tem rival
nos claros cristais dos floridos tanques

e entre leões feitos de ouro puro,
que aí se mostram em natural talhe,
tal como na selva, vai correndo água.

e se a cascata exibe o fragor
parece serem eles a rugir,
mas se acaso vai correndo em fio
é como o suspiro dos amantes sós.

Ibn HÄRUM

J. Moedas Duarte disse...

Tens sempre o condão de me suroreender, Avelã...